sábado, 23 de maio de 2026

Por que os jovens estão saindo dos Gestão Crioula. CTGs — e o que fazer pra mudar isso

 Esse é um assunto que dói. Mas precisa ser dito.

Entra num CTG numa sexta à noite. Olha em volta. Conta mentalmente as faixas etárias.

Na maioria das entidades que conheço, a conta é mais ou menos essa: muita gente entre 40 e 70 anos, alguns entre 30 e 40, e uma faixa de 15 a 25 que aparece pra ensaiar na invernada — mas que raramente vira sócio de verdade, raramente assume cargo, raramente se sente dono do espaço.

E quando a invernada termina a temporada de competição, parte dessa gurizada simplesmente some.

Não é por falta de amor à tradição. A maioria cresceu no galpão, foi criança no CTG, aprendeu a dançar ali. O problema é outro.

O que os jovens dizem quando saem

Quando alguém se dá ao trabalho de perguntar — e poucos CTGs perguntam — as respostas que aparecem são sempre parecidas:

"Não me sinto parte das decisões."

"As reuniões são longas e nada muda."

"Parece que o espaço é dos mais velhos."

"Quando eu sugeria algo, a resposta era sempre 'aqui sempre foi assim'."

"Não tem nada pensado pra minha faixa etária fora dos ensaios."

Repara: nenhuma dessas respostas fala que a tradição é chata, que o CTG não presta, que a cultura gaúcha não tem valor. O jovem não está rejeitando a identidade gaúcha. Ele está rejeitando uma estrutura que não abre espaço pra ele.

E aí está a distinção que muda tudo.

O problema é de gestão, não de geração

É muito fácil — e muito confortável — dizer que "a juventude de hoje não tem mais interesse pela tradição" ou que "o celular matou a cultura gaúcha".

Mas os CTGs que têm invernadas cheias, que renovam diretoria com sangue novo, que atraem famílias jovens — esses CTGs existem. Não são maioria, mas existem.

O que eles fazem de diferente?

Quase sempre a resposta é gestão. Não magia, não sorte, não localização privilegiada. Escolhas concretas de como o CTG é administrado.

Os 4 erros que afastam os jovens

1. Não ter nada pensado para eles fora da invernada

A invernada é a porta de entrada. O jovem entra aos 10, 12, 15 anos pra dançar. Aprende, se desenvolve, compete. Isso é lindo.

Mas quando ele para de competir — por idade, por trabalho, por faculdade — o que o CTG oferece pra esse jovem adulto de 22, 25 anos?

Na maioria dos CTGs: nada. Não há programação, não há espaço, não há função.

O galpão que foi tão importante na infância vira um lugar que "não é mais pra mim".

2. Não envolver os jovens nas decisões

Diretoria formada por pessoas acima dos 50 anos. Reuniões onde os mais novos ficam quietos porque "não têm experiência". Sugestões de modernização — comunicação digital, formas de pagamento, programação — vetadas sem discussão.

O jovem que se sente invisível nas decisões não vira sócio engajado. Vira frequentador eventual, quando muito.

3. Falar só pra quem já está dentro

A comunicação da maioria dos CTGs é voltada pra quem já frequenta. O Instagram posta foto do evento de sábado — mas quem não foi, não entende o contexto, não se sente convidado a ir na próxima.

Jovem que não cresceu no CTG não tem motivo pra entrar se nada comunica pra ele. E jovem que cresceu no CTG mas se afastou também não recebe nenhum sinal de que seria bem-vindo de volta.

4. Não ter programa de sócio jovem com valor percebido

"Por que eu vou pagar mensalidade se não uso o espaço o mês todo?"

Essa é a pergunta que o jovem faz — e que poucos CTGs sabem responder. A mensalidade precisa ter contrapartida clara: acesso a eventos, desconto no ingresso, espaço pra uso, atividades exclusivas.

Quando o sócio jovem não enxerga o que está pagando, ele cancela. Simples assim.

O que os CTGs que acertam fazem diferente

Não é necessário reinventar a tradição. É necessário reinventar a gestão de quem participa dela.

Criam um departamento jovem com autonomia real. Não é um grupo decorativo que pede autorização pra tudo. É um espaço onde os jovens de 18 a 35 anos organizam atividades, gerem orçamento próprio e respondem pelos resultados.

Reservam cadeiras na diretoria para pessoas jovens. Formalmente, no estatuto. Não como gesto simbólico — como obrigação institucional.

Criam programação além dos ensaios. Encontros de chimarrão, noites de cinema gaúcho, saraus nativistas, grupos de caminhada a cavalo, torneios esportivos. Atividades que têm a identidade gaúcha mas cabem na rotina de quem tem 25 anos.

Comunicam para fora, não só para dentro. Instagram com conteúdo que educa sobre a tradição, que convida, que mostra que o CTG é um espaço vivo e acolhedor pra qualquer gaúcho — não só pra quem já conhece.

Criam planos de sócio com benefícios tangíveis. Desconto progressivo em eventos, acesso ao espaço para confraternizações, participação em decisões — coisas concretas que justificam a mensalidade.

Uma conversa difícil que precisa acontecer

Existe um padrão que vejo se repetir nos CTGs que perdem jovens: a liderança mais antiga, inconscientemente, protege o espaço do jeito que sempre foi.

Não é maldade. É amor pela tradição. Mas amor pela tradição não pode ser confundido com resistência a qualquer mudança de forma.

O gaúcho do século XIX que fundou os primeiros CTGs não estava preservando uma forma — estava preservando uma identidade. E identidade se manifesta de formas diferentes em cada geração.

O chimarrão continua. A bombacha continua. A música, a dança, o respeito pela terra e pelo pago — tudo isso continua. Mas a reunião de diretoria pode ser mais ágil. A comunicação pode ser digital. O jovem pode ter voz.

Isso não é trair a tradição. É garantir que ela chegue às próximas gerações.

Por onde começar

Não precisa reformular tudo de uma vez. Começa com uma pergunta simples na próxima reunião de diretoria:

"O que nós faríamos diferente se quiséssemos que um jovem de 22 anos virasse sócio ativo do nosso CTG?"

Deixa a pergunta no ar. Ouve as respostas. Anota.

Depois pega as três respostas mais práticas e transforma em ação com prazo e responsável.

Não precisa de consultoria, de dinheiro, de reforma no galpão. Precisa de vontade de olhar pra frente com o mesmo amor que se olha pro passado.

Uma pergunta pra ti

Quando foi a última vez que o teu CTG perguntou pra um jovem por que ele parou de aparecer?

Se nunca aconteceu — talvez essa seja a primeira mudança a fazer.

Compartilha esse post com quem cuida da invernada ou do departamento jovem do teu CTG. Essa conversa precisa acontecer no galpão, não só na internet.

Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.

