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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Dicionário Gaudério: PILCHA

PILCHA - a elegância do gaúcho — quando a roupa é mais do que roupa, é identidade.

O que significa PILCHA?

Substantivo feminino. No universo gaúcho, pilcha é a indumentária tradicional — o conjunto de roupas e acessórios que compõem o traje do gaúcho e da prenda. Mas chamar a pilcha apenas de "roupa típica" é diminuir demais o que ela representa. A pilcha é identidade vestida. É a declaração de que quem a usa pertence a uma cultura, carrega uma história e respeita uma tradição.

Pilchar-se — o ato de vestir a pilcha — não é uma obrigação. É uma escolha. E quem faz essa escolha está dizendo, sem precisar de palavras: sou gaúcho, e tenho orgulho disso.

A origem da palavra

A palavra vem do espanhol platino pilcha — termo usado no Uruguai e na Argentina para designar objetos pessoais de pouco valor, trapos, bugigangas. No pampa gaúcho, a palavra chegou pela fronteira viva com o Prata e, como aconteceu com tantos outros termos, ganhou um significado completamente diferente — e muito mais nobre. O que era trapo virou traje. O que era descarte virou patrimônio.

A inversão de sentido é, ela mesma, uma metáfora da cultura gaúcha: pegar o que o mundo jogou fora e transformar em orgulho.

A pilcha do gaúcho — peça por peça

A indumentária gaúcha masculina tradicional é composta por:

Bombacha: a calça larga de tecido resistente, franzida nos tornozelos — símbolo máximo do traje gaúcho. Surgiu no século XIX como adaptação da calça árabe trazida pelos imigrantes do Oriente Médio que chegaram à América do Sul, e foi adotada pelos gaúchos pela praticidade no campo.

Camisa: geralmente de tecido leve, em cores sóbrias ou com bordados discretos.

Lenço: usado no pescoço, dobrado em triângulo. As cores têm significados que variam por região e CTG — vermelho, azul, branco, preto, cada um com sua simbologia.

Guaiaca ou cinto: a cinta de couro que guarda a faca e os pertences do gaúcho. A guaiaca é o cinto largo, trabalhado, frequentemente com enfeites de prata.

Faca e bainha: a faca gaúcha é ferramenta, não arma. A bainha trabalhada é parte da pilcha — objeto de arte e identidade.

Botas: de couro, com ou sem salto, com ou sem esporas. As esporas são usadas pelos campeiros e pelos que participam das atividades equestres.

Chapéu: de feltro, aba larga, cor preta ou marrom. O ângulo da aba varia conforme a região do estado.

Poncho ou pelego: para o frio. O poncho gaúcho é a peça mais versátil da pilcha — cobertor, capa de chuva, assento e travesseiro quando necessário.

A indumentária feminina — a prenda — tem sua própria riqueza: vestido rodado de chita ou renda, avental bordado, lenço de seda no cabelo, sapatilhas ou botinhas. Cada detalhe obedece ao regulamento do MTG e tem significado cultural próprio.

A pilcha e o MTG — quando a tradição vira norma

O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) regulamenta a indumentária gaúcha com precisão — cores, tecidos, comprimentos, acessórios permitidos. Há quem critique o excesso de normatização. Mas há um argumento forte do outro lado: sem padronização mínima, a pilcha se dilui, se comercializa, perde o que a torna especial.

O debate é saudável. E o que importa é que, regulamentada ou não, a pilcha continua sendo escolhida — por jovens, por adultos, por crianças. Porque a identidade gaúcha, quando bem apresentada, não precisa de obrigação para continuar viva.

Como se usa no dia a dia

Elogio: Que pilcha mais bonita! Esse lenço combinou perfeito com a bombacha.

Identidade: Nos festejos, a gente se pilcha do melhor — é respeito pela tradição.

Versatilidade: Pode ser pilcha completa ou só a bombacha e o lenço. Já é suficiente pra mostrar de onde és.

Orgulho: Meu pai me ensinou a me pilchar antes de me ensinar a montar a cavalo.

Pilcha na música nativista

A pilcha atravessa o cancioneiro gaúcho como símbolo de pertencimento. Das vaneras aos festivais nativistas, a indumentária aparece em letras que celebram o gaúcho que não tem vergonha de mostrar de onde vem — nem nas cidades grandes, nem no exterior.

O gaúcho pilchado em São Paulo, em Buenos Aires, em Lisboa — é sempre uma declaração. Uma âncora cultural que diz: de onde eu vim não é lugar que se abandona.

Palavras da mesma família

Pilchar-se: o verbo — o ato de vestir a pilcha. Já te pilchaste para o desfile?

Pilchado(a): quem está com a indumentária gaúcha. Chegou todo pilchado ao acampamento.

Despilchar: tirar a pilcha. Depois do desfile, despilchou e foi trabalhar.

Pilcharia: conjunto de pilchas, ou loja que as vende.

A tua pilcha tem história?

Conta nos comentários. Muitos gaúchos têm uma pilcha herdada — do pai, do avô, da avó. Uma bombacha guardada num baú, um lenço que viajou pelo mundo. Essas histórias merecem ser contadas.

E se conheces outra palavra gaúcha que merece entrar no Dicionário Gaudério, deixa a sugestão — este dicionário é construído junto.

📌 Palavras-chave: pilcha gaúcha, indumentária gaúcha, bombacha, lenço gaúcho, traje gaúcho, MTG, cultura gaúcha, tradição gaúcha, Semana Farroupilha, identidade gaúcha, Rio Grande do Sul

📂 Série: Dicionário Gaudério | Entrevero Xucro | entreveroxucro.blogspot.com

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sexta-feira, 1 de maio de 2026

1° de maio - Dia do Trabalhador

No pampa, o trabalho sempre foi mais do que obrigação — foi identidade.

O gaúcho que acorda antes do sol raiar, que tira o leite com as mãos ainda dormentes pelo frio da madrugada, que planta, que colhe, que pega no cabo da ferramenta sem reclamar do peso — esse é o verdadeiro sustentáculo desta terra.

Não importa se o trabalho é no campo ou na cidade, na lavoura ou na fábrica, na cozinha ou no escritório: todo suor honesto merece respeito.

O Rio Grande do Sul foi construído na fibra de quem não desistiu. Nas costas do peão, nas mãos calejadas do colono, na garra do operário, na dedicação silenciosa de tantos que nunca tiveram seu nome nos livros — mas que fizeram a história acontecer.

Hoje, o Entrevero Xucro tira o chapéu.

Ao trabalhador gaúcho: parabéns. Vocês são o coração deste Estado.

Que o chimarrão de hoje seja bem-mateado. Vocês merecem.

🤠 Entrevero Xucro — Cultura e tradição gaúcha desde as raízes

📌 entreveroxucro.blogspot.com



domingo, 12 de abril de 2026

Erva-mate Barão também entra no futebol

Barão, de Barão de Cotegipe, fecha parceria com o Grêmio — e o chimarrão entra em campo no futebol gaúcho

Recentemente o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense anunciou uma parceria com a Barão Erva-Mate e Chás — ervateira gaúcha fundada em 1951 na cidade de Barão de Cotegipe, no Alto Uruguai. Com o acordo, a marca passa a integrar o time de parceiros oficiais do clube tricolor, unindo dois símbolos do Rio Grande do Sul: o maior clube de futebol do estado e uma das marcas de erva-mate mais tradicionais do Brasil.

A parceria chega num momento especial para a indústria ervateira gaúcha — semanas depois de outra ervateira do RS, a Baldo de Encantado, anunciar que será a fornecedora oficial de erva-mate da Seleção Argentina para a Copa do Mundo de 2026. Dois anúncios, uma mesma mensagem: a erva-mate gaúcha está conquistando o mundo do esporte.

A história da Barão — 75 anos de chimarrão no RS

A Barão Comércio e Indústria de Erva-Mate nasceu em 1951, fundada por Etelvino Picolo na cidade que leva o nome do próprio produto — Barão de Cotegipe, no noroeste do Rio Grande do Sul, região do Alto Uruguai. O fundador veio de uma família ligada à terra e ao mate, e desde o início o compromisso foi claro: honrar a tradição gaúcha do chimarrão com qualidade e respeito à erva.

A primeira erva-mate produzida por Etelvino Picolo é referência até hoje dentro da empresa — um blend que se tornou o ponto de partida para toda uma linha de produtos que, ao longo de 75 anos, cresceu para incluir ervas-mate de diferentes perfis, tererés, chás e até cápsulas compatíveis com máquinas de café expresso.

Hoje, com sede na Rua Ilma Picolo, 368, no centro de Barão de Cotegipe, a empresa se define como a marca líder em erva-mate e chás no Brasil — e os números dão razão à afirmação. São décadas de presença nas gôndolas gaúchas, brasileiras e internacionais, com exportações que levam o mate do Alto Uruguai para outros continentes.

"Desde 1951, compartilhando histórias com você." — lema da Barão Erva-Mate

Barão de Cotegipe — a cidade que nasceu para o mate

Para entender a Barão, é preciso entender Barão de Cotegipe — um município de pouco mais de 9 mil habitantes encravado na região do Alto Uruguai, onde a erva-mate nativa sempre foi parte da paisagem, da economia e da identidade das famílias.

A região é um dos polos históricos de produção de erva-mate do Rio Grande do Sul — terra onde imigrantes italianos e seus descendentes aprenderam a trabalhar a erva com um cuidado que vem de gerações. É desse território que nasce a Cambona 4 — variedade de erva-mate nativa reconhecida pelo sabor suave e pela origem controlada, uma singularidade que a Barão incorporou à sua linha premium.

Quando Etelvino Picolo fundou a empresa em 1951, estava fazendo exatamente o que aquela terra sempre soube fazer: transformar a planta do pampa em cultura, em produto, em orgulho.

Tradição encontra tradição — erva-mate e futebol gaúcho

O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense foi fundado em 15 de setembro de 1903 — um clube que atravessou mais de um século sendo símbolo de Porto Alegre, do RS e do futebol brasileiro. Tricampeão da Libertadores, campeão mundial de clubes, Tríplice Coroa em 1996 — a história tricolor é longa e repleta de conquistas.

A parceria com a Barão não é apenas um patrocínio comercial. É o encontro de duas tradições gaúchas que carregam, cada uma à sua maneira, a identidade do estado. O futebol e o chimarrão são talvez os dois rituais mais universais entre os gaúchos — presentes tanto no galpão da estância quanto nas arquibancadas da Arena.

Em 2026, ano em que o Grêmio celebra os 30 anos da Tríplice Coroa de 1996, a chegada da Barão como parceira reforça o vínculo do clube com marcas genuinamente gaúchas, num momento em que o tricolor busca reconstruir sua base de patrocinadores após o encerramento de contratos anteriores.

"O chimarrão no vestiário não é novidade. A novidade é que agora tem nome — e esse nome é gaúcho."

O mate e o futebol — uma relação mais antiga do que parece

Para qualquer torcedor gaúcho, a cena é familiar: a cuia passando de mão em mão na fila antes do jogo, a garrafa térmica no meio da torcida na arquibancada, o chimarrão no aquecimento dos jogadores nos dias frios de inverno. O mate sempre esteve no futebol gaúcho — só que informal, sem logotipo, sem contrato.

A parceria Barão + Grêmio formaliza algo que já existia na cultura. E não é a primeira vez que o futebol gaúcho e a erva-mate se encontram oficialmente: lembras da polêmica na Copa do Qatar 2022, quando os argentinos foram fotografados com a erva Canarias nas malas — produto fabricado pela Baldo, de Encantado? E do anúncio, em março de 2026, de que a Baldo seria a fornecedora oficial da Seleção Argentina para a Copa do Mundo 2026?

O chimarrão está conquistando o futebol. E o futebol está reconhecendo o chimarrão. Para o Rio Grande do Sul, isso é apenas o que deveria ter acontecido faz tempo.

