Com toda a repercussão do Oscar no último domingo (02/03), resolvemos trazer aqui um pouco do cinema regional do Rio Grande do Sul, como nosso foco é o regional e a cultura local, vamos apresentar aqui algumas produções que marcaram época e mostraram o dia dia cultural no nosso estado. Claro que sempre que falamos de cinema gaúcho, sempre vamos lembrar dos filmes do Teixeirinha que marcou época e inclusive com repercussão nacional.
Além dos filmes do saudoso Teixeirinha, tivemos a série da Globo A Casa das sete mulheres e o tema O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo que talvez tenha sido o livro mais reproduzido no cinema e na televisão, incluindo ainda outros livros do Arquipélago.
Conheça abaixo alguns filmes que contam o cotidiano e/ou a história do nosso estado.
O TEMPO E O VENTO (2013)
O Tempo e o Vento, filme ambientado no final do século XIX, se passa no Rio Grande do Sul, onde as famílias Amaral e Terra-Cambará são inimigas históricas na cidade de Santa Fé. A história começa quando o sobrado dos Terra-Cambará é cercado pelos Amaral, forçando todos os membros da família a se defenderem com as armas que têm à disposição. A vigília dura vários dias, o que faz com que os recursos, como comida, comecem a escassear.
Dentro do sobrado, está Bibiana (Fernanda Montenegro), matriarca da família, que recebe a visita de seu falecido esposo, o capitão Rodrigo (Thiago Lacerda). Juntos, eles relembram a história do amor que viveram e de como a família Terra-Cambará surgiu, enquanto enfrentam o cerco e a luta pela sobrevivência.
O filme é uma adaptação do clássico romance de Erico Veríssimo, retratando não apenas o conflito entre as famílias, mas também os laços de amor e a memória histórica da região.
Ainda tivemos uma minissérie das mesmas gravações exibida na tv e outra em 1985.
UM CERTO CAPITÃO RODRIGO (1971)
Entre os grandes clássicos do cinema nacional, Um Certo Capitão Rodrigo se destaca, especialmente pelo seu compromisso com a autenticidade histórica. Quase como um documentário, o filme impressiona pelo rigor na reconstrução de cenários, figurinos e costumes. Desde a escolha das locações – com filmagens realizadas nos casarões de arquitetura portuguesa de General Câmara, Triunfo e Santo Amaro – até os mínimos detalhes culturais, tudo foi cuidadosamente planejado sob a exigente direção de Anselmo Duarte.
O projeto original previa Tônia Carrero como protagonista, mas, devido ao adiamento da produção ao longo dos anos, a ideia precisou ser reformulada. O elenco final contou com Francisco Di Franco no papel de Capitão Rodrigo, ao lado de Newton Prado, Pepita Rodrigues e do folclorista João Carlos Paixão Côrtes, que interpretou Pedro Terra, pai de Bibiana. Além disso, Paixão Côrtes atuou como “consultor de costumes”, garantindo a fidelidade histórica do filme. A grandiosidade da produção envolveu também 400 cavaleiros e mais de 300 figurantes.
A trama é bem conhecida, baseada nos trechos clássicos de O Tempo e o Vento: Rodrigo Cambará, um aventureiro carismático, chega à pacata Santa Fé, conquista o coração da jovem Bibiana Terra e, ao mesmo tempo, desperta rivalidades na cidade, desencadeando grandes conflitos.
ANA TERRA (1971)
Assim como Um Certo Capitão Rodrigo, este filme já era um projeto antigo do produtor paulista Alberto Ruschel, idealizado junto a Tônia Carrero ainda nos tempos da Companhia Vera Cruz. No entanto, a produção não saiu do papel até ser finalmente concretizada anos depois. Baseado no clássico personagem criado por Érico Veríssimo em O Tempo e o Vento, Ana Terra traz uma adaptação cinematográfica de uma parte distinta da história, diferenciando-se dos filmes anteriores.
Classificado como um drama histórico brasileiro, o filme foi rodado em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul. A trilha sonora conta com composições do gaúcho Carlos Castilho, conhecido sapateador, cantor e compositor, que também atua no longa e chega a dançar alguns passos de Chula.
A narrativa se passa no final da década de 1770, ainda no período imperial, logo após a destruição das missões jesuítas. O fazendeiro bandeirante Manuel Terra parte com sua esposa Henriqueta e seus filhos Ana, Antônio e Horácio para a região de fronteira, onde estabelece uma estância de criação de gado. No entanto, a família vive sob constante ameaça, seja por bandoleiros armados, grupos indígenas sobreviventes das missões ou pelo risco de invasões vindas de países vizinhos. Para se proteger, Manuel conta apenas com seus filhos e, ocasionalmente, com a ajuda de milícias locais, entre elas uma liderada pelo Major Pinto Bandeira.
