quinta-feira, 18 de junho de 2026

O dia em que o Rio Grande enfrentou o Brasil

Quando o orgulho gaúcho vestiu a mesma camiseta

Há partidas que valem mais que um título. Há jogos que entram para a história porque representam um povo.

E talvez nenhum jogo represente tão bem o orgulho gaúcho quanto aquele 17 de junho de 1972, quando a Seleção Gaúcha entrou no gramado do Beira-Rio para enfrentar a poderosa Seleção Brasileira.

Não era apenas um amistoso. Era o Rio Grande do Sul defendendo sua identidade. Era um estado inteiro mostrando que, antes de tudo, era gaúcho.

Naquele dia, Grêmio e Internacional deixaram de lado uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro para vestir a mesma camiseta.

O adversário era nada menos que a Seleção Brasileira, tricampeã do mundo apenas dois anos antes, dona de craques como Rivellino, Jairzinho, Clodoaldo, Leão e Paulo César Caju.

Mas para os gaúchos isso pouco importava. O sentimento era outro.

O Rio Grande queria respeito.

A origem da revolta gaúcha

Tudo começou quando o técnico Zagallo deixou de convocar Everaldo para a Taça Independência de 1972.

O detalhe é que Everaldo não era um jogador qualquer. Era o lateral-esquerdo titular da Seleção Brasileira campeã do mundo em 1970.

O único gaúcho daquele time histórico. Para muitos torcedores, dirigentes e jornalistas do Rio Grande do Sul, a ausência foi interpretada como uma injustiça.

Rapidamente surgiu uma ideia ousada: Se a Seleção Brasileira não valorizava os jogadores gaúchos, que viesse enfrentar o futebol gaúcho dentro da sua própria casa.

E assim nasceu a Seleção Gaúcha.

Um estado inteiro contra o Brasil

Os relatos da época parecem exagerados. Mas não são.

Mais de 100 mil pessoas lotaram o Beira-Rio. O estádio transformou-se em um mar vermelho, verde e amarelo do Rio Grande. Bandeiras gaúchas dominavam as arquibancadas.

Segundo jogadores da Seleção Brasileira, praticamente não havia bandeiras do Brasil.

O ambiente era tão intenso que alguns atletas brasileiros disseram ter a sensação de estar jogando em outro país.

Para compreender aquele momento é preciso entender o espírito do povo gaúcho.

O Rio Grande do Sul sempre cultivou forte identidade própria.

A história farroupilha, a formação fronteiriça, a cultura campeira e o tradicionalismo criaram um sentimento de pertencimento raro no país.

Naquele dia, esse sentimento ganhou forma dentro de um estádio.

O jogo que entrou para a eternidade

A Seleção Gaúcha reuniu jogadores da dupla Gre-Nal.

O Brasil trouxe praticamente sua força máxima.

Logo no início, Tovar abriu o placar para os gaúchos. Jairzinho empatou.

Carbone colocou os gaúchos novamente na frente. Paulo César Caju empatou.

Claudiomiro marcou o terceiro gol gaúcho. E Rivellino decretou o empate em 3 a 3.

O resultado oficial foi empate. Mas no coração dos torcedores, a sensação era outra.

O Rio Grande havia provado que podia enfrentar de igual para igual o melhor futebol do planeta.

Muito mais que futebol

Aquele confronto tornou-se um símbolo cultural. Representava algo maior que um simples placar.

Era a demonstração de que o povo gaúcho valorizava sua história, seus atletas e sua identidade.

Talvez por isso o jogo continue sendo lembrado mais de cinquenta anos depois.

Não foi apenas Grêmio e Inter unidos. Foi o Rio Grande unido.

Algo raro. Algo histórico.

A Seleção Gaúcha voltou em 1978

Seis anos depois, a história quase se repetiu.

Antes da Copa do Mundo da Argentina, a Seleção Gaúcha voltou a enfrentar a Seleção Brasileira.