Leia também: A Erva-Mate Gaúcha vai à Copa do Mundo — a história da Baldo de Encantado e a parceria com a Seleção Argentina aqui no Entrevero Xucro.

Tu és gremista e/ou toma Barão?

Conta nos comentários. E se tens uma memória do chimarrão no futebol — na arquibancada, no aquecimento, no galpão do CTG antes de assistir o jogo — divide com a gente. Porque o mate e o futebol, no RS, sempre andaram juntos. Agora é oficial.

Acompanha o Entrevero Xucro para mais cultura, tradição e identidade gaúcha — toda semana no blog e nas redes sociais.

Imagem: Instagram Grêmio 

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sábado, 11 de abril de 2026

Semana Farroupilha 2026: história, significado e como participar — o guia completo para o gaúcho de coração

O que é a Semana Farroupilha?

Todo ano, entre os dias 14 e 20 de setembro, o Rio Grande do Sul para. Não por crise, não por tragédia — para por orgulho. A Semana Farroupilha é a maior celebração da cultura gaúcha, realizada em homenagem à Revolução Farroupilha, iniciada em 20 de setembro de 1835. É quando os CTGs acendem a Chama Crioula, os piquetes se enchem de gente pilchada, o churrasco perfuma os acampamentos e a música nativista soa do Chuí ao Arroio Grande.

Mas para entender por que essa semana importa tanto, é preciso entender o que aconteceu em 1835 — e o que continuou acontecendo nos dez anos seguintes.

A Revolução Farroupilha — a guerra que virou símbolo

Em 20 de setembro de 1835, estourou no Rio Grande do Sul a maior e mais longa revolução da história do Brasil. Os farrapos — como ficaram conhecidos os revoltosos, em referência às roupas surradas dos combatentes — se levantaram contra o governo imperial, insatisfeitos com a taxação excessiva do charque gaúcho, com a falta de autonomia política e com o que consideravam descaso do Rio de Janeiro com o sul do país.

A guerra durou dez anos — de 1835 a 1845 — e atravessou todo o RS, chegando a Santa Catarina e ao Uruguai. Nesse período, os farrapos chegaram a proclamar a República Rio-Grandense (com capital em Piratini) e a República Juliana (em Laguna, SC). Foram tempos de cavalaria, de batalhas campais, de heróis que viraram lenda: Bento Gonçalves, David Canabarro, Giuseppe Garibaldi — que aqui aprendeu a lutar antes de ir unificar a Itália.

A guerra terminou com a Paz de Poncho Verde, em 1845, numa negociação que integrou o RS de volta ao Império sem punições. Mas a memória não se rendeu junto. O 20 de setembro virou data sagrada — e o espírito farroupilha virou identidade.

"Ser farroupilha não é vestir bombacha uma vez por ano. É carregar na alma o que aqueles homens carregaram nas costas."

A Semana Farroupilha — como surgiu a celebração

O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), fundado em 1947, foi o grande responsável por transformar a memória farroupilha em celebração organizada. Ao longo das décadas, os CTGs — Centros de Tradições Gaúchas, espalhados pelo Brasil e pelo mundo — passaram a realizar anualmente os Festejos Farroupilhas, culminando no 20 de setembro com desfiles, apresentações de danças, música nativista, culinária típica e o ritual da Chama Crioula.

Hoje são mais de 1.700 CTGs no RS e cerca de 2.500 piquetes ativos durante os festejos. O Acampamento Farroupilha de Porto Alegre, realizado no Parque Harmonia, é o maior evento do calendário — com semanas de programação, shows, rodeios e uma cidade paralela que cresce na beira do Guaíba.

2026: o tema e a patrona

A Semana Farroupilha de 2026 tem um tema que une dois marcos históricos em um só ano:

"Herança Jesuítica e Guarani no Rio Grande do Sul: 400 anos de cultura e tradição"

O tema celebra os 400 Anos das Missões Jesuítico-Guaranis — o mesmo que moveu o Canto Missioneiro em Santo Ângelo em março, que iluminou a homenagem a Cenair Maicá, que dá cor a tantos eventos do ano. Em 2026, o RS olha para suas raízes mais profundas — antes do gaúcho da campanha, antes da imigração europeia — e reconhece o guarani como parte fundamental da identidade do estado.

A patrona escolhida é Marianita Ortaça — psicóloga, professora universitária, cantora e embaixadora dos 400 Anos das Missões. Filha do compositor Pedro Ortaça, um dos Quatro Troncos Missioneiros, ela representa exatamente essa ponte entre o tradicionalismo gaúcho e as raízes indígenas que o antecederam.

"Marianita representa a história viva guarani, a história dos povos originários e a história tradicionalista." — Denise Gress, presidente da Comissão Organizadora dos Festejos Farroupilhas 2026

O que acontece durante a Semana Farroupilha

Os Festejos Farroupilhas são muito mais do que uma semana — são um universo de rituais e atividades que começam antes e terminam depois do 20 de setembro. Veja os principais momentos:

A Centelha Crioula

Tudo começa com a Centelha — a chama simbólica acesa em Caxias do Sul e distribuída para os CTGs de todo o RS por grupos de cavaleiros. É um ritual de origem e pertencimento: a mesma chama que aquece o fogão de cada entidade vem da mesma fonte.

Os Piquetes e Acampamentos

Cada CTG monta seu piquete — um espaço coberto, decorado com bandeiras, pelegos e artesanato gaúcho — onde os associados se reúnem durante os dias dos festejos. No Acampamento Farroupilha de Porto Alegre, centenas de piquetes ocupam o Parque Harmonia do início de setembro até o dia 20.

As Cavalgadas

Grupos de cavaleiros percorrem quilômetros a cavalo carregando a Chama Crioula pelos municípios do estado — um dos rituais mais visuais e emocionantes dos festejos.

Os Desfiles

No dia 20 de setembro, cidades por todo o RS realizam desfiles com invernadas artísticas, cavaleiros e cavaleiras pilchados, bandas de música e carros alegóricos. O desfile de Porto Alegre é o maior do estado.

A Música Nativista

Shows de artistas gaúchos animam os acampamentos durante toda a semana — de grupos tradicionalistas a nomes consagrados do nativismo.

A Culinária

Churrasco, arroz de carreteiro, entrevero, pinhão assado, chimarrão. A gastronomia gaúcha é personagem central dos festejos — e cada piquete tem seu orgulho na hora de apresentar a mesa.

Como participar

Não precisa ser sócio de CTG para viver a Semana Farroupilha. Há espaço para todo mundo — e quanto mais gente, mais rica fica a celebração. Veja como entrar na festa:

Visite o Acampamento Farroupilha de Porto Alegre

O Parque Harmonia é aberto ao público durante os festejos. A entrada é gratuita em boa parte dos dias. É só chegar, caminhar entre os piquetes, tomar um chimarrão oferecido e deixar a cultura te envolver.

Procure o CTG ou piquete da tua cidade

Todo município do RS tem pelo menos um CTG ou entidade tradicionalista que realiza seus próprios festejos. Entra em contato, visita, participa. A porta está sempre aberta.

Pilche-se

Nada obrigatório — mas vestir a pilcha (a indumentária gaúcha tradicional) durante os festejos é uma forma bonita de participar. Homens: bombacha, camisa, lenço, chapéu e botas. Mulheres: vestido de prenda ou saia campeira. Crianças: versão mirim de tudo isso.

Participa das atividades culturais

Apresentações de danças, concursos de poesia, palestras sobre história gaúcha, exposições — os festejos são também um grande festival cultural. Consulta a programação do teu município.

Levar as crianças

A Semana Farroupilha é uma das melhores oportunidades para apresentar a cultura gaúcha às novas gerações. A experiência de ver cavalos, ouvir música ao vivo e participar dos rituais fica gravada na memória para sempre.

"A Semana Farroupilha não é um museu da tradição. É a tradição viva — se transformando, crescendo, incluindo gente nova todo ano."

Principais eventos em 2026

Os Festejos Farroupilhas 2026 acontecem de 14 a 20 de setembro. Os principais eventos a acompanhar:

Acampamento Farroupilha de Porto Alegre — Parque Harmonia, Porto Alegre (a partir de 1º de setembro)

Desfile do 20 de setembro — em Porto Alegre e em centenas de municípios gaúchos

Semanas Farroupilhas municipais — cada cidade tem sua própria programação, que pode começar antes e terminar depois do 20

Festivais nativistas de setembro — vários festivais de música se integram à programação dos festejos

As programações detalhadas são divulgadas pelos CTGs e prefeituras municipais a partir de agosto. Acompanha o @entreveroxucro para não perder nenhuma novidade.

Vai participar da Semana Farroupilha este ano?

Conta nos comentários de qual cidade és e como costumas celebrar o 20 de setembro. E se é a primeira vez que vai participar dos festejos, conta isso também — adoramos saber quando alguém descobre essa tradição pela primeira vez.

Acompanha o Entrevero Xucro — toda semana, história, cultura e identidade gaúcha do jeito que o pampa merece.

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terça-feira, 7 de abril de 2026

Sepé Tiaraju

 Sepé Tiaraju

O Herói Guarani Missioneiro — o homem que disse "Esta terra tem dono!" e pagou com a vida

Ficha Histórica:

Nome completo: Sepé Tiaraju (nome guarani: Sepé = São Sepé; Tiaraju = o que vai à frente)

Nascimento: Por volta de 1723 — região de Rio Pardo, Rio Grande do Sul

Povo: Guarani — Redução de São Miguel Arcanjo, Sete Povos das Missões

Cargo: Corregedor do povo de São Miguel Arcanjo

Morte: 7 de fevereiro de 1756 — proximidades de São Gabriel, RS

Causa da morte: Morto em combate contra tropas luso-espanholas na Guerra Guaranítica

Frase histórica: "Esta terra tem dono!"

Reconhecimentos: Herói Guarani Missioneiro Rio-grandense (ALRS, 2005); Herói Nacional Brasileiro (2009)

Ano das Missões: 2026 marca os 400 Anos das Missões Jesuítico-Guaranis no RS

Uma criança guarani nas Missões

Por volta de 1723, nasceu na região de Rio Pardo — no que hoje é o Rio Grande do Sul — o menino guarani que a história chamaria de Sepé Tiaraju. O nome já carrega sentido: em guarani, Sepé é uma referência ao santo São Sepé, e Tiaraju significa aquele que vai à frente. Uma vida inteira estava anunciada num nome.

Cresceu provavelmente em uma das Reduções Jesuíticas — os aldeamentos organizados pela Companhia de Jesus que, a partir do século XVII, reuniram os povos guaranis em comunidades estruturadas nas margens do Rio Uruguai e seus afluentes. Nessas reduções, os guaranis aprendiam agricultura, pecuária, música, artesanato e disciplina militar. Mas não perdiam o que era seu: a língua, a organização social, a espiritualidade que vinha de muito antes dos jesuítas chegarem.

Os Sete Povos das Missões — São Borja, São Luiz Gonzaga, São Miguel Arcanjo, São Nicolau, São Lourenço Mártir, São João Batista e Santo Ângelo — eram comunidades prósperas, com igrejas de pedra, oficinas, arquivos e uma vida cultural rica. Era esse mundo que Sepé herdou. E era esse mundo que ele defenderia até o último dia.

"Esta terra tem dono!" — Sepé Tiaraju, ao recusar a entrega das Missões aos portugueses

1750: o Tratado de Madri e a traição

Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madri — um acordo entre impérios que redesenhava o mapa da América do Sul com uma caneta molhada em sangue guarani. Pelo tratado, a Espanha cedia a Portugal uma enorme faixa de território, incluindo os Sete Povos das Missões. Em troca, Portugal entregava a Colônia do Sacramento, no atual Uruguai.

Para os guaranis, o acordo significava uma coisa simples e devastadora: abandono. Teriam que deixar as terras onde seus pais, avós e bisavós tinham construído, plantado e rezado. Teriam que caminhar para um lugar desconhecido, como se décadas de vida não valelessem nada diante de uma assinatura em Lisboa.