Em determinado momento, a família socorre um mestiço ferido a tiros, Pedro Missioneiro, planejando enviá-lo embora assim que ele se recuperasse. No entanto, Pedro decide permanecer na estância, tornando-se um ajudante valioso nos serviços e domas. Além disso, ele fascina Ana Terra com seus conhecimentos religiosos, sua arte e a alfabetização que adquiriu na missão jesuítica. O envolvimento entre os dois cresce e Ana acaba engravidando, dando continuidade à saga exatamente como descrita na obra de Érico Veríssimo.
O SOBRADO (1956)
Lançado em 1956, este filme é um clássico do cinema nacional e faz parte da saga O Tempo e o Vento. Classificado como drama, O Sobrado desenvolve sua narrativa a partir do cerco à residência de Licurgo Terra-Cambará, que se encontra isolada pelas forças dos maragatos.
Os adversários, prestes a serem derrotados, precisam abandonar a cidade, mas mantêm o cerco devido à rivalidade entre os Amaral e Licurgo, um conflito antigo que se reflete na insistência dos atacantes.
Dentro do sobrado, a família de Licurgo e seus capangas enfrentam dificuldades extremas, como escassez de água, comida e assistência médica. A trama é marcada por uma narrativa fragmentada, interrompida por longos trechos que remetem ao passado da família Terra-Cambará, prolongando ainda mais a resolução da história.
Um detalhe interessante do filme é a cena da Chula, que ganha destaque como uma manifestação cultural. Além disso, esta produção foi a primeira a registrar a dança sendo executada sobre uma lança, uma adaptação criada dentro do contexto da guerra, sem referência histórica comprovada.
Com um elenco de peso, incluindo Lima Duarte, Fernando Baloroni e Bárbara Parisi, O Sobrado se consagrou como uma obra marcante do cinema brasileiro
CORAÇÃO DE LUTO (1973)
“Coração de Luto” é um drama musical que traz à tona a trajetória de um homem devastado pela dor e pela perda. A história se passa na década de 1970 e é centrada no personagem de Teixeirinha, interpretado pelo próprio cantor. Ele dá vida a um homem marcado pela morte da esposa, cuja partida deixa um vazio profundo em seu coração. Desolado, ele se vê preso a lembranças e à saudade da mulher que amava.
O filme explora a dor da perda e o sofrimento de quem fica para trás, enquanto o personagem tenta encontrar uma maneira de lidar com a tragédia e seguir adiante. O enredo se desenrola com bastante emoção e sentimento, refletindo na tela a profundidade da música e da cultura gaucha, com destaque para a interpretação de Teixeirinha e suas canções, que tornam a narrativa ainda mais tocante.
TROPEIRO VELHO (1978)
Tropeiro Velho é um drama que narra a história de um homem já idoso, que vive em uma época de grandes mudanças, refletindo sobre sua vida como tropeiro. O personagem principal, interpretado por José Maia, é um homem simples e resiliente, que dedicou sua vida ao transporte de mercadorias através das trilhas do interior do Rio Grande do Sul. À medida que envelhece, o tropeiro se vê confrontado com a modernização que ameaça sua forma de viver e de trabalhar, ao mesmo tempo em que lida com as memórias e as dificuldades de um passado que não pode mais ser revivido.
A história explora o desgaste físico e emocional do tropeiro, que, apesar da idade avançada, ainda sente a necessidade de seguir sua jornada, enfrentando as intempéries e os desafios da vida rural. O filme é uma reflexão sobre o fim de uma era e a resistência de um homem que, embora envelhecido, se recusa a abandonar seu legado e as tradições que marcaram sua vida e a história do Rio Grande do Sul.
ANITA E GARIBALDI (2013)
O filme Anita e Garibaldi se passa durante a Revolução Farroupilha (1835–1845) e conta a história de Giuseppe Garibaldi (Gabriel Braga Nunes), um comandante de 32 anos dos rebeldes republicanos, que invade a cidade de Laguna, em Santa Catarina. Durante essa jornada, ele encontra sua alma gêmea, Anita (Ana Paula Arósio), uma jovem de 18 anos, esposa de um sapateiro local.
Entre a paixão que nasce entre eles e as batalhas pela liberdade, o filme explora como o amor de Anita e Garibaldi influencia não apenas suas vidas, mas também o curso da revolução. A união dos dois se torna um marco tanto na história pessoal dos personagens quanto no contexto histórico da Guerra dos Farrapos.
