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domingo, 16 de agosto de 2026

Milonga: a música, a dança e as milongas que o gaúcho carrega na conversa

Quando um gaúcho diz que vai cantar uma milonga, pode estar pegando o violão, preparando um mate ou simplesmente começando uma conversa daquelas que ninguém sabe onde vai terminar.

Tem palavra que parece ter nascido já sabendo que ia andar muito.

“Milonga” é uma dessas.

Pode ser música. Pode ser dança. Pode ser poesia cantada. Pode ser o salão onde se dança tango. E, dependendo do lugar e da conversa, pode ser também uma história comprida, uma desculpa meio atravessada, uma manha, um enredo ou aquela conversa que começa com “te digo uma coisa...” e termina três assuntos depois.

No Rio Grande do Sul, entretanto, milonga é coisa séria.

É música de campo aberto. É violão. É payador. É estrada. É lembrança. É silêncio de galpão. É o mate passando de mão em mão enquanto alguém, sem pressa nenhuma, começa a cantar.

E talvez seja justamente por isso que a palavra tenha tantos sentidos.

Porque o gaúcho nunca foi muito de dizer uma coisa só.

Uma palavra que veio de longe

A origem da palavra milonga está relacionada ao quimbundo, língua bantu falada em Angola. Registros linguísticos associam milonga a mulonga, palavra que pode assumir sentidos relacionados a “palavra”, mas também a queixa, demanda, discussão ou injúria, dependendo do contexto.

E olha aí uma dessas ironias bonitas da história.

Uma palavra que atravessou o Atlântico acabou encontrando no mundo do Prata um lugar para cantar.

No português brasileiro, “milonga” e, principalmente, “milongas”, também ganharam sentidos figurados: mexericos, enredos, manhas, desculpas e conversas compridas. O Dicionário Priberam registra justamente essas acepções, além da definição da milonga como música crioula platense introduzida nas festas dos gaúchos do Rio Grande do Sul. Ou seja: milonga pode ser música e pode ser conversa.

E talvez não exista coisa mais apropriada para uma cultura que aprendeu a contar sua história cantando.

Antes do tango, havia a milonga

Muito antes de o tango conquistar Buenos Aires, Paris e depois o mundo, a milonga já percorria os caminhos do Rio da Prata. A milonga folclórica aparece documentada no século XIX como uma forma de canção criolla, ligada às payadas e ao universo dos cantadores que improvisavam versos acompanhados pelo violão. No Uruguai, registros históricos e folclóricos associam a milonga à payada de contrapunto, aquele duelo de versos improvisados em que dois cantadores se enfrentavam mais com a inteligência do que com a força.

Era uma espécie de duelo sem sangue. Só precisava de um violão, uma boa memória, alguma inspiração e, de preferência, um adversário que soubesse responder. Porque desafiar um payador sem saber o que dizer depois era quase como entrar num rodeio sem saber montar.

A milonga nasceu nesse ambiente criollo do Prata, atravessando Argentina, Uruguai e chegando também ao Rio Grande do Sul. Por aqui, encontrou uma cultura que já tinha no improviso, na trova, na guitarra e na narrativa campeira uma maneira própria de contar o mundo.

E foi ficando.

A milonga e o gaúcho

Há músicas que parecem feitas para determinados lugares. A milonga parece feita para o pampa. Talvez seja porque ela sabe caminhar sem pressa.

Um violão começa a marcar o compasso, a voz entra quase conversando e, de repente, o campo inteiro parece caber dentro da música.

A pesquisa sobre a música no Rio Grande do Sul reconhece a milonga entre os gêneros que passaram a integrar o universo musical regional, ao lado de manifestações como vaneira, vaneirão, bugio e trova.

Aqui, a milonga ganhou uma personalidade própria. Não é simplesmente copiar o que veio do outro lado da fronteira. É o velho processo cultural de quem recebe uma influência, passa pela sua própria história e devolve outra coisa.

O Rio Grande fez isso muitas vezes. Recebeu, misturou, adaptou e transformou em coisa sua.

Por isso existe uma milonga gaúcha que não precisa pedir licença para ser reconhecida como rio-grandense. Ela carrega o campo, o cavalo, a distância, a saudade, a solidão do homem campeiro e aquela filosofia que aparece quando o sujeito fica olhando o fogo de chão sem dizer palavra nenhuma.

A milonga não é só uma música

Aqui está uma das confusões mais interessantes. Quando alguém fala “milonga”, pode estar falando de três coisas diferentes. Pode estar falando do gênero musical, pode estar falando da dança ou pode estar falando da reunião social onde se dança tango e milonga.

Na Argentina, uma milonga também é o salão ou evento destinado ao tango e às danças relacionadas.

E aí a palavra fica ainda mais interessante. Porque a milonga deixa de ser apenas aquilo que se escuta. Passa a ser também aquilo que se vive. É encontro, dança, música, convivência, gente. E, como toda boa reunião de gente, provavelmente também tem alguma fofoca no intervalo.

A dança ligeira que ajudou a nascer o tango

Na dança, a milonga costuma ser mais rápida e ligeira que o tango. O ritmo tradicional é associado ao compasso binário, frequentemente 2/4, e sua movimentação exige dos dançarinos rapidez, precisão e capacidade de acompanhar as mudanças da música.

Enquanto o tango ficou conhecido pelo caráter mais dramático, sensual e pausado, a milonga costuma carregar uma leveza diferente. É mais brincalhona, ligeira e mais faceira.

Se o tango caminha como quem tem uma história complicada para contar, a milonga parece aquele sujeito que já sabe a história, mas está se divertindo enquanto conta.

Na dança aparecem cortes, quebradas, giros e mudanças rápidas. E há nisso uma espécie de humor corporal. A música aperta o passo. O corpo responde e o parceiro acompanha. E quem erra precisa ter jogo de cintura. Literalmente.

Milonga e tango: parentes, não gêmeos

É comum dizer que a milonga foi uma espécie de antecessora do tango. Mas talvez seja melhor pensar nos dois como parentes próximos.