Sepé Tiaraju, então corregedor — uma espécie de líder administrativo e judicial — do povo de São Miguel Arcanjo, respondeu com a clareza de quem não tem nada a perder e tudo a defender:

Esta terra tem dono!

A frase não foi apenas um grito de guerra. Foi uma declaração de soberania — talvez a primeira declaração formal de que os povos originários do Brasil eram donos legítimos de suas terras, muito antes de qualquer lei colonial reconhecer isso.

A Guerra Guaranítica — resistência de quem não tem para onde ir

Entre 1753 e 1756, os guaranis das Missões enfrentaram militarmente as tropas combinadas de Portugal e Espanha — os dois maiores impérios coloniais do mundo. Era um exercício de resistência que a razão dizia impossível e a dignidade dizia necessário.

Sepé era o líder militar dessa resistência. Com um exército de indígenas armados principalmente de lanças, arcos e algumas espingardas capturadas, enfrentou durante anos tropas profissionais equipadas com artilharia. Não ganhou as batalhas — mas ganhou algo maior: a memória.

Ao longo da guerra, Sepé se tornou uma lenda viva. Era temido pelos inimigos e reverenciado pelos seus. Diziam que tinha proteção divina — que as balas não o atingiam. Que aparecia e desaparecia como o vento do pampa. Que sua voz era capaz de mover exércitos e parar tropas no meio do caminho.

7 de fevereiro de 1756 — o fim e o começo

Em 7 de fevereiro de 1756, nas proximidades de São Gabriel, Sepé Tiaraju foi morto em combate. Tinha aproximadamente 33 anos. Dias depois, em 10 de fevereiro, aconteceu a Batalha de Caiboaté — o confronto mais sangrento da Guerra Guaranítica, onde cerca de 1.500 indígenas perderam a vida num único dia.

A versão mais aceita pelos historiadores é que Sepé foi capturado ferido e executado por soldados portugueses e espanhóis. Não morreu como herói num campo de batalha glorioso — morreu como tantos líderes indígenas morrem: traído, ferido e abandonado pelos tratados que os impérios assinavam sem olhar para as pessoas que viviam naquelas terras.

Mas o corpo caiu. A causa, não.

"Sepé Tiaraju não morreu em Caiboaté. Morreu antes — mas nunca deixou de viver." — memória missioneira

2026: 400 Anos das Missões — Sepé mais vivo do que nunca

Em 2026, o Rio Grande do Sul e o mundo celebram os 400 Anos das Missões Jesuítico-Guaranis — e Sepé Tiaraju está no centro dessas celebrações. O 17º Canto Missioneiro de Santo Ângelo, realizado em março deste ano, prestou homenagem à identidade missioneira que Sepé ajudou a forjar.

A Assembleia Legislativa do RS o reconheceu em 2005 como Herói Guarani Missioneiro Rio-grandense. Em 2009, o Congresso Nacional o declarou Herói Nacional Brasileiro. Seu nome batiza municípios, rodovias, escolas, CTGs e festivais por todo o estado. A cidade de São Sepé, no RS, carrega seu nome até hoje.

Sepé na música e na poesia gaúcha

A figura de Sepé Tiaraju permeou a música nativista gaúcha como poucos personagens históricos. Cenair Maicá — um dos Quatro Troncos Missioneiros —, Pedro Ortaça e outros artistas missioneiros revisitaram a memória de Sepé em canções que exaltam a resistência guarani e a identidade das Missões.

Não é coincidência: a música missioneira nasceu exatamente do mesmo impulso que levou Sepé à resistência — a recusa em deixar que uma cultura fosse apagada por forças externas. O nativismo missioneiro é, em sua essência, a continuação pacífica da Guerra Guaranítica: a luta pela identidade travada agora com palavras e melodias em vez de armas.

O legado — uma frase que ainda ecoa

"Esta terra tem dono!" é hoje muito mais do que uma frase histórica. É um grito que ressoa em cada movimento de luta pela terra no Brasil, em cada quilombola, em cada indígena, em cada pequeno agricultor que recusa abandonar o chão onde nasceu. Sepé não pertence apenas aos guaranis ou aos gaúchos — pertence a todos que já precisaram defender o que era seu.

Para o Rio Grande do Sul, Sepé Tiaraju é mais do que um herói histórico. É a prova de que a identidade gaúcha — essa mistura xucra de culturas que o Entrevero Xucro celebra todo dia — tem raízes muito mais antigas e profundas do que a chegada dos europeus. O pampa já tinha dono. A terra já cantava. O mate já circulava. E alguém, em 1756, teve a coragem de dizer isso em voz alta.

"Esta terra tem dono." — três palavras que mudaram a história do Rio Grande do Sul.

Conhecias a história completa de Sepé Tiaraju?

Deixa nos comentários. E se viveres na região das Missões — ou tiveres uma história familiar ligada aos Sete Povos —, conta pra nós. Essa memória é coletiva e merece ser mantida viva por quem a herdou.

Acompanha o Entrevero Xucro para mais história, cultura e identidade gaúcha — toda semana, no blog e nas redes sociais.

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quarta-feira, 1 de abril de 2026

Dicionário Gaudério - Galpão

GALPÃO - O coração da estância gaúcha, onde a vida acontece de verdade. Mas, afinal tu sabes o que significa GALPÃO?

Substantivo masculino. No universo gaúcho, o galpão é muito mais do que uma construção. É o espaço coberto, geralmente de madeira ou alvenaria, erguido no coração da estância — onde o peão descansa, onde o chimarrão circula, onde o fogo de chão é aceso, onde as histórias são contadas e onde a vida campeira se organiza entre uma lida e outra.

O galpão é o lar do gaúcho de campo. Não o lar da família — esse é a casa. O galpão é o lar da lida, o espaço onde o homem do campo é mais ele mesmo: de bombacha, de faca na cinta, de cuia na mão, sem cerimônia e sem pressa.

"No galpão não tem protocolo. Tem fumaça, tem mate, tem prosa — e tem verdade."

A origem da palavra

A palavra galpão tem origem no espanhol platino galpón, que por sua vez deriva do quíchua galpuni — palavra que os povos andinos usavam para designar um abrigo grande ou um depósito. Chegou ao Rio Grande do Sul pela fronteira com o Uruguai e a Argentina, e se fixou no vocabulário gaúcho com um significado que vai muito além de depósito: virou sinônimo de lar, de identidade, de cultura.

A palavra chegou ao Brasil colonial pela mesma via que tantos outros termos platinos — cavalos, gado, fronteira e convivência. E aqui, como em tantos outros casos, ganhou uma dimensão cultural que o original nunca teve.

O galpão na estância — cada coisa no seu lugar

Na estância gaúcha tradicional, o galpão tem uma organização quase sagrada. Cada canto cumpre uma função — e qualquer peão experiente sabe que mexer nessa organização sem avisar é falta de consideração:

O fogo de chão: no centro ou num canto do galpão, é onde o assado é feito, onde a água do chimarrão é aquecida, onde o frio do inverno gaúcho encontra seu antídoto.

As pelagens e arreios: pendurados nas paredes ou nas vigas — sela, lombilho, cabresto, retranca, esporas. A ferramenta do ofício, tratada com o mesmo cuidado que um músico trata o instrumento.

As tarimbas: as camas dos peões — simples, de madeira ou couro, mas com o pelego que cada um cuida como tesouro. É onde o corpo descansa depois da lida.

A cuia e a bomba: nunca faltam. O chimarrão no galpão não é opcional — é parte do ritual de início e fim de qualquer atividade.

O canto das histórias: não tem placa, não tem cadeira marcada — mas todo galpão tem um canto onde os mais velhos sentam, e onde as histórias são contadas para os mais novos. É onde a tradição oral se perpetua.

"O galpão não é só abrigo. É onde o gaúcho aprende a ser gaúcho."

O galpão como espaço social — onde a cultura gaúcha vive

Nenhum CTG, nenhum festival nativista, nenhuma festa de peão existe sem um galpão — real ou simbólico. A palavra virou metáfora da própria cultura gaúcha: quando se diz que alguém é gente de galpão, está se dizendo que é pessoa autêntica, sem frescura, de confiança.

No galpão, as diferenças sociais se dissolvem. Patrão e peão tomam mate da mesma cuia, comem do mesmo assado, escutam a mesma história. Não é democracia no sentido político — é igualdade no sentido humano, construída pelo fogo compartilhado e pelo mate que passa de mão em mão.

Os grandes festivais nativistas do RS carregam o galpão no nome e no espírito: o Cheiro de Galpão dos Monarcas, o Galpão Crioulo da RBS TV, os CTGs espalhados pelo Brasil inteiro como guardiões desse espaço. Onde houver um grupo de gaúchos reunidos em torno de um fogo e um chimarrão, há um galpão — mesmo que seja uma churrasqueira no pátio de um apartamento em São Paulo.

Como se usa no dia a dia

O galpão aparece em diferentes contextos — sempre com aquela carga de autenticidade e pertencimento:

No campo: Depois da lida, todo mundo se reúne no galpão pra tomar um mate e botar a conversa em dia.

Como elogio: Ele é gente de galpão — pode confiar, é da nossa.

Como saudade: Tenho saudade do galpão do meu avô — aquele cheiro de fumaça e couro curtido não tem igual.

Como identidade: Nossa família sempre se reuniu no galpão — é ali que a gente é a gente.

O galpão na música e na poesia gaúcha

Poucos espaços aparecem tanto na música nativista quanto o galpão. De Jayme Caetano Braun a Os Monarcas, de Gildo de Freitas ao CTG Galpão Crioulo — a palavra permeia o cancioneiro gaúcho como um fio que conecta gerações.

Os Monarcas lançaram em 1991 o CD Cheiro de Galpão — que rendeu o primeiro Disco de Ouro do grupo. O título não foi escolhido por acaso: nenhuma expressão captura melhor o que aquela música representa. Cheiro de galpão é cheiro de fumaça, de couro, de terra molhada, de erva-mate, de suor de trabalho honesto. É o cheiro da cultura gaúcha em seu estado mais puro.

"Cheiro de galpão não se descreve — se reconhece. E quem reconhece, nunca esquece."

Palavras da mesma família

Galpãozinho: o diminutivo carinhoso — o galpão menor, da família, do sítio, onde o churrasco de domingo é feito.

Gente de galpão: expressão que designa pessoa autêntica, de palavra, sem frescura. Um dos maiores elogios que um gaúcho pode receber.

Galpão crioulo: espaço cultural dentro dos CTGs onde se realizam atividades artísticas, danças e apresentações — o galpão como palco da tradição.

O teu galpão tem história?

Todo gaúcho tem um galpão na memória — seja o da estância do avô, o do CTG da infância, ou aquele galpão improvisado no fundo do quintal onde a família se reunia aos domingos. Conta nos comentários a história do teu galpão.

E se quiseres conhecer mais palavras do falar gaúcho, acompanha o Dicionário Gaudério aqui no Entrevero Xucro — toda semana uma palavra nova, com origem, história e como se usa no dia a dia.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Biografia Gaúcha - Gildo de Freitas

Considerado o Rei dos Trovadores, Gildo de Freitas é o homem que fez o Rio Grande todo cantar de improviso

O guri do Passo d'Areia que aprendeu gaita escondido

Leovegildo José de Freitas nasceu em 19 de junho de 1919, no bairro Passo d'Areia, em Porto Alegre. Muita gente ainda confunde e diz que Gildo era de Alegrete — mas não. Ele nasceu na capital gaúcha e mais tarde recebeu o título de Cidadão Alegretense, cidade onde passou longos períodos e pela qual nutria profundo carinho.

Filho de Vergílio José de Freitas e Georgina de Freitas, Gildo teve quatro irmãos — Juvenal, Alfredo, João e Manuel — e quatro irmãs. Frequentou a escola por apenas seis meses, tendo a professora Dona Paulina como única mestra formal. O restante da educação veio da rua, da vida e das rodas de trova.

