Chimarrão na mão. Hoje o assunto é aquele que ninguém gosta de tocar — mas todo tesoureiro conhece bem.
Tem um número que a maioria dos CTGs nunca calcula com clareza. Um número que, se fosse calculado, mudaria bastante a forma como a diretoria toma decisões.
É a receita real de mensalidades.
Não o que deveria entrar se todos os sócios pagassem. O que efetivamente entra todo mês.
Em muitos CTGs que conheço, a diferença entre esses dois números chega a 40%, 50%, às vezes mais. Metade dos sócios em dia, metade inadimplente — e a diretoria planejando eventos e despesas como se a receita fosse a lista completa.
Aí o mês fecha no vermelho e ninguém entende por quê.
Por que a inadimplência cresce e ninguém percebe
A inadimplência em CTG raramente começa com má vontade. Começa com descuido — do sócio e da entidade.
O sócio esquece de pagar num mês. Ninguém cobra. Passa o segundo mês. Ainda ninguém cobra. No terceiro mês, o sócio já deve três mensalidades e começa a evitar o CTG por vergonha — ou porque sabe que deve e não quer ser confrontado.
E aí acontece algo sutil: esse sócio para de aparecer. Para de participar. Para de pertencer.
Do lado da diretoria, o processo é parecido. No começo, ninguém quer cobrar porque "fulano é amigo de longa data". Depois, a dívida já cresceu tanto que cobrar parece agressivo. E no final, o nome do sócio continua na lista — mas ele não existe mais na prática.
O CTG perde o sócio e perde a receita. Os dois ao mesmo tempo.
O primeiro passo: saber exatamente quem deve o quê
Parece óbvio. Mas é surpreendente a quantidade de CTGs que não tem esse controle.
Não basta ter uma lista de sócios. É preciso ter uma lista de sócios com situação financeira atualizada — mês a mês, por categoria, com valor devido e data do último pagamento.
Sem esse mapa, a diretoria está gerindo no escuro. Cobra quem está na frente, ignora quem está quieto, e no fim do ano descobre que tem um passivo de inadimplência que ninguém sabia que existia.
A boa notícia: não precisa de sistema caro. Uma planilha bem feita resolve. O que precisa mesmo é de alguém responsável por mantê-la atualizada — e de disciplina para não deixar acumular.
Os erros mais comuns na cobrança
Cobrar só quando lembra
Cobrança feita na base do "quando lembro" não é cobrança — é loteria. Num mês funciona, no outro não. O sócio nunca sabe o que esperar, e a diretoria nunca sabe o que vai entrar.
Cobrança precisa de calendário fixo. Mesmo dia todo mês. Mesmo processo. Sem depender da memória de ninguém.
Cobrar de forma diferente para cada sócio
Num CTG onde as regras não são claras e iguais para todos, a cobrança vira negociação individual. Um sócio paga em dia, outro pede prazo, outro simplesmente ignora — e a diretoria trata cada caso de um jeito diferente.
Isso gera injustiça percebida. Quem paga em dia começa a achar que está pagando pelos outros — e tem razão.
Não ter política clara de suspensão
O que acontece com o sócio que não paga por três meses? E por seis? E por um ano?
Se a resposta for "depende" ou "a gente vai vendo", o problema vai crescer. Precisa ter regra — escrita, aprovada, comunicada a todos os sócios. E precisa ser aplicada de forma consistente, sem exceção baseada em quem é amigo de quem.
Ter vergonha de cobrar
Esse é o mais humano de todos os erros — e o mais prejudicial.
O ambiente do CTG é de amizade, de compadrio, de relação pessoal. Cobrar dinheiro de amigo parece deselegante. Parece que vai estragar a relação.
Mas pensa do outro lado: quando o CTG não tem receita suficiente pra pagar a conta de luz, pra manter o espaço, pra oferecer uma programação decente — quem perde é a peonada toda. Inclusive o sócio inadimplente.
Cobrar mensalidade não é cobrar favor. É garantir que o CTG continue existindo.