A milonga e o tango compartilham o ambiente cultural do Rio da Prata e possuem conexões históricas e musicais, mas desenvolveram características próprias.

O tango acabou se tornando mais lento, dramático e elaborado. A milonga conservou a velocidade, a agilidade e certo espírito brincalhão. É como aquela comparação que se faz em família: “São parecidos, mas cada um puxou para um lado.” Um ficou sério. O outro continuou fazendo graça.

E o que o Rio Grande fez com tudo isso?

O Rio Grande do Sul pegou essa herança platina e colocou suas próprias marcas. Aqui a milonga encontrou o fandango, o galpão, a guitarra, a poesia nativista e a paisagem campeira. E encontrou também uma maneira diferente de sentir a música.

A milonga rio-grandense pode ser mais contemplativa, mais lenta, mais ligada à narrativa campeira. Não precisa de muita coisa. Um violão. Uma voz. Uma história. E um homem com saudade. O resto o campo faz.

Há registros que apontam para a gravação de “A Milonga do Bem Querer”, pelo Conjunto Farroupilha, em 1968, como um marco inicial das gravações do gênero no Rio Grande do Sul. Desde então, a milonga ganhou espaço definitivo na música regionalista e nativista. E não foi pouco.

Quando a milonga virou retrato do pago

Talvez uma das maiores forças da milonga gaúcha esteja justamente na capacidade de contar histórias. Ela pode falar de amor e saudade. De campo e de cavalo. De morte. De chuva. e de uma tropa atravessando um rio. De solidão. De política. Ou simplesmente de um homem sentado perto do fogo pensando na vida. E algumas canções conseguem fazer tudo isso ao mesmo tempo.

Um exemplo é “Milonga Abaixo de Mau Tempo”, composição de Mauro Moraes eternizada na voz de José Cláudio Machado.

A canção nasceu ligada à experiência campeira de José Cláudio Machado, que trabalhou como tropeiro, e ganhou forma a partir de relatos sobre a dificuldade de conduzir o gado durante longos períodos de chuva e, principalmente, sobre a saudade de casa. A primeira apresentação ocorreu na VII Moenda da Canção, em Santo Antônio da Patrulha, em 1993.

José Cláudio Machado transformou aquela composição numa de suas marcas. E é fácil entender por quê. A música não fala apenas da chuva. Fala daquilo que a chuva faz dentro de um homem que está longe de casa. Fala do gado cansado. Do campo embarrado. Da tropa. Da espera e da saudade.

E, no meio de tudo isso, aparece a vida doméstica, quase como um pedaço de sol no meio da tormenta. É aí que a milonga mostra sua força. Ela conta uma história grande usando coisas pequenas.

O segredo está no jeito de contar

Talvez seja isso que faça a milonga sobreviver. Ela não precisa gritar. Não precisa de espetáculo. Na maioria das vezes basta um violão dedilhado no ritmo certo. Porque a milonga é, antes de tudo, narrativa. E narrativa é uma das coisas que o gaúcho entende bem. O homem do campo sempre teve história para contar. O problema é que nunca teve muita pressa para terminar.

Começa falando do cavalo. Passa para o tempo. Lembra de uma tropa. Conta que encontrou fulano. Fulano lembra de outro. Aparece uma história de 1978. Daí alguém lembra de uma carreira de cancha reta. Quando vê, já escureceu. “Mas voltando à história...” E começa outra.

Isso também é uma espécie de milonga.

As milongas da conversa

Talvez seja por isso que o sentido popular da palavra seja tão interessante.

“Não me vem com milongas.” “Para de contar milonga.” “Esse vivente só sabe contar milonga.”

É a palavra entrando na conversa cotidiana para significar enrolação, desculpa, manha, conversa comprida. E cá entre nós: o Rio Grande tem uma certa tradição nisso.

Um sujeito chega atrasado: — Mas onde tu tava? — Bah, vivente... foi uma coisa... Pronto. Começou a milonga. E quando termina, ninguém sabe exatamente se foi uma explicação, uma desculpa ou uma obra literária. Mas todo mundo ouviu. Porque o gaúcho pode até desconfiar da história. Só não perde a oportunidade de escutar.

Uma música feita de fronteiras

A milonga é profundamente rio-platense. Ela atravessa fronteiras que, no mapa, parecem muito claras.

Mas música não entende de mapa. O pampa não termina na aduana. O vento não pede documento. O cavalo não sabe se nasceu no Brasil, no Uruguai ou na Argentina. E a guitarra muito menos.

Por isso a milonga pertence a uma região cultural maior: esse grande espaço platino onde homens e mulheres, ao longo do tempo, compartilharam formas de cantar, trabalhar, dançar e contar histórias.

O Rio Grande do Sul está dentro desse universo. Não como cópia, mas, como parte.

E essa diferença é importante. Porque reconhecer a influência platina na cultura gaúcha não diminui o Rio Grande. Pelo contrário, ajuda a entender de onde vieram algumas das coisas que hoje chamamos de nossas.

Milonga é palavra, música e memória

No fim das contas, talvez a definição mais bonita de milonga não esteja nos dicionários. Está naquele momento em que o violão começa.

Quando o primeiro acorde encontra o silêncio. Quando alguém puxa uma história do fundo da memória. ou a voz fala do campo e, por alguns minutos, quem escuta consegue enxergar a paisagem.

A milonga é isso. É música, mas também é palavra. É dança, mas também é encontro. É ritmo, mas também é memória. É herança platina que ganhou sotaque rio-grandense.

E é conversa, às vezes conversa séria, comprida ou atravessada. E, em certas ocasiões, uma baita lorota.

Mas talvez seja justamente aí que esteja sua graça. Porque uma cultura que canta suas histórias não deixa o passado morrer. E o Rio Grande, quando pega o violão e começa uma milonga, não está apenas tocando uma música.

Está contando quem é.

Para ouvir: “Milonga Abaixo de Mau Tempo”

Se existe uma música capaz de mostrar o espírito da milonga campeira, “Milonga Abaixo de Mau Tempo”, de Mauro Moraes, na voz marcante de José Cláudio Machado, é uma daquelas que merecem ser escutadas com calma.