O jogo terminou empatado em 2 a 2.

Mais uma vez houve polêmica, reclamações da torcida e a sensação de que os jogadores gaúchos mereciam maior reconhecimento nacional.

Entre os destaques estavam nomes como Falcão, Tarciso e Éder.

E o que aconteceu com a Seleção Gaúcha?

Com o passar dos anos, a Seleção Gaúcha deixou de existir como equipe permanente.

O crescimento do calendário nacional, a profissionalização do futebol e a falta de datas inviabilizaram novos confrontos.

Hoje ela sobrevive apenas na memória dos torcedores e nos registros históricos. Mas sua importância permanece.

Porque a Seleção Gaúcha nunca foi apenas um time. Foi uma ideia.

A ideia de que o Rio Grande do Sul possui identidade própria, cultura própria e uma forma única de enxergar o mundo.

Um legado que continua vivo

Mais de meio século depois, aquele empate continua sendo contado de geração em geração.

Pais contam aos filhos. Avós contam aos netos. Os jornais antigos viraram relíquias. As fotografias viraram documentos históricos.

E o orgulho continua o mesmo. Talvez porque aquele jogo tenha mostrado algo que os gaúchos já sabiam: o Rio Grande do Sul sempre foi parte do Brasil.

Mas nunca deixou de ser, acima de tudo, Rio Grande.

E naquele 17 de junho de 1972, por noventa minutos, o Rio Grande inteiro entrou em campo.

Seleção Gaúcha de 1972




domingo, 7 de junho de 2026

Destinos do RS - Gramado — a Pequena Europa da Serra Gaúcha

Existem destinos que precisam de apresentação — e existem destinos que já chegam no imaginário de qualquer brasileiro com imagem, cheiro e temperatura definidos. Gramado é um deles. Quando se fala o nome, todo mundo já sente o frio, já vê as luzes de Natal refletindo na neve artificial, já sente o cheiro de chocolate artesanal saindo de uma loja de fachada enxaimel na Avenida Borges de Medeiros.

Mas por trás dessa imagem turística perfeita há uma história de 150 anos de imigração, trabalho duro, identidade cultural e uma cidade que decidiu, deliberadamente, se tornar o que é — sem abrir mão das raízes que a fundaram.

Este é o post do Entrevero Xucro sobre Gramado. Não o roteiro de agência de viagem — mas a história da cidade, de verdade.

Gramado em números

Localização: Serra Gaúcha — Região das Hortênsias, RS

Distância de Porto Alegre: 120 km

Distância de Caxias do Sul: 68 km

Altitude: 825 metros acima do nível do mar

Temperatura média: Mínima 8°C / Máxima 22°C

Temperatura mínima: Abaixo de 0°C — neve esporádica

Classificação: Destino Categoria A — Ministério do Turismo

Vizinha famosa: Canela — 7 km

1875 — tropeiros, imigrantes e o começo de tudo

A colonização de Gramado começa em 1875, quando os primeiros portugueses se instalam na Serra Gaúcha. Cinco anos depois chegam os alemães e, logo em seguida, os italianos — que já haviam adotado a vizinha Caxias do Sul como lar.

Nessa época, o gado era de extrema importância para a economia local. Os tropeiros passavam pela região e adotaram o local como um posto de descanso. Era a mesma lógica que fundou tantas cidades gaúchas — o caminho do gado criando o caminho do povo.

A formação de Gramado está diretamente ligada à presença de imigrantes alemães e italianos, que influenciaram a culinária, a arquitetura, as tradições religiosas e o estilo de vida da região serrana. Os alemães trouxeram o estilo enxaimel — paredes de madeira com estrutura aparente, telhados inclinados, janelas floridas. Os italianos trouxeram a gastronomia, a religiosidade e o temperamento animado. Os portugueses trouxeram a língua e a base administrativa. E o Rio Grande do Sul trouxe o chimarrão, o galpão e a alma gaúcha que atravessa tudo.

