quarta-feira, 3 de junho de 2026

O adeus ao último Tronco Missioneiro e o legado eterno dos quatro pilares da cultura missioneira

400 anos das Missões e o silêncio da última voz

O ano de 2026 ficará marcado para sempre na história do Rio Grande do Sul.

É o ano em que celebramos os 400 anos do início das Missões Jesuítico-Guaranis, um dos acontecimentos mais importantes da formação cultural do Sul da América. Também foi o ano em que a cultura missioneira perdeu sua última grande voz viva.

No dia 29 de maio de 2026, partiu Pedro Ortaça, aos 83 anos, encerrando definitivamente a trajetória dos chamados Troncos Missioneiros. Com sua morte, desaparece o último representante de um grupo de artistas que transformou a música regional gaúcha e levou a identidade missioneira para todos os cantos do Brasil.

Mas quem foram os Troncos Missioneiros?

Por que seus nomes são reverenciados como patrimônio cultural do Rio Grande do Sul?

E por que sua obra continua tão atual?

Para entender isso, é preciso voltar no tempo.

Os 400 anos das Missões: onde nasceu uma parte da alma gaúcha

Em 1626 teve início a formação das primeiras reduções jesuítico-guaranis na região missioneira.

Ali surgiu uma das experiências culturais mais singulares da América do Sul: a convivência entre os povos guaranis e os missionários jesuítas.

Durante mais de um século, foram construídos povoados, igrejas, oficinas, escolas, centros musicais e comunidades que deixaram marcas profundas na identidade regional.

As Missões não pertencem apenas ao passado.

Elas vivem na linguagem, na música, na religiosidade, nos costumes, na culinária e na forma de ser do povo missioneiro.

Quatro séculos depois, seu legado continua inspirando artistas, pesquisadores e comunidades inteiras. Em 2026, diversas atividades culturais e educativas passaram a celebrar esse patrimônio histórico que ajudou a formar o Rio Grande do Sul.

O que foram os Troncos Missioneiros?

O nome Troncos Missioneiros surgiu para identificar quatro artistas que transformaram a cultura das Missões em poesia, música e identidade.

Eles não formavam um grupo musical tradicional.

Eram amigos, contemporâneos e representantes de uma mesma raiz cultural.

Cada um possuía estilo próprio, mas todos carregavam a mesma missão: dar voz ao povo missioneiro.

Os quatro troncos foram:Jayme Caetano Braun, Noel Guarany, Cenair Maicá e Pedro Ortaça

Juntos, ajudaram a criar uma nova estética para a música regional gaúcha, valorizando a história missioneira, o povo guarani, a crítica social e a identidade regional.

Jayme Caetano Braun: o payador das Missões

Nascido em 1924, em Bossoroca, Jayme Caetano Braun tornou-se um dos maiores payadores da história do Rio Grande do Sul.

Foi poeta, declamador, radialista e pesquisador da cultura gaúcha.

Sua obra ajudou a preservar expressões, histórias e valores do homem do campo.

Principais obras:

Galpão de Estância

Payadas

Trovas ao Vento

Diversos livros e discos de poesia

Representatividade: Jayme foi o grande intelectual do tradicionalismo missioneiro. Sua voz levou a poesia gaúcha para rádios, festivais e palcos de todo o Brasil.

Legado: Transformou a payada em patrimônio cultural e inspirou gerações de declamadores e poetas.

Noel Guarany: a voz rebelde das Missões

Nascido em 1941, em Bossoroca, Noel Guarany foi cantor, compositor e uma das figuras mais autênticas da música regional.

Defensor das causas populares, criticava injustiças sociais e exaltava a identidade missioneira.

Principais obras:

Destino Missioneiro

Romance da Tafona

Canto dos Livres

Canções sobre Sepé Tiaraju e os povos missioneiros

Representatividade: Noel foi um símbolo de independência artística.

Recusou seguir padrões comerciais e tornou-se referência para o movimento nativista.

Legado: Mostrou que a música regional poderia ser profunda, crítica e universal sem perder suas raízes.

Cenair Maicá: o poeta da alma missioneira

Nascido em 1947, em Tucunduva, mas profundamente identificado com a região missioneira, Cenair Maicá tornou-se uma das vozes mais emocionantes do cancioneiro gaúcho.

Sua obra aproximou o universo indígena, a natureza e a espiritualidade da música regional.

Principais obras:

Canto dos Livres

Rio Missioneiro

Canções dedicadas aos guaranis e às Missões

Representatividade: Foi um dos artistas que melhor traduziu a sensibilidade missioneira em música.

Legado: Sua obra permanece como uma ponte entre o passado indígena e a identidade contemporânea das Missões.

Pedro Ortaça: a última voz do Tronco Missioneiro

Nascido em São Luiz Gonzaga, Pedro Ortaça dedicou sua vida à preservação da cultura missioneira.

Foi cantor, compositor, pesquisador e guardião da memória regional.

Principais obras:

Timbre de Galo

Bailanta do Tibúrcio

Guasca

Queixo Duro

Pena Guarany

Representatividade: Pedro tornou-se o maior embaixador vivo das Missões nas últimas décadas.

Sua carreira foi marcada pela defesa da história missioneira e pela valorização das raízes guaranis.

Legado: Com sua partida, encerra-se a presença física dos Troncos Missioneiros.

Mas sua obra permanece viva em cada festival, cada galpão e cada roda de mate onde a cultura missioneira continua sendo celebrada.

Muito além da música

Os Troncos Missioneiros não cantavam apenas canções.

Eles contavam histórias. Preservavam memórias. Defendiam identidades.

Mostravam que o Rio Grande do Sul não nasceu apenas das guerras e das estâncias, mas também das reduções jesuítico-guaranis, dos povos indígenas e da rica herança cultural das Missões.

Quando um tronco cai, a floresta continua viva

A morte de Pedro Ortaça representa o fim de uma geração. Mas não representa o fim de seu legado.

Os Troncos Missioneiros ajudaram a construir uma consciência cultural que atravessa gerações.

Em pleno ano dos 400 anos das Missões, sua mensagem parece ainda mais atual.

Enquanto existirem pessoas cantando suas músicas, lendo seus versos, contando suas histórias e valorizando a cultura missioneira, eles continuarão vivos.