A obra foi apresentada pela primeira vez na VII Moenda da Canção, em 1993, e posteriormente ganhou gravações que ajudaram a transformá-la em um clássico do cancioneiro nativista.

Bote a água pra esquentar. Prepare o mate. E escute.

Porque tem música que a gente ouve. E tem música que a gente sente.

A milonga é dessas.



terça-feira, 17 de março de 2026

Agenda cultural - Festivais nativistas de março e abril

2026 é um ano histórico para a música gaúcha. São mais de 100 festivais nativistas programados no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina — o maior calendário dos últimos anos. E ainda tem um motivo especial para quem é das Missões: as celebrações dos 400 Anos das Missões Jesuítico-Guaranis colorem de história e emoção cada palco, cada música, cada premiação. Aqui no Entrevero Xucro, reunimos todos os festivais de março (a partir desta sexta) e abril para tu não perderes nenhum.

MARÇO DE 2026

O festival mais importante do mês — e um dos mais importantes do estado, o 17º Canto Missioneiro da Música Nativa nos dias 26, 27 e 28 de março na Praça Pinheiro Machado (em frente à Catedral Angelopolitana) de Santo Ângelo/RS.

Um dos festivais mais tradicionais e importantes da música missioneira gaúcha, o Canto Missioneiro chega à sua 17ª edição com uma carga simbólica enorme: o troféu principal homenageia Cenair Maicá, e toda a programação integra as celebrações dos 400 Anos das Missões Jesuítico-Guaranis. O festival acontece integrado ao Conecta Missões — semana de painéis, feiras, gastronomia e cultura que movimenta Santo Ângelo de 26 a 29 de março.

Programação artística:

Quinta (26/03) — Coral Guarani, Os Bilias e Elerson Louz Gottardo.

Sexta (27/03) — Família Maicá e Os Fagundes.

Sábado (28/03) — Hermanos Guedes.

Categorias premiadas no 17º Canto Missioneiro:

- 1º lugar: R$ 7.000 + Troféu Cenair Maicá

- 2º lugar: R$ 5.000 + Troféu Tio Bilia

- 3º lugar: R$ 4.000 + Troféu Cindinho Medeiros

- Melhor Intérprete, Melhor Letra, Melhor Tema Missioneiro, Melhor Indumentária, Música Mais Popular

Canto Piá Missioneiro (juvenil) — também no dia 21 de março:

- 1º lugar: R$ 700 | 2º lugar: R$ 500 | 3º lugar: R$ 300 — todos com troféu

13ª Vertente da Canção Nativa

De 20 e 21 de março em Piratini/RS

Festival tradicional do sul do estado, na histórica Piratini — a Cidade dos Presidentes. A Vertente reúne composições inéditas com forte apelo lírico e regional, num cenário de muita história gaúcha.

No mesmo fim de semana ocorre a 3ª Vertentinha (21/03), categoria infantojuvenil — uma excelente opção para levar a gurizada.

19º Canto da Lagoa

27, 28 e 29 de março em Encantado/RS

Realizado em Encantado, no Vale do Taquari, o Canto da Lagoa é um festival consolidado no calendário nativista gaúcho, conhecido pela qualidade das composições e pelo ambiente acolhedor que reúne músicos e apreciadores da música regional.

No dia 28 ocorre o Canto da Lagoa Juvenil — incentivo a novos talentos da música nativa.

Dica do Entrevero Xucro: Se fosses escolher apenas um festival em março, vai ao Canto Missioneiro em Santo Ângelo. Em 2026, com a homenagem aos 400 Anos das Missões e o troféu Cenair Maicá, será uma noite histórica para a música gaúcha.


ABRIL DE 2026

Quatro festivais espalhados pelo estado, do extremo sul à fronteira com o Uruguai e de volta ao noroeste missioneiro.

5ª Tropeada da Canção Nativa

3 e 4 de abril em Santana do Livramento/RS

Na fronteira com o Uruguai, em Santana do Livramento — cidade de fronteira seca com Rivera —, a Tropeada da Canção Nativa reúne a música que vem dessa mistura única de culturas: gaúcha, uruguaia, e a herança platina que define o pampa do extremo oeste gaúcho. Um festival jovem, mas com muito futuro.

Fronteira viva: a influência uruguaia e argentina na música da Tropeada é algo único no calendário nativista.

6º Cordeiraço da Canção Nativa

11 de abril em Santa Margarida do Sul/RS

Pequeno município da região das Missões, Santa Margarida do Sul recebe o Cordeiraço — festival que valoriza a música de raiz e a tradição missioneira. No dia seguinte, 12 de abril, ocorre o 3º Cordeiraço Mirim, mostrando o compromisso do evento com as novas gerações.

Em dois dias seguidos: o Cordeiraço (adultos) no sábado 11 e o Cordeiraço Mirim (crianças e jovens) no domingo 12.

19ª Jerra da Canção Nativa

17, 18 e 19 de abril em Santa Vitória do Palmar/RS

No extremo sul do Rio Grande do Sul, quase na fronteira com o Uruguai, Santa Vitória do Palmar recebe a Jerra — um dos festivais mais longevos do calendário nativista do estado. O nome do festival já diz tudo: jerra é o ato de marcar o gado, de imprimir identidade. É exatamente isso que a música gaúcha faz com quem a ouve.

Santa Vitória do Palmar fica próxima à Lagoa Mirim e ao Chuí — um roteiro cultural e de ecoturismo para quem for ao festival.

Querência do Bugio — 16º Aparte

30 de abril a 2 de maio em São Francisco de Assis/RS

Atravessando a virada de abril para maio, o Aparte de São Francisco de Assis é um dos festivais mais queridos do calendário gaúcho. A Querência do Bugio tem nome e personalidade: o bugio, o macaco ruivo dos capões e beiras de arroio gaúcho, é símbolo de uma natureza que resiste — assim como a música nativista.

Festival de virada: começa em abril e encerra em maio — um dos poucos com essa característica no calendário.