O resultado dessa mistura é único no Brasil — e foi exatamente essa singularidade que transformou Gramado no que é hoje.

Como Gramado se tornou a potência do turismo brasileiro

A partir da década de 1920, o potencial turístico começou a ser descoberto. As belezas naturais, como os vales, rios e montanhas, aliadas ao clima europeu e à arquitetura típica, atraíram cada vez mais visitantes. A consolidação de Gramado como destino turístico ocorreu principalmente após a década de 1950, quando a cidade passou a investir na infraestrutura turística, desenvolvendo hotéis, restaurantes, parques temáticos e festivais, tudo com um toque europeu que remetia à origem dos colonizadores.

O grande salto veio com uma decisão consciente e coletiva dos moradores e do poder público: transformar a identidade cultural europeia num produto turístico de qualidade — sem perder a autenticidade. Gramado não imitou a Europa. Gramado é o que os europeus que chegaram aqui construíram com as próprias mãos, ao longo de gerações, numa serra do sul do Brasil.

Hoje Gramado é o maior destino turístico do Rio Grande do Sul, com vários parques temáticos, incluindo a Aldeia do Papai Noel, o Snowland e o Mini Mundo. E é reconhecida pelo Ministério do Turismo como Destino Categoria A — um dos apenas 54 municípios do Brasil nessa classificação.

Os grandes eventos — o calendário que move o Brasil

Gramado não tem apenas uma temporada. Tem um evento para cada estação — e cada um deles é, no seu segmento, o maior ou um dos maiores do Brasil.

🎄 Natal Luz — outubro a janeiro

O Natal Luz é a joia da coroa. É o motor de Gramado, atraindo milhões de visitantes de outubro a janeiro — a temporada de ouro para o turismo da cidade. Desfiles temáticos na Avenida Borges de Medeiros, espetáculos de luz e som, decoração que transforma toda a cidade num cenário de conto de fadas, apresentações artísticas, mercado de Natal europeu e, em 2025, pela primeira vez na história do evento, um espetáculo com 1.100 drones sincronizados iluminando o céu logo após o Grande Desfile de Natal.

É o maior evento natalino do Brasil — e talvez o mais fotografado.

🐣 Choco Páscoa — março e abril

Durante a Choco Páscoa, Gramado ganha ainda mais cor, doçura e magia. Reconhecida nacionalmente pelo chocolate artesanal, a cidade se transforma em um cenário lúdico, com decoração temática, apresentações artísticas e atividades pensadas para encantar crianças e adultos. Junto ao Choco Páscoa acontece o Gramado Aleluia — com procissões, celebrações religiosas e uma programação que une fé e tradição.

🎬 Festival de Cinema de Gramado — agosto

O evento mais tradicional do cinema brasileiro transforma Gramado em palco de grandes estreias, debates e encontros entre artistas, críticos e profissionais do audiovisual. O clima de glamour toma conta do Palácio dos Festivais e da Rua Coberta, atraindo olhares de todo o país.

Fundado em 1973, o Festival de Cinema de Gramado é o mais antigo festival de cinema do Brasil em atividade — e um dos mais importantes da América Latina. Tapete vermelho, troféu Kikito, estrelas do cinema nacional e internacional e uma cidade que para para celebrar a sétima arte.

🌾 Festa da Colônia — abril e maio

A Festa da Colônia é onde Gramado mostra o que é antes de ser destino turístico — a cidade que existe debaixo da cidade para turistas. A celebração reúne culinária típica, produtos coloniais, apresentações culturais e música, promovendo uma conexão especial entre os produtores rurais e o público. É o evento mais autêntico de Gramado — e um dos mais subestimados pelos turistas que só conhecem o Natal Luz.

🎵 Gramado in Concert — verão

O Gramado in Concert transforma a cidade em um grande palco, reunindo apresentações de orquestras e bandas. Além dos concertos, o evento mantém sua vocação pedagógica, promovendo intercâmbio cultural e oportunidades de aprendizado para jovens músicos de diversas regiões do Brasil.