Rodado entre 2005 e 2006, com locações em São Francisco do Sul e Lages, o filme busca reconstituir o cenário histórico de forma envolvente, destacando a luta pela liberdade e a força de uma mulher que se torna símbolo de resistência.
CERRO DO JARAU (2004)
O filme Cerro do Jarau narra a história de três primos que cresceram em um lugar mágico do sul do Brasil, conhecido como o Cerro do Jarau. Desde a infância, os três foram influenciados pela lenda de uma princesa aprisionada em uma caverna, Teiniaguá. Dentre os primos, a menina é a mais corajosa e aquela que, ainda jovem, ousou desafiar as histórias místicas sobre o local.
Com o tempo, os primos crescem e a jovem, agora casada, vai ajudar o marido na administração de um clube. No entanto, quando o novo dono do estabelecimento se recusa a pagar o que deve, o marido acaba sendo pressionado por um criminoso a saldar uma dívida, o que o leva a cometer um assalto. Sentindo-se traída e humilhada, a mulher decide fugir com o dinheiro e retornar ao Cerro do Jarau, onde reencarnam antigas lendas e onde ela encontrará novas revelações sobre seu passado e as histórias que marcaram sua infância.
NETTO PERDE SUA ALMA (2001)
Primeira experiência do escritor Tabajara Ruas na direção de um longa-metragem, Netto Perde Sua Alma foi realizado em parceria com Beto Souza. O filme é uma adaptação do livro homônimo do próprio Ruas e narra a trajetória do General Antônio de Souza Netto, figura histórica brasileira. Gravemente ferido por uma bala durante a Batalha de Tuiuti, na Guerra do Paraguai, em maio de 1866, Netto é encaminhado para um hospital de campanha na cidade de Corrientes, na Argentina.
Ali, enquanto se recupera, começa a perceber acontecimentos inquietantes. Entre eles, o capitão de Los Santos, que acusa o cirurgião do hospital de ter amputado suas pernas sem necessidade. Além disso, Netto reencontra o sargento Caldeira, um antigo companheiro de guerra e ex-escravizado, com quem lutou na Revolução Farroupilha décadas antes. Ao lado de Caldeira, Netto revisita suas memórias, recordando sua participação na guerra, seu encontro com Milonga – jovem escravizado que se alistou no Corpo de Lanceiros Negros – e o período de exílio que passou no Uruguai.
Um filme que mergulha na história brasileira e na trajetória de um dos grandes personagens do século XIX.
NETTO E O DOMADOR DE CAVALOS (2008)
Na sequência de Netto Perde Sua Alma (2001), Netto e o Domador de Cavalos, dirigido por Tabajara Ruas, traz uma releitura contemporânea da lenda do Negrinho do Pastoreio, uma das mais populares do Rio Grande do Sul, e também narra mais sobre a história do herói farroupilha Antônio de Souza Netto (interpretado por Werner Schünemann).
Situado na América do Sul em 1835, durante o Império Brasileiro ainda escravocrata, o filme retrata Netto como um republicano que luta pela liberdade dos negros, enfrentando a tirania e a opressão. O general foi um herói das Guerras de Fronteira no Sul do Brasil no século XIX.
A história se desenrola no início da Guerra dos Farrapos, quando Netto descobre que seu antigo companheiro de guerra, Índio Torres (Tarcísio Filho), está preso. Para libertá-lo, ele se alia a escravos rebeldes, incluindo Negrinho (Evandro Elias), considerado o melhor cavaleiro da região.
O filme faz parte de uma trilogia, e um novo capítulo, intitulado Netto nos Braços da Moura, está previsto para dar continuidade à saga. No Festival de Cinema de Gramado de 2001, o primeiro filme da trilogia foi premiado com quatro Kikitos, o principal prêmio do maior festival de cinema do Brasil.
PAIXÃO GAÚCHO (1957)
Este é mais um grande clássico do cinema nacional, embora ainda pouco conhecido pelo público. Paixão Gaúcho tem seu roteiro completamente baseado e adaptado a partir do livro O Gaúcho, de José de Alencar, publicado em 1870. A trama se passa em 1836 e acompanha a forte amizade entre dois homens, que se vê ameaçada quando ambos se apaixonam pela mesma mulher. Com o início da Guerra dos Farrapos, os antigos amigos acabam em lados opostos, e a disputa pelo amor da jovem apenas intensifica o conflito entre eles.
A trilha sonora conta com algumas canções de Barbosa Lessa, incluindo Chimarrita Cafuné. O próprio Lessa foi convidado pelo diretor Walter George Dust (o mesmo de O Sobrado) para atuar como “consultor de costumes” da produção. No entanto, por estar cumprindo um estágio obrigatório como aspirante no IX Regimento de Cavalaria de São Gabriel, indicou seu primo Sady para a função. Ainda assim, conseguiu participar dos últimos dias de gravação e até mesmo da cena do casamento, onde dançou o Anú, dança recém-publicada por ele e Paixão Côrtes naquele ano.