A gaita entrou na vida de Gildo pelos fundos — literalmente. Era o instrumento do irmão Alfredo, tocado às escondidas em casa enquanto o dono não estava. Vendo amigos do pai tocarem nas canchas de carreiramento onde ia cuidar de cavalos, aprendeu de ouvido e de olho, sem professor, sem método. Quando comprou a sua própria gaita de oito baixos, já tinha vinte anos — e já era quase imbatível nos versos.

"De longe, Gildo era o mais esperto." — relato de quem conheceu a família Freitas

A vida brava: fugas, prisões e a trova como salvação

A vida de Gildo de Freitas não foi fácil — e ele nunca fingiu que foi. Aos 12 anos fugiu de casa pela primeira vez. Aos 18 já animava bailes pela região metropolitana de Porto Alegre, quando não estava em confusão com a polícia. Em 1937, considerado desertor por não se apresentar à convocação militar, se envolveu numa briga séria onde um amigo perdeu a vida — e passou a nutrir um ódio profundo pelas autoridades que o perseguiam.

Em 1941, o casamento com Dona Carminha trouxe alguma estabilidade. Passaram a morar no bairro de Niterói, em Canoas, na Grande Porto Alegre. Mas os contratempos com a polícia continuaram, e Gildo seguia viajando, trovando, desaparecendo e reaparecendo.

Em 1949, já famoso em todo o Rio Grande do Sul, desapareceu de casa e chegou a ser dado como morto na capital. Reapareceu meses depois na fronteira gaúcha — em Alegrete, com problema de paralisia nas pernas, mal conseguindo caminhar, mas com a garganta e a mente em plena forma. Numa comemoração de eleição em Alegrete, foi carregado numa cadeira para se apresentar porque as pernas não sustentavam — mas os versos saíram perfeitos.

1950: Getúlio Vargas e o fim das perseguições

Em 1950, em São Borja, Gildo conheceu Getúlio Vargas e entrou em sua campanha política. O encontro com o presidente mudou o rumo da vida do trovador: as perseguições policiais cessaram. Gildo fez sua primeira viagem ao Rio de Janeiro e começou a sentir o gosto de um Brasil maior do que o Rio Grande.

Entre 1953 e 1954, conquistou fama definitiva como trovador nos programas de rádio ao vivo em Porto Alegre, voltando a morar com a família no Passo d'Areia. Era o começo da lenda.

1955: o encontro com Teixeirinha — parceria, rivalidade e amizade

Em 1955, Gildo de Freitas conheceu Vitor Mateus Teixeira — o Teixeirinha. O encontro entre os dois maiores nomes da música gauchesca foi imediato em identificação. Juntos, passaram a viajar pelo estado, enchendo galpões e praças com uma combinação irresistível: Teixeirinha no violão e Gildo na gaita, dois trovadores capazes de ficar horas no palco sem repetir um verso.

Entre 1956 e 1960, Gildo se tornou a maior atração do programa de rádio Grande Rodeio Coringa, que ia ao ar aos domingos à noite — o programa de entretenimento mais popular do estado. As viagens com Teixeirinha se multiplicavam, e a dupla era tratada como realeza onde quer que chegasse.

A parceria formal terminou em 1959 — mas os dois continuaram se encontrando, cantando juntos e, a partir de 1965, travando a famosa disputa pelos discos: músicas que provocavam, respostas que arrancavam gargalhadas, um duelo de versos que o público adorava e que ambos usavam como ferramenta de marketing . Nos bastidores, a relação era de admiração e amizade genuínas. Como o apresentador Nico Fagundes costumava dizer: nesses desafios, os dois poderiam ficar horas trovando e mesmo assim não se teria um vencedor.

"A rivalidade foi feita em brincadeira — a amizade era de verdade." — memória dos que conviveram com os dois

1963: os discos, o sucesso nacional e a saúde que insistia em falhar

Com o declínio dos programas de rádio ao vivo e a chegada da televisão, Gildo tomou uma decisão surpreendente em 1961: largou a cantoria e foi criar porcos. Mas o destino tinha outros planos. Em 1963, o Teixeirinha gravou uma música de autoria de Gildo — e o nome do trovador voltou à mídia. Em 1963, Gildo viajou a São Paulo para gravar o primeiro disco.

A partir de 1965, o sucesso explodiu no Rio Grande do Sul. Na década de 1970, Gildo já fazia apresentações em todos os estados brasileiros — levando a cultura gaúcha para plateias que nunca tinham visto um trovador de verdade. Em meados de 1964, foi convocado a prestar depoimento sobre suas ligações com o trabalhismo — episódio delicado, num Brasil que vivia sob a ditadura militar.

Em 1977 e 1978, inaugurou em Viamão a Churrascaria Gildo de Freitas, onde também promovia bailões e o famoso Rodeio Gildo de Freitas — onde os peões tinham que provar que eram bons para ficar em cima dos cavalos mais velhacos, como o próprio Gildo exigia.

A saúde, porém, sempre foi um capítulo à parte. Problemas nas pernas e nos pulmões o hospitalizavam com frequência ao longo de toda a carreira. Nos anos 70, as internações se multiplicaram. No disco de 1979, já andava muito doente — por isso trocou a gaita pesada pelo violão mais leve. Mas a voz seguia firme.

Novembro de 1982: a última apresentação — e 4 de dezembro

Em novembro de 1982, Antonio Augusto Fagundes e Ivan Trilha levaram Gildo aos estúdios da RBS TV para uma última aparição pública no Galpão Crioulo. Além do apresentador Nico Fagundes, estavam no palco as gauchinhas missioneiras e Os Serranos. Gildo cantou com a saúde já muito debilitada — mas cantou com o coração na voz, dando o máximo de si em respeito à arte e ao público.

Em 4 de dezembro de 1982, Leovegildo José de Freitas morreu em Porto Alegre, aos 63 anos. O Rei dos Trovadores se foi — mas deixou uma coincidência que parece tirada de uma de suas próprias canções: exatamente três anos depois, em 4 de dezembro de 1985, morreu Teixeirinha. O mesmo dia. A mesma data. Como se o destino quisesse que os dois chegassem juntos à eternidade, assim como tinham chegado juntos aos palcos.

Em homenagem aos dois, a Lei Estadual 8.814/89 instituiu o dia 4 de dezembro como Dia Estadual do Artista Regionalista e Poeta Repentista Gaúcho no Rio Grande do Sul.

"Em novembro cantou pela última vez. Em dezembro, o Rio Grande ficou mais silencioso."

Discografia

Gildo de Freitas gravou 17 LPs entre 1964 e 1982, todos pela Continental e pela Chantecler/Sertanejo — uma das discografias mais extensas da música gauchesca.

1964 - Gildo de Freitas — O Trovador dos Pampas. 1º LP. Clássicos: Acordeona, Baile do Chico Torto, História dos Passarinhos.

1965 - O Trovador dos Pampas — Vida de Camponês. 2º LP. Primeira provocação a Teixeirinha: Baile de Respeito.

1966 - Desafio do Padre e o Trovador. 3º LP. Com o Padre Rubens Pillar. Inclui Definição do Grito.

1968 Gildo de Freitas e Sua Caravana 4º LP. Continua as provocações a Teixeirinha.

1969 De Estância em Estância 5º LP. Inclui Resposta da Milonga, provocação a Milonga da Fronteira.

1970 Gildo de Freitas e Zezinho e Julieta 6º LP. Parceria com dupla caipira.

1970 Rei do Improviso 7º LP. Um dos mais conhecidos. Consolida o título.

1972 Desafio do Paulista e o Gaúcho 8º LP. Desafio interestadual com trovador paulista.

1975 Gildo de Freitas e Seus Convidados 9º LP. Participações especiais.

1975 O Ídolo 10º LP. Coletânea de grandes sucessos.

1976 Gauchada de Sul a Norte 11º LP. Registra a abrangência nacional do artista.

1979 Eu Não Sou Convencido 12º LP. Já no violão — saúde debilitada impede a gaita pesada.

1980 Mais Sucessos 13º LP. Lançado pela Chantecler/Sertanejo.

1981 O Rei dos Trovadores 14º LP. Penúltimo disco em vida. Última provocação ainda acesa.

1982 Figueira Amiga 15º LP. Último disco em vida. Gravado pela Continental. Última aparição nos estúdios.

1984 Lembrando Gildo de Freitas Coletânea póstuma. Lançada dois anos após a morte.

s/d 20 Anos de Glória Compilação comemorativa lançada postumamente.

Principais canções

Prazer de Gaúcho

Velho Casarão

Eu Reconheço que Sou Grosso

Acordeona

História dos Passarinhos

Baile do Chico Torto

Figueira Amiga

Baile de Respeito

Definição do Grito

Resposta da Milonga

Brasil de Bombachas

Gaúchos do Litoral

O legado do Rei — uma trova que o tempo não apaga

Gildo de Freitas construiu sua fama a partir da trova — uma das manifestações folclóricas mais antigas do Rio Grande do Sul. E ao fazê-lo, criou um estilo próprio, consagrado na tradicional afinação Mi Maior de Gavetão, em versos de sextilhas, que até hoje é referência para trovadores de todo o estado.

Sem exagero, pode-se dizer que grande parte da atual música gauchesca tem um pouco — ou muito — de Gildo de Freitas. Sua influência se estende por gerações de compositores, intérpretes e grupos que aprenderam com ele que a trova não é apenas entretenimento: é memória viva de um povo.

O CTG Gildo de Freitas, em Porto Alegre, leva seu nome. O Parque Arroz com Leite, em Viamão, onde a família realizou as comemorações do centenário em 2019, é um dos pontos de encontro dos fãs. E toda vez que um trovador gaúcho improvisa um verso em cima de um palco, Leovegildo está lá — invisível, mas presente, sorrindo daquele jeito irreverente que era só dele.

"Ele fazia verso sobre tudo que vinha em sua mente — e o que vinha era sempre ouro." — memória de quem o viu trovar

Qual é a tua música favorita do Rei dos Trovadores?

Deixa nos comentários — e se tens uma história, uma memória ou uma anedota do Gildo de Freitas, conta para nós. A trova é feita para ser compartilhada. Assim como ele fazia, de palco em palco, de bolicho em bolicho, de fronteira em fronteira.

Também publicamos aqui no Entrevero Xucro o post Teixeirinha e Gildo de Freitas: Uma Amizade que Atravessou a Lenda da Rivalidade — que conta a história dos dois juntos, incluindo a coincidência do 4 de dezembro.

Confira abaixo as vendas Amazon de material do Gildo de Freitas:





sábado, 21 de março de 2026

Gestão Crioula - Por que o estatuto do teu CTG pode estar te prejudicando sem tu saber

Puxa o mate e vem comigo nessa charla.

Tu chegas no galpão, a invernada está ensaiando, o cheiro de churrasco já tomou conta do ar, o salão está cheio de gente boa. O CTG está vivo. Está de pé. Está cumprindo seu papel.

Mas lá na gaveta — ou numa pasta empoeirada no armário da secretaria — tem um documento que ninguém abre há anos. Um documento que pode estar, silenciosamente, colocando tudo isso em risco.

O estatuto social do teu CTG.

O que é o estatuto e por que ele importa tanto?

O estatuto é a lei interna do CTG. É ele que define quem manda, como se decide, quem pode ser sócio, como se faz uma eleição, o que acontece com o patrimônio se a entidade fechar.

Sem um estatuto atualizado e bem feito, o CTG fica vulnerável. Não de um jeito visível, como uma goteira no telhado. De um jeito silencioso — que só aparece quando a crise já chegou.

E aí já é tarde.

Os sinais de que o estatuto do teu CTG está desatualizado

Responde com honestidade: Quando foi a última vez que o estatuto foi atualizado e registrado em cartório?

Se a resposta for "mais de 5 anos atrás" — ou pior, "não sei" — é quase certo que tem coisa errada ali.