Porque alguns homens não pertencem apenas ao seu tempo. Pertencem à eternidade.

E os Troncos Missioneiros já fazem parte dela.

Imagem: URI São Luiz Gonzaga representando os 4 Troncos Missioneiros 


sábado, 30 de maio de 2026

Biografia Gaúcha: Pedro Ortaça — A voz Missioneira

O Rio Grande do Sul perdeu nesta semana uma de suas maiores referências culturais. Faleceu, aos 83 anos, o cantor, compositor e violonista Pedro Ortaça, considerado um dos maiores defensores da identidade missioneira e um dos pilares da música regional gaúcha. Sua partida encerra um capítulo histórico da cultura sul-rio-grandense, mas deixa um legado impossível de apagar.

Das Missões para o Rio Grande

Pedro Marques Ortaça nasceu em 29 de junho de 1942, em São Luiz Gonzaga, coração da região missioneira. Desde cedo carregou na voz e no violão a história de seu povo, transformando a cultura das Missões em música, poesia e resistência cultural.

Ao longo de décadas, tornou-se uma das vozes mais autênticas do regionalismo gaúcho, mantendo viva a memória dos Sete Povos das Missões, dos costumes campeiros, da influência guarani e da vida simples do homem da fronteira. Sua obra sempre caminhou longe dos modismos, preservando a essência da cultura missioneira.

Os Troncos Missioneiros

Falar de Pedro Ortaça é falar dos lendários Troncos Missioneiros.

Ao lado de Jayme Caetano Braun, Noel Guarany e Cenair Maicá, ajudou a construir uma nova identidade para a música regional do Rio Grande do Sul. O grupo ficou conhecido por valorizar a história missioneira, a cultura guarani, os ritmos de fronteira e também por trazer reflexões sociais em suas composições.

Com a morte de Pedro Ortaça, encerra-se simbolicamente a geração dos Troncos Missioneiros, que marcou profundamente a música gaúcha a partir das décadas de 1970 e 1980.

As Canções que Viraram Patrimônio Cultural

Entre suas obras mais conhecidas estão clássicos como:

"Timbre de Galo"

"Bailanta do Tibúrcio"

"Companheira"

"Guasca"

"Ronco da Oito Baixos"

"Queixo Duro"

"Lobisome Esperto"

"Correndo Pelado"

Suas músicas não eram apenas entretenimento. Eram relatos do povo missioneiro, da vida campeira, da cultura fronteiriça e da história de uma região que ajudou a formar a identidade do Rio Grande do Sul.

Reconhecimento em Vida

Pedro Ortaça teve a rara felicidade de receber importantes homenagens ainda em vida.

Foi agraciado como Mestre da Cultura Popular Brasileira e recebeu títulos de Doutor Honoris Causa concedidos por universidades gaúchas em reconhecimento à sua contribuição para a preservação da cultura regional. Em março de 2026, foi homenageado pela uergs.edu.br⁠� juntamente com os demais Troncos Missioneiros, em um ato considerado histórico para a cultura das Missões.

O Último Tronco

Nos últimos anos, Pedro tornou-se o último representante vivo dos Troncos Missioneiros. Mesmo enfrentando problemas de saúde, continuou levando sua arte adiante e mantendo viva a chama da música missioneira. Seu último trabalho foi a canção "Pena Guarany", gravada ao lado do filho Gabriel Ortaça, mostrando que sua paixão pela cultura jamais diminuiu.

Um Legado que Não Morre

Pedro Ortaça não foi apenas um cantor.

Foi guardião da memória missioneira.

Foi ponte entre gerações.

Foi um contador das histórias do nosso povo.

Sua voz carregava a força do Rio Uruguai, a saudade das reduções, o som das guitarras missioneiras e o orgulho de ser gaúcho.

O Rio Grande se despede do homem.

Mas a cultura gaúcha seguirá encontrando Pedro Ortaça em cada roda de mate, em cada violão missioneiro e em cada verso que lembrar quem somos e de onde viemos.

Porque existem artistas que fazem sucesso.

E existem artistas que viram patrimônio.

Pedro Ortaça foi um deles.

Obrigado por tudo, velho missioneiro.

"Enquanto houver um gaúcho cantando as Missões, tua voz seguirá viva pelos campos do Rio Grande." 🌾🎶

📍 Pedro Ortaça (1942–2026)

Último Tronco Missioneiro. Um dos maiores nomes da história da música gaúcha.



sábado, 23 de maio de 2026

Por que os jovens estão saindo dos Gestão Crioula. CTGs — e o que fazer pra mudar isso

 Esse é um assunto que dói. Mas precisa ser dito.

Entra num CTG numa sexta à noite. Olha em volta. Conta mentalmente as faixas etárias.

Na maioria das entidades que conheço, a conta é mais ou menos essa: muita gente entre 40 e 70 anos, alguns entre 30 e 40, e uma faixa de 15 a 25 que aparece pra ensaiar na invernada — mas que raramente vira sócio de verdade, raramente assume cargo, raramente se sente dono do espaço.

E quando a invernada termina a temporada de competição, parte dessa gurizada simplesmente some.

Não é por falta de amor à tradição. A maioria cresceu no galpão, foi criança no CTG, aprendeu a dançar ali. O problema é outro.

O que os jovens dizem quando saem

Quando alguém se dá ao trabalho de perguntar — e poucos CTGs perguntam — as respostas que aparecem são sempre parecidas:

"Não me sinto parte das decisões."

"As reuniões são longas e nada muda."

"Parece que o espaço é dos mais velhos."

"Quando eu sugeria algo, a resposta era sempre 'aqui sempre foi assim'."

"Não tem nada pensado pra minha faixa etária fora dos ensaios."

Repara: nenhuma dessas respostas fala que a tradição é chata, que o CTG não presta, que a cultura gaúcha não tem valor. O jovem não está rejeitando a identidade gaúcha. Ele está rejeitando uma estrutura que não abre espaço pra ele.

E aí está a distinção que muda tudo.

O problema é de gestão, não de geração

É muito fácil — e muito confortável — dizer que "a juventude de hoje não tem mais interesse pela tradição" ou que "o celular matou a cultura gaúcha".

Mas os CTGs que têm invernadas cheias, que renovam diretoria com sangue novo, que atraem famílias jovens — esses CTGs existem. Não são maioria, mas existem.