55ª Ciranda Cultural de Prendas - Uma tradição acesa em Erechim: o que é e o que acontece

O Rio Grande volta os olhos neste fim de semana para a capital da amizade. A querida cidade de Erechim recebe, entre os dias 21 e 23 de maio, a 55ª edição da Ciranda Cultural de Prendas, um dos eventos mais importantes do calendário do tradicionalismo gaúcho. Mais do que um concurso, a Ciranda é um encontro de cultura, conhecimento, arte, emoção e identidade do nosso povo campeiro.

Pra quem é de fora do meio tradicionalista, talvez fique a dúvida: afinal, o que é a Ciranda Cultural de Prendas?

A Ciranda é o evento promovido pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho que escolhe as prendas estaduais do Rio Grande do Sul. Participam representantes das 30 Regiões Tradicionalistas do Estado, divididas em categorias mirim, juvenil e adulta. Durante dias intensos, essas gurias passam por provas culturais, artísticas e tradicionalistas que avaliam muito mais do que beleza ou postura. O que está em jogo é o conhecimento da história gaúcha, da cultura regional, da arte, do folclore, da oralidade, da dança, da música, da indumentária e do sentimento de pertencimento ao Rio Grande.

É uma verdadeira celebração da identidade gaúcha.

Muito além da faixa e da flor no cabelo

Quem vê uma prenda pilchada muitas vezes não imagina a caminhada que existe por trás daquela faixa. Cada concorrente chega à etapa estadual depois de vencer concursos internos em entidades e regiões tradicionalistas. É uma preparação de meses — às vezes anos — estudando cultura gaúcha, história do Estado, folclore, MTG, costumes do campo, culinária, música e literatura regional.

Na Ciranda, acontecem: provas escritas, apresentações artísticas, declamação, interpretação de temas culturais, avaliações de comunicação, integração entre regiões, atividades culturais e protocolares e momentos de confraternização tradicionalista.

E tudo isso mantendo viva a essência do tradicionalismo: transmitir cultura de geração em geração.

Erechim vivendo a “Ciranda dos Sonhos”

A edição deste ano vem sendo chamada de “Ciranda dos Sonhos 2026”. A cidade de Erechim se preparou durante meses para receber milhares de tradicionalistas vindos de todas as querências do Estado. A expectativa é de mais de 2 mil pessoas circulando pelo município durante os três dias de programação.

A realização envolve o Movimento Tradicionalista Gaúcho, a Fundação Cultural Gaúcha, a 19ª Região Tradicionalista e o CTG Sentinela da Querência, além do apoio da Prefeitura Municipal de Erechim e da Secretaria Estadual da Cultura.

Um dos grandes símbolos desta edição é a atual 1ª Prenda do Rio Grande do Sul, Laura Laís Durli, justamente ligada à 19ª Região Tradicionalista, anfitriã do evento.

O coração cultural do tradicionalismo

Enquanto muita gente conhece o tradicionalismo pelos rodeios, gineteadas e fandangos, a Ciranda representa outro lado igualmente importante da cultura gaúcha: o lado intelectual e artístico do movimento.

É ali que se preservam: a pesquisa histórica, a valorização do linguajar gaúcho, o incentivo à leitura e à declamação, o ensino das tradições às novas gerações e o fortalecimento do papel da mulher dentro do tradicionalismo.

A Ciranda mostra que ser prenda vai muito além da pilcha bonita. É carregar conhecimento, postura, responsabilidade cultural e amor pelo Rio Grande.

Um evento que emociona quem vive a tradição

Quem já participou sabe: a Ciranda mistura nervosismo, amizade, orgulho e emoção. Tem abraço de família, lágrima escondida no lenço, nervosismo antes das provas e aplauso sincero entre concorrentes. Porque acima da disputa existe algo maior: a preservação da cultura gaúcha.

Cada prenda que sobe ao palco leva junto sua entidade, sua região e sua história.

E quando a chama crioula da cultura passa de uma geração pra outra, o Rio Grande segue vivo.

O Rio Grande se encontra em Erechim

Neste fim de semana, Erechim não recebe apenas um evento. Recebe o encontro de sotaques, costumes e querências de todo o Estado. Da campanha à serra, das missões ao litoral, o Rio Grande se reúne em torno daquilo que tem de mais valioso: sua identidade cultural.

A 55ª Ciranda Cultural de Prendas reafirma que tradição não é viver no passado. É manter viva a memória do povo enquanto se prepara o futuro.

E enquanto houver uma prenda estudando nossas raízes, declamando nossa poesia e defendendo a cultura do pago, o Rio Grande seguirá firme — de pé, de bota e de alma crioula.

Fonte: MTG e Prefeitura de Erechim 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Caxias do Sul: a gigante da Serra Gaúcha que ainda guarda alma de interior

Tem cidade que cresce e esquece de onde veio.

Mas Caxias do Sul parece carregar duas almas ao mesmo tempo.

Uma é moderna, industrial, acelerada. Terra de trabalho pesado, empresas gigantes, trânsito, bairros novos e desenvolvimento constante.

A outra ainda vive no cheiro do vinho colonial, nas estradas de chão do interior, no fogão à lenha aceso cedo da manhã e no sotaque carregado dos descendentes de imigrantes que ajudaram a construir a Serra Gaúcha.

E talvez seja justamente isso que faz tanta gente criar raízes aqui.

Porque mesmo enorme, Caxias ainda consegue parecer interior.

Quando tudo ainda era Campo dos Bugres

Antes de virar uma das maiores cidades do Sul do Brasil, a região era conhecida como Campo dos Bugres.

Muito antes da imigração italiana, os campos e matas já eram ocupados pelos povos indígenas que viviam na Serra. Depois vieram tropeiros, caminhos de comércio e, mais tarde, a chegada dos imigrantes italianos no final do século XIX.

Foi ali que começou a nascer uma cidade moldada pelo trabalho.

Os imigrantes enfrentaram frio, isolamento, mata fechada e dificuldades que hoje parecem impossíveis de imaginar. Mas construíram comunidades fortes, capelas, vinhedos e uma cultura própria que ainda marca profundamente a identidade da cidade.

A imigração italiana que mudou a Serra Gaúcha

Falar de Caxias do Sul é falar da imigração italiana no Rio Grande do Sul.

Os descendentes dos colonos ajudaram a transformar a cidade em uma potência econômica, mas sem abandonar completamente os costumes antigos.

Ainda hoje, quem anda pelos distritos do interior encontra:

pequenas propriedades rurais

produção artesanal

vinho colonial

capelas antigas

festas comunitárias

mesas fartas

sotaque carregado

tradição familiar

Em muitos lugares, o tempo parece passar mais devagar.

Uma cidade gigante que ainda parece pequena

Caxias cresceu.

Virou polo metalúrgico. Virou potência industrial. Virou referência econômica.

Mas existe algo curioso nela.

Mesmo com centenas de milhares de habitantes, ainda existem bairros e comunidades onde as pessoas se conhecem pelo nome, conversam na calçada e mantêm hábitos típicos de cidade pequena.

Talvez por isso tanta gente de fora venha trabalhar aqui… e nunca mais vá embora.