Dica do Entrevero Xucro: A Jerra em Santa Vitória do Palmar é uma das experiências mais completas — festival de qualidade no extremo sul do estado, com a paisagem única da Lagoa Mirim como pano de fundo.

Resumo Geral — Todos os Festivais de Março e Abril

 Data | Festival | Cidade/RS | Região |

| 20-21/03 | 13ª Vertente da Canção Nativa | Piratini | Sul |

| 21/03 | 3ª Vertentinha (juvenil) | Piratini | Sul |

| 21/03 | 16º Canto Piá Missioneiro | Santo Ângelo | Missões |

| 26-28/03 | 17º Canto Missioneiro ⭐ | Santo Ângelo | Missões |

| 27-29/03 | 19º Canto da Lagoa | Encantado | Vale do Taquari |

| 28/03 | Canto da Lagoa Juvenil | Encantado | Vale do Taquari |

| 03-04/04 | 5ª Tropeada da Canção Nativa | Santana do Livramento | Fronteira Oeste |

| 11/04 | 6º Cordeiraço da Canção Nativa | Sta. Margarida do Sul | Missões |

| 12/04 | 3º Cordeiraço Mirim | Sta. Margarida do Sul | Missões |

| 17-19/04 | 19ª Jerra da Canção Nativa ⭐ | Santa Vitória do Palmar | Sul |

| 30/04-02/05 | 16º Aparte — Querência do Bugio | São Francisco de Assis | Fronteira Oeste |

Destaque da edição

Vai a algum festival? Conta pra nós!**

Se vais a algum desses festivais, deixa nos comentários — adoramos saber qual é a tua praça nativista preferida. E se tens fotos dos festivais anteriores, compartilha! A memória da música gaúcha se constrói junto.

As informações deste guia foram compiladas a partir da Agenda Nativista 2026 do blog Ronda dos Festivais (Jairo Reis), aqui tu tens além da agenda completa todas as notícias sobre os festivais, do Portal da Tradição e da Secretaria da Cultura do RS. Datas podem sofrer alterações — confirma sempre nos canais oficiais dos festivais antes de viajar.

Sabe de mais informações? Deixa nos comentários:

quinta-feira, 12 de março de 2026

Biografia Gaúcha - Cenair Maicá

Das barrancas do Rio Uruguai para o mundo

Conhecido como o Poeta do Pampa, a voz que fez as Missões cantarem para o mundo. Cenair Maicá nasceu em 3 de maio de 1947, na localidade de Águas Frias, no que hoje é o município de Tucunduva — então distrito de Santa Rosa, no noroeste do Rio Grande do Sul. Cresceu numa região de fronteira viva, onde o Brasil, a Argentina e o Paraguai se encontram nas águas do Rio Uruguai e nas memórias dos povos guaranis.

Desde pequeno, Cenair viveu essa mistura. Estudou na cidade de Oberá, na província argentina de Misiones, e ali aprendeu os primeiros acordes no violão, conheceu aspectos da cultura guarani e absorveu a música platina que mais tarde daria cor especial ao seu trabalho. Era um menino de fronteira — e essa fronteiridade seria a marca mais profunda de toda a sua arte.

De volta ao Brasil, foi para Santo Ângelo, onde passaria a maior parte da vida. Ali, aos 10 anos, já se apresentava em público ao lado do irmão Adelque, formando a dupla Irmãos Maicá. Tocavam nas rádios e nos bailes da região — dois guris cheios de talento e uma música que ainda mal sabia o tamanho que ia tomar.

"Se meu destino é cantar, eu canto." — Cenair Maicá

1966: o manifesto que mudou a música gaúcha

Em 1966, Cenair Maicá, Noel Guarany e Pedro Ortaça lançaram um manifesto que poucos documentos na história da música gaúcha igualam em importância. O texto reivindicava a herança guarani como parte legítima — e esquecida — da identidade do Rio Grande do Sul, e anunciava a intenção de criar, a partir dela, uma nova arte missioneira.

Até então, a identidade gaúcha oficial era quase que exclusivamente baseada na figura do estancieiro da campanha, do peão dos pampas do sul. As Missões — aquela região de história tão rica quanto esquecida — não tinham voz nos palcos nem nas gravadoras. Cenair e seus companheiros decidiram mudar isso.

Juntos, os quatro artistas — Cenair, Noel Guarany, Pedro Ortaça e Jayme Caetano Braun — ficaram conhecidos como os Quatro Troncos Missioneiros. Cada um com sua voz própria, mas todos enraizados na mesma terra e movidos pela mesma causa: dar ao povo missioneiro o lugar que lhe pertencia na cultura do estado.

1970: a consagração na Argentina e o início do sucesso

O nome Cenair Maicá entrou definitivamente na história da música gaúcha em 1970. Naquele ano, ele venceu o 7º Festival do Folclore Correntino, realizado em Santo Tomé, na Argentina, interpretando a música Fandango na Fronteira — composição de Noel Guarany, com quem dividiu o palco na noite da vitória.

A consagração foi dupla: para Cenair como intérprete e para os dois artistas como símbolo do que aquele manifesto de 1966 havia prometido. A vitória num festival internacional revelou que a música missioneira não era apenas uma questão regional — era arte com potencial para atravessar fronteiras.

O prêmio rendeu a gravação do compacto duplo Filosofia de Gaúcho (1970), o primeiro registro fonográfico oficial de Cenair. A partir daí, a carreira solo seria inevitável.

A carreira: poesia, denúncia e identidade

Em 1978, Cenair lançou Rio de Minha Infância, seu primeiro LP solo — produzido e dirigido por Noel Guarany. O disco apresentou ao público o universo que definiria toda a obra de Cenair: o Rio Uruguai e suas águas como metáfora de vida e liberdade, os ribeirinhos e balseiros como protagonistas esquecidos, os indígenas como herança viva — não como curiosidade histórica.

Nas canções Homem Rural e Balaio, Lança e Taquara, Cenair deu voz aos trabalhadores do interior — camponeses, índios, gente simples que raramente aparecia nas letras da música regional. Sua poesia era denúncia social embrulhada em melodia, um ato político disfarçado de milonga.

