domingo, 16 de agosto de 2026

Milonga: a música, a dança e as milongas que o gaúcho carrega na conversa

Quando um gaúcho diz que vai cantar uma milonga, pode estar pegando o violão, preparando um mate ou simplesmente começando uma conversa daquelas que ninguém sabe onde vai terminar.

Tem palavra que parece ter nascido já sabendo que ia andar muito.

“Milonga” é uma dessas.

Pode ser música. Pode ser dança. Pode ser poesia cantada. Pode ser o salão onde se dança tango. E, dependendo do lugar e da conversa, pode ser também uma história comprida, uma desculpa meio atravessada, uma manha, um enredo ou aquela conversa que começa com “te digo uma coisa...” e termina três assuntos depois.

No Rio Grande do Sul, entretanto, milonga é coisa séria.

É música de campo aberto. É violão. É payador. É estrada. É lembrança. É silêncio de galpão. É o mate passando de mão em mão enquanto alguém, sem pressa nenhuma, começa a cantar.

E talvez seja justamente por isso que a palavra tenha tantos sentidos.

Porque o gaúcho nunca foi muito de dizer uma coisa só.

Uma palavra que veio de longe

A origem da palavra milonga está relacionada ao quimbundo, língua bantu falada em Angola. Registros linguísticos associam milonga a mulonga, palavra que pode assumir sentidos relacionados a “palavra”, mas também a queixa, demanda, discussão ou injúria, dependendo do contexto.

E olha aí uma dessas ironias bonitas da história.

Uma palavra que atravessou o Atlântico acabou encontrando no mundo do Prata um lugar para cantar.

No português brasileiro, “milonga” e, principalmente, “milongas”, também ganharam sentidos figurados: mexericos, enredos, manhas, desculpas e conversas compridas. O Dicionário Priberam registra justamente essas acepções, além da definição da milonga como música crioula platense introduzida nas festas dos gaúchos do Rio Grande do Sul. Ou seja: milonga pode ser música e pode ser conversa.

E talvez não exista coisa mais apropriada para uma cultura que aprendeu a contar sua história cantando.

Antes do tango, havia a milonga

Muito antes de o tango conquistar Buenos Aires, Paris e depois o mundo, a milonga já percorria os caminhos do Rio da Prata. A milonga folclórica aparece documentada no século XIX como uma forma de canção criolla, ligada às payadas e ao universo dos cantadores que improvisavam versos acompanhados pelo violão. No Uruguai, registros históricos e folclóricos associam a milonga à payada de contrapunto, aquele duelo de versos improvisados em que dois cantadores se enfrentavam mais com a inteligência do que com a força.

Era uma espécie de duelo sem sangue. Só precisava de um violão, uma boa memória, alguma inspiração e, de preferência, um adversário que soubesse responder. Porque desafiar um payador sem saber o que dizer depois era quase como entrar num rodeio sem saber montar.

A milonga nasceu nesse ambiente criollo do Prata, atravessando Argentina, Uruguai e chegando também ao Rio Grande do Sul. Por aqui, encontrou uma cultura que já tinha no improviso, na trova, na guitarra e na narrativa campeira uma maneira própria de contar o mundo.

E foi ficando.

A milonga e o gaúcho

Há músicas que parecem feitas para determinados lugares. A milonga parece feita para o pampa. Talvez seja porque ela sabe caminhar sem pressa.

Um violão começa a marcar o compasso, a voz entra quase conversando e, de repente, o campo inteiro parece caber dentro da música.

A pesquisa sobre a música no Rio Grande do Sul reconhece a milonga entre os gêneros que passaram a integrar o universo musical regional, ao lado de manifestações como vaneira, vaneirão, bugio e trova.

Aqui, a milonga ganhou uma personalidade própria. Não é simplesmente copiar o que veio do outro lado da fronteira. É o velho processo cultural de quem recebe uma influência, passa pela sua própria história e devolve outra coisa.

O Rio Grande fez isso muitas vezes. Recebeu, misturou, adaptou e transformou em coisa sua.

Por isso existe uma milonga gaúcha que não precisa pedir licença para ser reconhecida como rio-grandense. Ela carrega o campo, o cavalo, a distância, a saudade, a solidão do homem campeiro e aquela filosofia que aparece quando o sujeito fica olhando o fogo de chão sem dizer palavra nenhuma.

A milonga não é só uma música

Aqui está uma das confusões mais interessantes. Quando alguém fala “milonga”, pode estar falando de três coisas diferentes. Pode estar falando do gênero musical, pode estar falando da dança ou pode estar falando da reunião social onde se dança tango e milonga.

Na Argentina, uma milonga também é o salão ou evento destinado ao tango e às danças relacionadas.

E aí a palavra fica ainda mais interessante. Porque a milonga deixa de ser apenas aquilo que se escuta. Passa a ser também aquilo que se vive. É encontro, dança, música, convivência, gente. E, como toda boa reunião de gente, provavelmente também tem alguma fofoca no intervalo.

A dança ligeira que ajudou a nascer o tango

Na dança, a milonga costuma ser mais rápida e ligeira que o tango. O ritmo tradicional é associado ao compasso binário, frequentemente 2/4, e sua movimentação exige dos dançarinos rapidez, precisão e capacidade de acompanhar as mudanças da música.

Enquanto o tango ficou conhecido pelo caráter mais dramático, sensual e pausado, a milonga costuma carregar uma leveza diferente. É mais brincalhona, ligeira e mais faceira.

Se o tango caminha como quem tem uma história complicada para contar, a milonga parece aquele sujeito que já sabe a história, mas está se divertindo enquanto conta.

Na dança aparecem cortes, quebradas, giros e mudanças rápidas. E há nisso uma espécie de humor corporal. A música aperta o passo. O corpo responde e o parceiro acompanha. E quem erra precisa ter jogo de cintura. Literalmente.

Milonga e tango: parentes, não gêmeos

É comum dizer que a milonga foi uma espécie de antecessora do tango. Mas talvez seja melhor pensar nos dois como parentes próximos.

A milonga e o tango compartilham o ambiente cultural do Rio da Prata e possuem conexões históricas e musicais, mas desenvolveram características próprias.

O tango acabou se tornando mais lento, dramático e elaborado. A milonga conservou a velocidade, a agilidade e certo espírito brincalhão. É como aquela comparação que se faz em família: “São parecidos, mas cada um puxou para um lado.” Um ficou sério. O outro continuou fazendo graça.

E o que o Rio Grande fez com tudo isso?

O Rio Grande do Sul pegou essa herança platina e colocou suas próprias marcas. Aqui a milonga encontrou o fandango, o galpão, a guitarra, a poesia nativista e a paisagem campeira. E encontrou também uma maneira diferente de sentir a música.

A milonga rio-grandense pode ser mais contemplativa, mais lenta, mais ligada à narrativa campeira. Não precisa de muita coisa. Um violão. Uma voz. Uma história. E um homem com saudade. O resto o campo faz.

Há registros que apontam para a gravação de “A Milonga do Bem Querer”, pelo Conjunto Farroupilha, em 1968, como um marco inicial das gravações do gênero no Rio Grande do Sul. Desde então, a milonga ganhou espaço definitivo na música regionalista e nativista. E não foi pouco.

Quando a milonga virou retrato do pago

Talvez uma das maiores forças da milonga gaúcha esteja justamente na capacidade de contar histórias. Ela pode falar de amor e saudade. De campo e de cavalo. De morte. De chuva. e de uma tropa atravessando um rio. De solidão. De política. Ou simplesmente de um homem sentado perto do fogo pensando na vida. E algumas canções conseguem fazer tudo isso ao mesmo tempo.

Um exemplo é “Milonga Abaixo de Mau Tempo”, composição de Mauro Moraes eternizada na voz de José Cláudio Machado.

A canção nasceu ligada à experiência campeira de José Cláudio Machado, que trabalhou como tropeiro, e ganhou forma a partir de relatos sobre a dificuldade de conduzir o gado durante longos períodos de chuva e, principalmente, sobre a saudade de casa. A primeira apresentação ocorreu na VII Moenda da Canção, em Santo Antônio da Patrulha, em 1993.

José Cláudio Machado transformou aquela composição numa de suas marcas. E é fácil entender por quê. A música não fala apenas da chuva. Fala daquilo que a chuva faz dentro de um homem que está longe de casa. Fala do gado cansado. Do campo embarrado. Da tropa. Da espera e da saudade.

E, no meio de tudo isso, aparece a vida doméstica, quase como um pedaço de sol no meio da tormenta. É aí que a milonga mostra sua força. Ela conta uma história grande usando coisas pequenas.

O segredo está no jeito de contar

Talvez seja isso que faça a milonga sobreviver. Ela não precisa gritar. Não precisa de espetáculo. Na maioria das vezes basta um violão dedilhado no ritmo certo. Porque a milonga é, antes de tudo, narrativa. E narrativa é uma das coisas que o gaúcho entende bem. O homem do campo sempre teve história para contar. O problema é que nunca teve muita pressa para terminar.