Veja os problemas mais comuns que encontro nos CTGs da nossa região:

1. O Patrão não tem prazo de mandato definido

É mais comum do que parece. O estatuto diz algo vago como "o Patrão exercerá o cargo enquanto contar com a confiança da assembleia" — sem prazo fixo, sem regra clara de renovação.

O resultado? O CTG vira refém de uma pessoa. Quando ela vai embora — por doença, desentendimento ou cansaço — ninguém sabe como assumir. A entidade trava.

2. O Conselho Fiscal não existe ou não tem função definida

O Conselho Fiscal é o órgão que fiscaliza as finanças do CTG de forma independente da diretoria. É obrigatório por lei para associações.

Mas em muitos estatutos, ele aparece apenas no papel — sem composição definida, sem prazo de reunião, sem obrigação de emitir parecer. Na prática, não existe.

Isso significa que ninguém fiscaliza as contas de forma independente. Qualquer desvio, intencional ou não, pode passar despercebido por anos.

3. As regras de assembleia não cabem mais na realidade

Estatutos antigos exigem convocação por edital no jornal local, reunião presencial com quórum de dois terços dos sócios, votação apenas por voto físico. Tenta reunir dois terços dos sócios de um CTG grande numa quinta-feira à noite. Boa sorte.

O resultado prático: assembleias que não atingem quórum, decisões tomadas informalmente, aprovações que não têm validade jurídica.

4. Nenhuma menção à LGPD

A Lei Geral de Proteção de Dados existe desde 2020. Todo CTG que coleta nome, CPF, endereço e dados de sócios está obrigado a cumpri-la.

Um estatuto de 2012 obviamente não menciona isso. E aí o CTG opera em irregularidade sem saber — com risco de multa e de processos por parte de sócios.

5. A cláusula de dissolução está errada ou ausente

A lei exige que o estatuto defina o que acontece com o patrimônio do CTG em caso de dissolução. Muitos estatutos antigos não têm isso — ou têm de forma incorreta.

Isso pode inviabilizar o registro de alterações no cartório, bloquear financiamentos e até impedir que o CTG participe de editais públicos.

"Mas o nosso CTG funciona bem assim há anos..."

Eu sei. E é exatamente por isso que o problema é traiçoeiro.

O estatuto ruim não atrapalha o dia a dia. O churrasco acontece, os ensaios seguem, os eventos lotam. A vida do CTG continua.

Ele atrapalha nos momentos de crise:

Quando dois grupos disputam a direção e não há regra clara de desempate

Quando um Patrão morre ou adoece e ninguém sabe legalmente quem assume

Quando alguém questiona uma decisão financeira e não há registro formal de aprovação

Quando o CTG tenta abrir conta bancária nova e o banco exige documentos atualizados

Quando chega uma oportunidade de financiamento e a entidade está irregular

Nessas horas, o estatuto empoeirado vira um problema enorme — e às vezes irreversível.

Por onde começar

A boa notícia é que atualizar o estatuto não precisa ser um bicho de sete cabeças. Com o apoio certo, dá pra fazer em dois a três meses, de forma participativa, sem traumatizar a diretoria.

O caminho básico é:

1. Localizar o estatuto atual e verificar a data do último registro em cartório

2. Comparar com a legislação vigente — especialmente o Código Civil (artigos 53 a 61) e as resoluções da MTG

3. Identificar os pontos que precisam de atualização

4. Elaborar a minuta do novo estatuto com apoio jurídico

5. Convocar Assembleia Geral Extraordinária para aprovação

6. Registrar em cartório

Simples na teoria — mas é onde a maioria dos CTGs trava, porque ninguém na diretoria tem tempo, conhecimento ou energia pra conduzir esse processo sozinho.

Uma pergunta pra ti

Quando foi a última vez que alguém da tua diretoria abriu o estatuto do CTG pra ler?

Se a resposta te deixou desconfortável, é um bom sinal. Significa que tu já sabes por onde começar.

Nos próximos meses vou trazer mais conteúdo sobre gestão prática para CTGs — finanças, eventos, captação de sócios — sempre com respeito pela tradição e pela realidade de quem vive o galpão de dentro.

Se esse assunto mexeu contigo, compartilha com o Patrão ou o Capataz do teu CTG. Pode ser que eles precisem ler isso hoje.


Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.

sábado, 14 de março de 2026

Capitais Gaúchas: os Títulos que o Rio Grande do Sul Carrega com Orgulho

O Rio Grande do Sul é campeão em títulos. Não só nos campos de futebol — mas nas leis e decretos que consagram suas cidades como capitais de produtos, tradições, atividades e identidades culturais. São dezenas de municípios gaúchos que carregam com orgulho reconhecimentos nacionais, estaduais e até informais, que contam um pouco da alma de cada canto do estado. A lista é longa, curiosa e, muitas vezes, surpreendente. Confira:

Alegrete — Capital Nacional da Linguiça Campeira | Lei Federal 15.021/2025

Ametista do Sul — Capital Nacional da Pedra Preciosa de Ametista | Projeto de Lei Federal 5617/2019 (em tramitação); reconhecida popularmente como Capital Mundial da Pedra Ametista

Antônio Prado — Capital Nacional da Massa e Cidade Mais Italiana do Brasil | Projeto de Lei Federal 2613/2019 (em tramitação)

Arvorezinha — Capital Nacional da Erva-Mate e do Melhor Chimarrão | Reconhecimento popular

Bagé — Capital Nacional da Criação de Cavalos da Raça Puro-Sangue Inglês | Lei Federal 14.571/2023; Capital Estadual do Cavalo Crioulo | Lei Estadual 13.771/2011

Bento Gonçalves — Capital Estadual do Vinho | Lei Estadual 10.852/1996; Capital Brasileira da Uva e do Vinho | Projeto de Lei Federal 3869/2025 (em tramitação); Capital Nacional da Indústria Moveleira | Projeto de Lei Federal 6515/2019 (em tramitação); reconhecida popularmente como Capital Brasileira das Parreiras

Bom Jesus — Capital Nacional do Tropeirismo | Projeto de Lei Federal 98/2015 (em tramitação)

Bom Princípio — Capital Estadual do Moranguinho | Lei Estadual 15.636/2021

Caçapava do Sul — Capital Gaúcha da Geodiversidade | Lei Estadual 14.708/2015

Cachoeira do Sul — Capital Estadual do Arroz | Lei Estadual 15.334/2019; Capital Nacional do Laço Feminino | Projeto de Lei Federal 3862/2019 (em tramitação)

Candiota — Capital Nacional do Carvão Mineral | Reconhecimento popular

Canela — Capital Nacional dos Parques Temáticos | Projeto de Lei Federal 4852/2020 (em tramitação)

Cândido Godói — Capital Mundial dos Gêmeos | Reconhecimento popular e internacional (cidade possui a maior taxa de nascimentos gemelares do mundo)

Canguçu — Capital Nacional da Agricultura Familiar | Projeto de Lei Federal 6408/2016 (em tramitação)

Canoas — Cidade do Avião | Lei Estadual 15.658/2021; Cidade Referência do Típico Xis Gaúcho | Lei Municipal 5.990/2016

Carlos Barbosa — Capital Nacional do Futsal | Lei Federal 13.503/2017

Carazinho — Capital do Galeto com Massa | Reconhecimento popular (com lei municipal que institui o prato como comida típica do município)

Casca — Capital Gaúcha do Leite | Reconhecimento popular (maior produção de leite do estado conforme dados do IBGE)

Caxias do Sul — Capital Nacional do Voluntariado | Lei Federal 13.560/2017; Capital Estadual dos CTGs | Lei Estadual 15.630/2021; Capital Brasileira das Parreiras | Reconhecimento popular

Dom Pedrito — Capital da Paz | Reconhecimento histórico (o Tratado de Paz da Revolução Farroupilha foi assinado no distrito de Ponche Verde, em Dom Pedrito)

Eldorado do Sul — Capital Estadual da Agricultura Familiar | Reconhecimento estadual/popular

Encruzilhada do Sul — Capital Nacional do Azeite de Oliva | Projeto de Lei Federal 2080/2021 (em tramitação)

Erechim — Capital Nacional do Rally | Projeto de Lei Federal 4273/2020 (em tramitação); Capital da Amizade | Reconhecimento popular

Esteio — Capital Nacional da Solidariedade | Lei Federal 14.425/2022; Capital Nacional da Expointer | Lei Federal 15.008/2024

Fagundes Varela — Capital Estadual do Torresmo | Lei Estadual 16.319/2025

Farroupilha — Capital Nacional do Moscatel | Lei Federal 13.784/2018

Feliz — Capital Estadual da Cerveja Artesanal | Lei Estadual 14.697/2015

Flores da Cunha — Capital Nacional da Vindima e maior produtora de vinhos do estado | Reconhecimento popular/setorial

Garibaldi — Capital Nacional do Espumante | Projeto de Lei Federal 9.692/2018 (aprovado na Comissão de Cultura da Câmara em 2025; aguarda CCJ e Senado)

Gramado — Capital Nacional do Chocolate Artesanal e Capital Nacional do Cinema | Lei Federal 14.120/2021

Guabiju — Capital Nacional do Guabiju | Lei Federal 14.862/2024; Capital Estadual do Guabiju | Lei Estadual 15.310/2019

Igrejinha — Capital Estadual do Voluntariado | Lei Estadual 15.340/2019; Capital Nacional do Voluntariado | Projeto de Lei Federal 5897/2019 (em tramitação)

Ijuí — Capital Nacional de Etnias | Lei Federal 14.280/2021

Ipê — Capital Nacional da Agricultura Ecológica | Lei Federal 12.238/2010

Lagoa Vermelha — Capital Nacional do Churrasco | Lei Federal 14.806/2024; Capital Nacional da Dança da Chula | Lei Federal 14.957/2024

Lindolfo Collor — Capital dos Tapetes de Couro | Lei Estadual 13.967/2012

Maquiné — Capital Nacional do Verde e Terra das Cascatas | Projeto de Lei Federal 404/2022 (em tramitação)

Montenegro — Capital Estadual e Berço da Bergamota Montenegrina | Lei Estadual 15.288/2019

Não-Me-Toque — Capital Nacional da Agricultura de Precisão | Lei Federal 12.087/2009; Capital Nacional da Agricultura | Lei Federal 12.081/2009

Nova Bréscia — Terra dos Churrasqueiros e Capital Nacional da Mentira | Lei Estadual 13.010/2008

Nova Petrópolis — Capital Nacional do Cooperativismo | Lei Federal 12.234/2010

Nova Santa Rita — Capital Estadual do Polo de Produção de Morangos | Reconhecimento estadual/popular

Novo Hamburgo — Capital Nacional do Calçado | Lei Federal 13.399/2016

Palmeira das Missões — Capital Berço da Erva-Mate | Projeto de Lei Federal 1499/2019 (em tramitação)

Passo Fundo — Capital Nacional da Literatura | Lei Federal 11.264/2006

Pelotas — Capital Nacional do Doce | Lei Federal 14.867/2024

Pinheiro Machado — Capital Nacional do Churrasco de Ovelha | Reconhecimento popular (sede da Feovelha, maior feira de ovinos do estado)

Pinto Bandeira — Capital Estadual do Pêssego de Mesa | Lei Estadual 15.341/2019

Piratini — Capital Simbólica do Rio Grande do Sul (Capital Farroupilha) | Lei Estadual 16.275/2025

Porto Alegre — Capital Mundial do Churrasco | Projeto lançado pela Prefeitura em 2022 (em andamento)

Rio Grande — Capital Nacional das Águas | Lei Federal 14.746/2023; Capital Mais Longeva do Futebol Brasileiro | Projeto de Lei Federal 4585/2021 (em tramitação)

Rolante — Capital Estadual das Cucas | Lei Estadual 15.820/2022; Capital Estadual do Bitcoin | Lei Estadual 16.312/2025; Capital Nacional da Cuca | Projeto de Lei Federal 9530/2018 (em tramitação)