Porque Caxias tem algo raro: ela mistura oportunidade com pertencimento.

Os caminhos escondidos da Serra

Muita gente conhece apenas o centro urbano da cidade.

Mas existe outro lado de Caxias do Sul.

Um lado formado por:

estradas cercadas de parreirais

pequenas cantinas

igrejas antigas

comunidades do interior

paisagens típicas da Serra Gaúcha

Distritos como:

Criúva

Vila Oliva

Santa Lúcia do Piaí

guardam um pedaço do Rio Grande antigo que ainda resiste ao tempo.

E talvez seja ali que a verdadeira alma da cidade continue mais viva.

Entre o progresso e a tradição

Poucas cidades do Rio Grande do Sul vivem tão fortemente esse contraste.

De um lado: indústria, crescimento, tecnologia e expansão urbana.

Do outro: chimarrão, missa de comunidade, festa colonial, churrasco de família e memória dos antigos.

E talvez o grande segredo de Caxias esteja justamente nisso: crescer sem apagar completamente suas raízes.

Muito além da Festa da Uva

Quando se fala em Festa da Uva, muita gente pensa apenas em turismo.

Mas a festa representa algo maior.

Ela carrega a memória dos imigrantes, do trabalho nas colônias, da produção agrícola e da construção cultural da Serra Gaúcha.

É uma celebração da identidade de um povo.

O que faz tanta gente criar raízes em Caxias?

Talvez seja o frio.

Talvez seja a comida farta.

Talvez seja o trabalho.

Ou talvez seja aquela sensação difícil de explicar que aparece quando alguém encontra um lugar que mistura futuro e memória ao mesmo tempo.

Porque no fundo, Caxias do Sul continua sendo aquilo que muita gente define de um jeito simples:

“Uma cidade de interior… só que gigante.”

E tu?

Qual é a primeira lembrança que vem na cabeça quando pensa em Caxias do Sul?



"Criúva, cantada pelos Bertussi, carrega a herança tropeira."



"Fonte de Água Azul, um pedaço Jesuíta no interior de Caxias do Sul "


“Estrada do interior de Caxias do Sul cercada por paisagens típicas da Serra Gaúcha e comunidades de descendentes italianos”

“Paisagem típica do inverno de Caxias do Sul durante o amanhecer”

Caxias do Sul turismo

história de Caxias do Sul

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Serra Gaúcha

interior do RS

cidades da Serra Gaúcha

domingo, 10 de maio de 2026

Feliz dia das Mães

Tem coisa que o tempo não leva embora. O gosto da comida sendo feita, o cheiro do pão caseiro saindo do forno, o barulho da chaleira no fogão à lenha. E principalmente… o abraço de mãe.

No coração do pampa gaúcho, mãe é mais que família. É fortaleza. É quem segura a estância da vida quando o minuano castiga. É quem ensina respeito, tradição e coragem desde cedo.

Foi no colo das mães gaúchas que muita gente aprendeu o valor do mate compartilhado, do aperto de mão sincero e da palavra honrada. Cada galpão do Rio Grande carrega histórias de mulheres fortes, campeiras, trabalhadoras e cheias de amor pela família e pela querência.

Neste Dia das Mães, fica a homenagem do Entrevero Xucro para todas as mães do Rio Grande do Sul — das cidades, das campanhas, das estâncias e dos rincões esquecidos do mapa, mas nunca esquecidos pela memória do povo gaúcho.

Que nunca falte mate quente, abraço apertado no domingo e gratidão por quem sempre esteve ali, mesmo nas horas mais brutas da vida.

Porque mãe gaúcha não cria só filhos. Cria valores. Cria raízes. Cria gente forte.

Feliz Dia das Mães. E abracem as suas enquanto o tempo permite. E comprem os presentes



quarta-feira, 6 de maio de 2026

Dicionário Gaudério: PILCHA

PILCHA - a elegância do gaúcho — quando a roupa é mais do que roupa, é identidade.

O que significa PILCHA?

Substantivo feminino. No universo gaúcho, pilcha é a indumentária tradicional — o conjunto de roupas e acessórios que compõem o traje do gaúcho e da prenda. Mas chamar a pilcha apenas de "roupa típica" é diminuir demais o que ela representa. A pilcha é identidade vestida. É a declaração de que quem a usa pertence a uma cultura, carrega uma história e respeita uma tradição.

Pilchar-se — o ato de vestir a pilcha — não é uma obrigação. É uma escolha. E quem faz essa escolha está dizendo, sem precisar de palavras: sou gaúcho, e tenho orgulho disso.

A origem da palavra

A palavra vem do espanhol platino pilcha — termo usado no Uruguai e na Argentina para designar objetos pessoais de pouco valor, trapos, bugigangas. No pampa gaúcho, a palavra chegou pela fronteira viva com o Prata e, como aconteceu com tantos outros termos, ganhou um significado completamente diferente — e muito mais nobre. O que era trapo virou traje. O que era descarte virou patrimônio.

A inversão de sentido é, ela mesma, uma metáfora da cultura gaúcha: pegar o que o mundo jogou fora e transformar em orgulho.

A pilcha do gaúcho — peça por peça

A indumentária gaúcha masculina tradicional é composta por:

Bombacha: a calça larga de tecido resistente, franzida nos tornozelos — símbolo máximo do traje gaúcho. Surgiu no século XIX como adaptação da calça árabe trazida pelos imigrantes do Oriente Médio que chegaram à América do Sul, e foi adotada pelos gaúchos pela praticidade no campo.

Camisa: geralmente de tecido leve, em cores sóbrias ou com bordados discretos.

Lenço: usado no pescoço, dobrado em triângulo. As cores têm significados que variam por região e CTG — vermelho, azul, branco, preto, cada um com sua simbologia.

Guaiaca ou cinto: a cinta de couro que guarda a faca e os pertences do gaúcho. A guaiaca é o cinto largo, trabalhado, frequentemente com enfeites de prata.

Faca e bainha: a faca gaúcha é ferramenta, não arma. A bainha trabalhada é parte da pilcha — objeto de arte e identidade.

Botas: de couro, com ou sem salto, com ou sem esporas. As esporas são usadas pelos campeiros e pelos que participam das atividades equestres.

Chapéu: de feltro, aba larga, cor preta ou marrom. O ângulo da aba varia conforme a região do estado.

Poncho ou pelego: para o frio. O poncho gaúcho é a peça mais versátil da pilcha — cobertor, capa de chuva, assento e travesseiro quando necessário.

A indumentária feminina — a prenda — tem sua própria riqueza: vestido rodado de chita ou renda, avental bordado, lenço de seda no cabelo, sapatilhas ou botinhas. Cada detalhe obedece ao regulamento do MTG e tem significado cultural próprio.

A pilcha e o MTG — quando a tradição vira norma

O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) regulamenta a indumentária gaúcha com precisão — cores, tecidos, comprimentos, acessórios permitidos. Há quem critique o excesso de normatização. Mas há um argumento forte do outro lado: sem padronização mínima, a pilcha se dilui, se comercializa, perde o que a torna especial.