Começa falando do cavalo. Passa para o tempo. Lembra de uma tropa. Conta que encontrou fulano. Fulano lembra de outro. Aparece uma história de 1978. Daí alguém lembra de uma carreira de cancha reta. Quando vê, já escureceu. “Mas voltando à história...” E começa outra.

Isso também é uma espécie de milonga.

As milongas da conversa

Talvez seja por isso que o sentido popular da palavra seja tão interessante.

“Não me vem com milongas.” “Para de contar milonga.” “Esse vivente só sabe contar milonga.”

É a palavra entrando na conversa cotidiana para significar enrolação, desculpa, manha, conversa comprida. E cá entre nós: o Rio Grande tem uma certa tradição nisso.

Um sujeito chega atrasado: — Mas onde tu tava? — Bah, vivente... foi uma coisa... Pronto. Começou a milonga. E quando termina, ninguém sabe exatamente se foi uma explicação, uma desculpa ou uma obra literária. Mas todo mundo ouviu. Porque o gaúcho pode até desconfiar da história. Só não perde a oportunidade de escutar.

Uma música feita de fronteiras

A milonga é profundamente rio-platense. Ela atravessa fronteiras que, no mapa, parecem muito claras.

Mas música não entende de mapa. O pampa não termina na aduana. O vento não pede documento. O cavalo não sabe se nasceu no Brasil, no Uruguai ou na Argentina. E a guitarra muito menos.

Por isso a milonga pertence a uma região cultural maior: esse grande espaço platino onde homens e mulheres, ao longo do tempo, compartilharam formas de cantar, trabalhar, dançar e contar histórias.

O Rio Grande do Sul está dentro desse universo. Não como cópia, mas, como parte.

E essa diferença é importante. Porque reconhecer a influência platina na cultura gaúcha não diminui o Rio Grande. Pelo contrário, ajuda a entender de onde vieram algumas das coisas que hoje chamamos de nossas.

Milonga é palavra, música e memória

No fim das contas, talvez a definição mais bonita de milonga não esteja nos dicionários. Está naquele momento em que o violão começa.

Quando o primeiro acorde encontra o silêncio. Quando alguém puxa uma história do fundo da memória. ou a voz fala do campo e, por alguns minutos, quem escuta consegue enxergar a paisagem.

A milonga é isso. É música, mas também é palavra. É dança, mas também é encontro. É ritmo, mas também é memória. É herança platina que ganhou sotaque rio-grandense.

E é conversa, às vezes conversa séria, comprida ou atravessada. E, em certas ocasiões, uma baita lorota.

Mas talvez seja justamente aí que esteja sua graça. Porque uma cultura que canta suas histórias não deixa o passado morrer. E o Rio Grande, quando pega o violão e começa uma milonga, não está apenas tocando uma música.

Está contando quem é.

Para ouvir: “Milonga Abaixo de Mau Tempo”

Se existe uma música capaz de mostrar o espírito da milonga campeira, “Milonga Abaixo de Mau Tempo”, de Mauro Moraes, na voz marcante de José Cláudio Machado, é uma daquelas que merecem ser escutadas com calma.

A obra foi apresentada pela primeira vez na VII Moenda da Canção, em 1993, e posteriormente ganhou gravações que ajudaram a transformá-la em um clássico do cancioneiro nativista.

Bote a água pra esquentar. Prepare o mate. E escute.

Porque tem música que a gente ouve. E tem música que a gente sente.

A milonga é dessas.



Uma breve charla - Querem proibir os rodeios e matar a nossa cultura

Agora a pouco tempo, no final do mês de julho o repórter Giovani Grizotti, noticiou que a vereadora de Gravataí Márcia Becker (PSDB) anunciou em seu perfil no Instagram a apresentação de um projeto de lei que pretende propor a proibição de gineteadas e de prova inexistente em rodeios, a derrubada de animais. Confira lá no seu perfil a notícia completa.

Em junho, o vereador de Canoas Cris Morais (PV) a apresentar um projeto de lei que propõe a proibição de rodeios crioulos no município.

Isso não é novidade, em 2022 o deputado Rodrigo Maroni (PSDB) apresentou um projeto de lei 97/2022 para proibir eventos nos quais animais sejam vítimas de crueldade e maus-tratos no Rio Grande do Sul e colocou rodeios na mesma prateleira de touradas e rinhas de cães que são citados na proposição como exemplos de situações em que os episódios violentos são registrados. (Fonte GZH)

A pergunta que fica é, afinal o que querem tais políticos? Por que o cerco com a cultura do estado que lhes dão o sustendo e a base política para mantém seu status social?

Hoje, somos atacados por ambas ideologias políticas mais destacadas do Brasil, pois, ambos os lados visam a centralização do poder e a descaracterização regionais dos estados em prol de um projeto político centralizado em Brasília (longe dos olhos do povo) visando seus interesses pessoais, financeiros e políticos e deixando de lado a cultura regional e as pessoas que fazem a cultura e o modelo de estado que na hora da festa evidenciam tanto.

Mês que vem é setembro e logo vamos ver os apoiadores e defensores bajuladores de políticos do centro do país que não estão nem aí para a cultura do nosso estado, vestirem uma bombacha e irem pedir votos nos acampamentos Rio Grande a fora. Os mesmos que querem proibir o rodeio, apoiar cariocas, paulistas e de outras regiões como fossem semideuses que passam o ano inteiro defendendo pessoas e partidos de fora, estarão aí na tua cidade, na tua frente te mentindo que estão em defesa do nosso estado.

Defesa do estado é respeitar o hino e não rotular com qualquer devaneio de interpretação histórica de pequenos grupos, não é dizer que defende o produtor rural e o agro e achar que dono de grande extensão de terra trás desenvolvimento para as regiões e abandonar o pequeno produtor. Defender o estado, não é abraçar político de fora que quer centralizar poder.

Defender o estado hoje, é lutar pela educação das crianças, ensinar os pais a importância do "SER GAÚCHO" e não somente do nascer Rio-Grandense, é não somente vestir bombacha e saber o que ocorreu no nosso passado para termos este orgulho de ser gaúcho e não deixar que refaçam a história em prol de interesses alheios a nós.

Defender o estado é reconhecer sim que tivemos coisas que não nos orgulhamos e usar isso para sermos uma população melhor, um ser humano melhor.

No final do século 19, Júlio de Castilhos começou um movimento apoiando a centralização do poder em uma figura central, mandou matar quem se opôs e o que ocorreu após isso foi um dos episódios mais sangrentos de nossa história. Os maragatos queriam mais Rio Grande, os chimangos mais Brasil e hoje temos chimangos de um lado político, mas, temos chimangos do outro lado também e a população que defende o Rio Grande, que diz apoiar nossa cultura está do lado de quem quer acabar com ela.

Chegamos mais uma eleição e com convicção afirmo, que não temos nem um candidato que realmente é gaúcho, podemos ter Rio-Grandenses que se vestem de gaúcho, mas, o Gaúcho de fato não está sendo defendido, o ser que se orgulha do passado guerreiro, que se levantou contra o império está sendo plenamente desrespeitado por estes políticos que usam a cultura em setembro, para atacá-la já em novembro.

O que diria hoje, Gumercindo Saraiva, Silveira Martins e Assis Brasil, vendo compatriotas gaúchos lutando pela centralização do poder, ainda está em tempo de abrir os olhos e não levarmos ao poder mais um Júlio de Castilhos ou Borges de Medeiros, antes que seja tarde e matem de vez nossa cultura.

Estuda nossa história, se atente nos posicionamentos e defesas de antigamente e verás a guinada para o precipício da nulidade histórica cultura e fim de uma identidade que foi construída até hoje.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Chama Crioula 2026: história, significado e distribuição da chama no Rio Grande do Sul

A chama que está prestes a percorrer novamente o Rio Grande e há símbolos que representam uma bandeira outros símbolos representam uma história. E há símbolos que parecem carregar dentro de si a memória de um povo inteiro. A Chama Crioula é um deles.

Nos dias 14 e 15 de agosto de 2026, o Rio Grande do Sul dará início oficialmente aos Festejos Farroupilhas com a 77ª Geração e Distribuição da Chama Crioula, que neste ano acontece em Rio Pardo.

De lá, a centelha será entregue às 30 Regiões Tradicionalistas do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) e seguirá pelas estradas, levada por cavalarianos, até os municípios e entidades tradicionalistas de todo o Estado.

Mas o que parece ser apenas uma cerimônia é, na verdade, muito maior. Quando um cavaleiro parte carregando aquela chama, não leva somente fogo. Leva memória. Leva tradição. Leva o nome dos que vieram antes. Leva consigo um pedaço do Rio Grande.

O que é a Chama Crioula?

A Chama Crioula é um dos maiores símbolos dos Festejos Farroupilhas e do tradicionalismo gaúcho.

Todos os anos, uma chama é gerada em um município do Rio Grande do Sul e posteriormente distribuída para as regiões tradicionalistas.

A partir daí começa uma verdadeira viagem pelas estradas do Estado.

Cavalarianos percorrem quilômetros levando a centelha até CTGs, piquetes e comunidades.