Sant'Ana do Livramento — Capital Nacional da Ovelha | Lei Federal 15.110/2025

Santa Maria — Capital do Xis | Reconhecimento popular

Santa Rosa — Berço Nacional da Soja | Lei Federal 14.349/2022

Santo Antônio da Patrulha — Terra da Cachaça, do Sonho e da Rapadura | Lei Estadual 14.591/2014; Capital Nacional da Rapadura | Reconhecimento popular

Santo Ângelo — Capital das Missões | Reconhecimento popular

São Borja — Terra dos Presidentes | Lei Estadual 13.041/2008; Capital Gaúcha do Fandango | Lei Estadual 15.093/2018

São Gabriel — Capital Nacional do Arroz | Lei Federal 13.442/2017; Terra dos Marechais | Reconhecimento popular

São Leopoldo — Berço da Colonização Alemã no Brasil | Lei Federal 12.394/2011

São Luiz Gonzaga — Capital Estadual do Carreteiro | Lei Estadual 15.664/2021; Capital Estadual da Música Missioneira | Lei Estadual 14.123/2012

São Paulo das Missões — Capital Nacional do Jogo de Barril | Reconhecimento popular

Serafina Corrêa — Capital Nacional do Talian | Título conferido em 2015 (reconhecimento popular e institucional; o Talian é patrimônio imaterial do RS pela Lei Estadual 13.178/2009 e idioma cooficial do município pela Lei Municipal 2.615/2009)

Soledade — Capital Nacional das Pedras Preciosas | Lei Federal 15.217/2025

Teutônia — Capital Nacional do Canto Coral | Lei Federal 13.563/2017

Torres — Capital Nacional do Balonismo | Projeto de Lei Federal 9073/2017 (em tramitação)

Três Coroas — Capital Gaúcha do Rafting | Reconhecimento popular

Três Passos — Capital Nacional do Lambari | Lei Federal 14.512/2022

Turuçu — Capital Nacional da Pimenta Vermelha | Reconhecimento popular

Vacaria — Capital Nacional dos Rodeios Crioulos | Lei Federal 15.016/2024; Capital Gaúcha das Gincanas Culturais | Lei Estadual 15.159/2018

Venâncio Aires — Capital Estadual do Chimarrão | Lei Estadual 13.111/2009

Veranópolis — Terra da Longevidade | Reconhecimento popular e científico (certificada pela OMS como Cidade Amiga do Idoso em 2016); Berço Nacional da Maçã | Reconhecimento popular

Vicente Dutra — Capital Estadual da Cuia | Lei Estadual 15.777/2021

Victor Graeff — Capital Estadual da Cuca com Linguiça | Lei Estadual 15.693/2021

Vila Flores — Capital Nacional do Filó Italiano | Projeto de Lei Federal 4830/2016 (em tramitação)

Com mais de 90 municípios ostentando algum tipo de título — oficial por lei federal, estadual, municipal ou por reconhecimento popular — o Rio Grande do Sul é provavelmente o estado brasileiro com mais "capitais" por quilômetro quadrado. Cada título conta uma história: de colonização, de produção, de cultura, de bravura e, claro, de muito orgulho gaúcho.

Confira algumas curiosidades dessas capitais:

Nova Bréscia tem dois títulos curiosíssimos na mesma lei estadual: Terra dos Churrasqueiros e Capital Nacional da Mentira, por causa do tradicional Festival da Mentira realizado no município. Um caso único no estado — e talvez no Brasil.

Cândido Godói não tem lei, mas sua fama é mundial. A cada 100 nascimentos, cerca de 10 são de gêmeos — uma taxa dez vezes acima da média brasileira, estudada por pesquisadores da UFRGS há mais de 30 anos.

São Borja aparece com dois títulos por lei: Terra dos Presidentes (Getúlio Vargas e João Goulart nasceram lá) e Capital Gaúcha do Fandango.

Lagoa Vermelha é duplamente consagrada por lei federal: Capital Nacional do Churrasco (2024) e Capital Nacional da Dança da Chula (2024).

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quinta-feira, 12 de março de 2026

Biografia Gaúcha - Cenair Maicá

Das barrancas do Rio Uruguai para o mundo

Conhecido como o Poeta do Pampa, a voz que fez as Missões cantarem para o mundo. Cenair Maicá nasceu em 3 de maio de 1947, na localidade de Águas Frias, no que hoje é o município de Tucunduva — então distrito de Santa Rosa, no noroeste do Rio Grande do Sul. Cresceu numa região de fronteira viva, onde o Brasil, a Argentina e o Paraguai se encontram nas águas do Rio Uruguai e nas memórias dos povos guaranis.

Desde pequeno, Cenair viveu essa mistura. Estudou na cidade de Oberá, na província argentina de Misiones, e ali aprendeu os primeiros acordes no violão, conheceu aspectos da cultura guarani e absorveu a música platina que mais tarde daria cor especial ao seu trabalho. Era um menino de fronteira — e essa fronteiridade seria a marca mais profunda de toda a sua arte.

De volta ao Brasil, foi para Santo Ângelo, onde passaria a maior parte da vida. Ali, aos 10 anos, já se apresentava em público ao lado do irmão Adelque, formando a dupla Irmãos Maicá. Tocavam nas rádios e nos bailes da região — dois guris cheios de talento e uma música que ainda mal sabia o tamanho que ia tomar.

"Se meu destino é cantar, eu canto." — Cenair Maicá

1966: o manifesto que mudou a música gaúcha

Em 1966, Cenair Maicá, Noel Guarany e Pedro Ortaça lançaram um manifesto que poucos documentos na história da música gaúcha igualam em importância. O texto reivindicava a herança guarani como parte legítima — e esquecida — da identidade do Rio Grande do Sul, e anunciava a intenção de criar, a partir dela, uma nova arte missioneira.

Até então, a identidade gaúcha oficial era quase que exclusivamente baseada na figura do estancieiro da campanha, do peão dos pampas do sul. As Missões — aquela região de história tão rica quanto esquecida — não tinham voz nos palcos nem nas gravadoras. Cenair e seus companheiros decidiram mudar isso.

Juntos, os quatro artistas — Cenair, Noel Guarany, Pedro Ortaça e Jayme Caetano Braun — ficaram conhecidos como os Quatro Troncos Missioneiros. Cada um com sua voz própria, mas todos enraizados na mesma terra e movidos pela mesma causa: dar ao povo missioneiro o lugar que lhe pertencia na cultura do estado.

1970: a consagração na Argentina e o início do sucesso

O nome Cenair Maicá entrou definitivamente na história da música gaúcha em 1970. Naquele ano, ele venceu o 7º Festival do Folclore Correntino, realizado em Santo Tomé, na Argentina, interpretando a música Fandango na Fronteira — composição de Noel Guarany, com quem dividiu o palco na noite da vitória.

A consagração foi dupla: para Cenair como intérprete e para os dois artistas como símbolo do que aquele manifesto de 1966 havia prometido. A vitória num festival internacional revelou que a música missioneira não era apenas uma questão regional — era arte com potencial para atravessar fronteiras.

O prêmio rendeu a gravação do compacto duplo Filosofia de Gaúcho (1970), o primeiro registro fonográfico oficial de Cenair. A partir daí, a carreira solo seria inevitável.

A carreira: poesia, denúncia e identidade

Em 1978, Cenair lançou Rio de Minha Infância, seu primeiro LP solo — produzido e dirigido por Noel Guarany. O disco apresentou ao público o universo que definiria toda a obra de Cenair: o Rio Uruguai e suas águas como metáfora de vida e liberdade, os ribeirinhos e balseiros como protagonistas esquecidos, os indígenas como herança viva — não como curiosidade histórica.

Nas canções Homem Rural e Balaio, Lança e Taquara, Cenair deu voz aos trabalhadores do interior — camponeses, índios, gente simples que raramente aparecia nas letras da música regional. Sua poesia era denúncia social embrulhada em melodia, um ato político disfarçado de milonga.

Não é por acaso que a Ditadura Militar censurou sua canção Canto dos Livres, proibindo sua execução nas rádios e chegando a apreender discos. Cenair era inconveniente para o regime — e isso era, para ele, o maior dos elogios.

Paralelamente à música, Cenair trabalhou como representante comercial das máquinas de escrever Olivetti e apresentou programas nas rádios Repórter de Ijuí, Sepé Tiaraju de Santo Ângelo e Liberdade FM de Viamão. Homem de muitas frentes, mas sempre com a música como centro.

"O músico, além de cantar as coisas bonitas, a alegria, tem que ser um porta-voz do povo." — Cenair Maicá

Imagem da internet

A saúde, a luta e a despedida

A vida de Cenair carregou uma sombra desde cedo. Aos 17 anos, num acidente, perdeu um rim. A consequência não foi imediata — mas o futuro já estava marcado.

Em 1984, o rim remanescente começou a falhar. Cenair precisou se submeter a sessões de hemodiálise, o que debilitou profundamente sua saúde e o afastou temporariamente dos palcos. Em 1985, realizou um transplante de rim — o doador foi seu irmão Darci Maicá, num gesto de amor que a família nunca esqueceu.

Em dezembro de 1988, foi internado para a colocação de uma prótese femural. Não resistiu a uma infecção hospitalar. Em 2 de janeiro de 1989, Cenair Maicá morreu em Porto Alegre, aos 41 anos. Uma vida curta, mas vivida com a intensidade de quem sabe que o tempo é precioso.

Como era seu desejo, foi enterrado pilchado, de botas e lenço vermelho. Seus restos mortais estão em Santo Ângelo, no mausoléu construído na entrada do Cemitério Municipal. Dois pilares marcam o local: um representando a MÚSICA, outro a POESIA. No centro, a frase que resume tudo: Se meu destino é cantar, eu canto. Ao lado da data de nascimento: Nasce o poeta. Ao lado da data de morte: O mundo fica mais triste.

Discografia

Cenair gravou um compacto duplo e quatro LPs ao longo da carreira, dois deles posteriormente relançados em CD. Uma obra pequena em volume, gigante em qualidade.

1970 - Filosofia de Gaúcho (compacto duplo). Com Noel Guarany. Primeiro registro de Cenair após vitória no Festival Correntino.

1978 - Rio de Minha Infância. 1º LP solo. Produção de Noel Guarany. Relançado em CD em 2003 na série Tradição Gaúcha.

1980 - Canto dos Livres. 2º LP. Contém a música censurada pela Ditadura Militar. Um dos mais importantes do nativismo gaúcho.

Imagem da internet

1983 - Meu Canto. 3º LP. Gravado com saúde já debilitada. Reúne composições de forte teor social e poético.

1985 - Companheira Liberdade. Relançamento/compilação das melhores faixas gravadas para o selo Rodeio (WEA). Reeditado em CD.

2003 - Tradição Gaúcha (coletânea). Relançamento em CD do LP Rio de Minha Infância. Lançado postumamente pela série Tradição Gaúcha.

Principais canções

Canto dos Livres; Balseiros do Rio Uruguai; Baile do Sapucaí; Bolicho; Homem Rural; Rio de Minha Infância; Balaio, Lança e Taquara; Fandango na Fronteira; Rio Ibicuí; João Sem Terra

O legado que as águas não apagam

Mais de três décadas após sua morte, Cenair Maicá segue vivo em cada roda de chimarrão onde alguém tatareia Canto dos Livres, em cada jovem compositor missioneiro que sente que precisa falar do povo simples, em cada artista que se recusa a deixar o comercial sobrepor o verdadeiro.

O legado é concreto também: uma rodovia recebe seu nome — a RS-536, no noroeste gaúcho. Travessas em Tucunduva e em Santo Ângelo. Um mausoléu. Um busto. E uma entrevista gravada em fita magnética no Museu Antropológico de Ijuí, onde sua voz ainda ecoa para quem quiser ouvir.

Cenair Maicá não fez muito disco. Mas fez música que dura. E isso, no fundo, é o único legado que importa.

"Nasce o poeta." — inscrição no mausoléu de Cenair Maicá, ao lado da data de nascimento

Conheces a obra de Cenair Maicá?