O que eles fazem de diferente?

Quase sempre a resposta é gestão. Não magia, não sorte, não localização privilegiada. Escolhas concretas de como o CTG é administrado.

Os 4 erros que afastam os jovens

1. Não ter nada pensado para eles fora da invernada

A invernada é a porta de entrada. O jovem entra aos 10, 12, 15 anos pra dançar. Aprende, se desenvolve, compete. Isso é lindo.

Mas quando ele para de competir — por idade, por trabalho, por faculdade — o que o CTG oferece pra esse jovem adulto de 22, 25 anos?

Na maioria dos CTGs: nada. Não há programação, não há espaço, não há função.

O galpão que foi tão importante na infância vira um lugar que "não é mais pra mim".

2. Não envolver os jovens nas decisões

Diretoria formada por pessoas acima dos 50 anos. Reuniões onde os mais novos ficam quietos porque "não têm experiência". Sugestões de modernização — comunicação digital, formas de pagamento, programação — vetadas sem discussão.

O jovem que se sente invisível nas decisões não vira sócio engajado. Vira frequentador eventual, quando muito.

3. Falar só pra quem já está dentro

A comunicação da maioria dos CTGs é voltada pra quem já frequenta. O Instagram posta foto do evento de sábado — mas quem não foi, não entende o contexto, não se sente convidado a ir na próxima.

Jovem que não cresceu no CTG não tem motivo pra entrar se nada comunica pra ele. E jovem que cresceu no CTG mas se afastou também não recebe nenhum sinal de que seria bem-vindo de volta.

4. Não ter programa de sócio jovem com valor percebido

"Por que eu vou pagar mensalidade se não uso o espaço o mês todo?"

Essa é a pergunta que o jovem faz — e que poucos CTGs sabem responder. A mensalidade precisa ter contrapartida clara: acesso a eventos, desconto no ingresso, espaço pra uso, atividades exclusivas.

Quando o sócio jovem não enxerga o que está pagando, ele cancela. Simples assim.

O que os CTGs que acertam fazem diferente

Não é necessário reinventar a tradição. É necessário reinventar a gestão de quem participa dela.

Criam um departamento jovem com autonomia real. Não é um grupo decorativo que pede autorização pra tudo. É um espaço onde os jovens de 18 a 35 anos organizam atividades, gerem orçamento próprio e respondem pelos resultados.

Reservam cadeiras na diretoria para pessoas jovens. Formalmente, no estatuto. Não como gesto simbólico — como obrigação institucional.

Criam programação além dos ensaios. Encontros de chimarrão, noites de cinema gaúcho, saraus nativistas, grupos de caminhada a cavalo, torneios esportivos. Atividades que têm a identidade gaúcha mas cabem na rotina de quem tem 25 anos.

Comunicam para fora, não só para dentro. Instagram com conteúdo que educa sobre a tradição, que convida, que mostra que o CTG é um espaço vivo e acolhedor pra qualquer gaúcho — não só pra quem já conhece.

Criam planos de sócio com benefícios tangíveis. Desconto progressivo em eventos, acesso ao espaço para confraternizações, participação em decisões — coisas concretas que justificam a mensalidade.

Uma conversa difícil que precisa acontecer

Existe um padrão que vejo se repetir nos CTGs que perdem jovens: a liderança mais antiga, inconscientemente, protege o espaço do jeito que sempre foi.

Não é maldade. É amor pela tradição. Mas amor pela tradição não pode ser confundido com resistência a qualquer mudança de forma.

O gaúcho do século XIX que fundou os primeiros CTGs não estava preservando uma forma — estava preservando uma identidade. E identidade se manifesta de formas diferentes em cada geração.

O chimarrão continua. A bombacha continua. A música, a dança, o respeito pela terra e pelo pago — tudo isso continua. Mas a reunião de diretoria pode ser mais ágil. A comunicação pode ser digital. O jovem pode ter voz.

Isso não é trair a tradição. É garantir que ela chegue às próximas gerações.

Por onde começar

Não precisa reformular tudo de uma vez. Começa com uma pergunta simples na próxima reunião de diretoria:

"O que nós faríamos diferente se quiséssemos que um jovem de 22 anos virasse sócio ativo do nosso CTG?"

Deixa a pergunta no ar. Ouve as respostas. Anota.

Depois pega as três respostas mais práticas e transforma em ação com prazo e responsável.

Não precisa de consultoria, de dinheiro, de reforma no galpão. Precisa de vontade de olhar pra frente com o mesmo amor que se olha pro passado.

Uma pergunta pra ti

Quando foi a última vez que o teu CTG perguntou pra um jovem por que ele parou de aparecer?

Se nunca aconteceu — talvez essa seja a primeira mudança a fazer.

Compartilha esse post com quem cuida da invernada ou do departamento jovem do teu CTG. Essa conversa precisa acontecer no galpão, não só na internet.

Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.

55ª Ciranda Cultural de Prendas - Uma tradição acesa em Erechim: o que é e o que acontece

O Rio Grande volta os olhos neste fim de semana para a capital da amizade. A querida cidade de Erechim recebe, entre os dias 21 e 23 de maio, a 55ª edição da Ciranda Cultural de Prendas, um dos eventos mais importantes do calendário do tradicionalismo gaúcho. Mais do que um concurso, a Ciranda é um encontro de cultura, conhecimento, arte, emoção e identidade do nosso povo campeiro.

Pra quem é de fora do meio tradicionalista, talvez fique a dúvida: afinal, o que é a Ciranda Cultural de Prendas?

A Ciranda é o evento promovido pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho que escolhe as prendas estaduais do Rio Grande do Sul. Participam representantes das 30 Regiões Tradicionalistas do Estado, divididas em categorias mirim, juvenil e adulta. Durante dias intensos, essas gurias passam por provas culturais, artísticas e tradicionalistas que avaliam muito mais do que beleza ou postura. O que está em jogo é o conhecimento da história gaúcha, da cultura regional, da arte, do folclore, da oralidade, da dança, da música, da indumentária e do sentimento de pertencimento ao Rio Grande.

É uma verdadeira celebração da identidade gaúcha.