É o fogo que chega ao galpão. O fogo que acende o candeeiro. O fogo que acompanha a roda de mate. O fogo que anuncia que setembro está chegando.

Mas essa tradição começou há quase oito décadas.

Onde nasceu a Chama Crioula?

Era setembro de 1947. O Brasil ainda vivia os primeiros anos do período pós-Estado Novo.

No Rio Grande do Sul, um grupo de jovens começava a organizar aquilo que posteriormente se transformaria em um dos movimentos culturais mais importantes do país: o tradicionalismo gaúcho.

Entre eles estavam João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes, Fernando Machado Vieira e Cyro Dutra Ferreira.

Na noite de 7 de setembro de 1947, os três estavam a cavalo junto à Pira da Pátria, em Porto Alegre.

Quando chegou o momento de apagar o Fogo Simbólico da Pátria, retiraram uma centelha para levá-la até o Colégio Júlio de Castilhos.

Ali seria aceso um candeeiro crioulo. Nascia naquele momento a Chama Crioula. A cena parece simples quando contada hoje.

Mas é difícil imaginar o significado daquele gesto. Três jovens a cavalo. Uma centelha. Uma cidade.

E uma ideia que ainda não se sabia que atravessaria gerações.

O fogo que virou tradição

A Chama Crioula passou a simbolizar muito mais do que a abertura das comemorações farroupilhas.

O fogo carrega significados universais de calor, luz, proteção, coragem e vida.

Dentro do tradicionalismo gaúcho, ganhou ainda uma dimensão própria. É o fogo da querência. É o fogo do galpão. É o fogo que reúne. É o fogo que aquece o mate e a conversa. É o fogo que permanece aceso enquanto alguém ainda tiver vontade de contar uma história.

Por isso, a Chama Crioula não é apenas uma chama.

Ela é uma representação simbólica da continuidade da cultura gaúcha.

Por que a Chama Crioula é levada a cavalo?

Talvez aqui esteja uma das imagens mais bonitas de toda a tradição.

A centelha poderia ser transportada de carro. Poderia viajar em uma estrutura moderna. Poderia ser simplesmente entregue às autoridades.

Mas não seria a mesma coisa. Ela segue a cavalo. Porque o cavalo é parte inseparável da formação histórica do gaúcho.

As cavalgadas transformaram-se em importantes manifestações culturais, ligando tradição, memória, território e pertencimento. O próprio MTG destaca o papel das cavalgadas como instrumento de preservação cultural e transmissão das tradições às novas gerações.

E assim a Chama percorre o mesmo Rio Grande onde, durante séculos, homens e mulheres atravessaram campos, fronteiras e caminhos a cavalo.

Chama Crioula 2026: Rio Pardo será o ponto de partida

Em 2026, a história será escrita em Rio Pardo.

A geração da Chama está programada para 14 de agosto, às 18h, no Parque de Exposições do Sindicato Rural.

No dia seguinte, 15 de agosto, ocorre a distribuição da centelha, a partir das 8h, em frente à Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário. De lá partirão as delegações tradicionalistas responsáveis por conduzir o símbolo às diferentes regiões do Estado.

A escolha de Rio Pardo também possui peso histórico.

É uma cidade profundamente ligada à formação do Rio Grande do Sul e à história das disputas e ocupações que ajudaram a moldar o território gaúcho.

Em 2026, Rio Pardo não receberá apenas um evento tradicionalista. Receberá uma parte da memória do Estado.

A Chama Crioula e os 400 anos das Missões

Existe ainda um detalhe que torna a edição de 2026 especialmente importante.

Este é o ano dos 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis.

E o tema oficial dos Festejos Farroupilhas 2026 é:

“Herança Jesuítica e Guarani no Rio Grande do Sul: 400 anos de cultura e tradição.”

A proposta é destacar a contribuição dos povos Guarani e dos jesuítas para a formação histórica e cultural do Rio Grande do Sul.

Isso inclui elementos que permanecem presentes na cultura gaúcha até hoje: vocabulário, nomes de lugares, costumes, artesanato, religiosidade e diferentes aspectos da formação regional. A pesquisa que fundamentou o tema também ressalta o papel das mulheres Guarani na agricultura, no artesanato e na organização cotidiana das comunidades.

E aqui existe uma ligação bonita.

A chama que atravessa o Rio Grande em 2026 carrega uma tradição criada em 1947.

Mas, neste ano, ela também pode servir como convite para olhar muito mais para trás. Para as raízes profundas da nossa história. Para os povos que já estavam aqui. Para as Missões. Para os Guarani. Para aquilo que existia muito antes de existir o tradicionalismo organizado.

Da Chama Crioula ao galpão

Quando a centelha chega a uma cidade, começa outra etapa.

Ela passa pelas mãos dos cavalarianos.

Chega às entidades.

É recebida pelos tradicionalistas.

E finalmente encontra seu lugar no fogo de chão, no candeeiro ou no espaço escolhido pela comunidade.

Então acontece algo que não aparece nos protocolos oficiais.

As pessoas se reúnem. O mate começa a circular. Alguém conta uma história. Uma gaita toca. Um violão acompanha. As crianças observam. Os mais velhos lembram de outros tempos. É aí que a tradição realmente acontece. Não no papel. Não apenas no calendário. Mas entre pessoas.

A Crioula e a Semana Farroupilha

A Chama Crioula funciona como uma espécie de anúncio. Quando ela começa a percorrer o Estado, o Rio Grande sabe: Setembro está chegando. Logo vêm os acampamentos. As cavalgadas. As rondas. Os fandangos. As danças. As declamações. Os desfiles. O churrasco. O chimarrão. A pilcha. A música.

E aquela mudança no jeito de falar sobre o Rio Grande.

Durante alguns dias, o Estado parece lembrar com ainda mais força de quem é.

A Secretaria da Cultura destaca que os Festejos Farroupilhas envolvem CTGs, MTG, instituições e diversos segmentos da sociedade gaúcha.

O fogo que atravessa gerações

Talvez a maior força da Chama Crioula esteja justamente na sua simplicidade.

Uma chama pode ser apagada em segundos.

Mas uma tradição não.

Em 1947, três jovens tiveram a ideia de retirar uma centelha do Fogo Simbólico. Hoje, quase 80 anos depois, milhares de pessoas participam de um ritual que nasceu daquele gesto.

É assim que uma cultura sobrevive. Uma geração entrega para a outra. Um avô conta. Um pai ensina. Um filho aprende.

E, um dia, aquele filho também leva a chama adiante.

E quando a chama chegar à tua cidade?

Talvez tu não seja cavalariano. Talvez nunca tenha participado de uma cavalgada. Talvez nem frequente um CTG.

Mas, quando a Chama Crioula chegar, pare um instante para olhar.

Porque naquele fogo existe uma história que começou em 1947. Existe a memória daqueles jovens que decidiram recuperar símbolos da cultura gaúcha. Existe a caminhada de milhares de tradicionalistas. Existe o cavalo. Existe a estrada. Existe o galpão. Existe o mate. E existe um pouco daquilo que nós chamamos de querência.

Em 2026, a chama traz uma mensagem ainda maior

Neste ano, o fogo que percorrerá o Rio Grande encontra uma história de quatro séculos.

Os 400 anos das Missões nos lembram que a cultura gaúcha é resultado de muitas raízes.

A tradição não nasceu pronta. Foi construída ao longo do tempo. Pelos povos originários. Pelos Guarani. Pelos missioneiros. Pelos homens e mulheres do campo. Pelos imigrantes. Pelos fronteiriços. Pelos poetas. Pelos músicos.

E por todos aqueles que, de alguma maneira, ajudaram a construir a identidade do Rio Grande.

A Chama Crioula é uma dessas pontes entre passado e presente.

Que o fogo siga aceso

Em agosto de 2026, uma nova chama vai deixar Rio Pardo.

Vai subir na garupa dos cavalos. Vai cruzar estradas. Vai passar por cidades. Vai chegar aos CTGs. Vai entrar nos galpões.

E, quando setembro chegar, estará espalhada por todo o Rio Grande.

Mas a chama verdadeira não está apenas no fogo. Está na vontade de preservar. Está na memória. Está no respeito pelos que vieram antes. Está na criança que aprende uma dança. No jovem que monta a cavalo. No velho que conta uma história. No músico que toca uma milonga. No peão que atravessa quilômetros para conduzir uma centelha.

E em cada gaúcho que, ao olhar aquele fogo, sente alguma coisa difícil de explicar.

Porque talvez seja isso que a Chama Crioula realmente representa: um povo que se recusa a deixar sua memória apagar.

Que venha a Chama Crioula 2026. Que venha setembro. E que o fogo continue aceso.

Porque enquanto houver chama, haverá memória.

E enquanto houver memória, o Rio Grande continuará sendo Rio Grande.

Chama Crioula 2026 — informações rápidas

Local: Rio Pardo – RS

Geração da Chama: 14 de agosto de 2026

Distribuição: 15 de agosto de 2026

Edição: 77ª Geração e Distribuição da Chama Crioula

Destino: 30 Regiões Tradicionalistas e posteriormente os municípios e entidades tradicionalistas do Estado

Tema dos Festejos Farroupilhas 2026: “Herança Jesuítica e Guarani no Rio Grande do Sul: 400 anos de cultura e tradição.”