💡 Gramado Summit — maio

A Gramado Summit 2026 acontece de 6 a 8 de maio, no Serra Park — das 8h às 20h. Um dos maiores eventos de inovação e empreendedorismo do Brasil, que transforma a cidade num polo de negócios e tecnologia por três dias intensos.

🏨 FESTURIS — novembro

O FESTURIS Gramado 2026 acontece de 12 a 15 de novembro, consolidando-se como um dos maiores e mais efetivos eventos de negócios turísticos das Américas.

As belezas naturais — o que existe além dos eventos

Gramado não precisa de eventos para ser bonita. A natureza da Serra Gaúcha faz boa parte do trabalho.

Lago Negro — lago artificial cercado por araucárias e árvores importadas da Floresta Negra alemã. Um dos cenários mais fotografados do RS. Pedalinhos, caminhadas na beira e aquela névoa da manhã que torna tudo cinematográfico.

Hortênsias — a flor símbolo da cidade cobre ruas, jardins e encostas de azul, lilás, branco e rosa de outubro a março. A Região das Hortênsias não tem esse nome por acaso.

Vale do Quilombo — área de mata nativa, cachoeiras e trilhas — a Gramado que o turista apressado não vê.

Mini Mundo — réplicas em miniatura dos monumentos mais famosos do mundo, num jardim cuidado com precisão alemã. Mais de 1,5 milhão de visitantes por ano.

Snowland — o único parque de neve indoor do Brasil. Neve real, pistas de ski, snowboard e trenó — tudo a 825 metros de altitude na Serra Gaúcha.

Chocolate artesanal — Gramado tem mais fábricas de chocolate artesanal por quilômetro quadrado do que qualquer outra cidade brasileira. A visita às fábricas — com degustação — é programa obrigatório.

Canela — a irmã encantada a 7 km

Quem vai a Gramado e não vai a Canela está perdendo metade da viagem. As duas cidades são vizinhas, complementares e juntas formam o roteiro mais completo da Serra Gaúcha.

Canela tem sua própria identidade: mais tranquila, com preços um pouco mais acessíveis e atrações naturais que Gramado não tem. O Parque do Caracol — com a Cascata do Caracol, queda d'água de 131 metros de altura em meio à mata nativa — é uma das imagens mais icônicas do RS. A Catedral de Pedra, no centro da cidade, é um dos cartões-postais mais fotografados do sul do Brasil. O Parque da Ferradura, a Ferradura (formação rochosa com vista para o cânion), e o Mundo a Vapor completam um roteiro que se estende facilmente por dois ou três dias além de Gramado.

Quando ir a Gramado

Julho: Pico do inverno — frio intenso, chance de neve, alta temporada, hotéis lotados

Out–Jan: Natal Luz — a temporada mais visitada do ano

Mar–Abr: Choco Páscoa — chocolate, decoração e clima ameno

Agosto: Festival de Cinema — glamour e cultura no auge

Mai–Jun: Baixa temporada — preços até 40% menores, cidade mais tranquila, folhagem de outono

Já foste a Gramado?

Conta nos comentários qual foi a tua melhor memória da cidade. E se ainda não foste — vai. O Rio Grande do Sul tem pampa, tem Missões, tem litoral, tem serras. E tem Gramado, que é um capítulo à parte na história do estado.

Clica aqui e confira outras atrações de Gramado. 

Acompanha o Entrevero Xucro para mais destinos e cultura gaúcha — toda semana no blog e nas redes sociais.

Igreja São Pedro - Catedral de Gramado: Inaugurada em 1942, é uma das maiores demonstrações de religiosidade da comunidade. 

Palácio dos Festivais: local onde é a escolha do Kikito, um dos principais festivais de cinema no Brasil.