Muito além da faixa e da flor no cabelo

Quem vê uma prenda pilchada muitas vezes não imagina a caminhada que existe por trás daquela faixa. Cada concorrente chega à etapa estadual depois de vencer concursos internos em entidades e regiões tradicionalistas. É uma preparação de meses — às vezes anos — estudando cultura gaúcha, história do Estado, folclore, MTG, costumes do campo, culinária, música e literatura regional.

Na Ciranda, acontecem: provas escritas, apresentações artísticas, declamação, interpretação de temas culturais, avaliações de comunicação, integração entre regiões, atividades culturais e protocolares e momentos de confraternização tradicionalista.

E tudo isso mantendo viva a essência do tradicionalismo: transmitir cultura de geração em geração.

Erechim vivendo a “Ciranda dos Sonhos”

A edição deste ano vem sendo chamada de “Ciranda dos Sonhos 2026”. A cidade de Erechim se preparou durante meses para receber milhares de tradicionalistas vindos de todas as querências do Estado. A expectativa é de mais de 2 mil pessoas circulando pelo município durante os três dias de programação.

A realização envolve o Movimento Tradicionalista Gaúcho, a Fundação Cultural Gaúcha, a 19ª Região Tradicionalista e o CTG Sentinela da Querência, além do apoio da Prefeitura Municipal de Erechim e da Secretaria Estadual da Cultura.

Um dos grandes símbolos desta edição é a atual 1ª Prenda do Rio Grande do Sul, Laura Laís Durli, justamente ligada à 19ª Região Tradicionalista, anfitriã do evento.

O coração cultural do tradicionalismo

Enquanto muita gente conhece o tradicionalismo pelos rodeios, gineteadas e fandangos, a Ciranda representa outro lado igualmente importante da cultura gaúcha: o lado intelectual e artístico do movimento.

É ali que se preservam: a pesquisa histórica, a valorização do linguajar gaúcho, o incentivo à leitura e à declamação, o ensino das tradições às novas gerações e o fortalecimento do papel da mulher dentro do tradicionalismo.

A Ciranda mostra que ser prenda vai muito além da pilcha bonita. É carregar conhecimento, postura, responsabilidade cultural e amor pelo Rio Grande.

Um evento que emociona quem vive a tradição

Quem já participou sabe: a Ciranda mistura nervosismo, amizade, orgulho e emoção. Tem abraço de família, lágrima escondida no lenço, nervosismo antes das provas e aplauso sincero entre concorrentes. Porque acima da disputa existe algo maior: a preservação da cultura gaúcha.

Cada prenda que sobe ao palco leva junto sua entidade, sua região e sua história.

E quando a chama crioula da cultura passa de uma geração pra outra, o Rio Grande segue vivo.

O Rio Grande se encontra em Erechim

Neste fim de semana, Erechim não recebe apenas um evento. Recebe o encontro de sotaques, costumes e querências de todo o Estado. Da campanha à serra, das missões ao litoral, o Rio Grande se reúne em torno daquilo que tem de mais valioso: sua identidade cultural.

A 55ª Ciranda Cultural de Prendas reafirma que tradição não é viver no passado. É manter viva a memória do povo enquanto se prepara o futuro.

E enquanto houver uma prenda estudando nossas raízes, declamando nossa poesia e defendendo a cultura do pago, o Rio Grande seguirá firme — de pé, de bota e de alma crioula.

Fonte: MTG e Prefeitura de Erechim 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Caxias do Sul: a gigante da Serra Gaúcha que ainda guarda alma de interior

Tem cidade que cresce e esquece de onde veio.

Mas Caxias do Sul parece carregar duas almas ao mesmo tempo.

Uma é moderna, industrial, acelerada. Terra de trabalho pesado, empresas gigantes, trânsito, bairros novos e desenvolvimento constante.

A outra ainda vive no cheiro do vinho colonial, nas estradas de chão do interior, no fogão à lenha aceso cedo da manhã e no sotaque carregado dos descendentes de imigrantes que ajudaram a construir a Serra Gaúcha.

E talvez seja justamente isso que faz tanta gente criar raízes aqui.

Porque mesmo enorme, Caxias ainda consegue parecer interior.

Quando tudo ainda era Campo dos Bugres

Antes de virar uma das maiores cidades do Sul do Brasil, a região era conhecida como Campo dos Bugres.

Muito antes da imigração italiana, os campos e matas já eram ocupados pelos povos indígenas que viviam na Serra. Depois vieram tropeiros, caminhos de comércio e, mais tarde, a chegada dos imigrantes italianos no final do século XIX.

Foi ali que começou a nascer uma cidade moldada pelo trabalho.

Os imigrantes enfrentaram frio, isolamento, mata fechada e dificuldades que hoje parecem impossíveis de imaginar. Mas construíram comunidades fortes, capelas, vinhedos e uma cultura própria que ainda marca profundamente a identidade da cidade.

A imigração italiana que mudou a Serra Gaúcha

Falar de Caxias do Sul é falar da imigração italiana no Rio Grande do Sul.

Os descendentes dos colonos ajudaram a transformar a cidade em uma potência econômica, mas sem abandonar completamente os costumes antigos.

Ainda hoje, quem anda pelos distritos do interior encontra:

pequenas propriedades rurais

produção artesanal

vinho colonial

capelas antigas

festas comunitárias

mesas fartas

sotaque carregado

tradição familiar

Em muitos lugares, o tempo parece passar mais devagar.

Uma cidade gigante que ainda parece pequena

Caxias cresceu.

Virou polo metalúrgico. Virou potência industrial. Virou referência econômica.

Mas existe algo curioso nela.

Mesmo com centenas de milhares de habitantes, ainda existem bairros e comunidades onde as pessoas se conhecem pelo nome, conversam na calçada e mantêm hábitos típicos de cidade pequena.

Talvez por isso tanta gente de fora venha trabalhar aqui… e nunca mais vá embora.

Porque Caxias tem algo raro: ela mistura oportunidade com pertencimento.

Os caminhos escondidos da Serra

Muita gente conhece apenas o centro urbano da cidade.

Mas existe outro lado de Caxias do Sul.

Um lado formado por:

estradas cercadas de parreirais

pequenas cantinas

igrejas antigas

comunidades do interior

paisagens típicas da Serra Gaúcha

Distritos como:

Criúva

Vila Oliva

Santa Lúcia do Piaí

guardam um pedaço do Rio Grande antigo que ainda resiste ao tempo.