Leia também no Entrevero Xucro

Os Troncos Missioneiros: Jayme Caetano Braun, Noel Guarany, Cenair Maicá e Pedro Ortaça

Sepé Tiaraju e as Missões 

A história da Semana Farroupilha

A origem da Chama Crioula



terça-feira, 28 de julho de 2026

Gestão Crioula - Mensalidade de sócio: como cobrar, controlar e reduzir a inadimplência no teu CTG

Chimarrão na mão. Hoje o assunto é aquele que ninguém gosta de tocar — mas todo tesoureiro conhece bem.

Tem um número que a maioria dos CTGs nunca calcula com clareza. Um número que, se fosse calculado, mudaria bastante a forma como a diretoria toma decisões.

É a receita real de mensalidades.

Não o que deveria entrar se todos os sócios pagassem. O que efetivamente entra todo mês.

Em muitos CTGs que conheço, a diferença entre esses dois números chega a 40%, 50%, às vezes mais. Metade dos sócios em dia, metade inadimplente — e a diretoria planejando eventos e despesas como se a receita fosse a lista completa.

Aí o mês fecha no vermelho e ninguém entende por quê.

Por que a inadimplência cresce e ninguém percebe

A inadimplência em CTG raramente começa com má vontade. Começa com descuido — do sócio e da entidade.

O sócio esquece de pagar num mês. Ninguém cobra. Passa o segundo mês. Ainda ninguém cobra. No terceiro mês, o sócio já deve três mensalidades e começa a evitar o CTG por vergonha — ou porque sabe que deve e não quer ser confrontado.

E aí acontece algo sutil: esse sócio para de aparecer. Para de participar. Para de pertencer.

Do lado da diretoria, o processo é parecido. No começo, ninguém quer cobrar porque "fulano é amigo de longa data". Depois, a dívida já cresceu tanto que cobrar parece agressivo. E no final, o nome do sócio continua na lista — mas ele não existe mais na prática.

O CTG perde o sócio e perde a receita. Os dois ao mesmo tempo.

O primeiro passo: saber exatamente quem deve o quê

Parece óbvio. Mas é surpreendente a quantidade de CTGs que não tem esse controle.

Não basta ter uma lista de sócios. É preciso ter uma lista de sócios com situação financeira atualizada — mês a mês, por categoria, com valor devido e data do último pagamento.

Sem esse mapa, a diretoria está gerindo no escuro. Cobra quem está na frente, ignora quem está quieto, e no fim do ano descobre que tem um passivo de inadimplência que ninguém sabia que existia.

A boa notícia: não precisa de sistema caro. Uma planilha bem feita resolve. O que precisa mesmo é de alguém responsável por mantê-la atualizada — e de disciplina para não deixar acumular.

Os erros mais comuns na cobrança

Cobrar só quando lembra

Cobrança feita na base do "quando lembro" não é cobrança — é loteria. Num mês funciona, no outro não. O sócio nunca sabe o que esperar, e a diretoria nunca sabe o que vai entrar.

Cobrança precisa de calendário fixo. Mesmo dia todo mês. Mesmo processo. Sem depender da memória de ninguém.

Cobrar de forma diferente para cada sócio

Num CTG onde as regras não são claras e iguais para todos, a cobrança vira negociação individual. Um sócio paga em dia, outro pede prazo, outro simplesmente ignora — e a diretoria trata cada caso de um jeito diferente.

Isso gera injustiça percebida. Quem paga em dia começa a achar que está pagando pelos outros — e tem razão.

Não ter política clara de suspensão

O que acontece com o sócio que não paga por três meses? E por seis? E por um ano?

Se a resposta for "depende" ou "a gente vai vendo", o problema vai crescer. Precisa ter regra — escrita, aprovada, comunicada a todos os sócios. E precisa ser aplicada de forma consistente, sem exceção baseada em quem é amigo de quem.

Ter vergonha de cobrar

Esse é o mais humano de todos os erros — e o mais prejudicial.

O ambiente do CTG é de amizade, de compadrio, de relação pessoal. Cobrar dinheiro de amigo parece deselegante. Parece que vai estragar a relação.

Mas pensa do outro lado: quando o CTG não tem receita suficiente pra pagar a conta de luz, pra manter o espaço, pra oferecer uma programação decente — quem perde é a peonada toda. Inclusive o sócio inadimplente.

Cobrar mensalidade não é cobrar favor. É garantir que o CTG continue existindo.

O que funciona na prática

Automatizar o lembrete, não a vergonha

O melhor lembrete de mensalidade não é o tesoureiro ligando constrangido. É uma mensagem automática, no começo do mês, com o valor e a forma de pagamento — antes que a dívida comece.

WhatsApp funciona bem pra isso. Uma mensagem padrão, enviada no dia 1º pra todos os sócios ativos, com QR Code do Pix. Simples, sem drama, sem exceção.

Quem paga na hora, ótimo. Quem não paga em 10 dias recebe um lembrete. Quem não paga em 20 dias entra no fluxo de cobrança formal.

Criar categorias de sócio com valores justos

Mensalidade única pra todo mundo raramente é justa. O sócio ativo que usa o espaço toda semana e o sócio que foi uma vez no ano passado têm relações muito diferentes com o CTG.

Categorias possíveis: sócio pleno, sócio jovem, sócio familiar, sócio remoto. Cada um com valor proporcional ao que recebe.

Quem paga menos porque tem menos benefício também tem mais razão pra manter o pagamento em dia. E quem paga mais tem mais razão pra exigir mais do CTG — o que é saudável.

Oferecer desconto pra pagamento anual

Doze mensalidades de R$ 60 dão R$ 720 por ano. Oferece a anuidade por R$ 650 — ou R$ 600 pra quem paga até março.

O CTG recebe o dinheiro de uma vez, melhora o fluxo de caixa e reduz o trabalho de cobrança mensal. O sócio sente que fez um bom negócio. Todo mundo ganha.

Criar benefícios visíveis pra quem está em dia

O sócio inadimplente muitas vezes não percebe que está perdendo nada — porque o CTG não diferencia quem paga de quem não paga.

Muda isso. Desconto progressivo nos eventos pra sócio em dia. Acesso a atividades exclusivas. Prioridade na reserva do espaço. Voto nas assembleias.

Quando estar em dia tem vantagem real e visível, o pagamento vira interesse do sócio — não só obrigação.

Como tratar os casos de dívida antiga

Tem CTGs com sócios que devem dois, três anos de mensalidade. A dívida já é grande demais pra cobrar normalmente — e pequena demais pra levar a sério.

Uma forma que funciona bem: campanha de regularização anual, geralmente no início do ano ou na época da Semana Farroupilha. O sócio que quiser regularizar a situação paga um valor reduzido, sem juros ou multa — e volta pra lista de ativos.

Não é perdoar a dívida. É reconhecer que dívida velha raramente é recuperada integralmente — e que trazer o sócio de volta vale mais do que insistir num valor que nunca vai entrar.

Depois da campanha, os que não regularizaram são formalmente excluídos da lista de sócios — conforme previsto no estatuto. Sem drama, sem perseguição. A regra foi clara, o prazo foi dado, a oportunidade foi oferecida.

O número que precisa estar na cabeça da diretoria todo mês

Antes de qualquer reunião financeira, o tesoureiro deveria informar três números:

Receita potencial: o que entraria se todos os sócios ativos pagassem.

Receita real: o que efetivamente entrou no mês.

Taxa de inadimplência: a diferença entre os dois, em percentual.

Se a taxa de inadimplência está acima de 20%, é sinal de alerta. Se está acima de 30%, é emergência financeira — mesmo que o CTG pareça estar funcionando normalmente.

Esse número simples muda a conversa dentro da diretoria. Deixa de ser "tá sobrando ou faltando?" e passa a ser "qual é a saúde real da nossa receita?"

Uma pergunta pra ti

Quantos sócios o teu CTG tem no papel — e quantos efetivamente pagaram a mensalidade nos últimos três meses?

Se tu não sabes a resposta de cabeça, o tesoureiro precisa montar esse mapa essa semana.

Compartilha com a diretoria financeira do teu CTG. Esse número precisa ser discutido abertamente — sem constrangimento, sem apontar nomes, mas com clareza sobre o que ele significa pra sustentabilidade da entidade.

Confira AQUI nossos artigos sobre Gestão Crioula, como gerir seu CTG 

Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.



sábado, 18 de julho de 2026

Uma breve charla - Copa do mundo desmascara a triste situação de nossa cultura

Uma da primeiras colunas do blog foi esta, Uma Breve Charla. Charla, para quem não conhece é conversa, informal entre amigos. A palavra veio do espanhol (do verbo charlar, que significa conversar), devido à proximidade geográfica e cultural com os países vizinhos hispanofalantes. Aqui já vamos de encontro ao tema de hoje.