Fonte do Amor eterno, mais uma atração romântica de Gramado 


quarta-feira, 3 de junho de 2026

O adeus ao último Tronco Missioneiro e o legado eterno dos quatro pilares da cultura missioneira

400 anos das Missões e o silêncio da última voz

O ano de 2026 ficará marcado para sempre na história do Rio Grande do Sul.

É o ano em que celebramos os 400 anos do início das Missões Jesuítico-Guaranis, um dos acontecimentos mais importantes da formação cultural do Sul da América. Também foi o ano em que a cultura missioneira perdeu sua última grande voz viva.

No dia 29 de maio de 2026, partiu Pedro Ortaça, aos 83 anos, encerrando definitivamente a trajetória dos chamados Troncos Missioneiros. Com sua morte, desaparece o último representante de um grupo de artistas que transformou a música regional gaúcha e levou a identidade missioneira para todos os cantos do Brasil.

Mas quem foram os Troncos Missioneiros?

Por que seus nomes são reverenciados como patrimônio cultural do Rio Grande do Sul?

E por que sua obra continua tão atual?

Para entender isso, é preciso voltar no tempo.

Os 400 anos das Missões: onde nasceu uma parte da alma gaúcha

Em 1626 teve início a formação das primeiras reduções jesuítico-guaranis na região missioneira.

Ali surgiu uma das experiências culturais mais singulares da América do Sul: a convivência entre os povos guaranis e os missionários jesuítas.

Durante mais de um século, foram construídos povoados, igrejas, oficinas, escolas, centros musicais e comunidades que deixaram marcas profundas na identidade regional.

As Missões não pertencem apenas ao passado.

Elas vivem na linguagem, na música, na religiosidade, nos costumes, na culinária e na forma de ser do povo missioneiro.

Quatro séculos depois, seu legado continua inspirando artistas, pesquisadores e comunidades inteiras. Em 2026, diversas atividades culturais e educativas passaram a celebrar esse patrimônio histórico que ajudou a formar o Rio Grande do Sul.

O que foram os Troncos Missioneiros?

O nome Troncos Missioneiros surgiu para identificar quatro artistas que transformaram a cultura das Missões em poesia, música e identidade.

Eles não formavam um grupo musical tradicional.

Eram amigos, contemporâneos e representantes de uma mesma raiz cultural.

Cada um possuía estilo próprio, mas todos carregavam a mesma missão: dar voz ao povo missioneiro.

Os quatro troncos foram:Jayme Caetano Braun, Noel Guarany, Cenair Maicá e Pedro Ortaça

Juntos, ajudaram a criar uma nova estética para a música regional gaúcha, valorizando a história missioneira, o povo guarani, a crítica social e a identidade regional.

Jayme Caetano Braun: o payador das Missões

Nascido em 1924, em Bossoroca, Jayme Caetano Braun tornou-se um dos maiores payadores da história do Rio Grande do Sul.

Foi poeta, declamador, radialista e pesquisador da cultura gaúcha.

Sua obra ajudou a preservar expressões, histórias e valores do homem do campo.

Principais obras:

Galpão de Estância

Payadas

Trovas ao Vento

Diversos livros e discos de poesia

Representatividade: Jayme foi o grande intelectual do tradicionalismo missioneiro. Sua voz levou a poesia gaúcha para rádios, festivais e palcos de todo o Brasil.

Legado: Transformou a payada em patrimônio cultural e inspirou gerações de declamadores e poetas.

Noel Guarany: a voz rebelde das Missões

Nascido em 1941, em Bossoroca, Noel Guarany foi cantor, compositor e uma das figuras mais autênticas da música regional.

Defensor das causas populares, criticava injustiças sociais e exaltava a identidade missioneira.

Principais obras:

Destino Missioneiro

Romance da Tafona

Canto dos Livres

Canções sobre Sepé Tiaraju e os povos missioneiros

Representatividade: Noel foi um símbolo de independência artística.

Recusou seguir padrões comerciais e tornou-se referência para o movimento nativista.