Lima Duarte, que já havia participado de O Sobrado, retorna neste filme, interpretando com maestria um gaúcho campechano. Ele divide cena com a cantora Inhána, responsável por interpretar as músicas compostas por Lessa para a trilha sonora.
PÁRA PEDRO! (1969)
Lançado em 1969, este foi um dos primeiros filmes coloridos a retratar os regionalismos gaúchos. Pára Pedro! é uma comédia inspirada na famosa canção homônima de José Mendes, que até hoje é lembrada e cantada em todo o Brasil.
A trama se desenrola na região de Vacaria e arredores, acompanhando Pedro, que se vê obrigado a fugir da cidade após um desentendimento com o secretário de um político local, candidato a deputado. O motivo da confusão envolve um mal-entendido relacionado à sua namorada, Rosário, e sua madrinha, que nunca aprovou o relacionamento dos dois. Sem entender as razões da fuga de Pedro, Rosário decide agir por conta própria e contrata um pistoleiro para trazê-lo de volta, dando início a uma série de situações cômicas e inesperadas.
Com roteiro de Antônio Augusto Fagundes, o filme captura com autenticidade a vida do gaúcho serrano, destacando seus costumes, tradições e até a arquitetura local. Uma obra divertida e cheia de identidade cultural, que vale a pena conferir
NÃO APERTA APARÍCIO! (1970)
Este filme, lançado em 1970, também traz José Mendes como protagonista e é inspirado em uma de suas canções mais conhecidas, que leva o mesmo nome. As filmagens ocorreram na região de Dom Pedrito e na Base Aérea de Canoas, contando com um elenco de peso, incluindo Grande Otélo, José Lewgoy, Angelito Mello e Edson Acri, que, mais uma vez, contribuiu com seus desenhos na abertura.
A história acompanha o Coronel Amaro Silva, um grande criador de gado e dono de uma imensa estância no interior de Dom Pedrito. Seu filho, Aparício, trabalha como capataz da propriedade, sempre acompanhado do negrinho Tonico (personagem interpretado por Grande Otélo), afilhado do coronel.
A situação muda com a chegada de um novo vizinho, o Dr. Azevedo, que adquire terras ao lado da estância. Com ele, vem sua filha Aurora, que acaba conhecendo Aparício e iniciando um romance com ele. No entanto, o clima de amor logo dá lugar a um grande problema: parte do gado do Dr. Azevedo é roubada e Aparício é acusado injustamente, já que os verdadeiros ladrões deixaram pistas falsas para incriminá-lo. Agora, ele precisa lutar para provar sua inocência.
ANAHY DE LAS MISIONES (1997)
Este drama retrata a jornada de Anahy, uma mulher errante, descendente de guaranis (o que seu próprio nome já sugere), que atravessa os campos da Província durante a Revolução Farroupilha. Acompanhada de seus quatro filhos – Teobaldo, Leonardo, Luna e Solano –, do revoltoso Manuel e da prostituta Picumã, ela percorre os campos de batalha recolhendo trajes, pertences e qualquer tipo de valor dos soldados caídos, repassando-os a outros combatentes, sem distinção de lado.
Dirigido por Sérgio Silva e produzido por Gisele Hilti, o filme se destaca pela cuidadosa reconstrução histórica, desde as locações até figurinos e objetos de época, fruto de um extenso trabalho de pesquisa da equipe. O elenco reúne grandes nomes do cinema brasileiro, como Dira Paes, Marcos Palmeira, Matheus Nachtergaele, Paulo José e Araci Esteves, que dá vida à protagonista.
O QUATRILHO (1995)
A trama de O Quatrilho se desenrola em 1910, em uma comunidade rural situada na serra do Rio Grande do Sul, onde dois casais muito amigos vivem juntos, compartilhando a mesma casa e enfrentando, juntos, as dificuldades da vida. No entanto, a rotina desses casais muda quando a esposa de um deles começa a se envolver com o marido do outro e decide fugir com ele.
A maior parte das filmagens do filme foi realizada na cidade de Farroupilha, com destaque para cenas que mostram a beleza da Cascata do Salto do Ventoso e o tradicional caminho de pedras, que servem como um cenário natural impactante.
Esta é a nossa sugestão de cinema no Rio Grande do Sul, faltou algum, pode contribuir nos comentários. E tu que é de fora do nosso estado e tem um filme regional para contribuir para nós, fica a vontade tchê, todas culturas regionais são bem vindas.