O avanço dos nossos "hermanos" argentinos na copa do mundo trouxe a tona um assunto que transcende o futebol e parte para o cultural, inclusive, ao ponto de se transformar em ofensas a honra de pessoas que não às conhece. Não queremos defender ninguém aqui, mas, sempre fui contra rotulagens, pois, ainda somos rotulados aqui no Rio Grande do Sul e são bem ruins que todos conhecem.

A questão que trago aqui, onde um grupo grande de pessoas acusa um país de racista e admite "torcer" a favor de outro igual, vide casos do jogador do Brasil Vinícius Júnior sofrido no país que ele joga, por torcedores do time da mesma cidade que ele mora e este país qual é? ESPANHA. Pera aí, o racismo na Espanha é bom e na Argentina não? Que eu saiba o racismo é uma coisa nojenta em qualquer lugar do mundo.

Então, no momento que tu escolhe tomar um partido e teu partido é o ativismo, tens que manter teus princípios e neste caso específico, é a neutralidade. Inclusive se formos levar ao pé da letra, podemos considerar poucas nações para se torcer e juntamente nesta ótica que temos que tomar partido pelas coisas boas que o país que tu escolheu vai te proporcionar.

Se tu usar o mesmo argumento de não torcer para a Argentina por que lá tem racistas (e esse contexto lá é bem complexo), não torça para Espanha que fez o que citei acima, nem para a França que sua população diz que não são franceses na hora da derrota, a Inglaterra tem restrições à imigrantes, os países árabes do oriente médios e as nações africanas muçulmanas mantém várias restrições ás mulheres, os EUA nem se fala, eles se incomodam com tudo que está fora de seus domínios e por fim o Brasil, que é uma nação que não respeita os negros, mulheres, lgbt's, idosos e nem crianças.

Fica ainda mais constrangedor, quando algum Rio-Grandense que se diz Gaúcho cita o absurdo de dizer que não torce para a Argentina por que são racistas, a origem de nossa cultura tem a mesma base da cultura Argentina e Uruguaia e certamente em ambos os países tem determinado tipo de gente que não vale a pena citar, porém, como tudo na vida não devemos generalizar nada.

O preconceito existe, estrutural na Argentina com certeza, como citei, lá é bem mais complexo e um caso a ser estudado, pois, a origem é a mesma do Gaúcho das banda de cá, com traços e genética indígena, europeia  espanhola e africana, porém, lá a política de clarear a população para parecer europeia partiu de políticas de governo e de muito tempo, inclusive com a finalidade de acabar com os traços africanos de sua população. A conclusão que chegamos com isso é de que o racismo é sim evidente na Argentina, que não devemos generalizar o povo em geral e sua cultura e também não esquecer dos absurdos que acontecem do lado de cá, tanto questões raciais, étnicas e de gênero, e aí vem a copa mais demagoga de todos os tempo e aflora demagogos em tudo que é canto, inclusive meus compatriotas Gaúchos.


domingo, 28 de junho de 2026

Gestão Crioula - Troca de Patrão: o momento mais perigoso para um CTG

Puxa o chimarrão. Esse assunto é sério — e pouco falado. Imagina a seguinte cena.

O Patron de um CTG passou oito anos à frente da entidade. Construiu coisas importantes, fez eventos memoráveis, manteve o galpão de pé em momentos difíceis. É uma figura respeitada, querida pela peonada.

Chega a hora da troca. A eleição acontece, o novo Patrão toma posse, tem festa, tem discurso, tem emoção.

Aí começa a semana seguinte. O novo Patrão não sabe a senha do banco. Não sabe onde estão guardados os contratos com os fornecedores. Não sabe quais contas vencem no mês seguinte. Não sabe o que ficou pendente da gestão anterior. O antigo Patrão viajou, ficou magoado com algo no processo eleitoral, ou simplesmente foi embora achando que seu trabalho estava feito.

E o CTG, que parecia tão sólido, começa a revelar suas fragilidades — uma por uma.

Isso não é exceção. É regra.

Por que a troca de Patrão é o momento mais perigoso

Um CTG pode atravessar anos de gestão mediana sem grandes consequências. As atividades seguem, os eventos acontecem, a invernada ensaia. O barco vai andando.

Mas a troca de liderança é o momento em que todas as fragilidades aparecem ao mesmo tempo.

O conhecimento que estava na cabeça do Patrão anterior vai embora com ele. Os relacionamentos que ele mantinha com fornecedores, autoridades e parceiros precisam ser reconstruídos do zero. A diretoria nova chega cheia de energia mas sem contexto. E as pendências da gestão anterior — financeiras, jurídicas, operacionais — caem no colo de quem ainda está aprendendo onde fica a chave do depósito.

É nesse momento que CTGs perdem sócios, cancelam eventos, entram em conflito interno e, nos casos mais graves, fecham as portas.

Não por falta de amor à tradição. Por falta de processo.

O que costuma se perder na troca?

Quando não existe um protocolo formal de transição, o que vai embora com o Patrão sainte é mais do que qualquer pessoa imagina:

Informações financeiras: saldo real das contas, dívidas em aberto, inadimplências de sócios, contratos com vencimento próximo, acordos informais com fornecedores.

Acesso digital: senha do banco, e-mail institucional, perfis de redes sociais, sistemas de controle de sócios, grupos de WhatsApp de lideranças.

Documentos físicos: contratos originais, escritura do imóvel, CNPJ, alvarás, livro de atas, apólices de seguro.

Relacionamentos: o nome do contador que presta serviço há dez anos mas nunca assinou contrato, o fornecedor de bebidas que dá prazo especial porque conhece o Patrão pessoalmente, o vereador que sempre ajudou com demandas da entidade.

Contexto: os projetos que estavam em andamento, as negociações que estavam acontecendo, os conflitos internos que estavam sendo gerenciados, os compromissos assumidos em nome do CTG.

Tudo isso some — ou fica fragmentado na memória de pessoas diferentes — quando a transição não é formalizada.

O problema do "Patrão eterno"

Existe outro cenário, menos falado mas igualmente perigoso: o CTG que nunca troca de Patrão.

Não porque o estatuto proíbe a renovação — mas porque ninguém tem coragem de disputar com quem está há quinze, vinte anos. Ou porque o estatuto não define prazo de mandato, e a situação se naturaliza.

O Patrão que ficou tempo demais, por melhor que seja, cria um problema estrutural: o CTG passa a depender de uma única pessoa para funcionar. Ele conhece tudo, decide tudo, resolve tudo. E enquanto ele está bem e motivado, o CTG vai bem.

Mas ninguém fica bem e motivado para sempre.

Quando essa pessoa adoece, se cansa, ou decide que chegou a hora — o vazio que ela deixa é proporcional ao tempo que ficou. E aí o CTG não tem só um problema de transição. Tem um problema de sobrevivência.

Mandato com prazo definido não é desrespeito ao Patrão. É proteção ao CTG.

O que uma boa transição parece na prática?

Não é burocracia. É respeito pelo trabalho construído e pela entidade que vai continuar.

Uma transição bem feita tem três fases:

Fase 1 — Preparação (60 a 90 dias antes do fim do mandato)

O Patrão sainte começa a organizar o que vai entregar. Levanta os documentos, anota as senhas, lista os contratos vigentes, registra as pendências. Não precisa de ninguém mandando — precisa de cultura de transição instalada na entidade.

Fase 2 — Sobreposição (30 dias)

Idealmente, o Patrão eleito e o Patrão sainte trabalham juntos por um período. Reuniões com fornecedores, visitas a parceiros, explicação dos sistemas. O novo aprende vendo o antigo operar — não lendo um papel frio.

Fase 3 — Entrega formal (dia da posse)

Existe um documento assinado — o Kit de Passagem de Gestão — que registra formalmente o que foi entregue. Saldos, senhas, contratos, pendências. Assinado pelos dois. Arquivado na secretaria.

Simples assim. Mas muda tudo.

O Kit de Passagem de Gestão

Esse documento não precisa ter mais de duas páginas. O que importa é que exista e seja assinado.

O conteúdo mínimo:

Saldo em conta corrente e poupança na data da posse

Lista de dívidas e compromissos financeiros em aberto

Lista de contratos vigentes com fornecedores e prestadores

Inventário resumido de patrimônio (bens, equipamentos, imóvel)

Acesso digital: senhas e logins transferidos formalmente

Documentos entregues: estatuto, escritura, CNPJ, alvarás, livro de atas

Projetos em andamento e seu estado atual

Pendências que precisam de atenção imediata

Assinatura do Patrão sainte e do Patrão entrante com data

Guarda uma cópia na secretaria. Guarda outra no arquivo físico. Se tiver nuvem, guarda lá também.

Como colocar isso no estatuto?

A melhor forma de garantir que a transição aconteça é torná-la obrigatória. Não depender da boa vontade de cada gestão — mas exigir formalmente no estatuto e no regimento interno.

Algumas cláusulas simples resolvem:

Prazo de mandato definido: dois ou três anos, com possibilidade de reeleição por mais um mandato. Depois, obrigatório ceder espaço.

Prazo de transição: o estatuto pode exigir que o Patrão anterior colabore com a transição por 30 dias após a posse do novo.

Entrega formal documentada: previsão de que a posse só é concluída após a entrega do Kit de Passagem assinado.