O debate é saudável. E o que importa é que, regulamentada ou não, a pilcha continua sendo escolhida — por jovens, por adultos, por crianças. Porque a identidade gaúcha, quando bem apresentada, não precisa de obrigação para continuar viva.

Como se usa no dia a dia

Elogio: Que pilcha mais bonita! Esse lenço combinou perfeito com a bombacha.

Identidade: Nos festejos, a gente se pilcha do melhor — é respeito pela tradição.

Versatilidade: Pode ser pilcha completa ou só a bombacha e o lenço. Já é suficiente pra mostrar de onde és.

Orgulho: Meu pai me ensinou a me pilchar antes de me ensinar a montar a cavalo.

Pilcha na música nativista

A pilcha atravessa o cancioneiro gaúcho como símbolo de pertencimento. Das vaneras aos festivais nativistas, a indumentária aparece em letras que celebram o gaúcho que não tem vergonha de mostrar de onde vem — nem nas cidades grandes, nem no exterior.

O gaúcho pilchado em São Paulo, em Buenos Aires, em Lisboa — é sempre uma declaração. Uma âncora cultural que diz: de onde eu vim não é lugar que se abandona.

Palavras da mesma família

Pilchar-se: o verbo — o ato de vestir a pilcha. Já te pilchaste para o desfile?

Pilchado(a): quem está com a indumentária gaúcha. Chegou todo pilchado ao acampamento.

Despilchar: tirar a pilcha. Depois do desfile, despilchou e foi trabalhar.

Pilcharia: conjunto de pilchas, ou loja que as vende.

A tua pilcha tem história?

Conta nos comentários. Muitos gaúchos têm uma pilcha herdada — do pai, do avô, da avó. Uma bombacha guardada num baú, um lenço que viajou pelo mundo. Essas histórias merecem ser contadas.

E se conheces outra palavra gaúcha que merece entrar no Dicionário Gaudério, deixa a sugestão — este dicionário é construído junto.

📌 Palavras-chave: pilcha gaúcha, indumentária gaúcha, bombacha, lenço gaúcho, traje gaúcho, MTG, cultura gaúcha, tradição gaúcha, Semana Farroupilha, identidade gaúcha, Rio Grande do Sul

📂 Série: Dicionário Gaudério | Entrevero Xucro | entreveroxucro.blogspot.com

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sexta-feira, 1 de maio de 2026

1° de maio - Dia do Trabalhador

No pampa, o trabalho sempre foi mais do que obrigação — foi identidade.

O gaúcho que acorda antes do sol raiar, que tira o leite com as mãos ainda dormentes pelo frio da madrugada, que planta, que colhe, que pega no cabo da ferramenta sem reclamar do peso — esse é o verdadeiro sustentáculo desta terra.

Não importa se o trabalho é no campo ou na cidade, na lavoura ou na fábrica, na cozinha ou no escritório: todo suor honesto merece respeito.

O Rio Grande do Sul foi construído na fibra de quem não desistiu. Nas costas do peão, nas mãos calejadas do colono, na garra do operário, na dedicação silenciosa de tantos que nunca tiveram seu nome nos livros — mas que fizeram a história acontecer.

Hoje, o Entrevero Xucro tira o chapéu.

Ao trabalhador gaúcho: parabéns. Vocês são o coração deste Estado.

Que o chimarrão de hoje seja bem-mateado. Vocês merecem.

🤠 Entrevero Xucro — Cultura e tradição gaúcha desde as raízes

📌 entreveroxucro.blogspot.com



sábado, 25 de abril de 2026

Gestão Crioula - O erro que faz CTG trabalhar o ano todo e terminar no prejuízo

Com o chimarrão na mão. Vamos falar de um assunto que muita gente prefere evitar.

A boia foi de fundamento. O salão lotou. A invernada se apresentou, o pessoal dançou até tarde, todo mundo saiu falando bem. O Patrão dormiu feliz.

Aí chegou a segunda-feira. O tesoureiro sentou com as notas fiscais, o caderno de controle e a planilha — ou o bloco de anotações, dependendo do CTG. E ali, na frieza dos números, apareceu a realidade: o evento deu prejuízo. Ou, na melhor das hipóteses, sobrou tão pouco que não valeu o trabalho de um mês inteiro de organização.

Isso acontece em CTGs de todos os tamanhos. E quase sempre pelo mesmo motivo. O erro mais comum: precificar por sentimento, por achismo, pelo sempre foi assim.

Quando chega a hora de definir o valor do ingresso ou da mesa de jantar, a conversa na diretoria costuma ser mais ou menos assim:

"Quanto a gente cobra?"

"O CTG tal cobrou 80 reais no ano passado..."

"Então vamos cobrar 90, pra parecer que melhorou."

"Mas se cobrar muito caro, o pessoal não vem."

"Então 80 mesmo."

Decisão tomada. Sem saber o custo real do evento. Sem saber quantas pessoas precisam comparecer pra cobrir as despesas. Sem saber qual é o ponto de equilíbrio. É precificação por sentimento — e ela é a principal razão pela qual CTGs trabalham meses e terminam no vermelho.

O que a maioria dos CTGs não calcula

Quando a diretoria pensa nos custos de um evento, normalmente lembra dos itens mais visíveis: o churrasco, a bebida, a música. Mas existe uma lista de custos que frequentemente fica de fora da conta. Custos diretos que todo mundo lembra: Alimentos e bebidas, Banda ou DJ, Decoração

Custos diretos que frequentemente esquecem: Gás e carvão, Descartáveis e guardanapos, Segurança (porteiro, vigilante), Impressão de ingressos e banners, Transporte de materiais, Taxa do sistema de cobrança (Pix tem custo? Depende da conta).

Custos indiretos que quase nunca entram na conta: Energia elétrica do evento, Desgaste de equipamentos (fogão, freezer, caixas de som), Horas de trabalho dos voluntários que saíram do bolso próprio pra comprar algo, Limpeza pós-evento, Eventual manutenção de algo que quebrou durante o evento e o maior esquecido de todos: A parcela do aluguel ou IPTU do mês — o espaço tem custo fixo que precisa ser coberto.

Quando tu somas tudo isso, o custo real do evento é quase sempre 30% a 40% maior do que o número que aparecia na cabeça da diretoria na hora de definir o preço.

Ponto de equilíbrio: é o número que todo Patrão precisa saber e é simples: é a quantidade mínima de ingressos que precisa ser vendida para que o evento não dê prejuízo.

A fórmula é direta: Ponto de equilíbrio = Custo total do evento ÷ Valor do ingresso

Exemplo prático: Custo total real do jantar: R$ 8.000. Valor do ingresso: R$ 80. Ponto de equilíbrio: 100 pessoas

Isso significa que as primeiras 100 entradas vendidas só pagam as contas. A partir da 101ª pessoa é que começa a sobrar dinheiro pro CTG. Se o salão comporta 150 pessoas e tu vendeste 110 — parabéns, o evento foi bem. Mas se vendeste 85, o CTG saiu no prejuízo mesmo com o salão "cheio".