Não é por acaso que a Ditadura Militar censurou sua canção Canto dos Livres, proibindo sua execução nas rádios e chegando a apreender discos. Cenair era inconveniente para o regime — e isso era, para ele, o maior dos elogios.

Paralelamente à música, Cenair trabalhou como representante comercial das máquinas de escrever Olivetti e apresentou programas nas rádios Repórter de Ijuí, Sepé Tiaraju de Santo Ângelo e Liberdade FM de Viamão. Homem de muitas frentes, mas sempre com a música como centro.

"O músico, além de cantar as coisas bonitas, a alegria, tem que ser um porta-voz do povo." — Cenair Maicá

Imagem da internet

A saúde, a luta e a despedida

A vida de Cenair carregou uma sombra desde cedo. Aos 17 anos, num acidente, perdeu um rim. A consequência não foi imediata — mas o futuro já estava marcado.

Em 1984, o rim remanescente começou a falhar. Cenair precisou se submeter a sessões de hemodiálise, o que debilitou profundamente sua saúde e o afastou temporariamente dos palcos. Em 1985, realizou um transplante de rim — o doador foi seu irmão Darci Maicá, num gesto de amor que a família nunca esqueceu.

Em dezembro de 1988, foi internado para a colocação de uma prótese femural. Não resistiu a uma infecção hospitalar. Em 2 de janeiro de 1989, Cenair Maicá morreu em Porto Alegre, aos 41 anos. Uma vida curta, mas vivida com a intensidade de quem sabe que o tempo é precioso.

Como era seu desejo, foi enterrado pilchado, de botas e lenço vermelho. Seus restos mortais estão em Santo Ângelo, no mausoléu construído na entrada do Cemitério Municipal. Dois pilares marcam o local: um representando a MÚSICA, outro a POESIA. No centro, a frase que resume tudo: Se meu destino é cantar, eu canto. Ao lado da data de nascimento: Nasce o poeta. Ao lado da data de morte: O mundo fica mais triste.

Discografia

Cenair gravou um compacto duplo e quatro LPs ao longo da carreira, dois deles posteriormente relançados em CD. Uma obra pequena em volume, gigante em qualidade.

1970 - Filosofia de Gaúcho (compacto duplo). Com Noel Guarany. Primeiro registro de Cenair após vitória no Festival Correntino.

1978 - Rio de Minha Infância. 1º LP solo. Produção de Noel Guarany. Relançado em CD em 2003 na série Tradição Gaúcha.

1980 - Canto dos Livres. 2º LP. Contém a música censurada pela Ditadura Militar. Um dos mais importantes do nativismo gaúcho.

Imagem da internet

1983 - Meu Canto. 3º LP. Gravado com saúde já debilitada. Reúne composições de forte teor social e poético.

1985 - Companheira Liberdade. Relançamento/compilação das melhores faixas gravadas para o selo Rodeio (WEA). Reeditado em CD.

2003 - Tradição Gaúcha (coletânea). Relançamento em CD do LP Rio de Minha Infância. Lançado postumamente pela série Tradição Gaúcha.

Principais canções

Canto dos Livres; Balseiros do Rio Uruguai; Baile do Sapucaí; Bolicho; Homem Rural; Rio de Minha Infância; Balaio, Lança e Taquara; Fandango na Fronteira; Rio Ibicuí; João Sem Terra

O legado que as águas não apagam

Mais de três décadas após sua morte, Cenair Maicá segue vivo em cada roda de chimarrão onde alguém tatareia Canto dos Livres, em cada jovem compositor missioneiro que sente que precisa falar do povo simples, em cada artista que se recusa a deixar o comercial sobrepor o verdadeiro.

O legado é concreto também: uma rodovia recebe seu nome — a RS-536, no noroeste gaúcho. Travessas em Tucunduva e em Santo Ângelo. Um mausoléu. Um busto. E uma entrevista gravada em fita magnética no Museu Antropológico de Ijuí, onde sua voz ainda ecoa para quem quiser ouvir.

Cenair Maicá não fez muito disco. Mas fez música que dura. E isso, no fundo, é o único legado que importa.

"Nasce o poeta." — inscrição no mausoléu de Cenair Maicá, ao lado da data de nascimento

Conheces a obra de Cenair Maicá?

Qual é a tua música favorita do Cantor Missioneiro? Deixa nos comentários — e se tens uma história ligada à obra de Cenair, conta para nós. A memória de quem fez história merece ser mantida viva por quem a viveu.

sábado, 27 de setembro de 2025

Biografia Gaúcha - Luiz Carlos Borges

Luiz Carlos Borges foi um dos maiores representantes da música gaúcha missioneira, com uma trajetória que uniu fronteiras, festivais e discos e teve uma vida inteira dedicada ao acordeon e à cultura do sul. Nascido em 25 de março de 1953, em Vila Seca, distrito de Santo Ângelo, nas Missões do Rio Grande do Sul, cresceu em meio às influências musicais da região e desde guri foi envolvido pela sonoridade do chamamé, das rádios de fronteira e dos bailes de campanha. Aos sete anos começou a estudar música e aos nove já tocava gaita nos bailes com o grupo familiar Irmãos Borges, com quem gravou os três primeiros LPs ainda na juventude. Essa fase inicial de estrada, fandangos e rádio forjou o músico que depois se destacaria no cenário nativista em festivais e circuitos culturais dentro e fora do estado.



Com o tempo, Luiz Carlos Borges passou dos bailes familiares para os festivais e para a composição. O grande ponto de virada ocorreu quando venceu a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana em 1979 com a música “Tropa de Osso”, que marcou o início da sua carreira solo e do seu primeiro disco individual em 1980.

Formou-se em Música pela Universidade Federal de Santa Maria e também assumiu funções na área cultural em São Borja, Santa Maria e Santa Rosa. Foi em Santa Rosa que idealizou e organizou o Musicanto Sul-Americano de Nativismo a partir de 1983, criando um dos maiores espaços de integração musical entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai dentro do universo tradicionalista e missioneiro.