Nada disso é revolucionário. É gestão básica — do tipo que qualquer empresa, prefeitura ou associação séria já pratica.

Uma última coisa sobre o Patrão sainte. Existe um aspecto humano aqui que não pode ser ignorado.

Quem passou anos dedicando energia, tempo e muitas vezes dinheiro do próprio bolso ao CTG merece um encerramento digno. Uma posse bem conduzida, um reconhecimento público do trabalho feito, um espaço de honra na memória da entidade.

O Conselho de Patronagem existe exatamente pra isso — pra que o ex-Patrão não sinta que foi descartado, mas que foi elevado a uma nova função: a de guardar a memória e orientar quem vem depois.

Quando a saída é honrada, a transição é mais fácil. Quando o Patrão sainte sente que vai ser esquecido, ele inconscientemente retém informações, dificulta o processo, ou simplesmente desaparece levando consigo o que só ele sabia.

Cuidar da saída é tão importante quanto cuidar da chegada.

Uma pergunta pra ti

Se o Patrão do teu CTG fosse embora amanhã — por qualquer motivo — alguém saberia onde estão as senhas do banco, os contratos e os documentos?

Se a resposta hesitou, já sabes o que precisa ser feito.

Compartilha esse post com a diretoria. Não espera a troca chegar pra organizar o que deveria estar pronto hoje.

Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.



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quinta-feira, 18 de junho de 2026

O dia em que o Rio Grande enfrentou o Brasil

Quando o orgulho gaúcho vestiu a mesma camiseta

Há partidas que valem mais que um título. Há jogos que entram para a história porque representam um povo.

E talvez nenhum jogo represente tão bem o orgulho gaúcho quanto aquele 17 de junho de 1972, quando a Seleção Gaúcha entrou no gramado do Beira-Rio para enfrentar a poderosa Seleção Brasileira.

Não era apenas um amistoso. Era o Rio Grande do Sul defendendo sua identidade. Era um estado inteiro mostrando que, antes de tudo, era gaúcho.

Naquele dia, Grêmio e Internacional deixaram de lado uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro para vestir a mesma camiseta.

O adversário era nada menos que a Seleção Brasileira, tricampeã do mundo apenas dois anos antes, dona de craques como Rivellino, Jairzinho, Clodoaldo, Leão e Paulo César Caju.

Mas para os gaúchos isso pouco importava. O sentimento era outro.

O Rio Grande queria respeito.

A origem da revolta gaúcha

Tudo começou quando o técnico Zagallo deixou de convocar Everaldo para a Taça Independência de 1972.

O detalhe é que Everaldo não era um jogador qualquer. Era o lateral-esquerdo titular da Seleção Brasileira campeã do mundo em 1970.

O único gaúcho daquele time histórico. Para muitos torcedores, dirigentes e jornalistas do Rio Grande do Sul, a ausência foi interpretada como uma injustiça.

Rapidamente surgiu uma ideia ousada: Se a Seleção Brasileira não valorizava os jogadores gaúchos, que viesse enfrentar o futebol gaúcho dentro da sua própria casa.

E assim nasceu a Seleção Gaúcha.

Um estado inteiro contra o Brasil

Os relatos da época parecem exagerados. Mas não são.

Mais de 100 mil pessoas lotaram o Beira-Rio. O estádio transformou-se em um mar vermelho, verde e amarelo do Rio Grande. Bandeiras gaúchas dominavam as arquibancadas.

Segundo jogadores da Seleção Brasileira, praticamente não havia bandeiras do Brasil.

O ambiente era tão intenso que alguns atletas brasileiros disseram ter a sensação de estar jogando em outro país.

Para compreender aquele momento é preciso entender o espírito do povo gaúcho.

O Rio Grande do Sul sempre cultivou forte identidade própria.

A história farroupilha, a formação fronteiriça, a cultura campeira e o tradicionalismo criaram um sentimento de pertencimento raro no país.

Naquele dia, esse sentimento ganhou forma dentro de um estádio.

O jogo que entrou para a eternidade

A Seleção Gaúcha reuniu jogadores da dupla Gre-Nal.

O Brasil trouxe praticamente sua força máxima.

Logo no início, Tovar abriu o placar para os gaúchos. Jairzinho empatou.

Carbone colocou os gaúchos novamente na frente. Paulo César Caju empatou.

Claudiomiro marcou o terceiro gol gaúcho. E Rivellino decretou o empate em 3 a 3.

O resultado oficial foi empate. Mas no coração dos torcedores, a sensação era outra.

O Rio Grande havia provado que podia enfrentar de igual para igual o melhor futebol do planeta.

Muito mais que futebol

Aquele confronto tornou-se um símbolo cultural. Representava algo maior que um simples placar.

Era a demonstração de que o povo gaúcho valorizava sua história, seus atletas e sua identidade.

Talvez por isso o jogo continue sendo lembrado mais de cinquenta anos depois.

Não foi apenas Grêmio e Inter unidos. Foi o Rio Grande unido.

Algo raro. Algo histórico.

A Seleção Gaúcha voltou em 1978

Seis anos depois, a história quase se repetiu.

Antes da Copa do Mundo da Argentina, a Seleção Gaúcha voltou a enfrentar a Seleção Brasileira.

O jogo terminou empatado em 2 a 2.

Mais uma vez houve polêmica, reclamações da torcida e a sensação de que os jogadores gaúchos mereciam maior reconhecimento nacional.

Entre os destaques estavam nomes como Falcão, Tarciso e Éder.

E o que aconteceu com a Seleção Gaúcha?

Com o passar dos anos, a Seleção Gaúcha deixou de existir como equipe permanente.

O crescimento do calendário nacional, a profissionalização do futebol e a falta de datas inviabilizaram novos confrontos.

Hoje ela sobrevive apenas na memória dos torcedores e nos registros históricos. Mas sua importância permanece.

Porque a Seleção Gaúcha nunca foi apenas um time. Foi uma ideia.

A ideia de que o Rio Grande do Sul possui identidade própria, cultura própria e uma forma única de enxergar o mundo.

Um legado que continua vivo

Mais de meio século depois, aquele empate continua sendo contado de geração em geração.

Pais contam aos filhos. Avós contam aos netos. Os jornais antigos viraram relíquias. As fotografias viraram documentos históricos.

E o orgulho continua o mesmo. Talvez porque aquele jogo tenha mostrado algo que os gaúchos já sabiam: o Rio Grande do Sul sempre foi parte do Brasil.

Mas nunca deixou de ser, acima de tudo, Rio Grande.

E naquele 17 de junho de 1972, por noventa minutos, o Rio Grande inteiro entrou em campo.

Seleção Gaúcha de 1972


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domingo, 7 de junho de 2026

Destinos do RS - Gramado — a Pequena Europa da Serra Gaúcha

Existem destinos que precisam de apresentação — e existem destinos que já chegam no imaginário de qualquer brasileiro com imagem, cheiro e temperatura definidos. Gramado é um deles. Quando se fala o nome, todo mundo já sente o frio, já vê as luzes de Natal refletindo na neve artificial, já sente o cheiro de chocolate artesanal saindo de uma loja de fachada enxaimel na Avenida Borges de Medeiros.

Mas por trás dessa imagem turística perfeita há uma história de 150 anos de imigração, trabalho duro, identidade cultural e uma cidade que decidiu, deliberadamente, se tornar o que é — sem abrir mão das raízes que a fundaram.

Este é o post do Entrevero Xucro sobre Gramado. Não o roteiro de agência de viagem — mas a história da cidade, de verdade.

Gramado em números

Localização: Serra Gaúcha — Região das Hortênsias, RS

Distância de Porto Alegre: 120 km

Distância de Caxias do Sul: 68 km

Altitude: 825 metros acima do nível do mar

Temperatura média: Mínima 8°C / Máxima 22°C

Temperatura mínima: Abaixo de 0°C — neve esporádica

Classificação: Destino Categoria A — Ministério do Turismo

Vizinha famosa: Canela — 7 km

1875 — tropeiros, imigrantes e o começo de tudo

A colonização de Gramado começa em 1875, quando os primeiros portugueses se instalam na Serra Gaúcha. Cinco anos depois chegam os alemães e, logo em seguida, os italianos — que já haviam adotado a vizinha Caxias do Sul como lar.

Nessa época, o gado era de extrema importância para a economia local. Os tropeiros passavam pela região e adotaram o local como um posto de descanso. Era a mesma lógica que fundou tantas cidades gaúchas — o caminho do gado criando o caminho do povo.

A formação de Gramado está diretamente ligada à presença de imigrantes alemães e italianos, que influenciaram a culinária, a arquitetura, as tradições religiosas e o estilo de vida da região serrana. Os alemães trouxeram o estilo enxaimel — paredes de madeira com estrutura aparente, telhados inclinados, janelas floridas. Os italianos trouxeram a gastronomia, a religiosidade e o temperamento animado. Os portugueses trouxeram a língua e a base administrativa. E o Rio Grande do Sul trouxe o chimarrão, o galpão e a alma gaúcha que atravessa tudo.