E talvez seja ali que a verdadeira alma da cidade continue mais viva.

Entre o progresso e a tradição

Poucas cidades do Rio Grande do Sul vivem tão fortemente esse contraste.

De um lado: indústria, crescimento, tecnologia e expansão urbana.

Do outro: chimarrão, missa de comunidade, festa colonial, churrasco de família e memória dos antigos.

E talvez o grande segredo de Caxias esteja justamente nisso: crescer sem apagar completamente suas raízes.

Muito além da Festa da Uva

Quando se fala em Festa da Uva, muita gente pensa apenas em turismo.

Mas a festa representa algo maior.

Ela carrega a memória dos imigrantes, do trabalho nas colônias, da produção agrícola e da construção cultural da Serra Gaúcha.

É uma celebração da identidade de um povo.

O que faz tanta gente criar raízes em Caxias?

Talvez seja o frio.

Talvez seja a comida farta.

Talvez seja o trabalho.

Ou talvez seja aquela sensação difícil de explicar que aparece quando alguém encontra um lugar que mistura futuro e memória ao mesmo tempo.

Porque no fundo, Caxias do Sul continua sendo aquilo que muita gente define de um jeito simples:

“Uma cidade de interior… só que gigante.”

E tu?

Qual é a primeira lembrança que vem na cabeça quando pensa em Caxias do Sul?



"Criúva, cantada pelos Bertussi, carrega a herança tropeira."



"Fonte de Água Azul, um pedaço Jesuíta no interior de Caxias do Sul "


“Estrada do interior de Caxias do Sul cercada por paisagens típicas da Serra Gaúcha e comunidades de descendentes italianos”

“Paisagem típica do inverno de Caxias do Sul durante o amanhecer”

Caxias do Sul turismo

história de Caxias do Sul

cultura italiana RS

Serra Gaúcha

interior do RS

cidades da Serra Gaúcha

domingo, 10 de maio de 2026

Feliz dia das Mães

Tem coisa que o tempo não leva embora. O gosto da comida sendo feita, o cheiro do pão caseiro saindo do forno, o barulho da chaleira no fogão à lenha. E principalmente… o abraço de mãe.

No coração do pampa gaúcho, mãe é mais que família. É fortaleza. É quem segura a estância da vida quando o minuano castiga. É quem ensina respeito, tradição e coragem desde cedo.

Foi no colo das mães gaúchas que muita gente aprendeu o valor do mate compartilhado, do aperto de mão sincero e da palavra honrada. Cada galpão do Rio Grande carrega histórias de mulheres fortes, campeiras, trabalhadoras e cheias de amor pela família e pela querência.

Neste Dia das Mães, fica a homenagem do Entrevero Xucro para todas as mães do Rio Grande do Sul — das cidades, das campanhas, das estâncias e dos rincões esquecidos do mapa, mas nunca esquecidos pela memória do povo gaúcho.

Que nunca falte mate quente, abraço apertado no domingo e gratidão por quem sempre esteve ali, mesmo nas horas mais brutas da vida.

Porque mãe gaúcha não cria só filhos. Cria valores. Cria raízes. Cria gente forte.

Feliz Dia das Mães. E abracem as suas enquanto o tempo permite. E comprem os presentes



quarta-feira, 6 de maio de 2026

Dicionário Gaudério: PILCHA

PILCHA - a elegância do gaúcho — quando a roupa é mais do que roupa, é identidade.

O que significa PILCHA?

Substantivo feminino. No universo gaúcho, pilcha é a indumentária tradicional — o conjunto de roupas e acessórios que compõem o traje do gaúcho e da prenda. Mas chamar a pilcha apenas de "roupa típica" é diminuir demais o que ela representa. A pilcha é identidade vestida. É a declaração de que quem a usa pertence a uma cultura, carrega uma história e respeita uma tradição.

Pilchar-se — o ato de vestir a pilcha — não é uma obrigação. É uma escolha. E quem faz essa escolha está dizendo, sem precisar de palavras: sou gaúcho, e tenho orgulho disso.

A origem da palavra

A palavra vem do espanhol platino pilcha — termo usado no Uruguai e na Argentina para designar objetos pessoais de pouco valor, trapos, bugigangas. No pampa gaúcho, a palavra chegou pela fronteira viva com o Prata e, como aconteceu com tantos outros termos, ganhou um significado completamente diferente — e muito mais nobre. O que era trapo virou traje. O que era descarte virou patrimônio.

A inversão de sentido é, ela mesma, uma metáfora da cultura gaúcha: pegar o que o mundo jogou fora e transformar em orgulho.

A pilcha do gaúcho — peça por peça

A indumentária gaúcha masculina tradicional é composta por:

Bombacha: a calça larga de tecido resistente, franzida nos tornozelos — símbolo máximo do traje gaúcho. Surgiu no século XIX como adaptação da calça árabe trazida pelos imigrantes do Oriente Médio que chegaram à América do Sul, e foi adotada pelos gaúchos pela praticidade no campo.

Camisa: geralmente de tecido leve, em cores sóbrias ou com bordados discretos.

Lenço: usado no pescoço, dobrado em triângulo. As cores têm significados que variam por região e CTG — vermelho, azul, branco, preto, cada um com sua simbologia.

Guaiaca ou cinto: a cinta de couro que guarda a faca e os pertences do gaúcho. A guaiaca é o cinto largo, trabalhado, frequentemente com enfeites de prata.

Faca e bainha: a faca gaúcha é ferramenta, não arma. A bainha trabalhada é parte da pilcha — objeto de arte e identidade.

Botas: de couro, com ou sem salto, com ou sem esporas. As esporas são usadas pelos campeiros e pelos que participam das atividades equestres.

Chapéu: de feltro, aba larga, cor preta ou marrom. O ângulo da aba varia conforme a região do estado.

Poncho ou pelego: para o frio. O poncho gaúcho é a peça mais versátil da pilcha — cobertor, capa de chuva, assento e travesseiro quando necessário.

A indumentária feminina — a prenda — tem sua própria riqueza: vestido rodado de chita ou renda, avental bordado, lenço de seda no cabelo, sapatilhas ou botinhas. Cada detalhe obedece ao regulamento do MTG e tem significado cultural próprio.