Qual é a tua música favorita do Cantor Missioneiro? Deixa nos comentários — e se tens uma história ligada à obra de Cenair, conta para nós. A memória de quem fez história merece ser mantida viva por quem a viveu.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Por quê o gaúcho chama o dinheiro de pila?

Quem vem para o Rio Grande do Sul estranha ao ouvir a frase: “me empresta uns pila”, “isso aí custa dez pila”, “tô sem pila hoje”. A palavra atravessou gerações, resistiu à troca de moedas e saiu das fronteiras do Estado junto com os gaúchos que migraram Brasil afora. Mas afinal, de onde veio esse termo tão nosso?

A origem é política — e histórica. O “pila” tem sobrenome: Raul Pilla. Médico e liderança marcante do antigo Partido Libertador, Pilla foi um dos principais defensores do parlamentarismo no país e adversário declarado de Getúlio Vargas nos turbulentos anos 1930. Com a derrota política e os desdobramentos da Revolução Constitucionalista de 1932, acabou exilado no Uruguai, praticamente sem recursos.

Foi então que seus correligionários organizaram uma forma de ajudá-lo financeiramente. Criaram bônus, uma espécie de título ou letra partidária, em que o portador contribuía com determinado valor em cruzeiros “em prol da Democracia”. O documento vinha assinado por Raul Pilla e funcionava como uma arrecadação solidária para sustentar o líder no exterior. O dinheiro recolhido era enviado a ele.

Esses papéis passaram a circular entre simpatizantes e, pouco a pouco, o sobrenome estampado na assinatura virou sinônimo da própria contribuição em dinheiro. “Me dá um Pilla” teria se transformado naturalmente em “me dá um pila”. O termo pegou. E ficou.

Há também uma versão popular, mais folclórica, segundo a qual cabos eleitorais teriam cortado cédulas ao meio, entregando uma parte ao eleitor com a promessa de receber a outra após o voto confirmado em Raul Pilla. Embora pitoresca, essa história é vista mais como lenda política do que como fato comprovado.

O que é fato é que a palavra atravessou o tempo. Réis, cruzeiros, cruzados, cruzeiros novos, reais — pouco importou a mudança na economia nacional. No linguajar gaúcho, um pila sempre correspondeu a uma unidade da moeda corrente. Hoje, equivale a um real. Ontem, foi um cruzeiro. Antes disso, outro valor. O nome sobreviveu a todos.

O mais curioso é que o regionalismo ultrapassou as divisas do Estado. Em cidades de Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso e até mais longe, onde há presença gaúcha, o “pila” também circula na fala cotidiana. É um traço cultural que viajou junto com a bombacha, o chimarrão e o sotaque.

No fim das contas, o “pila” é mais do que dinheiro. É memória política, é identidade linguística e é prova de como a história pode se entranhar no vocabulário popular sem que muita gente saiba exatamente por quê. E assim segue, firme no bolso e na boca do povo: pila pra cá, pila pra lá.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Tu és gaúcho raiz ou nutella?

Pois é gauchada, as vezes nas redes sociais sempre escutamos debates e até embates sobre raiz e nutella. Mas primeiramente os defensores do raiz, deveriam exemplificar e esclarecer o que é ser raiz, pois, não conseguimos compreender um raiz nos moldes defendidos fazer discurso no celular, que é uma tecnologia muito nutella e nos poupa de muitas dificuldades.

Hoje por desinformação, que é muito comum em todas as áreas, as pessoas acham que escutar sertanejo antigo e Mano Lima é ser raiz, que escutar vaneira de banda e bailão não é gaúcho raiz. Na minha opinião, escutar sertanejo antigo nem gaúcho é, e por incrível que se pareça o sertanejo universitário se identifica mais com a cultura gaúcha, pois, tem sua levada marcada pela vaneira bem mais simplificada, quem é do ramo musical pode auxiliar e a partir desse ponto podemos definir como gostar ou não de um gênero e não se é ou não gaúcho. 

Outro ponto, é criticar a ponto de faltar o respeito os músicos de bandas gaúchas como os Tchês, Bailaço, entre outros pelo fato de não pilchar e não "ser raiz" mas, esquecem que são eles que atravessaram as fronteiras do Sul mostrando a "nossa" vaneira. Então, raízes entendidos de plantão, me expliquem por que estes gaúchos não podem ter seu trabalho respeitado e aceito na música se seus próprios filhos não seguem o raiz e devem ouvir coisas bem piores do centro do país e dos Estados Unidos que ultimamente tão idolatrado por aqui.

Ir nas redes sociais bradar bagualismo e desrespeitar pessoas é muito fácil atrás de uma tela, porém, muitos gaúchos por aí tem embaixo do mesmo teto o filho fazendo dancinha de tiktok com música pop ou funk. O desrespeito ao compatriota gaúcho faz com que o tradicionalista fique taxado de um tosco preconceituoso e retrógrado, e de certa forma é assim mesmo. Pois vamos aos fatos, hoje muitos tendem a levar para o lado político seu gauchismo, como já escutamos frases como: sou gaúcho, então sou de direita. Sou gaúcho e sou conservador. Sou gaúcho e agro, mas, o sujeito não tem um pinto para dar boia. Primeiramente isso mostra o despreparo do sujeito que muitas vezes está a frente de um ctg, piquete ou qualquer outra entidade tradicionalista, pois, os ideais farroupilha que tanto exaltam tem cunho estancieiro, capitalista e maçônico sim, mas, também muitos ideais revolucionários da Revolução Francesa, que se olharmos a fundo o viez é social, portanto, socialista.

Isso mostra que a maioria dos gaúchos hoje em dia estão ficando com um déficit intelectual elevadíssimo, pois, deixaram de buscar raízes e conhecimento sobre a nossa origem e ficam bradando ideais falsos, de moralidades duvidosas em busca do discurso que está do lado raiz.

Quer ser raiz? Então faça o seguinte, estude nossas origens, ideias republicanos de Netto, veja como fomos forjados, conheça a história da Cisplatina e de onde veio um tal de "índio vago" que apareceu em uma certa banda em 1700 e pouco. Depois de tudo isso, podemos definir e separa o raiz e o nutella, mas, me desculpem, enquanto estiverem metendo política na nossa cultura e levando tudo para o lado político, eles vão conseguir o que querem, acabar com a nossa identidade e normalizar e padronizar o Brasil em direita e esquerda e sabe de qual o lado que estamos, do lado de fora, do lado intelectual que defende a tradição gaúcha que se moldou no cotidiano, do lado do Rio Grande do Sul, da República Rio-Grandense. 


sábado, 8 de novembro de 2025

Coisas que o Gaúcho Fala - O Vocabulário Gaúcho

Buenas gauchada do xucrismo do Rio Grande na Internet, hoje vamos abordar um assunto conhecido nas redes sociais que está ganhando destaque, o nosso vocabulário gaúcho. Andei nos últimos dias assistindo vários vídeos de pessoas que vem para o Rio Grande do Sul falando das palavras e frases que escutam por aqui e cheguei a conclusão que ainda sou muito regional mesmo morando fora do interior há mais de 20 anos.

Nesses vídeos, escutando alguns relatos tive a real noção do quão diferente somos como povo. Dentro do próprio Rio Grande do Sul temos as diferenças, agora imagina um território gigantesco que fala a mesma língua. O que eu não sabia era que muitas palavras ou frases de meu cotidiano eram extremamente regionais e eu achando que estava falando padronizado com a metrópole, porém, a metrópole do RS é regional.

Somos um território continental em que falamos português, mas, se formos avaliar bem, temos dialetos. Gauchês, Mineirês, Nordestino e ainda as peculiaridades locais, como por exemplo, aqui temos o Gaúcho da Fronteira, o Serrano, da Capital, Missões. Aqui do lado em SC, tem o manezinho, o serrano e do Oeste. Certa feita no interior de São Paulo, vi duas pessoas falando do sotaque interiorano das cidades do interior, porém, de outra região e eu não via diferença.

Para enriquecer ainda mais o vocabulário de todos, vamos deixar aqui algumas palavras, frases e adágios do gaúcho, sendo que alguma delas eu achava que era universal. Segue nós no Instagram para ficar por dentro de tudo, vamos postando carrosséis com o tempo y tu não vais esquecer. Temos também o dicionário Gaúcho aqui no blog. Clica aqui vivente

Vamos lá para algumas peculiaridades, destacamos que não estão incluídas as expressões do campo, que são diferentes até para os gaúchos da cidade. Estão aqui expressões do cotidiano de todos os gaúchos, muitos não tinha noção que eram usados somente por aqui.

Abreviação: o gaúcho tem costume de abreviar muitas coisas, principalmente na cidade. Super ou mercado - Supermercado, Auto - Automóvel (sim, principalmente no interior chamam carro de auto)

Alaminuta: prato tradicional com arroz, feijão e bife, conhecido como prato feito.

Alcançar: uma palavra que foi lembrada por meu filho, que é somente aqui que usamos quando pedimos que alguém mais próximo de um lugar, pegue algo e nos entregue. - Fulano, me alcança um copo do armário. Confere? Mais alguém concorda que esse termo é regional?

Bah: antigamente poderia se dizer que era  "Abreviação de barbaridade. Expressão usada para demonstrar surpresa, indignação", hoje é uma expressão universal do gaúcho, usada em vários situações, só ficando atrás da nossa próxima palavra.

Baixar o hospital: internar no hospital (essa jurava que era em todo lugar)

Balaqueiro/fazer balaca: exibido/ se exibir

Barbaridade: uma expressão para espanto ou surpresa, o bah veio desta expressão, com a mesma mania de abreviar do Gaúcho.

Bergamota: não sei se tem outra forma de falar, mas, em outros estados chamam de mexirica.

Brigadiano: milico, policial militar

Cacetinho: pão francês de 80g

Cagar a pau: dar uma tunda ou bater em alguém na briga, se cagaram a pau - brigaram.

Cagasso: aqui o gaúcho não se assusta, toma um cagasso, não tem medo, se caga de medo.

Cair os Butiá dos bolso: expressão de espanto também ou até desânimo.

Capaz: usada universalmente para expressar qualquer sentimento, às vezes acompanhado de outras palavras.

Chavear: passara chave na porta, trancar com chave a porta, isso nem sabia que era nossa a expressão

Chinelão: xingamento leve, chama a pessoa de bagaceira, baixo nível, sem fundamento.

Com: usar com para o preço, exemplo, um produto custou R$10,15, aqui se diz dez com quinze, descobri que é só por aqui mesmo, pode ser.

Cordão da calçada: ousam chamar de meio fio, mas, deixa quieto, eles não sabem o que falam.

Faceiro: essa é bem regional, é quando a pessoa está alegre, feliz, contente.

Gaitada: risada

Guisado: tem gente até aqui no sul que fala carne moída, em alguns outros locais fiquei sabendo que é boi ralado

Ir aos pés: Outra expressão que achava que era nacional, porém, vi vídeo dizendo que é só por aqui. Será?

Mazza: expressão de admiração quando um amigo comenta uma conquista, geralmente vem seguido de elogio

Mijada: xingar alguém, chamar atenção, dar uma bronca.

Mumu: doce de leite

Negrinho: brigadeiro

Pechada: batida de dois carros.

Pega ratão: se tu estás ratiando, tu vai cair na pegadinha, geralmente falamos em provas de aula e concursos.

Pila: plata, dinheiro, o pila é nosso mesmo.

Prende o grito: me chama se precisar

Quebra molas: tive até que procurar o outro nome para saber o que era, é a tal da lombada.

Ratiar: esse é complicado de explicar, dar uma mancada (acho que é isso), ser boca aberta, e daí vem a próxima expressão.

Resbalar: escorregar

Sinaleira: estão de brincadeira que o tal de semáforo é sinaleira só aqui? Não pode.

Torrada: duas fatias de pão de sanduíche com queijo e presunto dentro, prensado na chapa.