Saber esse número antes do evento muda completamente a tomada de decisão. Tu podes ajustar o preço, reduzir custos, criar um ingresso antecipado com desconto pra garantir o mínimo — ou até decidir não fazer o evento se a conta não fechar.

O problema do ingresso antecipado mal gerido

Ingresso antecipado é uma ferramenta poderosa — quando bem usado. Mas em muitos CTGs ele vira um problema. O que acontece na prática: os sócios mais próximos compram antecipado com desconto. O CTG usa esse dinheiro pra pagar as despesas iniciais. Aí o evento acontece, as vendas na porta não compensam, e no final sobrou menos do que o esperado.

O ingresso antecipado precisa estar dentro da conta, não fora dela. Se tu vendes 50 ingressos a R$ 60 e 60 na porta a R$ 80, a receita total não é "60 vezes 80" — é a soma real das duas faixas.

Uma planilha simples resolve boa parte do problema

Não precisa de sistema caro, software sofisticado nem contador dedicado. Uma planilha no celular já resolve — desde que tu uses ela de verdade.

A planilha mínima de um evento de CTG tem três abas:

Aba 1 — Custos previstos: lista cada item de custo com o valor estimado, antes do evento.

Aba 2 — Receita prevista: quantos ingressos pretende vender, a que preço, em quais categorias.

Aba 3 — Resultado real: o que efetivamente foi gasto e o que entrou de receita, preenchida depois do evento.

Comparar as abas 1 e 2 antes do evento te diz se a conta fecha. Comparar com a aba 3 depois te ensina a fazer melhor no próximo.

Em três ou quatro eventos usando esse método, a diretoria começa a ter referências reais — e a precificação deixa de ser sentimento pra virar decisão.

"Mas no nosso CTG é tudo voluntário, não tem como cobrar tudo isso..."

Entendo. E respeito muito, o voluntarismo é o que mantém os CTGs de pé.

Mas existe uma diferença importante entre trabalho voluntário e prejuízo financeiro. O voluntário doa o seu tempo — e isso é lindo. Mas quando o CTG sai de um evento devendo pro fornecedor, sem dinheiro pra pagar a conta de luz do mês seguinte ou sem reserva pra manutenção do galpão, o problema não é só financeiro. É de sustentabilidade da própria entidade.

CTG que não tem saúde financeira não consegue manter a invernada, não consegue reformar o galpão, não consegue pagar a anuidade da MTG, não consegue crescer. Cuidar das contas não é desvirtuar a tradição. É garantir que ela continue existindo.

Por onde começar na semana que vem

Se tens um evento nos próximos meses, faz isso antes de definir qualquer preço:

1. Senta com o tesoureiro e lista todos os custos do último evento similar — os que lembrarem e os que acharem nos recibos

2. Adiciona 30% a essa lista pra cobrir o que esquecerem

3. Divide pelo número realista de participantes esperados

4. O número que aparecer é o custo por pessoa — e o ingresso precisa ser maior do que isso

Simples assim pra começar. Depois vai refinando.

Uma pergunta pra ti:

No último evento do teu CTG — tu sabias, antes de começar, qual era o ponto de equilíbrio?

Se a resposta foi não, compartilha esse post com o tesoureiro. Pode ser a conversa mais importante que vocês vão ter essa semana.

Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Destinos do Pampa - Pinheiro Machado

 DESTINOS DO PAMPA • Cidades Rio-Grandenses

Pinheiro Machado — a Eterna Cacimbinhas tem história, tradição, vinho e natureza no coração das Serras do Sudeste gaúcho.

Tem lugares no Rio Grande do Sul que carregam a história do estado inteira dentro dos seus limites. Pinheiro Machado é um desses lugares. Cidade do extremo sul gaúcho, encravada entre as Serras das Asperezas, do Passarinho e do Velleda, a apenas 354 km de Porto Alegre — ela é conhecida pelo apelido carinhoso que o tempo não apagou: a eterna Cacimbinhas.

Quem nasce lá, leva o pago no coração para onde for. E quem visita, entende por que.

Cacimbinhas — a origem do nome e da cidade

Antes de ser Pinheiro Machado, antes de ser Nossa Senhora da Luz das Cacimbinhas, antes mesmo de qualquer estrutura urbana, esse pedaço de coxilha era parada obrigatória dos carreteiros que cruzavam o sul do estado em carretas puxadas a bois.

Os tropeiros abriam picadas pelos divisores de água naturais, encurtando caminhos, desviando de terrenos difíceis. E num desses pontos de parada — onde havia água fresca nas cacimbas naturais do chão —, surgiu o pequeno agrupamento que virou cidade. Dizem que o local onde hoje fica a praça central era exatamente o ponto de descanso das tropas. Das trilhas dos viajantes nasceu a avenida que chega ao cemitério — a mesma que o tempo transformou em rua e a memória transformou em história.

A lenda de Dutra de Andrade — a promessa que fundou a primeira igreja

Toda cidade tem uma lenda. A de Cacimbinhas é das mais bonitas do RS. Conta-se que José Dutra de Andrade — um dos primeiros a receber sesmarias nessa coxilha, em 1790 — perdeu a visão e fez uma promessa: se recuperasse a vista ao lavar os olhos nas águas das cacimbinhas, mandaria construir uma capela em honra de Nossa Senhora da Luz.

O milagre aconteceu. E a primeira Igreja de Pinheiro Machado foi construída no terreno doado por Dutra de Andrade, em 10 de abril de 1851. A devoção que nasceu daquela promessa virou nome de cidade — e virou alma de um povo.

De Rafael Pinto Bandeira a Sepé Tiaraju — história viva no chão dessa cidade

Pinheiro Machado é um dos municípios mais antigos do Rio Grande do Sul. Sua colonização remonta a cerca de 1775, quando Rafael Pinto Bandeira — militar gaúcho que participou da retomada de territórios missioneiros para a Coroa Portuguesa, e o primeiro gaúcho a assumir o governo do RS — chegou a essas terras.

Mas a história desse chão é ainda mais antiga. Durante as demarcações do Tratado de Madri (1750), a região estava no centro das disputas entre Portugal e Espanha. E foi aqui, nas proximidades do que hoje é Pinheiro Machado, que as forças missioneiras lideradas pelo Cacique Sepé Tiaraju embargaram as demarcações no histórico Forte de Santa Tecla — em resistência que só terminou com a morte do herói guarani e a destruição do forte.

O Marco dos Porongos, ponto turístico do município na estrada entre Pinheiro Machado e Torrinhas, lembra outro capítulo dramático: a Batalha dos Porongos, de 14 de novembro de 1844, quando 110 Lanceiros Negros que combatiam pela República Riograndense foram mortos. Uma ferida aberta da história gaúcha, guardada em pedra e memória.