A pilcha e o MTG — quando a tradição vira norma

O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) regulamenta a indumentária gaúcha com precisão — cores, tecidos, comprimentos, acessórios permitidos. Há quem critique o excesso de normatização. Mas há um argumento forte do outro lado: sem padronização mínima, a pilcha se dilui, se comercializa, perde o que a torna especial.

O debate é saudável. E o que importa é que, regulamentada ou não, a pilcha continua sendo escolhida — por jovens, por adultos, por crianças. Porque a identidade gaúcha, quando bem apresentada, não precisa de obrigação para continuar viva.

Como se usa no dia a dia

Elogio: Que pilcha mais bonita! Esse lenço combinou perfeito com a bombacha.

Identidade: Nos festejos, a gente se pilcha do melhor — é respeito pela tradição.

Versatilidade: Pode ser pilcha completa ou só a bombacha e o lenço. Já é suficiente pra mostrar de onde és.

Orgulho: Meu pai me ensinou a me pilchar antes de me ensinar a montar a cavalo.

Pilcha na música nativista

A pilcha atravessa o cancioneiro gaúcho como símbolo de pertencimento. Das vaneras aos festivais nativistas, a indumentária aparece em letras que celebram o gaúcho que não tem vergonha de mostrar de onde vem — nem nas cidades grandes, nem no exterior.

O gaúcho pilchado em São Paulo, em Buenos Aires, em Lisboa — é sempre uma declaração. Uma âncora cultural que diz: de onde eu vim não é lugar que se abandona.

Palavras da mesma família

Pilchar-se: o verbo — o ato de vestir a pilcha. Já te pilchaste para o desfile?

Pilchado(a): quem está com a indumentária gaúcha. Chegou todo pilchado ao acampamento.

Despilchar: tirar a pilcha. Depois do desfile, despilchou e foi trabalhar.

Pilcharia: conjunto de pilchas, ou loja que as vende.

A tua pilcha tem história?

Conta nos comentários. Muitos gaúchos têm uma pilcha herdada — do pai, do avô, da avó. Uma bombacha guardada num baú, um lenço que viajou pelo mundo. Essas histórias merecem ser contadas.

E se conheces outra palavra gaúcha que merece entrar no Dicionário Gaudério, deixa a sugestão — este dicionário é construído junto.

📌 Palavras-chave: pilcha gaúcha, indumentária gaúcha, bombacha, lenço gaúcho, traje gaúcho, MTG, cultura gaúcha, tradição gaúcha, Semana Farroupilha, identidade gaúcha, Rio Grande do Sul

📂 Série: Dicionário Gaudério | Entrevero Xucro | entreveroxucro.blogspot.com

Quer comprar uma bombacha, clica AQUI e veja o que tem de botas na Amazon

sexta-feira, 1 de maio de 2026

1° de maio - Dia do Trabalhador

No pampa, o trabalho sempre foi mais do que obrigação — foi identidade.

O gaúcho que acorda antes do sol raiar, que tira o leite com as mãos ainda dormentes pelo frio da madrugada, que planta, que colhe, que pega no cabo da ferramenta sem reclamar do peso — esse é o verdadeiro sustentáculo desta terra.

Não importa se o trabalho é no campo ou na cidade, na lavoura ou na fábrica, na cozinha ou no escritório: todo suor honesto merece respeito.

O Rio Grande do Sul foi construído na fibra de quem não desistiu. Nas costas do peão, nas mãos calejadas do colono, na garra do operário, na dedicação silenciosa de tantos que nunca tiveram seu nome nos livros — mas que fizeram a história acontecer.

Hoje, o Entrevero Xucro tira o chapéu.

Ao trabalhador gaúcho: parabéns. Vocês são o coração deste Estado.

Que o chimarrão de hoje seja bem-mateado. Vocês merecem.

🤠 Entrevero Xucro — Cultura e tradição gaúcha desde as raízes

📌 entreveroxucro.blogspot.com



sábado, 25 de abril de 2026

Gestão Crioula - O erro que faz CTG trabalhar o ano todo e terminar no prejuízo

Com o chimarrão na mão. Vamos falar de um assunto que muita gente prefere evitar.

A boia foi de fundamento. O salão lotou. A invernada se apresentou, o pessoal dançou até tarde, todo mundo saiu falando bem. O Patrão dormiu feliz.

Aí chegou a segunda-feira. O tesoureiro sentou com as notas fiscais, o caderno de controle e a planilha — ou o bloco de anotações, dependendo do CTG. E ali, na frieza dos números, apareceu a realidade: o evento deu prejuízo. Ou, na melhor das hipóteses, sobrou tão pouco que não valeu o trabalho de um mês inteiro de organização.

Isso acontece em CTGs de todos os tamanhos. E quase sempre pelo mesmo motivo. O erro mais comum: precificar por sentimento, por achismo, pelo sempre foi assim.

Quando chega a hora de definir o valor do ingresso ou da mesa de jantar, a conversa na diretoria costuma ser mais ou menos assim:

"Quanto a gente cobra?"

"O CTG tal cobrou 80 reais no ano passado..."

"Então vamos cobrar 90, pra parecer que melhorou."

"Mas se cobrar muito caro, o pessoal não vem."

"Então 80 mesmo."

Decisão tomada. Sem saber o custo real do evento. Sem saber quantas pessoas precisam comparecer pra cobrir as despesas. Sem saber qual é o ponto de equilíbrio. É precificação por sentimento — e ela é a principal razão pela qual CTGs trabalham meses e terminam no vermelho.

O que a maioria dos CTGs não calcula

Quando a diretoria pensa nos custos de um evento, normalmente lembra dos itens mais visíveis: o churrasco, a bebida, a música. Mas existe uma lista de custos que frequentemente fica de fora da conta. Custos diretos que todo mundo lembra: Alimentos e bebidas, Banda ou DJ, Decoração

Custos diretos que frequentemente esquecem: Gás e carvão, Descartáveis e guardanapos, Segurança (porteiro, vigilante), Impressão de ingressos e banners, Transporte de materiais, Taxa do sistema de cobrança (Pix tem custo? Depende da conta).

Custos indiretos que quase nunca entram na conta: Energia elétrica do evento, Desgaste de equipamentos (fogão, freezer, caixas de som), Horas de trabalho dos voluntários que saíram do bolso próprio pra comprar algo, Limpeza pós-evento, Eventual manutenção de algo que quebrou durante o evento e o maior esquecido de todos: A parcela do aluguel ou IPTU do mês — o espaço tem custo fixo que precisa ser coberto.