O resultado dessa mistura é único no Brasil — e foi exatamente essa singularidade que transformou Gramado no que é hoje.

Como Gramado se tornou a potência do turismo brasileiro

A partir da década de 1920, o potencial turístico começou a ser descoberto. As belezas naturais, como os vales, rios e montanhas, aliadas ao clima europeu e à arquitetura típica, atraíram cada vez mais visitantes. A consolidação de Gramado como destino turístico ocorreu principalmente após a década de 1950, quando a cidade passou a investir na infraestrutura turística, desenvolvendo hotéis, restaurantes, parques temáticos e festivais, tudo com um toque europeu que remetia à origem dos colonizadores.

O grande salto veio com uma decisão consciente e coletiva dos moradores e do poder público: transformar a identidade cultural europeia num produto turístico de qualidade — sem perder a autenticidade. Gramado não imitou a Europa. Gramado é o que os europeus que chegaram aqui construíram com as próprias mãos, ao longo de gerações, numa serra do sul do Brasil.

Hoje Gramado é o maior destino turístico do Rio Grande do Sul, com vários parques temáticos, incluindo a Aldeia do Papai Noel, o Snowland e o Mini Mundo. E é reconhecida pelo Ministério do Turismo como Destino Categoria A — um dos apenas 54 municípios do Brasil nessa classificação.

Os grandes eventos — o calendário que move o Brasil

Gramado não tem apenas uma temporada. Tem um evento para cada estação — e cada um deles é, no seu segmento, o maior ou um dos maiores do Brasil.

🎄 Natal Luz — outubro a janeiro

O Natal Luz é a joia da coroa. É o motor de Gramado, atraindo milhões de visitantes de outubro a janeiro — a temporada de ouro para o turismo da cidade. Desfiles temáticos na Avenida Borges de Medeiros, espetáculos de luz e som, decoração que transforma toda a cidade num cenário de conto de fadas, apresentações artísticas, mercado de Natal europeu e, em 2025, pela primeira vez na história do evento, um espetáculo com 1.100 drones sincronizados iluminando o céu logo após o Grande Desfile de Natal.

É o maior evento natalino do Brasil — e talvez o mais fotografado.

🐣 Choco Páscoa — março e abril

Durante a Choco Páscoa, Gramado ganha ainda mais cor, doçura e magia. Reconhecida nacionalmente pelo chocolate artesanal, a cidade se transforma em um cenário lúdico, com decoração temática, apresentações artísticas e atividades pensadas para encantar crianças e adultos. Junto ao Choco Páscoa acontece o Gramado Aleluia — com procissões, celebrações religiosas e uma programação que une fé e tradição.

🎬 Festival de Cinema de Gramado — agosto

O evento mais tradicional do cinema brasileiro transforma Gramado em palco de grandes estreias, debates e encontros entre artistas, críticos e profissionais do audiovisual. O clima de glamour toma conta do Palácio dos Festivais e da Rua Coberta, atraindo olhares de todo o país.

Fundado em 1973, o Festival de Cinema de Gramado é o mais antigo festival de cinema do Brasil em atividade — e um dos mais importantes da América Latina. Tapete vermelho, troféu Kikito, estrelas do cinema nacional e internacional e uma cidade que para para celebrar a sétima arte.

🌾 Festa da Colônia — abril e maio

A Festa da Colônia é onde Gramado mostra o que é antes de ser destino turístico — a cidade que existe debaixo da cidade para turistas. A celebração reúne culinária típica, produtos coloniais, apresentações culturais e música, promovendo uma conexão especial entre os produtores rurais e o público. É o evento mais autêntico de Gramado — e um dos mais subestimados pelos turistas que só conhecem o Natal Luz.

🎵 Gramado in Concert — verão

O Gramado in Concert transforma a cidade em um grande palco, reunindo apresentações de orquestras e bandas. Além dos concertos, o evento mantém sua vocação pedagógica, promovendo intercâmbio cultural e oportunidades de aprendizado para jovens músicos de diversas regiões do Brasil.

💡 Gramado Summit — maio

A Gramado Summit 2026 acontece de 6 a 8 de maio, no Serra Park — das 8h às 20h. Um dos maiores eventos de inovação e empreendedorismo do Brasil, que transforma a cidade num polo de negócios e tecnologia por três dias intensos.

🏨 FESTURIS — novembro

O FESTURIS Gramado 2026 acontece de 12 a 15 de novembro, consolidando-se como um dos maiores e mais efetivos eventos de negócios turísticos das Américas.

As belezas naturais — o que existe além dos eventos

Gramado não precisa de eventos para ser bonita. A natureza da Serra Gaúcha faz boa parte do trabalho.

Lago Negro — lago artificial cercado por araucárias e árvores importadas da Floresta Negra alemã. Um dos cenários mais fotografados do RS. Pedalinhos, caminhadas na beira e aquela névoa da manhã que torna tudo cinematográfico.

Hortênsias — a flor símbolo da cidade cobre ruas, jardins e encostas de azul, lilás, branco e rosa de outubro a março. A Região das Hortênsias não tem esse nome por acaso.

Vale do Quilombo — área de mata nativa, cachoeiras e trilhas — a Gramado que o turista apressado não vê.

Mini Mundo — réplicas em miniatura dos monumentos mais famosos do mundo, num jardim cuidado com precisão alemã. Mais de 1,5 milhão de visitantes por ano.

Snowland — o único parque de neve indoor do Brasil. Neve real, pistas de ski, snowboard e trenó — tudo a 825 metros de altitude na Serra Gaúcha.

Chocolate artesanal — Gramado tem mais fábricas de chocolate artesanal por quilômetro quadrado do que qualquer outra cidade brasileira. A visita às fábricas — com degustação — é programa obrigatório.

Canela — a irmã encantada a 7 km

Quem vai a Gramado e não vai a Canela está perdendo metade da viagem. As duas cidades são vizinhas, complementares e juntas formam o roteiro mais completo da Serra Gaúcha.

Canela tem sua própria identidade: mais tranquila, com preços um pouco mais acessíveis e atrações naturais que Gramado não tem. O Parque do Caracol — com a Cascata do Caracol, queda d'água de 131 metros de altura em meio à mata nativa — é uma das imagens mais icônicas do RS. A Catedral de Pedra, no centro da cidade, é um dos cartões-postais mais fotografados do sul do Brasil. O Parque da Ferradura, a Ferradura (formação rochosa com vista para o cânion), e o Mundo a Vapor completam um roteiro que se estende facilmente por dois ou três dias além de Gramado.

Quando ir a Gramado

Julho: Pico do inverno — frio intenso, chance de neve, alta temporada, hotéis lotados

Out–Jan: Natal Luz — a temporada mais visitada do ano

Mar–Abr: Choco Páscoa — chocolate, decoração e clima ameno

Agosto: Festival de Cinema — glamour e cultura no auge

Mai–Jun: Baixa temporada — preços até 40% menores, cidade mais tranquila, folhagem de outono

Já foste a Gramado?

Conta nos comentários qual foi a tua melhor memória da cidade. E se ainda não foste — vai. O Rio Grande do Sul tem pampa, tem Missões, tem litoral, tem serras. E tem Gramado, que é um capítulo à parte na história do estado.

Clica aqui e confira outras atrações de Gramado. 

Acompanha o Entrevero Xucro para mais destinos e cultura gaúcha — toda semana no blog e nas redes sociais.

Igreja São Pedro - Catedral de Gramado: Inaugurada em 1942, é uma das maiores demonstrações de religiosidade da comunidade. 

Palácio dos Festivais: local onde é a escolha do Kikito, um dos principais festivais de cinema no Brasil.


Fonte do Amor eterno, mais uma atração romântica de Gramado 


quarta-feira, 3 de junho de 2026

O adeus ao último Tronco Missioneiro e o legado eterno dos quatro pilares da cultura missioneira

400 anos das Missões e o silêncio da última voz

O ano de 2026 ficará marcado para sempre na história do Rio Grande do Sul.

É o ano em que celebramos os 400 anos do início das Missões Jesuítico-Guaranis, um dos acontecimentos mais importantes da formação cultural do Sul da América. Também foi o ano em que a cultura missioneira perdeu sua última grande voz viva.

No dia 29 de maio de 2026, partiu Pedro Ortaça, aos 83 anos, encerrando definitivamente a trajetória dos chamados Troncos Missioneiros. Com sua morte, desaparece o último representante de um grupo de artistas que transformou a música regional gaúcha e levou a identidade missioneira para todos os cantos do Brasil.

Mas quem foram os Troncos Missioneiros?

Por que seus nomes são reverenciados como patrimônio cultural do Rio Grande do Sul?

E por que sua obra continua tão atual?

Para entender isso, é preciso voltar no tempo.

Os 400 anos das Missões: onde nasceu uma parte da alma gaúcha

Em 1626 teve início a formação das primeiras reduções jesuítico-guaranis na região missioneira.

Ali surgiu uma das experiências culturais mais singulares da América do Sul: a convivência entre os povos guaranis e os missionários jesuítas.

Durante mais de um século, foram construídos povoados, igrejas, oficinas, escolas, centros musicais e comunidades que deixaram marcas profundas na identidade regional.