"Desde 1750, o chão de Pinheiro Machado já escrevia páginas do Rio Grande do Sul."

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A cidade ganhou o nome por um assassinato — e a população se rebelou

Em 1879, o município se desmembrou de Piratini sob o nome de Nossa Senhora da Luz das Cacimbinhas. Mas o nome que carrega hoje veio de uma história dramática: quando o Senador José Gomes Pinheiro Machado foi assassinado no Rio de Janeiro — pelo revólver de Francisco Manso de Paiva Coimbra, morador justamente da região de Cacimbinhas —, o Intendente Provisório Dr. Ney Lima Costa mudou o nome da cidade em homenagem ao senador.

A população não aceitou. Rebelou-se contra o intendente, que teve que deixar a cidade. Mas o nome ficou. É Pinheiro Machado até hoje — embora no coração dos que lá nasceram, o lugar sempre será Cacimbinhas.

Economia e cultura — a Terra da Ovelha e os vinhos da Serra do Sudeste

Durante décadas, Pinheiro Machado foi conhecida como a Terra da Ovelha. A criação de ovinos era o carro-chefe da economia local, e a FEOVELHA — Feira e Festa Nacional da Ovelha projetou o município no cenário regional. As crises do setor reduziram o rebanho, mas a feira segue como tradição e símbolo de identidade.

A grande nova vocação de Pinheiro Machado é a vitivinicultura. A cidade integra a Serra do Sudeste — uma das regiões vinícolas mais promissoras do Brasil, que se estende entre Pinheiro Machado e Encruzilhada do Sul. Com solos graníticos, altitudes medianas, clima temperado e menor pluviosidade que a Serra Gaúcha, a região produz uvas viníferas de alta qualidade — Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, Chardonnay, entre outras — que já rendem rótulos premiados.

A olivicultura também desponta como nova fronteira: o clima serrano favorece o cultivo de oliveiras de excelente qualidade, e Pinheiro Machado começa a se posicionar nesse mercado.

A economia do município ainda conta com a extração de pedras de revestimento — recurso que colocou o município no mapa da construção civil gaúcha e nacional — e com a produção de calcário de alta qualidade.

O que fazer em Pinheiro Machado — roteiro para o visitante

Marco dos Porongos

Monumento histórico na estrada para Torrinhas, em memória à Batalha de 14 de novembro de 1844 e aos Lanceiros Negros. Um dos pontos mais significativos da história farroupilha no RS, raramente visitado — e por isso ainda mais especial para quem valoriza o que não está na rota turística convencional.

Parque Natural Municipal

Área de preservação com trilhas, fauna e flora nativas. Ideal para quem quer caminhar, observar aves e respirar o campo sem sair da cidade.

Rio Camaquã

Um dos rios mais bonitos do sul gaúcho corta a região e oferece descidas de canoagem e caiaques, trilhas e paisagens que a câmera não consegue fazer justiça. Precisa ser visto de perto.

Gaya Park

A apenas 7 km da sede, na estrada conhecida como China Inocência, na localidade de Curral de Pedras — um refúgio de natureza, tranquilidade e contato com o campo gaúcho autêntico.

Teatro Municipal

Construído em 1938, representa a arquitetura proto-racionalista do século XX no interior gaúcho. Valor histórico e cultural que merece mais atenção.

Roteiro de vinhos da Serra do Sudeste

Os vinhedos da região de Pinheiro Machado integram um dos roteiros vitivinícolas mais interessantes e menos turísticos do Brasil. Diferente da Serra Gaúcha, aqui a experiência é mais íntima, mais do campo, mais gaúcha.

Feira do Produtor Rural

Produtos locais, contato com moradores, queijos, artesanato e a hospitalidade genuína do interior gaúcho.

A Comparsa da Canção — o festival que fez o nome de Pinheiro Machado no nativismo

Para o gaúcho apaixonado pela música nativista, Pinheiro Machado tem um capítulo especial: a Comparsa da Canção, festival nativista que colocou a cidade no calendário cultural do RS e revelou talentos que foram muito além das fronteiras municipais.

Criada para celebrar e incentivar a música regional, a Comparsa atravessou décadas com qualidade e tradição. Infelizmente, por opções do poder público, o festival deixou de acontecer nos últimos anos — uma perda real para o nativismo gaúcho que a cidade merece ver retornar.

Tu conheces Pinheiro Machado?

Se és da região ou já passaste por lá, conta nos comentários o que mais te marcou. E se tens uma história, uma memória ou uma dica de Cacimbinhas que a gente não mencionou — esse post é teu tanto quanto nosso.

Acompanha o Entrevero Xucro — toda semana, história, cultura e identidade gaúcha do jeito que o pampa merece.



quarta-feira, 15 de abril de 2026

Biografia Gaúcha - Vítor Ramil

Vitor Ramil, o pelotense que fez do frio, do pampa e da milonga uma declaração de identidade gaúcha para o mundo

Ficha Biográfica

Nascimento: 7 de abril de 1962 — Pelotas, RS

Gênero musical: Milonga, MPB, música de câmara, tango, samba

Instrumentos: Violão, voz

Obras literárias: Pequod (1995), Satolep (2008), A Primavera da Pontuação (2014)

Prêmios: Prêmio da Música Brasileira — Melhor Cantor Regional (2010); 2 indicações ao Grammy Latino (2018)

Discografia: 13 álbuns (1981–2024)

Pelotas, o frio e um menino que já nasceu com identidade

Vitor Ramil nasceu em 7 de abril de 1962 em Pelotas — cidade do extremo sul do RS, de forte tradição cultural, conhecida pela arquitetura neoclássica, pelos doces coloniais e por uma vida artística que sempre foi maior do que o tamanho da cidade sugeria.

Cresceu numa família extraordinariamente musical. Os irmãos Kleiton e Kledir já faziam carreira na música nacional. A irmã Branca se tornaria sua produtora. O filho Ian e os sobrinhos Thiago e Gutcha seguiriam o mesmo caminho. Era um ambiente onde a música era língua nativa — e Vitor a falou desde criança.

Mas há algo mais específico na formação de Vitor que explica tudo o que viria depois: ele cresceu no extremo sul do Brasil, numa cidade que olha para o Uruguai e a Argentina com a mesma naturalidade com que olha para São Paulo. Cresceu ouvindo espanhol nas ruas, sentindo o minuano nos ossos e vendo o pampa no horizonte. E um dia decidiu que isso não era limitação — era matéria-prima.

"Não estamos à margem de um centro. Estamos no centro de uma outra história." — Vitor Ramil

Vitor Ramil não é nativista — mas é profundamente gaúcho

Esta é a questão que qualquer leitor do Entrevero Xucro pode estar se perguntando: por que falar de Vitor Ramil numa série dedicada ao nativismo e à cultura gaúcha, se ele nunca gravou um disco de vanera ou chamamé, nunca competiu em festival nativista, nunca se apresentou de bombacha?

