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sábado, 28 de março de 2026

A erva-mate gaúcha que conquistou a Argentina: do Vale do Taquari ao vestiário de Messi

Baldo, de Encantado, é a nova fornecedora oficial da Seleção Argentina — e a história por trás disso é mais gaúcha do que parece

A Associação de Futebol Argentino (AFA) anunciou nesta semana uma parceria que orgulha o Rio Grande do Sul: a ervateira Baldo, com sede em Encantado, no Vale do Taquari, passa a ser a fornecedora oficial de erva-mate para os jogadores e a comissão técnica da atual campeã mundial. A marca gaúcha acompanhará a seleção de Messi na preparação e durante a disputa da Copa do Mundo de 2026, realizada nos Estados Unidos, no México e no Canadá.

Mas quem conhece a história da Baldo sabe que isso não é uma surpresa — é a chegada de um reconhecimento que já deveria ter vindo faz tempo.

Uma família, um Vale e mais de um século de erva-mate

A história da Baldo começa em 1920, no interior de Vespasiano Corrêa — então distrito de Guaporé, no Vale do Taquari. Os irmãos João, Antônio e Luiz Baldo, filhos de imigrantes italianos, montaram uma pequena fábrica artesanal de erva-mate. Não havia tecnologia sofisticada, não havia mercado garantido — havia conhecimento de quem cresceu olhando para os ervais e entendendo o produto como quem entende a própria terra.

Décadas depois, na figura do empresário Arlindo Plácido Baldo — filho de João, caçula de 11 irmãos, presidente da empresa por décadas —, a Baldo deu o salto definitivo. Na década de 1970, a sede foi transferida para Encantado, onde está até hoje. A empresa se expandiu para Santa Catarina e Paraná, abriu filiais, e se tornou a maior exportadora de erva-mate do Brasil.

São mais de 500 colaboradores diretos, quatro fábricas no Brasil e um número que impressiona: 

Encantado exportou em 2024 cerca de US$ 51,8 milhões — a erva-mate representa 65% do total das exportações do município.

"Desde jovem entendi o processo da erva-mate — é um know-how nosso de décadas." — Arlindo Plácido Baldo, presidente da Baldo S.A.

O segredo que poucos sabem: Canarias é gaúcha

Aqui mora o detalhe mais curioso — e mais gaúcho — de toda essa história. A erva-mate Canarias, marca líder absoluta no Uruguai, é controlada pela Baldo desde 1998. A empresa do Vale do Taquari detém o controle acionário da marca uruguaia e processa a maior parte da erva em Encantado.

Os números são impressionantes: dos 30 milhões de quilos de erva-mate que o Uruguai consome por ano, a Baldo fornece 20 milhões — dois terços de tudo que o país toma. A Canarias representa mais de 60% do consumo de mate em todo o Uruguai.

E tem mais: na Copa do Mundo do Qatar, em 2022, a seleção argentina já levou erva Canarias na bagagem — o que gerou polêmica entre os próprios argentinos, indignados por seus jogadores tomarem mate de uma marca uruguaia. A AFA chegou a emitir nota explicativa. O que ninguém sabia — ou fingia não saber — era que aquela erva era processada em Encantado, Rio Grande do Sul.

Agora, em 2026, a AFA oficializou o que já era realidade nos bastidores — mas desta vez com a marca gaúcha estampada no contrato.

No Qatar, os argentinos já tomavam erva gaúcha — só não sabiam. Agora sabem, e assinaram contrato.

O que a AFA disse ao anunciar a parceria

Em comunicado oficial, a AFA destacou que a presença da Baldo no mercado argentino — iniciada formalmente em 2024 — influenciou os hábitos de consumo no país. Segundo a entidade, o produto ganhou espaço de forma orgânica entre os atletas do futebol local e também entre jogadores que atuam nas principais ligas da Europa.

A adoção foi espontânea — esse foi o termo usado pela AFA. Em outras palavras: antes de qualquer contrato, os jogadores já escolhiam a Baldo. A parceria oficial veio confirmar o que o paladar já tinha decidido.

Copa 2026: a erva-mate gaúcha vai aos três países

A Copa do Mundo de 2026 será realizada em três países — Estados Unidos, México e Canadá — com início marcado para junho. A Argentina, bicampeã mundial (1978, 1986) e atual tricampeã (2022), vai em busca do quarto título com Messi à frente do grupo.

Com a parceria anunciada, a erva Baldo será o mate oficial dos treinos, das concentrações e das viagens da delegação argentina. Em cada roda de chimarrão que os jogadores fizerem nos vestiários dos estádios americanos, mexicanos e canadenses, haverá erva processada no Vale do Taquari, Rio Grande do Sul, Brasil.

O que isso significa para o RS — e para a cultura gaúcha

Para além do negócio em si, essa parceria tem um significado cultural que o Entrevero Xucro não poderia deixar de sublinhar. O mate — esse ritual que os guaranis ensinaram ao mundo, que os jesuítas espalharam, que os gaúchos adotaram como identidade — vai ao maior evento esportivo do planeta estampando um nome do Rio Grande do Sul.

O Vale do Taquari, que desde 1850 já era o primeiro polo produtor de erva-mate do RS, que atravessou crises e concorrências e reinventou a indústria ervateira com tecnologia e qualidade, chega agora ao topo da vitrine global.

E para quem ainda precisa de um argumento: a erva-mate é a única planta com cafeína nativa das Américas. Nasceu aqui. Foi cultivada aqui. Virou produto aqui. Faz sentido que o mundo a tome com uma etiqueta gaúcha.