Quando tu somas tudo isso, o custo real do evento é quase sempre 30% a 40% maior do que o número que aparecia na cabeça da diretoria na hora de definir o preço.

Ponto de equilíbrio: é o número que todo Patrão precisa saber e é simples: é a quantidade mínima de ingressos que precisa ser vendida para que o evento não dê prejuízo.

A fórmula é direta: Ponto de equilíbrio = Custo total do evento ÷ Valor do ingresso

Exemplo prático: Custo total real do jantar: R$ 8.000. Valor do ingresso: R$ 80. Ponto de equilíbrio: 100 pessoas

Isso significa que as primeiras 100 entradas vendidas só pagam as contas. A partir da 101ª pessoa é que começa a sobrar dinheiro pro CTG. Se o salão comporta 150 pessoas e tu vendeste 110 — parabéns, o evento foi bem. Mas se vendeste 85, o CTG saiu no prejuízo mesmo com o salão "cheio".

Saber esse número antes do evento muda completamente a tomada de decisão. Tu podes ajustar o preço, reduzir custos, criar um ingresso antecipado com desconto pra garantir o mínimo — ou até decidir não fazer o evento se a conta não fechar.

O problema do ingresso antecipado mal gerido

Ingresso antecipado é uma ferramenta poderosa — quando bem usado. Mas em muitos CTGs ele vira um problema. O que acontece na prática: os sócios mais próximos compram antecipado com desconto. O CTG usa esse dinheiro pra pagar as despesas iniciais. Aí o evento acontece, as vendas na porta não compensam, e no final sobrou menos do que o esperado.

O ingresso antecipado precisa estar dentro da conta, não fora dela. Se tu vendes 50 ingressos a R$ 60 e 60 na porta a R$ 80, a receita total não é "60 vezes 80" — é a soma real das duas faixas.

Uma planilha simples resolve boa parte do problema

Não precisa de sistema caro, software sofisticado nem contador dedicado. Uma planilha no celular já resolve — desde que tu uses ela de verdade.

A planilha mínima de um evento de CTG tem três abas:

Aba 1 — Custos previstos: lista cada item de custo com o valor estimado, antes do evento.

Aba 2 — Receita prevista: quantos ingressos pretende vender, a que preço, em quais categorias.

Aba 3 — Resultado real: o que efetivamente foi gasto e o que entrou de receita, preenchida depois do evento.

Comparar as abas 1 e 2 antes do evento te diz se a conta fecha. Comparar com a aba 3 depois te ensina a fazer melhor no próximo.

Em três ou quatro eventos usando esse método, a diretoria começa a ter referências reais — e a precificação deixa de ser sentimento pra virar decisão.

"Mas no nosso CTG é tudo voluntário, não tem como cobrar tudo isso..."

Entendo. E respeito muito, o voluntarismo é o que mantém os CTGs de pé.

Mas existe uma diferença importante entre trabalho voluntário e prejuízo financeiro. O voluntário doa o seu tempo — e isso é lindo. Mas quando o CTG sai de um evento devendo pro fornecedor, sem dinheiro pra pagar a conta de luz do mês seguinte ou sem reserva pra manutenção do galpão, o problema não é só financeiro. É de sustentabilidade da própria entidade.

CTG que não tem saúde financeira não consegue manter a invernada, não consegue reformar o galpão, não consegue pagar a anuidade da MTG, não consegue crescer. Cuidar das contas não é desvirtuar a tradição. É garantir que ela continue existindo.

Por onde começar na semana que vem

Se tens um evento nos próximos meses, faz isso antes de definir qualquer preço:

1. Senta com o tesoureiro e lista todos os custos do último evento similar — os que lembrarem e os que acharem nos recibos

2. Adiciona 30% a essa lista pra cobrir o que esquecerem

3. Divide pelo número realista de participantes esperados

4. O número que aparecer é o custo por pessoa — e o ingresso precisa ser maior do que isso

Simples assim pra começar. Depois vai refinando.

Uma pergunta pra ti:

No último evento do teu CTG — tu sabias, antes de começar, qual era o ponto de equilíbrio?

Se a resposta foi não, compartilha esse post com o tesoureiro. Pode ser a conversa mais importante que vocês vão ter essa semana.

Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Destinos do Pampa - Pinheiro Machado

 DESTINOS DO PAMPA • Cidades Rio-Grandenses

Pinheiro Machado — a Eterna Cacimbinhas tem história, tradição, vinho e natureza no coração das Serras do Sudeste gaúcho.

Tem lugares no Rio Grande do Sul que carregam a história do estado inteira dentro dos seus limites. Pinheiro Machado é um desses lugares. Cidade do extremo sul gaúcho, encravada entre as Serras das Asperezas, do Passarinho e do Velleda, a apenas 354 km de Porto Alegre — ela é conhecida pelo apelido carinhoso que o tempo não apagou: a eterna Cacimbinhas.

Quem nasce lá, leva o pago no coração para onde for. E quem visita, entende por que.

Cacimbinhas — a origem do nome e da cidade

Antes de ser Pinheiro Machado, antes de ser Nossa Senhora da Luz das Cacimbinhas, antes mesmo de qualquer estrutura urbana, esse pedaço de coxilha era parada obrigatória dos carreteiros que cruzavam o sul do estado em carretas puxadas a bois.

Os tropeiros abriam picadas pelos divisores de água naturais, encurtando caminhos, desviando de terrenos difíceis. E num desses pontos de parada — onde havia água fresca nas cacimbas naturais do chão —, surgiu o pequeno agrupamento que virou cidade. Dizem que o local onde hoje fica a praça central era exatamente o ponto de descanso das tropas. Das trilhas dos viajantes nasceu a avenida que chega ao cemitério — a mesma que o tempo transformou em rua e a memória transformou em história.

A lenda de Dutra de Andrade — a promessa que fundou a primeira igreja

Toda cidade tem uma lenda. A de Cacimbinhas é das mais bonitas do RS. Conta-se que José Dutra de Andrade — um dos primeiros a receber sesmarias nessa coxilha, em 1790 — perdeu a visão e fez uma promessa: se recuperasse a vista ao lavar os olhos nas águas das cacimbinhas, mandaria construir uma capela em honra de Nossa Senhora da Luz.