A resposta é simples: porque nenhum artista gaúcho da sua geração pensou mais fundo sobre o que significa ser gaúcho. E porque a reflexão que ele construiu ao longo de décadas mudou a forma como o RS se apresenta ao mundo.

O nativismo gaúcho tradicional — que o Entrevero Xucro celebra e respeita — parte de uma estética musical clara: a gaita, a milonga campeira, a bombacha, o chimarrão, a Semana Farroupilha. É uma tradição viva e essencial. Vitor Ramil partiu de outro lugar — da cidade, da literatura, do violão de câmara, da fronteira com o Prata — mas chegou à mesma pergunta: o que é ser gaúcho? E a resposta que encontrou é uma das mais sofisticadas e universais que a cultura do RS já produziu.

A Estética do Frio — o manifesto mais importante da cultura gaúcha contemporânea

Em 1997, Vitor lançou Ramilonga — A Estética do Frio, o disco que dividiu sua carreira em antes e depois. Mas antes de ser um disco, a Estética do Frio foi uma ideia — uma reflexão sobre identidade que Vitor foi construindo ao longo dos anos 90 e que apresentou pela primeira vez em conferência em Genebra, em 2003, depois publicada em livro bilíngue português-francês.

O argumento central é poderoso e simples: o Brasil é culturalmente dividido entre um Brasil quente e tropical — representado pela bossa nova, pelo samba, pelo carnaval, pelas praias — e um Brasil frio, do sul, que nunca foi bem representado nessa identidade nacional. O gaúcho, o pampa, a milonga, o chimarrão, o minuano, a melancolia do fim de tarde na coxilha — tudo isso ficava de fora da "brasilidade" oficial.

A Estética do Frio foi a recusa a aceitar essa marginalidade. Vitor declarou que o sul não estava à margem do centro cultural do Brasil — estava no centro de outra história. Uma história que compartilha mais com o Uruguai e a Argentina do que com o Rio de Janeiro ou São Paulo. Uma identidade que tem o frio como símbolo — não de tristeza, mas de rigor, de profundidade, de clareza, de melancolia que é beleza.

As sete cidades da milonga que Vitor inaugurou no disco dizem tudo: Rigor. Profundidade. Clareza. Concisão. Pureza. Leveza. Melancolia. São qualidades estéticas — mas também são qualidades do gaúcho que não precisa gritar para ser ouvido.

"Por meio da Estética do Frio me dei o direito de transitar pelo imaginário regional com muita liberdade." — Vitor Ramil

A milonga — o fio que conecta Ramil à tradição do pampa

A milonga é o centro de tudo na obra de Vitor Ramil. E a milonga é, antes de ser escolha estética, herança cultural gaúcha.

Assim como o gaúcho e o pampa, a milonga é comum ao Rio Grande do Sul, ao Uruguai e à Argentina — e não existe em nenhuma outra região do Brasil. É o ritmo da fronteira, da planície, do entardecer lento no campo. É o blues do sul, como dizia o compositor uruguaio Alfredo Zitarrosa.

Ao escolher a milonga como linguagem central, Vitor não estava fazendo uma opção exótica — estava voltando para casa. Estava reconhecendo que a identidade gaúcha mais profunda não começa com a bombacha nem com o galpão, mas com o ritmo que atravessa séculos e fronteiras, que aparece nos versos de Borges em Buenos Aires e nos cantos dos payadores do pampa gaúcho.

No disco Délibáb (2010), Vitor musicou poemas do argentino Jorge Luis Borges e do gaúcho João da Cunha Vargas — dois poetas do pampa, separados por uma fronteira que a milonga nunca reconheceu. O resultado ganhou o Prêmio da Música Brasileira como Melhor Cantor Regional e projetou a cultura sulina em circuitos internacionais que raramente recebiam música gaúcha.

As referências culturais gaúchas na obra de Vitor Ramil

Para quem conhece a cultura do RS, a obra de Vitor é um mapa afetivo do estado. As referências aparecem nas letras, nos títulos, nas escolhas poéticas:

O pampa como paisagem interior — Vitor cita Adolfo Bioy Casares: o pampa pode não existir geograficamente, mas é um vasto fundo em nossa paisagem interior. É exatamente assim que o pampa aparece nas suas canções — não como cenário folclórico, mas como estado de alma.

Pelotas e o sul profundo — O romance Satolep (2008) é Pelotas ao contrário — uma cidade imaginária que é um espelho da sua cidade natal. A fronteira, o Rio Grande do Sul de cidades menores e de inverno real, aparece em toda a sua obra literária.

João da Cunha Vargas — Ao musicar o poeta gaúcho de São Borja (1900–1980), Vitor fez um gesto de resgate cultural profundo. Cunha Vargas era um poeta do pampa praticamente desconhecido fora do RS — e Vitor o levou para o mundo.

A milonga de sete cidades — A música mais conhecida do disco Ramilonga mistura o linguajar gauchesco do campo com a fala coloquial urbana — um retrato de um gaúcho que não é estereótipo, mas gente real do século XX.

Campos Neutrais — O título do disco de 2017 remete ao Tratado de Santo Ildefonso (1777), que definia uma zona neutra entre Portugal e Espanha no extremo sul do Brasil — região que se tornou símbolo de fronteira, liberdade e miscigenação cultural. É o RS mais antigo e mais profundo como inspiração.

A trajetória — os discos e os livros

Sequência lógica: Ano, Álbum e Destaque

1981 - Estrela, Estrela - Estreia aos 18 anos. Gal Costa gravou a faixa-título.

1984 - A Paixão de V Segundo Ele Próprio - Experimental. 22 canções da música medieval ao carnaval.

1987 - Tango - Primeiro olhar ao universo platino.

1997 - Ramilonga — A Estética do Frio - O marco zero. As 7 cidades da milonga. A virada.

2000 - Tambong - Gravado em Buenos Aires com Pedro Aznar.

2004 - Longes  - Síntese entre Ramilonga e Tambong.

2007 - Satolep Sambatown - Com Marcos Suzano. Samba e milonga em diálogo.

2010 - Délibáb - Borges e Cunha Vargas musicados. Com Caetano Veloso.

2013 - Foi No Mês Que Vem - 32 músicas revisitadas. Milton, Ney Matogrosso, Drexler.

2017 - Campos Neutrais - 2 indicações ao Grammy Latino.

2022 - Avenida Angélica - Poemas de Angélica Freitas. Theatro Sete de Abril, Pelotas.

2024 - Mantra Concreto - Poesias de Paulo Leminski.

Obras literárias:

Pequod (1995) — novela, traduzida para o francês

A Estética do Frio — Conferência de Genebra (2004) — ensaio bilíngue

Satolep (2008) — novela

A Primavera da Pontuação (2014) — novela

O legado — um gaúcho que ensinou o mundo a ouvir o sul

Suas canções já foram gravadas por Mercedes Sosa, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Fito Páez, Jorge Drexler e Pedro Aznar. O produtor londrino John Armstrong perguntou publicamente: por que esse gênio ainda não dominou o mundo da música?