A erva-mate nasceu nas Américas, foi cultivada no pampa e agora vai à Copa do Mundo com um nome do Vale do Taquari. Isso se chama: orgulho gaúcho.

Tu conhecias a história da Baldo?

Deixa nos comentários. E se quiseres saber mais sobre a história do chimarrão no Rio Grande do Sul — origem guarani, tradições regionais e o jeito de cada rincão do estado de tomar o seu mate — lê os nossos posts sobre o tema aqui no Entrevero Xucro.



quarta-feira, 2 de abril de 2025

Chimarrão: Tradição, História e Cultura Gaúcha

O chimarrão é muito mais do que uma simples bebida quente; ele representa um ritual de hospitalidade, um símbolo de amizade e uma tradição enraizada na cultura do Rio Grande do Sul. Sua história remonta às práticas dos povos indígenas e atravessa séculos de transformações sociais e culturais. Vamos explorar desde suas origens até sua presença no dia a dia dos gaúchos.


As Origens Indígenas: O Primeiro Contato com a Erva-Mate

Muito antes da chegada dos colonizadores europeus, os povos indígenas que habitavam a região sul da América do Sul, especialmente os Guaranis, já utilizavam a erva-mate (Ilex paraguariensis). Eles acreditavam que essa planta tinha propriedades medicinais e espirituais. O consumo era feito de diversas formas, incluindo mastigar as folhas e preparar infusões em água quente, o que deu origem ao que hoje conhecemos como chimarrão.


A Proibição Jesuítica e a Redescoberta

Com a chegada dos jesuítas, que buscavam catequizar os povos indígenas, houve um período de proibição do consumo da erva-mate. Os religiosos temiam que o uso estivesse ligado a práticas pagãs e até mesmo que tivesse efeitos negativos sobre a saúde. No entanto, ao perceberem que a erva ajudava a reduzir o consumo de bebidas alcoólicas e aumentava a disposição dos nativos, acabaram por adotar e incentivar seu uso.

Dessa forma, os jesuítas contribuíram para a disseminação do consumo do chimarrão, aperfeiçoando técnicas de cultivo e colheita da erva-mate, além de introduzirem o costume entre os colonos europeus.


A Consolidação como Hábito e Tradição

Ao longo dos séculos, o chimarrão passou a ser uma parte essencial do cotidiano gaúcho. Mais do que uma simples bebida, tornou-se um símbolo de convivência e tradição. Beber chimarrão é um ato de hospitalidade, e a roda de mate é uma prática social valorizada até os dias de hoje.


O Chimarrão na Legislação

A importância cultural do chimarrão é reconhecida até mesmo em leis estaduais e federais. No Rio Grande do Sul, o Dia do Chimarrão e do Churrasco foi instituído pela Lei Estadual nº 11.929, sendo comemorado em 24 de abril. Em nível nacional, a Política Nacional da Erva-Mate foi sancionada em 2019, incentivando o desenvolvimento da cadeia produtiva da erva-mate no Brasil.


Produção e Regiões Produtoras de Erva-Mate

O Brasil é um dos maiores produtores de erva-mate do mundo, sendo os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul os principais polos produtivos. Em 2023, a produção brasileira ultrapassou 737 mil toneladas. A erva-mate também é exportada para países como Argentina, Uruguai, Paraguai e até mercados europeus, onde cresce o interesse por bebidas naturais e energéticas.


Os Tipos de Erva-Mate

Existem diversas classificações de erva-mate, que variam conforme o processo de produção:

Erva-mate tradicional: Moída fina, com alto teor de pó, muito usada no chimarrão gaúcho.

Erva-mate moída grossa: Menos pó e folhas maiores, comum em algumas regiões do Paraná.

Erva-mate peneirada: Com menos resíduos, mais uniforme, popular para exportação.


O Chimarrão na Cultura e na Música

A presença do chimarrão na cultura gaúcha é evidente na música, na poesia e na literatura. Muitos versos tradicionalistas exaltam o chimarrão como um elemento essencial da identidade sulista. Cantores como Vítor Ramil e grupos de música nativista frequentemente mencionam o mate em suas composições, reforçando seu papel na cultura regional.


Mitos e Verdades sobre o Chimarrão

Mito: O chimarrão faz mal para o estômago.

Verdade: Se consumido moderadamente, ele pode até auxiliar na digestão.

Mito: Compartilhar chimarrão é anti-higiênico.

Verdade: O ritual de passar a cuia faz parte da tradição, e a higiene depende dos cuidados individuais.


Os 10 Mandamentos do Chimarrão

1. Não se pede açúcar no mate. Chimarrão de verdade é puro.

2. Não se diz que o mate está muito quente. Faz parte da experiência.

3. Não se mexe na bomba. Isso pode entupir o mate.

4. Não se deixa um mate pela metade. Se aceitou, beba até o fim.

5. O ronco no fim do mate não é falta de educação. Apenas sinaliza que terminou.

6. O dono da casa sempre toma o primeiro mate. É um gesto de hospitalidade.

7. O mate deve seguir a ordem da roda. Não se quebra a sequência.

8. Não se apressa a roda. Cada um tem seu tempo para saborear.

9. Não se dorme com a cuia na mão. Se recebeu, beba e passe adiante.

10. Não se desvaloriza o chimarrão. Ele é parte da identidade cultural dos gaúchos.

O chimarrão é mais do que uma bebida: é um legado histórico e um símbolo de identidade. Seu consumo transcende gerações e continua sendo uma tradição viva, que representa a hospitalidade, a cultura e a união dos povos do Sul.