Esse é um assunto que dói. Mas precisa ser dito.
Entra num CTG numa sexta à noite. Olha em volta. Conta mentalmente as faixas etárias.
Na maioria das entidades que conheço, a conta é mais ou menos essa: muita gente entre 40 e 70 anos, alguns entre 30 e 40, e uma faixa de 15 a 25 que aparece pra ensaiar na invernada — mas que raramente vira sócio de verdade, raramente assume cargo, raramente se sente dono do espaço.
E quando a invernada termina a temporada de competição, parte dessa gurizada simplesmente some.
Não é por falta de amor à tradição. A maioria cresceu no galpão, foi criança no CTG, aprendeu a dançar ali. O problema é outro.
O que os jovens dizem quando saem
Quando alguém se dá ao trabalho de perguntar — e poucos CTGs perguntam — as respostas que aparecem são sempre parecidas:
"Não me sinto parte das decisões."
"As reuniões são longas e nada muda."
"Parece que o espaço é dos mais velhos."
"Quando eu sugeria algo, a resposta era sempre 'aqui sempre foi assim'."
"Não tem nada pensado pra minha faixa etária fora dos ensaios."
Repara: nenhuma dessas respostas fala que a tradição é chata, que o CTG não presta, que a cultura gaúcha não tem valor. O jovem não está rejeitando a identidade gaúcha. Ele está rejeitando uma estrutura que não abre espaço pra ele.
E aí está a distinção que muda tudo.
O problema é de gestão, não de geração
É muito fácil — e muito confortável — dizer que "a juventude de hoje não tem mais interesse pela tradição" ou que "o celular matou a cultura gaúcha".
Mas os CTGs que têm invernadas cheias, que renovam diretoria com sangue novo, que atraem famílias jovens — esses CTGs existem. Não são maioria, mas existem.
O que eles fazem de diferente?
Quase sempre a resposta é gestão. Não magia, não sorte, não localização privilegiada. Escolhas concretas de como o CTG é administrado.
Os 4 erros que afastam os jovens
1. Não ter nada pensado para eles fora da invernada
A invernada é a porta de entrada. O jovem entra aos 10, 12, 15 anos pra dançar. Aprende, se desenvolve, compete. Isso é lindo.
Mas quando ele para de competir — por idade, por trabalho, por faculdade — o que o CTG oferece pra esse jovem adulto de 22, 25 anos?
Na maioria dos CTGs: nada. Não há programação, não há espaço, não há função.
O galpão que foi tão importante na infância vira um lugar que "não é mais pra mim".
2. Não envolver os jovens nas decisões
Diretoria formada por pessoas acima dos 50 anos. Reuniões onde os mais novos ficam quietos porque "não têm experiência". Sugestões de modernização — comunicação digital, formas de pagamento, programação — vetadas sem discussão.
O jovem que se sente invisível nas decisões não vira sócio engajado. Vira frequentador eventual, quando muito.
3. Falar só pra quem já está dentro
A comunicação da maioria dos CTGs é voltada pra quem já frequenta. O Instagram posta foto do evento de sábado — mas quem não foi, não entende o contexto, não se sente convidado a ir na próxima.
Jovem que não cresceu no CTG não tem motivo pra entrar se nada comunica pra ele. E jovem que cresceu no CTG mas se afastou também não recebe nenhum sinal de que seria bem-vindo de volta.
4. Não ter programa de sócio jovem com valor percebido
"Por que eu vou pagar mensalidade se não uso o espaço o mês todo?"
Essa é a pergunta que o jovem faz — e que poucos CTGs sabem responder. A mensalidade precisa ter contrapartida clara: acesso a eventos, desconto no ingresso, espaço pra uso, atividades exclusivas.
Quando o sócio jovem não enxerga o que está pagando, ele cancela. Simples assim.
O que os CTGs que acertam fazem diferente
Não é necessário reinventar a tradição. É necessário reinventar a gestão de quem participa dela.
Criam um departamento jovem com autonomia real. Não é um grupo decorativo que pede autorização pra tudo. É um espaço onde os jovens de 18 a 35 anos organizam atividades, gerem orçamento próprio e respondem pelos resultados.
Reservam cadeiras na diretoria para pessoas jovens. Formalmente, no estatuto. Não como gesto simbólico — como obrigação institucional.
Criam programação além dos ensaios. Encontros de chimarrão, noites de cinema gaúcho, saraus nativistas, grupos de caminhada a cavalo, torneios esportivos. Atividades que têm a identidade gaúcha mas cabem na rotina de quem tem 25 anos.
Comunicam para fora, não só para dentro. Instagram com conteúdo que educa sobre a tradição, que convida, que mostra que o CTG é um espaço vivo e acolhedor pra qualquer gaúcho — não só pra quem já conhece.
Criam planos de sócio com benefícios tangíveis. Desconto progressivo em eventos, acesso ao espaço para confraternizações, participação em decisões — coisas concretas que justificam a mensalidade.
Uma conversa difícil que precisa acontecer
Existe um padrão que vejo se repetir nos CTGs que perdem jovens: a liderança mais antiga, inconscientemente, protege o espaço do jeito que sempre foi.
Não é maldade. É amor pela tradição. Mas amor pela tradição não pode ser confundido com resistência a qualquer mudança de forma.
O gaúcho do século XIX que fundou os primeiros CTGs não estava preservando uma forma — estava preservando uma identidade. E identidade se manifesta de formas diferentes em cada geração.
O chimarrão continua. A bombacha continua. A música, a dança, o respeito pela terra e pelo pago — tudo isso continua. Mas a reunião de diretoria pode ser mais ágil. A comunicação pode ser digital. O jovem pode ter voz.
Isso não é trair a tradição. É garantir que ela chegue às próximas gerações.
Por onde começar
Não precisa reformular tudo de uma vez. Começa com uma pergunta simples na próxima reunião de diretoria:
"O que nós faríamos diferente se quiséssemos que um jovem de 22 anos virasse sócio ativo do nosso CTG?"
Deixa a pergunta no ar. Ouve as respostas. Anota.
Depois pega as três respostas mais práticas e transforma em ação com prazo e responsável.
Não precisa de consultoria, de dinheiro, de reforma no galpão. Precisa de vontade de olhar pra frente com o mesmo amor que se olha pro passado.
Uma pergunta pra ti
Quando foi a última vez que o teu CTG perguntou pra um jovem por que ele parou de aparecer?
Se nunca aconteceu — talvez essa seja a primeira mudança a fazer.
Compartilha esse post com quem cuida da invernada ou do departamento jovem do teu CTG. Essa conversa precisa acontecer no galpão, não só na internet.
Até o próximo chimarrão.
Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.