Ao longo da carreira, Luiz Carlos Borges lançou mais de 30 discos entre LPs, CDs e DVDs. Dos trabalhos com os Irmãos Borges nos anos 1970 às parcerias internacionais nas décadas seguintes, construiu uma discografia ampla e respeitada. Entre os álbuns individuais estão:

Tropa de Osso (1981)

Noites, Penas e Guitarra (1982)

Quarteada (1984)

Solo Livre (1986)

Fronteras Abiertas com Antonio Tarragó Ros (1991)

Gaúcho Rider com o Grupo Alma (1992)

Geraldo Flach & Luiz Carlos Borges com Geraldo Flach (1992)

Na Chama do Chamamé (1993)

Hay Chamamé (1995)

Gaúcho com Edison Campagna (1995)

Temperando (1996)

Campeiros com Mauro Ferreira (1999)

Luiz Carlos Borges (1999)

Do Pampa ao Pantanal (2001)

40 Anos de Música (2002)

Luiz Carlos Borges & Quarteto (2004)

Buenaço (2008)

Itinerário de Rosa (2008) 

Con Amigos Argentinos (2010).



Em 2014 lançou também o DVD “50 Anos de Música – Ao Vivo”, premiado no Prêmio Açorianos e registrado com participações especiais.



Durante a carreira também teve coletâneas como Sucessos de Ouro (1994), Acervo Gaúcho (1998) e 40 Anos de Glória (2003), todas incrementando o acervo das gravações missioneiras e chamameceras que ajudou a popularizar.

Sua ligação com o chamamé foi decisiva para a integração musical do Cone Sul. Atuou ao lado de grandes nomes argentinos como Antonio Tarragó Ros, Rudi e Nini Flores e participou de encontros com artistas de peso do folclore latino-americano, inclusive dividindo palco com Mercedes Sosa, Juan Falú e Geraldo Flach. Com Mercedes Sosa gravou uma música em seu último trabalho o albúm Cantora

Representou o Brasil no Festival Nacional del Folklore de Cosquín em Córdoba, na Argentina, nas edições de 1984 e 1998. Se apresentou nos Estados Unidos em 1986 no International Festival of Folklore em Salt Lake City, esteve na Semana Regional do Folclore na Guiana Francesa em 1988 e fez turnês em países europeus como França, Alemanha e Áustria. Participou também da Fiesta Nacional del Chamamé em Corrientes, consolidando-se como uma referência do gênero para o público latino.

Ao longo de décadas, foi presença constante e premiada em festivais nativistas, vencendo como compositor, intérprete, instrumentista e arranjador. Recebeu mais de uma centena de premiações,  distinções e indicações, incluindo vários Prêmios Açorianos de Música em Porto Alegre, sendo eles:

1998 - Foi indicado para Disco de Música Regional e Instrumentista de Teclado

2008 - Foi premiado como Compositor de Música Regional e Arranjador (com Leandro Rodrigues)

2011 - Ganhou menção especial pelos 50 anos de carreira

2014 - Venceu como Compositor de Música Regional, Intérprete de Música Regional, Instrumentista de Música Regional, DVD do ano e melhor álbum de música regional com o disco 50 Anos de Música. Além destas premiações diversas entidades culturais e prefeituras lhe prestaram homenagens ao longo da vida e após seu falecimento.

Seu estilo era marcado pela fusão da milonga, vaneira, polca e chamamé com a identidade missioneira da fronteira oeste gaúcha. A gaita ponto e sua interpretação forte e sensível levaram a música do sul a novos países e a novos públicos. Para além dos palcos, Borges contribuiu com a organização cultural, especialmente com o Musicanto, que se tornou um palco de integração latino-americana. Seu compromisso com a tradição não impediu o diálogo com outros ritmos e artistas, o que tornou sua obra diversa e autêntica.

Luiz Carlos Borges faleceu em 10 de maio de 2023, aos 70 anos, em Porto Alegre, deixando um legado respeitado no Brasil, Argentina e Paraguai. É lembrado como embaixador missioneiro do chamamé, acordeonista de alma fronteiriça e figura central na construção da identidade musical do sul do país ao longo de mais de cinco décadas de carreira. Sua obra continua circulando em regravações, projetos de memória, coletivos musicais e publicações culturais.


sábado, 16 de agosto de 2025

Biografia Gaúcha - Telmo de Lima Freitas

Telmo de Lima Freitas nasceu em 13 de fevereiro de 1933, em São Borja, no Rio Grande do Sul. Desde muito cedo, demonstrou talento musical: aos dois anos já tocava cavaquinho e, posteriormente, aprendeu violão. Cresceu em um ambiente profundamente ligado à tradição campeira, o que influenciou sua obra poética e musical.

Aos 14 anos, integrou o Quarteto Gaúcho, iniciando sua trajetória artística em rádios locais, como o programa Porongo de Pedra na Rádio ZYFZ – Fronteira do Sul. Durante os anos 1960 e 1970, começou a se destacar em festivais regionais, consolidando-se como um dos grandes nomes do movimento nativista. Participou do 1º Festival de Música Regionalista da Rádio Gaúcha em 1969 e, anos depois, cofundou o grupo Os Cantores dos Sete Povos com Edson Otto e José Antônio Hahn. O grupo conquistou a Calhandra de Ouro na Califórnia da Canção Nativa em 1979 com a música “Esquilador”.

Telmo de Lima Freitas lançou diversos álbuns, muitos deles gravados pela USA Discos, destacando-se por composições que retratam a vida campeira, a simplicidade do campo e a cultura tradicional gaúcha. Sua obra é marcada pela poesia e pelo cuidado com a musicalidade, tornando-se referência para gerações de intérpretes.

Homenagens e Legado

Prêmio Açorianos (2000): Melhor Compositor e Melhor Disco Regional por A Mesma Fuça.

Prêmio Açorianos (2012): Homenageado do Ano pelo conjunto da obra.

Telmo faleceu em 18 de fevereiro de 2021, aos 88 anos, deixando um legado cultural inestimável para a música gaúcha.