O milagre aconteceu. E a primeira Igreja de Pinheiro Machado foi construída no terreno doado por Dutra de Andrade, em 10 de abril de 1851. A devoção que nasceu daquela promessa virou nome de cidade — e virou alma de um povo.

De Rafael Pinto Bandeira a Sepé Tiaraju — história viva no chão dessa cidade

Pinheiro Machado é um dos municípios mais antigos do Rio Grande do Sul. Sua colonização remonta a cerca de 1775, quando Rafael Pinto Bandeira — militar gaúcho que participou da retomada de territórios missioneiros para a Coroa Portuguesa, e o primeiro gaúcho a assumir o governo do RS — chegou a essas terras.

Mas a história desse chão é ainda mais antiga. Durante as demarcações do Tratado de Madri (1750), a região estava no centro das disputas entre Portugal e Espanha. E foi aqui, nas proximidades do que hoje é Pinheiro Machado, que as forças missioneiras lideradas pelo Cacique Sepé Tiaraju embargaram as demarcações no histórico Forte de Santa Tecla — em resistência que só terminou com a morte do herói guarani e a destruição do forte.

O Marco dos Porongos, ponto turístico do município na estrada entre Pinheiro Machado e Torrinhas, lembra outro capítulo dramático: a Batalha dos Porongos, de 14 de novembro de 1844, quando 110 Lanceiros Negros que combatiam pela República Riograndense foram mortos. Uma ferida aberta da história gaúcha, guardada em pedra e memória.

"Desde 1750, o chão de Pinheiro Machado já escrevia páginas do Rio Grande do Sul."

— ✦ —

A cidade ganhou o nome por um assassinato — e a população se rebelou

Em 1879, o município se desmembrou de Piratini sob o nome de Nossa Senhora da Luz das Cacimbinhas. Mas o nome que carrega hoje veio de uma história dramática: quando o Senador José Gomes Pinheiro Machado foi assassinado no Rio de Janeiro — pelo revólver de Francisco Manso de Paiva Coimbra, morador justamente da região de Cacimbinhas —, o Intendente Provisório Dr. Ney Lima Costa mudou o nome da cidade em homenagem ao senador.

A população não aceitou. Rebelou-se contra o intendente, que teve que deixar a cidade. Mas o nome ficou. É Pinheiro Machado até hoje — embora no coração dos que lá nasceram, o lugar sempre será Cacimbinhas.

Economia e cultura — a Terra da Ovelha e os vinhos da Serra do Sudeste

Durante décadas, Pinheiro Machado foi conhecida como a Terra da Ovelha. A criação de ovinos era o carro-chefe da economia local, e a FEOVELHA — Feira e Festa Nacional da Ovelha projetou o município no cenário regional. As crises do setor reduziram o rebanho, mas a feira segue como tradição e símbolo de identidade.

A grande nova vocação de Pinheiro Machado é a vitivinicultura. A cidade integra a Serra do Sudeste — uma das regiões vinícolas mais promissoras do Brasil, que se estende entre Pinheiro Machado e Encruzilhada do Sul. Com solos graníticos, altitudes medianas, clima temperado e menor pluviosidade que a Serra Gaúcha, a região produz uvas viníferas de alta qualidade — Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, Chardonnay, entre outras — que já rendem rótulos premiados.

A olivicultura também desponta como nova fronteira: o clima serrano favorece o cultivo de oliveiras de excelente qualidade, e Pinheiro Machado começa a se posicionar nesse mercado.

A economia do município ainda conta com a extração de pedras de revestimento — recurso que colocou o município no mapa da construção civil gaúcha e nacional — e com a produção de calcário de alta qualidade.

O que fazer em Pinheiro Machado — roteiro para o visitante

Marco dos Porongos

Monumento histórico na estrada para Torrinhas, em memória à Batalha de 14 de novembro de 1844 e aos Lanceiros Negros. Um dos pontos mais significativos da história farroupilha no RS, raramente visitado — e por isso ainda mais especial para quem valoriza o que não está na rota turística convencional.

Parque Natural Municipal

Área de preservação com trilhas, fauna e flora nativas. Ideal para quem quer caminhar, observar aves e respirar o campo sem sair da cidade.

Rio Camaquã

Um dos rios mais bonitos do sul gaúcho corta a região e oferece descidas de canoagem e caiaques, trilhas e paisagens que a câmera não consegue fazer justiça. Precisa ser visto de perto.

Gaya Park

A apenas 7 km da sede, na estrada conhecida como China Inocência, na localidade de Curral de Pedras — um refúgio de natureza, tranquilidade e contato com o campo gaúcho autêntico.

Teatro Municipal

Construído em 1938, representa a arquitetura proto-racionalista do século XX no interior gaúcho. Valor histórico e cultural que merece mais atenção.

Roteiro de vinhos da Serra do Sudeste

Os vinhedos da região de Pinheiro Machado integram um dos roteiros vitivinícolas mais interessantes e menos turísticos do Brasil. Diferente da Serra Gaúcha, aqui a experiência é mais íntima, mais do campo, mais gaúcha.

Feira do Produtor Rural

Produtos locais, contato com moradores, queijos, artesanato e a hospitalidade genuína do interior gaúcho.

A Comparsa da Canção — o festival que fez o nome de Pinheiro Machado no nativismo

Para o gaúcho apaixonado pela música nativista, Pinheiro Machado tem um capítulo especial: a Comparsa da Canção, festival nativista que colocou a cidade no calendário cultural do RS e revelou talentos que foram muito além das fronteiras municipais.

Criada para celebrar e incentivar a música regional, a Comparsa atravessou décadas com qualidade e tradição. Infelizmente, por opções do poder público, o festival deixou de acontecer nos últimos anos — uma perda real para o nativismo gaúcho que a cidade merece ver retornar.

Tu conheces Pinheiro Machado?

Se és da região ou já passaste por lá, conta nos comentários o que mais te marcou. E se tens uma história, uma memória ou uma dica de Cacimbinhas que a gente não mencionou — esse post é teu tanto quanto nosso.

Acompanha o Entrevero Xucro — toda semana, história, cultura e identidade gaúcha do jeito que o pampa merece.