E por aí vai, vamos atualizando aos poucos. Y tu vivente, sabe de mais expressões, deixa nos comentários.



quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Helloween esteve entre nós, e o RS está?

Em várias leituras que faço, dentre notícias, artigos, redes sociais e até vídeos, me chamou a atenção um uma publicação do Giovani Grizotti no Repórter Farroupilha, sobre uma prendinha fantasiada de Dia das Bruxas e o mesmo questionou se o objetivo foi fantasiar com o vestido de prenda. Podemos interpretar de várias, inclusive que o vestido seria parte integrante da fantasia não por ser vestido, mas, por ser uma prenda de outra dimensão, uma prenda finada.

Mas, tudo isso me gerou uma reflexão e um questionamento. Será? Por que? Até devemos saber a resposta.

Primeiro: Será? Será que essa data estadounidense que já se consolidou por aqui está maior na sociedade que nossa semana farroupilha? Falando não das festividades e sim no dia dia, já que está extremamente normal as lojas, escolas, demais estabelecimentos e a TV lembrar tal data e em setembro a temática gaúcha não está tão evidente no dia dia.

Segundo: Por que? Por que estamos chegando neste ponto, onde uma cultura estrangeira invade um estado com uma cultura rica e ganha tanta evidência? Que chega ao ponto de questionarmos a proporção que está tomando.

Comentei que temos a resposta, mas, não digo respostas e sim argumentos que possam justificar (não justifica nada nossa cultura ser trocada).

Podemos seguir várias linhas de pensamento, uma delas que até pode ser coerente é a globalização e o avanço de novas tecnologias que deixa facilmente entrar culturas alheias a nossa e principalmente de fora da América Latina. Porém, do mesmo jeito que vem cultura poderia ir cultura e com certeza não temos bairros, cidades, estados ou país (Estados Unidos que é o citado) comemorando os festejos farroupilha ou uma mateada celebrando a cultura gaúcha, no máximo que temos são gaúchos que celebram datas e até fundaram CTG's.

Outra linha de pensamento que sigo é o excessivo regramento utilizado por entidades que se julgam proprietárias da cultura gaúcha e pregam o brasileirismo cultural do Gaúcho, sendo que nossa origem é pampeana. Isso normaliza a aceitação de culturas de outros estados como se fosse nossa também e inconscientemente se misturam no dia-dia do Gaúcho por quererem padronizar o brasileiro.

Nessa mesma linha seguimos também com a postura dos seguidores de uma cultura que não deve evoluir, que tudo tem que ser raiz e do tempo antigo, sendo que devemos acolher todas as formas de defesas culturais gaúcha, seja um mate no parque, um bah em qualquer ambiente, mas, o pessoal que se diz entendido critica por criticar sem avaliar o que pode contribuir para que cada vez mais nosso povo se passa para as bandas estrangeiras. Acreditamos que essa postura afasta qualquer pessoa e principalmente os jovens das entidades e abre espaço para o tal de pop internacional e outras canções estrangeiras, pois, a atitude destas pessoas se agrava e chegam a beirar preconceito e segregação. O mais engraçado, que reclamam que não é raiz em rede social, com um celular na mão, mas, nos tempos raiz isso não existia.

Talvez hoje, para mudar isso, devemos nos despir de todos os preconceitos e unir-se em torno da causa gaúcha, sem lacrar, sem regrar apenas cultivar e apoiar. Primeiramente não devemos criticar o diferente, se tem uma banda tocando vaneira sem pilcha e tu não gosta, não critique, apenas não ouça. Se não se acha confortável andar de pilcha, não vais ser menos gaúcho por isso. O nutella e o raiz faz parte do humor, que usamos para diferenciar o moderno e o antigo.

Essa enxurrada de cultura de fora, podemos colocar na conta de muitos sem eira nem beira que por ter acesso a um celular e poder criticar qualquer coisa, acaba extrapolando a normalidade e rotulando nós gaúchos que realmente nos preocupamos com os valores e a cultura gaúcha. Antes de pregar qualquer coisa precisamos estudar para não passar vergonha, visto que a maioria que prega o gaúchão raiz, vira um bicho raivoso quando adentra no campo político, brigam por figuras opostas, chegam a ficar de mal com pessoas próximas e esquecem que ambos não são gaúchos, não estão nem aí para os nossos valores.

Sim, estou falando de política aqui, me dirigindo diretamente a Lula e Bolsonaro, que são motivo de brigas aqui na província, mas, já pararam para pensar quantas vezes defenderam nossa cultura? Nenhuma, um usa o campo como palanque apenas para se promover, o outro usa os estigmas do centro do país para pregar ideologias. As duas ideologias são prejudiciais aos gaúchos, as duas querem nos normalizar como brasileiros e deixarmos de sermos gaúchos, pois, ser gaúcho não interessa a nenhum dos lado, ser gaúcho é ser bravo e não baixar a cabeça, ser gaúcho é sem independente sem bajular ninguém, ser gaúcho é se erguer nas adversidades e nessas horas ninguém está por nós, apenas por eles.

Vamos para de aceitar patriota brasileiro, vermelhos de foice, trumpismo e chinesismo, vamos começar a ser GAÚCHOS sem lamber botas de ninguém, surgimos do pampa, somos latinos, não somos melhores que os outros estados que também sofrerm esse sufocamento cultural e já estão virando curral de políticos onde irão defecar toda a gana de poder que eles tem. Sofremos culturalmente sim, como Minas sofre, o Nordeste e o Norte sofrem, são poucos que querem dominar tudo e se nos apequenar e baixar a cabeça, nossa cultura se finda.

Comemore sim o Helloween em outubro, comemore festejos juninos em junho e julho, mas comemore a cultura gaúcha o ano inteiro, ouve tua milonga, consuma tradicionalismo não apenas em setembro, veja no Youtube e nas plataformas de músicas, peça na sua rádio preferida e principalmente, ensine seus filhos, não a andar pilchado e sim nossos feitos, nossa origem e nossa história.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Uma breve charla: Está cada vez mais difícil apenas SER GAÚCHO

Buenas gauchada e este é o mês do Gaúcho, mas te enganas se eu for dizer que é por causa dos Festejos farroupilha. Começa o mês de criticar o vivente que se pilcha somente para ir às rondas nos CTGS e nos bailes da Semana Farroupilha, é o mês de politizar qualquer manifestação em defesa dos nossos símbolos através de más interpretações por que já estão contaminados pela política, de não ser entendido ou de ser taxado por não concordar com a maioria, de ser criticado por não gostar de um artista ou de gostar.

Hoje independentemente do meu voto na urna, não defendo nenhum político vinculado à Brasília ou defensor de algum vinculado à Brasília, por questões ideológicas sim, mas, à ideologia do Pampa, de minha cultura estar irmanada nos povos latino-americanos e não se restringir apenas nas fronteiras políticas, que estas mudam sempre.

O mês que seria de orgulho das tradições e manifestações culturais resgatadas por pessoas que dedicaram uma vida inteira por isso, acaba virando vitrine de político mal intencionado que quer aparecer, de governantes que se aproveitam do sentimento bairrista aflorado para prometer mais ainda, acaba sendo o mês de pessoas desinformada atacando os outros, de pessoas impondo patriotismo tupiniquim, de empresários ricos pagando de simples no galpão se passando por gaúchos e por trás financiam político que ataca o povo e muitos são contra nossas manifestações culturais. 

Enfim, setembro chega e nós seguimos aqui neste terreno bandido da Internet tentando mostrar que estamos abandonados na base popular na pirâmide socialmente país desigual que nos explora por todos os lados e muitos tem orgulho, tenha orgulho de ser gaúcho, já que recebemos esta honraria e para de te fresquiar apoiando gente lá de cima e polarizado nossas políticas, para de apoiar aqueles lá de cima que só querem teu voto e te dar migalha, larga teu político de estimação que tem um de estimação lá em Brasília, vamos ser gaúcho e apoiar gaúcho, que sabe nossos políticos abrem o olho e descobrem que somos gaúchos de fato. 

Venha com teu orgulho de ser brasileiro que te entrego a honra de ser gaúcho. 

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Expointer: História, Tradição e Modernização da Maior Feira Agropecuária da América Latina

 A Expointer, realizada em Esteio (RS), é considerada a maior feira agropecuária da América Latina. Mais do que um evento do setor, ela é um símbolo da cultura gaúcha e um ponto de encontro entre tradição, inovação e negócios. Sua história ultrapassa um século e mostra como o Rio Grande do Sul se tornou referência no agronegócio e na agricultura familiar. Este ano ocorre entre os dias 30 de agosto a 7 de setembro de 2025. Confira a programação AQUI



Neste artigo, vamos conhecer as origens da Expointer, sua expansão internacional, o processo de modernização e os desafios recentes que transformaram o evento em um verdadeiro patrimônio cultural do estado.

As origens da Expointer (1901 – 1972)

A história começa em 1901, quando Porto Alegre recebeu a Exposição de Produtos do Estado, no Campo da Redenção – hoje conhecido como Parque Farroupilha. O objetivo era claro: mostrar o melhor da produção agrícola e pecuária do Rio Grande do Sul, reforçando o papel do setor rural na economia e na identidade do estado.

Com o crescimento da feira, surgiu a necessidade de um espaço maior e mais adequado. Assim, em 1970, a exposição foi transferida para o recém-inaugurado Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio.

Pouco tempo depois, em 1972, o evento ganhou um novo nome: Expointer, conquistando status de exposição internacional. Foi nesse mesmo ano que ocorreu a primeira edição oficial no parque de Esteio, marco definitivo para sua consolidação.

Expansão e internacionalização da Expointer (1972 – 2000)

Durante a década de 1970 e início dos anos 1980, a Expointer acontecia de dois em dois anos. Um momento marcante desse período foi em 1974, quando a Alemanha Ocidental presenteou o parque com as três esferas nas cores da bandeira gaúcha, que até hoje são um dos símbolos mais icônicos do espaço.

Em 1984, a feira passou a ser anual, o que impulsionou seu crescimento e fortalecimento no cenário nacional e internacional.

Outro marco aconteceu em 1999, com a criação da logomarca da Expointer e a primeira edição da Feira da Agricultura Familiar. Esse espaço trouxe protagonismo aos pequenos produtores, valorizando a diversidade de alimentos e saberes do campo, além de se tornar um dos grandes atrativos do evento.

Modernização e novos desafios da Expointer (2000 em diante)

O século XXI trouxe novos rumos para a feira. Em 2006, a Expointer foi oficialmente reconhecida como patrimônio histórico e cultural do Rio Grande do Sul por lei estadual, reforçando sua importância não apenas para o agronegócio, mas também para a identidade cultural gaúcha.

Em 2012, foi lançada a maquete de remodelação do Parque Assis Brasil, com projetos de modernização da infraestrutura. Esse processo foi consolidado em etapas, entre elas a inauguração, em 2018, do novo Pavilhão da Agricultura Familiar, com 7 mil m², oferecendo mais conforto e estrutura para produtores e visitantes.

A pandemia trouxe um momento inédito: em 2020, a Expointer aconteceu de forma digital, sem público presente. No ano seguinte, 2021, retornou em formato híbrido, com limitação de visitantes. Finalmente, em 2022, voltou ao formato tradicional, celebrando a retomada e reafirmando sua força como o maior encontro do agronegócio da América Latina.

Expointer hoje: símbolo de tradição e futuro

Atualmente, a Expointer vai muito além de uma feira de negócios. Ela é um patrimônio vivo do Rio Grande do Sul, onde convivem o grande e o pequeno produtor, o moderno e o tradicional, a inovação tecnológica e a cultura do campo.

O evento é uma vitrine do agronegócio brasileiro, mas também um espaço de valorização da agricultura familiar, da cultura gaúcha e da integração entre campo e cidade.

A cada ano, a Expointer reafirma seu papel como símbolo de identidade, progresso e tradição. Uma celebração que une gerações e continua escrevendo a história do agro e do Rio Grande do Sul para o mundo.