Discografia Completa:

Álbuns de estúdio

O Canto de Telmo de Lima Freitas — 1973; reedição: 1983, PolyGram

Alma de Galpão — 1980, lançamento independente / Olvebra; reedição: 1990, BMG/Ariola

Tempos de Praça — 1993, USA Discos

De Marcha Batida — 1994, USA Discos

Rastreador — 1996, USA Discos

A Mesma Fuça — 2000, USA Discos



Poesias — 2001, USA Discos

Carteio da Vida (Acústico) — 2002, USA Discos

Aparte — 2006, Independente (releituras autorais)

Coletâneas e relançamentos

35 Mega Sucessos — 2010, compilação digital

Principais Canções

Esquilador

Lembranças

Prenda Minha

Pago Santo

Essas canções são consideradas clássicos da música nativista e continuam sendo interpretadas em festivais e rodas de música gaúcha.

Telmo de Lima Freitas foi um artista multifacetado, Poeta, cantor e violonista. Suas composições valorizam a vida campeira, a natureza e a tradição do Rio Grande do Sul e seu legado influencia novos artistas e garante a preservação da cultura regional, sendo lembrado como um verdadeiro guardião da alma gaúcha, sendo referência obrigatória para quem deseja conhecer a essência da música nativista.

Telmo de Lima Freitas foi muito mais do que um cantor e compositor; foi um poeta da vida campeira, um representante da tradição gaúcha e uma inspiração para novas gerações. Sua discografia completa, com canções marcantes, continua viva nas rodas de mate, festivais e plataformas digitais, mantendo sua obra sempre presente no coração do Rio Grande do Sul.



quinta-feira, 10 de julho de 2025

Biografia Gaúcha - Iedo Silva

Iedo Cruz da Silva (Cachoeira do Sul, 18 de dezembro de 1946 – Porto Alegre, 15 de setembro de 2021) foi um dos mais importantes artistas da música tradicionalista do Rio Grande do Sul, conhecido por sua gaita única, voz marcante e composições que tornaram-se hinos regionais

Nascido na zona rural de Cachoeira do Sul (RS), filho de agricultores, Iedo iniciou sua trajetória musical em 1965, tocando gaita e pandeiro em bailes de ramada no Piquiri e na barragem do Capané. 
Em 1970, decidiu mudar-se para Porto Alegre, vislumbrando maior oportunidade artística. Para isso, chegou a vender sua primeira gaita. Na capital, trabalhou numa indústria de ração e economizou para recomprar outra gaita, presente recebido de um fã a quem ensinou a tocar

Sua carreira ganharia impulso após participar de um programa de TV apresentado por Teixeirinha, convite feito pelo músico Xará, da dupla Xará e Timbaúva. Após essa aparição, foi demitido de seu trabalho e passou a viver exclusivamente da música. 

Em 1973, entrou como sócio no conjunto Os Tauras, assumindo o papel de gaiteiro e segunda voz. Gravou quatro LPs com o grupo, com destaque para a música “Súplica de um Gaúcho”, que garantiu participação no filme O Grande Rodeio. Foi nesse contexto que começou parceria com Albino Manique, em composições como “Jogo de Fole”.

Em 1980, fundou o grupo Os Farrapos, com o qual gravou aproximadamente sete discos. O grande marco desse período foi a conquista do Disco de Ouro com “Ala-Pucha Tchê” (1988). O grupo fez turnês internacionais à Inglaterra (1986) e Escócia (1989), a convite do folclorista

Em 1994, Iedo começou carreira solo, lançando seu primeiro disco solo Cantorias, e posteriormente Saudade na Garupa — ambos em 1994. Em 11 de junho de 2010, gravou seu primeiro DVD/CD ao vivo no CTG 35, Porto Alegre, celebrando 35 anos de carreira. O repertório reviveu sucessos como Pampa na Garupa, Chiquita, Ala-Pucha, Me Comparando ao Rio Grande, Cevando o Mate e vários outros clássicos.

Discografia Completa de Iedo Silva

Com Os Tauras

Os Tauras (LP, 1973)
Os Tauras - Ao Vivo (LP, 1975)
Os Tauras - 3º Disco (LP, 1976)
Súplica de um Gaúcho (LP, 1978)
 
Com Os Farrapos

Os Farrapos - Ao Vivo (LP, 1981)
Os Farrapos - O Melhor de Os Farrapos (LP, 1982)
Os Farrapos - Novo Tempo (LP, 1983)
Ala-Pucha Tchê (LP, 1988)
Os Farrapos - A Maior Família do Rio Grande (LP, 1989)
Os Farrapos - O Tempo Vai Passar (CD, 1992)
Os Farrapos - A Batalha Continua (CD, 1993)
 
Carreira Solo

Cantorias (CD, 1994)
Saudade na Garupa (CD, 1994)
Rio Grande Dentro do Peito (CD, 1999)
25 Anos (CD, 2000)
35 Anos - Ao Vivo (DVD/CD, 2010)
40 Anos (CD, 2015)
Semente de Vanera (CD, 2017)
Amanhecer no Pampa (CD, 2017)
Isto é Iedo Silva (CD, 2022)

Álbuns Póstumos (pós 2021)

Um Changador Ao Seu Estilo (CD, 2023) - Álbum lançado após seu falecimento, com gravações inéditas e remasterizadas de suas músicas.

Os principais sucessos de Iedo Silva que marcaram o nativismo gaúcho:

Ala-Pucha Tchê (Disco de Ouro)
Me Comparando ao Rio Grande (entre as candidatas a hino popular do RS)
Chiquita
Pampa na Garupa
Águas de Cachoeira
Gaita da Bossoroca
Cevando o Mate
Despedida de Peão
Faculdade Campeira
A Dança dos Compadres
Queixo Seco
Xote Laranjeira
Passo do Bugio

Prêmios e Reconhecimento

Disco de Ouro por Ala-Pucha Tchê (1988)
Medalha Jaime Caetano Braun (2007)
Troféu Rede Pampa de Rádio e Televisão (2008 e 2009)

“Me Comparando ao Rio Grande” figurou entre as 14 músicas mais cotadas para hino popular do RS (2007)

Iedo Silva faleceu em 15 de setembro de 2021, dia do Gaiteiro, aos 74 anos, em Porto Alegre. A causa foi complicações da COVID‑19. Ele também lutava contra um câncer de próstata, diagnosticado meses antes. O velório foi restrito à família devido aos protocolos sanitários.