A resposta, paradoxalmente, está na própria Estética do Frio: a cultura do sul é mais funda do que larga. Não precisa de barulho para existir. O pampa não grita — ele persiste.

Vitor Ramil não é nativista no sentido formal. Mas é um dos gaúchos que mais profundamente entendeu e defendeu a identidade do seu pago — e a levou para Genebra, Buenos Aires, Montevidéu e para as plataformas digitais do mundo. Para o Entrevero Xucro, isso é tão gaúcho quanto uma roda de chimarrão num galpão de campo aberto.

"O frio não é tristeza. É rigor. É profundidade. É o gaúcho sendo ele mesmo, sem precisar de aplausos para continuar." — síntese da Estética do Frio

Conhecias a obra do Vitor Ramil?

Se não conhecias, começa pelo Ramilonga. Não é um disco para ouvir distraído — é um disco para sentar, fechar os olhos e deixar o frio do sul entrar.

E se já és fã, qual é a tua música favorita? Conta nos comentários.

Imagem: site Vitor Ramil


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domingo, 12 de abril de 2026

Erva-mate Barão também entra no futebol

Barão, de Barão de Cotegipe, fecha parceria com o Grêmio — e o chimarrão entra em campo no futebol gaúcho

Recentemente o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense anunciou uma parceria com a Barão Erva-Mate e Chás — ervateira gaúcha fundada em 1951 na cidade de Barão de Cotegipe, no Alto Uruguai. Com o acordo, a marca passa a integrar o time de parceiros oficiais do clube tricolor, unindo dois símbolos do Rio Grande do Sul: o maior clube de futebol do estado e uma das marcas de erva-mate mais tradicionais do Brasil.

A parceria chega num momento especial para a indústria ervateira gaúcha — semanas depois de outra ervateira do RS, a Baldo de Encantado, anunciar que será a fornecedora oficial de erva-mate da Seleção Argentina para a Copa do Mundo de 2026. Dois anúncios, uma mesma mensagem: a erva-mate gaúcha está conquistando o mundo do esporte.

A história da Barão — 75 anos de chimarrão no RS

A Barão Comércio e Indústria de Erva-Mate nasceu em 1951, fundada por Etelvino Picolo na cidade que leva o nome do próprio produto — Barão de Cotegipe, no noroeste do Rio Grande do Sul, região do Alto Uruguai. O fundador veio de uma família ligada à terra e ao mate, e desde o início o compromisso foi claro: honrar a tradição gaúcha do chimarrão com qualidade e respeito à erva.

A primeira erva-mate produzida por Etelvino Picolo é referência até hoje dentro da empresa — um blend que se tornou o ponto de partida para toda uma linha de produtos que, ao longo de 75 anos, cresceu para incluir ervas-mate de diferentes perfis, tererés, chás e até cápsulas compatíveis com máquinas de café expresso.

Hoje, com sede na Rua Ilma Picolo, 368, no centro de Barão de Cotegipe, a empresa se define como a marca líder em erva-mate e chás no Brasil — e os números dão razão à afirmação. São décadas de presença nas gôndolas gaúchas, brasileiras e internacionais, com exportações que levam o mate do Alto Uruguai para outros continentes.

"Desde 1951, compartilhando histórias com você." — lema da Barão Erva-Mate

Barão de Cotegipe — a cidade que nasceu para o mate

Para entender a Barão, é preciso entender Barão de Cotegipe — um município de pouco mais de 9 mil habitantes encravado na região do Alto Uruguai, onde a erva-mate nativa sempre foi parte da paisagem, da economia e da identidade das famílias.

A região é um dos polos históricos de produção de erva-mate do Rio Grande do Sul — terra onde imigrantes italianos e seus descendentes aprenderam a trabalhar a erva com um cuidado que vem de gerações. É desse território que nasce a Cambona 4 — variedade de erva-mate nativa reconhecida pelo sabor suave e pela origem controlada, uma singularidade que a Barão incorporou à sua linha premium.

Quando Etelvino Picolo fundou a empresa em 1951, estava fazendo exatamente o que aquela terra sempre soube fazer: transformar a planta do pampa em cultura, em produto, em orgulho.

Tradição encontra tradição — erva-mate e futebol gaúcho

O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense foi fundado em 15 de setembro de 1903 — um clube que atravessou mais de um século sendo símbolo de Porto Alegre, do RS e do futebol brasileiro. Tricampeão da Libertadores, campeão mundial de clubes, Tríplice Coroa em 1996 — a história tricolor é longa e repleta de conquistas.

A parceria com a Barão não é apenas um patrocínio comercial. É o encontro de duas tradições gaúchas que carregam, cada uma à sua maneira, a identidade do estado. O futebol e o chimarrão são talvez os dois rituais mais universais entre os gaúchos — presentes tanto no galpão da estância quanto nas arquibancadas da Arena.

Em 2026, ano em que o Grêmio celebra os 30 anos da Tríplice Coroa de 1996, a chegada da Barão como parceira reforça o vínculo do clube com marcas genuinamente gaúchas, num momento em que o tricolor busca reconstruir sua base de patrocinadores após o encerramento de contratos anteriores.

"O chimarrão no vestiário não é novidade. A novidade é que agora tem nome — e esse nome é gaúcho."

O mate e o futebol — uma relação mais antiga do que parece

Para qualquer torcedor gaúcho, a cena é familiar: a cuia passando de mão em mão na fila antes do jogo, a garrafa térmica no meio da torcida na arquibancada, o chimarrão no aquecimento dos jogadores nos dias frios de inverno. O mate sempre esteve no futebol gaúcho — só que informal, sem logotipo, sem contrato.

A parceria Barão + Grêmio formaliza algo que já existia na cultura. E não é a primeira vez que o futebol gaúcho e a erva-mate se encontram oficialmente: lembras da polêmica na Copa do Qatar 2022, quando os argentinos foram fotografados com a erva Canarias nas malas — produto fabricado pela Baldo, de Encantado? E do anúncio, em março de 2026, de que a Baldo seria a fornecedora oficial da Seleção Argentina para a Copa do Mundo 2026?

O chimarrão está conquistando o futebol. E o futebol está reconhecendo o chimarrão. Para o Rio Grande do Sul, isso é apenas o que deveria ter acontecido faz tempo.

Leia também: A Erva-Mate Gaúcha vai à Copa do Mundo — a história da Baldo de Encantado e a parceria com a Seleção Argentina aqui no Entrevero Xucro.

Tu és gremista e/ou toma Barão?

Conta nos comentários. E se tens uma memória do chimarrão no futebol — na arquibancada, no aquecimento, no galpão do CTG antes de assistir o jogo — divide com a gente. Porque o mate e o futebol, no RS, sempre andaram juntos. Agora é oficial.

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Imagem: Instagram Grêmio 

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