As Missões não pertencem apenas ao passado.

Elas vivem na linguagem, na música, na religiosidade, nos costumes, na culinária e na forma de ser do povo missioneiro.

Quatro séculos depois, seu legado continua inspirando artistas, pesquisadores e comunidades inteiras. Em 2026, diversas atividades culturais e educativas passaram a celebrar esse patrimônio histórico que ajudou a formar o Rio Grande do Sul.

O que foram os Troncos Missioneiros?

O nome Troncos Missioneiros surgiu para identificar quatro artistas que transformaram a cultura das Missões em poesia, música e identidade.

Eles não formavam um grupo musical tradicional.

Eram amigos, contemporâneos e representantes de uma mesma raiz cultural.

Cada um possuía estilo próprio, mas todos carregavam a mesma missão: dar voz ao povo missioneiro.

Os quatro troncos foram:Jayme Caetano Braun, Noel Guarany, Cenair Maicá e Pedro Ortaça

Juntos, ajudaram a criar uma nova estética para a música regional gaúcha, valorizando a história missioneira, o povo guarani, a crítica social e a identidade regional.

Jayme Caetano Braun: o payador das Missões

Nascido em 1924, em Bossoroca, Jayme Caetano Braun tornou-se um dos maiores payadores da história do Rio Grande do Sul.

Foi poeta, declamador, radialista e pesquisador da cultura gaúcha.

Sua obra ajudou a preservar expressões, histórias e valores do homem do campo.

Principais obras:

Galpão de Estância

Payadas

Trovas ao Vento

Diversos livros e discos de poesia

Representatividade: Jayme foi o grande intelectual do tradicionalismo missioneiro. Sua voz levou a poesia gaúcha para rádios, festivais e palcos de todo o Brasil.

Legado: Transformou a payada em patrimônio cultural e inspirou gerações de declamadores e poetas.

Noel Guarany: a voz rebelde das Missões

Nascido em 1941, em Bossoroca, Noel Guarany foi cantor, compositor e uma das figuras mais autênticas da música regional.

Defensor das causas populares, criticava injustiças sociais e exaltava a identidade missioneira.

Principais obras:

Destino Missioneiro

Romance da Tafona

Canto dos Livres

Canções sobre Sepé Tiaraju e os povos missioneiros

Representatividade: Noel foi um símbolo de independência artística.

Recusou seguir padrões comerciais e tornou-se referência para o movimento nativista.

Legado: Mostrou que a música regional poderia ser profunda, crítica e universal sem perder suas raízes.

Cenair Maicá: o poeta da alma missioneira

Nascido em 1947, em Tucunduva, mas profundamente identificado com a região missioneira, Cenair Maicá tornou-se uma das vozes mais emocionantes do cancioneiro gaúcho.

Sua obra aproximou o universo indígena, a natureza e a espiritualidade da música regional.

Principais obras:

Canto dos Livres

Rio Missioneiro

Canções dedicadas aos guaranis e às Missões

Representatividade: Foi um dos artistas que melhor traduziu a sensibilidade missioneira em música.

Legado: Sua obra permanece como uma ponte entre o passado indígena e a identidade contemporânea das Missões.

Pedro Ortaça: a última voz do Tronco Missioneiro

Nascido em São Luiz Gonzaga, Pedro Ortaça dedicou sua vida à preservação da cultura missioneira.

Foi cantor, compositor, pesquisador e guardião da memória regional.

Principais obras:

Timbre de Galo

Bailanta do Tibúrcio

Guasca

Queixo Duro

Pena Guarany

Representatividade: Pedro tornou-se o maior embaixador vivo das Missões nas últimas décadas.

Sua carreira foi marcada pela defesa da história missioneira e pela valorização das raízes guaranis.

Legado: Com sua partida, encerra-se a presença física dos Troncos Missioneiros.

Mas sua obra permanece viva em cada festival, cada galpão e cada roda de mate onde a cultura missioneira continua sendo celebrada.

Muito além da música

Os Troncos Missioneiros não cantavam apenas canções.

Eles contavam histórias. Preservavam memórias. Defendiam identidades.

Mostravam que o Rio Grande do Sul não nasceu apenas das guerras e das estâncias, mas também das reduções jesuítico-guaranis, dos povos indígenas e da rica herança cultural das Missões.

Quando um tronco cai, a floresta continua viva

A morte de Pedro Ortaça representa o fim de uma geração. Mas não representa o fim de seu legado.

Os Troncos Missioneiros ajudaram a construir uma consciência cultural que atravessa gerações.

Em pleno ano dos 400 anos das Missões, sua mensagem parece ainda mais atual.

Enquanto existirem pessoas cantando suas músicas, lendo seus versos, contando suas histórias e valorizando a cultura missioneira, eles continuarão vivos.

Porque alguns homens não pertencem apenas ao seu tempo. Pertencem à eternidade.

E os Troncos Missioneiros já fazem parte dela.

Imagem: URI São Luiz Gonzaga representando os 4 Troncos Missioneiros 


sábado, 30 de maio de 2026

Biografia Gaúcha: Pedro Ortaça — A voz Missioneira

O Rio Grande do Sul perdeu nesta semana uma de suas maiores referências culturais. Faleceu, aos 83 anos, o cantor, compositor e violonista Pedro Ortaça, considerado um dos maiores defensores da identidade missioneira e um dos pilares da música regional gaúcha. Sua partida encerra um capítulo histórico da cultura sul-rio-grandense, mas deixa um legado impossível de apagar.

Das Missões para o Rio Grande

Pedro Marques Ortaça nasceu em 29 de junho de 1942, em São Luiz Gonzaga, coração da região missioneira. Desde cedo carregou na voz e no violão a história de seu povo, transformando a cultura das Missões em música, poesia e resistência cultural.

Ao longo de décadas, tornou-se uma das vozes mais autênticas do regionalismo gaúcho, mantendo viva a memória dos Sete Povos das Missões, dos costumes campeiros, da influência guarani e da vida simples do homem da fronteira. Sua obra sempre caminhou longe dos modismos, preservando a essência da cultura missioneira.

Os Troncos Missioneiros

Falar de Pedro Ortaça é falar dos lendários Troncos Missioneiros.

Ao lado de Jayme Caetano Braun, Noel Guarany e Cenair Maicá, ajudou a construir uma nova identidade para a música regional do Rio Grande do Sul. O grupo ficou conhecido por valorizar a história missioneira, a cultura guarani, os ritmos de fronteira e também por trazer reflexões sociais em suas composições.

Com a morte de Pedro Ortaça, encerra-se simbolicamente a geração dos Troncos Missioneiros, que marcou profundamente a música gaúcha a partir das décadas de 1970 e 1980.

As Canções que Viraram Patrimônio Cultural

Entre suas obras mais conhecidas estão clássicos como:

"Timbre de Galo"

"Bailanta do Tibúrcio"

"Companheira"

"Guasca"

"Ronco da Oito Baixos"

"Queixo Duro"

"Lobisome Esperto"

"Correndo Pelado"

Suas músicas não eram apenas entretenimento. Eram relatos do povo missioneiro, da vida campeira, da cultura fronteiriça e da história de uma região que ajudou a formar a identidade do Rio Grande do Sul.

Reconhecimento em Vida

Pedro Ortaça teve a rara felicidade de receber importantes homenagens ainda em vida.

Foi agraciado como Mestre da Cultura Popular Brasileira e recebeu títulos de Doutor Honoris Causa concedidos por universidades gaúchas em reconhecimento à sua contribuição para a preservação da cultura regional. Em março de 2026, foi homenageado pela uergs.edu.br⁠� juntamente com os demais Troncos Missioneiros, em um ato considerado histórico para a cultura das Missões.

O Último Tronco

Nos últimos anos, Pedro tornou-se o último representante vivo dos Troncos Missioneiros. Mesmo enfrentando problemas de saúde, continuou levando sua arte adiante e mantendo viva a chama da música missioneira. Seu último trabalho foi a canção "Pena Guarany", gravada ao lado do filho Gabriel Ortaça, mostrando que sua paixão pela cultura jamais diminuiu.

Um Legado que Não Morre

Pedro Ortaça não foi apenas um cantor.

Foi guardião da memória missioneira.

Foi ponte entre gerações.

Foi um contador das histórias do nosso povo.

Sua voz carregava a força do Rio Uruguai, a saudade das reduções, o som das guitarras missioneiras e o orgulho de ser gaúcho.

O Rio Grande se despede do homem.

Mas a cultura gaúcha seguirá encontrando Pedro Ortaça em cada roda de mate, em cada violão missioneiro e em cada verso que lembrar quem somos e de onde viemos.

Porque existem artistas que fazem sucesso.

E existem artistas que viram patrimônio.

Pedro Ortaça foi um deles.

Obrigado por tudo, velho missioneiro.

"Enquanto houver um gaúcho cantando as Missões, tua voz seguirá viva pelos campos do Rio Grande." 🌾🎶

📍 Pedro Ortaça (1942–2026)

Último Tronco Missioneiro. Um dos maiores nomes da história da música gaúcha.