Sua partida representou uma perda imensa para a cultura e música tradicionalista do Rio Grande do Sul. Sua voz, repertório e influências permanecem vivos entre músicos e admiradores da cultura regional 

Por que Iedo Silva é essencial à cultura gaúcha? Porque ele uniu técnica, emoção e tradição em cada gaita tocada. Porque sua trajetória, das barrancas do interior até palcos da Europa, simboliza a força e autenticidade da música do Pampa. Porque suas composições são verdadeiros retratos sonoros do povo gaúcho. E porque ninguém canta o Pago como ele cantou.


DVD 35 Anos de Carreira de Iedo Silva gravado no CTG 35



segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Biografia Gaúcha- Os Monarcas

A Trajetória dos Monarcas: Uma História de Amor à Música Gaúcha

Como um verdadeiro gaúcho apaixonado pela cultura do nosso Rio Grande, é impossível não se emocionar ao contar a história de Os Monarcas. Um grupo que começou pequeno, mas que, com trabalho, talento e amor à música regionalista, se tornou uma lenda viva da nossa tradição.

A trajetória de Os Monarcas começou em 1967, na cidade de Erechim, no norte do Rio Grande do Sul. Foi lá que os irmãos Gildinho e Chiquito formaram a dupla Gildinho e Chiquito, animando bailes da região e apresentando o programa de rádio "Assim Canta o Rio Grande". Essa paixão pela música os levou a estudar acordeom na Escola de Belas Artes.

Em 1972, o nome da dupla mudou para Os Monarcas e, dois anos depois, eles lançaram o primeiro LP, Galpão em Festa. Em 1976, com a entrada de João Argenir dos Santos (guitarra), Luiz Carlos Lanfredi (contrabaixo) e Nelson Falkembach (bateria), o grupo assumiu sua formação completa e gravou o álbum O Valentão Bombachudo, que marcou o início de uma trajetória de sucesso na música regionalista gaúcha.

A década de 1980 consolidou Os Monarcas como um dos maiores grupos do gênero. Foram lançados LPs icônicos como Isto é Rio Grande (1980), Rancho Sem Tramela (1985) e Fandangueando (1988). Foi nesse período que o grupo ganhou o reforço de Ivan Vargas, que permanece até hoje como vocalista.

Nos anos 1990, Os Monarcas atingiram o auge. Também em 1990, um dos pioneiros, o acordeonista Chiquito, deixou o grupo para fundar o conjunto Chiquito & Bordoneio. Para o seu lugar, foi chamado o também acordeonista Leonir Vargas, catarinense, conhecido como Varguinhas. Em 1991, o CD Cheiro de Galpão foi um estrondoso sucesso de vendas, rendendo ao grupo o primeiro Disco de Ouro. Nessa mesma época, Francisco de Assis Brasil, o Chico Brasil, se juntou ao conjunto, trazendo sua habilidade na gaita-ponto. Em 1994, o grupo lançou Eu Vim Aqui Para Dançar, que também foi premiado com Disco de Ouro.

A década terminou com mais mudanças importantes. Em 1999, o grupo passou a gravar pela gravadora ACIT e lançou Locomotiva Campeira. O percussionista Vanclei da Rocha também se uniu ao grupo, agregando ainda mais qualidade à sonoridade dos Monarcas.

Além de levar a música gaúcha para todo o Brasil, Os Monarcas acumularam ao longo dos anos 10 Discos de Ouro, incontáveis troféus e prêmios. Em 2013, a história do grupo foi eternizada no filme Os Monarcas – A Lenda, que conta a trajetória de Gildinho e Chiquito, mostrando como o amor à música e à tradição moldou esse grupo único.

Os Monarcas também têm uma extensa discografia, com mais de 40 álbuns lançados. Destacam-se trabalhos como Do Sul Para o Brasil (1989), Rodeio da Vida (1995), Alma de Pampa (2003) e Marca Monarca (2021). Em 2023, comemoraram 50 anos de estrada, reafirmando o legado de um grupo que é sinônimo de música regional gaúcha.

A história de Os Monarcas não é apenas a de um grupo musical, mas de um pedaço da alma do Rio Grande do Sul. Cada acorde, cada letra, cada fandango é um tributo à nossa terra e às nossas tradições. E para nós, gaúchos, eles sempre serão mais do que músicos: são símbolos vivos do que significa amar e viver a cultura gaúcha.

Discografia:

1969: Os Trovadores do Sul

1974: Gaúcho Divertido

1976: Galpão em Festa

1978: O Valentão Bombachudo

1980: Isto é Rio Grande

1982: Grito de Bravos

1985: Rancho Sem Tramela

1986: Chamamento

1988: Fandangueando

1989: Do Sul Para o Brasil

1991: Cheiro de Galpão

1992: Os Monarcas

1994: Eu Vim Aqui Para Dançar

1995: Rodeio da Vida

1997: Do Rio Grande Antigo

1999: Locomotiva Campeira

2000: No Tranco dos Monarcas

2001: 30 Anos de Estrada

2002: A Gaita Gaúcha dos Monarcas

2003: Alma de Pampa

2004: Só Sucessos

2006: Recordando o Tempo Antigo

2007: DVD e CD 35 Anos - História, Música e Tradição - Ao Vivo

2008: A Marca do Rio Grande

2009: Os Monarcas Interpretam João Alberto Pretto

2011: Cantar é Coisa de Deus

2012: DVD e CD 40 Anos - Ao Vivo

2013: Alma de Gaita

2015: Perfil Gaúcho

2017: DVD 45 Anos - Ao Vivo

2017: Tô Pegando a Estrada

2018: Identidade Monarca

2021: Marca Monarca

2023: 50 Anos