O que funciona na prática
Automatizar o lembrete, não a vergonha
O melhor lembrete de mensalidade não é o tesoureiro ligando constrangido. É uma mensagem automática, no começo do mês, com o valor e a forma de pagamento — antes que a dívida comece.
WhatsApp funciona bem pra isso. Uma mensagem padrão, enviada no dia 1º pra todos os sócios ativos, com QR Code do Pix. Simples, sem drama, sem exceção.
Quem paga na hora, ótimo. Quem não paga em 10 dias recebe um lembrete. Quem não paga em 20 dias entra no fluxo de cobrança formal.
Criar categorias de sócio com valores justos
Mensalidade única pra todo mundo raramente é justa. O sócio ativo que usa o espaço toda semana e o sócio que foi uma vez no ano passado têm relações muito diferentes com o CTG.
Categorias possíveis: sócio pleno, sócio jovem, sócio familiar, sócio remoto. Cada um com valor proporcional ao que recebe.
Quem paga menos porque tem menos benefício também tem mais razão pra manter o pagamento em dia. E quem paga mais tem mais razão pra exigir mais do CTG — o que é saudável.
Oferecer desconto pra pagamento anual
Doze mensalidades de R$ 60 dão R$ 720 por ano. Oferece a anuidade por R$ 650 — ou R$ 600 pra quem paga até março.
O CTG recebe o dinheiro de uma vez, melhora o fluxo de caixa e reduz o trabalho de cobrança mensal. O sócio sente que fez um bom negócio. Todo mundo ganha.
Criar benefícios visíveis pra quem está em dia
O sócio inadimplente muitas vezes não percebe que está perdendo nada — porque o CTG não diferencia quem paga de quem não paga.
Muda isso. Desconto progressivo nos eventos pra sócio em dia. Acesso a atividades exclusivas. Prioridade na reserva do espaço. Voto nas assembleias.
Quando estar em dia tem vantagem real e visível, o pagamento vira interesse do sócio — não só obrigação.
Como tratar os casos de dívida antiga
Tem CTGs com sócios que devem dois, três anos de mensalidade. A dívida já é grande demais pra cobrar normalmente — e pequena demais pra levar a sério.
Uma forma que funciona bem: campanha de regularização anual, geralmente no início do ano ou na época da Semana Farroupilha. O sócio que quiser regularizar a situação paga um valor reduzido, sem juros ou multa — e volta pra lista de ativos.
Não é perdoar a dívida. É reconhecer que dívida velha raramente é recuperada integralmente — e que trazer o sócio de volta vale mais do que insistir num valor que nunca vai entrar.
Depois da campanha, os que não regularizaram são formalmente excluídos da lista de sócios — conforme previsto no estatuto. Sem drama, sem perseguição. A regra foi clara, o prazo foi dado, a oportunidade foi oferecida.
O número que precisa estar na cabeça da diretoria todo mês
Antes de qualquer reunião financeira, o tesoureiro deveria informar três números:
Receita potencial: o que entraria se todos os sócios ativos pagassem.
Receita real: o que efetivamente entrou no mês.
Taxa de inadimplência: a diferença entre os dois, em percentual.
Se a taxa de inadimplência está acima de 20%, é sinal de alerta. Se está acima de 30%, é emergência financeira — mesmo que o CTG pareça estar funcionando normalmente.
Esse número simples muda a conversa dentro da diretoria. Deixa de ser "tá sobrando ou faltando?" e passa a ser "qual é a saúde real da nossa receita?"
Uma pergunta pra ti
Quantos sócios o teu CTG tem no papel — e quantos efetivamente pagaram a mensalidade nos últimos três meses?
Se tu não sabes a resposta de cabeça, o tesoureiro precisa montar esse mapa essa semana.
Compartilha com a diretoria financeira do teu CTG. Esse número precisa ser discutido abertamente — sem constrangimento, sem apontar nomes, mas com clareza sobre o que ele significa pra sustentabilidade da entidade.
Confira AQUI nossos artigos sobre Gestão Crioula, como gerir seu CTG
Até o próximo chimarrão.
Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.