Legado: Mostrou que a música regional poderia ser profunda, crítica e universal sem perder suas raízes.

Cenair Maicá: o poeta da alma missioneira

Nascido em 1947, em Tucunduva, mas profundamente identificado com a região missioneira, Cenair Maicá tornou-se uma das vozes mais emocionantes do cancioneiro gaúcho.

Sua obra aproximou o universo indígena, a natureza e a espiritualidade da música regional.

Principais obras:

Canto dos Livres

Rio Missioneiro

Canções dedicadas aos guaranis e às Missões

Representatividade: Foi um dos artistas que melhor traduziu a sensibilidade missioneira em música.

Legado: Sua obra permanece como uma ponte entre o passado indígena e a identidade contemporânea das Missões.

Pedro Ortaça: a última voz do Tronco Missioneiro

Nascido em São Luiz Gonzaga, Pedro Ortaça dedicou sua vida à preservação da cultura missioneira.

Foi cantor, compositor, pesquisador e guardião da memória regional.

Principais obras:

Timbre de Galo

Bailanta do Tibúrcio

Guasca

Queixo Duro

Pena Guarany

Representatividade: Pedro tornou-se o maior embaixador vivo das Missões nas últimas décadas.

Sua carreira foi marcada pela defesa da história missioneira e pela valorização das raízes guaranis.

Legado: Com sua partida, encerra-se a presença física dos Troncos Missioneiros.

Mas sua obra permanece viva em cada festival, cada galpão e cada roda de mate onde a cultura missioneira continua sendo celebrada.

Muito além da música

Os Troncos Missioneiros não cantavam apenas canções.

Eles contavam histórias. Preservavam memórias. Defendiam identidades.

Mostravam que o Rio Grande do Sul não nasceu apenas das guerras e das estâncias, mas também das reduções jesuítico-guaranis, dos povos indígenas e da rica herança cultural das Missões.

Quando um tronco cai, a floresta continua viva

A morte de Pedro Ortaça representa o fim de uma geração. Mas não representa o fim de seu legado.

Os Troncos Missioneiros ajudaram a construir uma consciência cultural que atravessa gerações.

Em pleno ano dos 400 anos das Missões, sua mensagem parece ainda mais atual.

Enquanto existirem pessoas cantando suas músicas, lendo seus versos, contando suas histórias e valorizando a cultura missioneira, eles continuarão vivos.

Porque alguns homens não pertencem apenas ao seu tempo. Pertencem à eternidade.

E os Troncos Missioneiros já fazem parte dela.

Imagem: URI São Luiz Gonzaga representando os 4 Troncos Missioneiros 


sábado, 30 de maio de 2026

Biografia Gaúcha: Pedro Ortaça — A voz Missioneira

O Rio Grande do Sul perdeu nesta semana uma de suas maiores referências culturais. Faleceu, aos 83 anos, o cantor, compositor e violonista Pedro Ortaça, considerado um dos maiores defensores da identidade missioneira e um dos pilares da música regional gaúcha. Sua partida encerra um capítulo histórico da cultura sul-rio-grandense, mas deixa um legado impossível de apagar.

Das Missões para o Rio Grande

Pedro Marques Ortaça nasceu em 29 de junho de 1942, em São Luiz Gonzaga, coração da região missioneira. Desde cedo carregou na voz e no violão a história de seu povo, transformando a cultura das Missões em música, poesia e resistência cultural.

Ao longo de décadas, tornou-se uma das vozes mais autênticas do regionalismo gaúcho, mantendo viva a memória dos Sete Povos das Missões, dos costumes campeiros, da influência guarani e da vida simples do homem da fronteira. Sua obra sempre caminhou longe dos modismos, preservando a essência da cultura missioneira.

Os Troncos Missioneiros

Falar de Pedro Ortaça é falar dos lendários Troncos Missioneiros.

Ao lado de Jayme Caetano Braun, Noel Guarany e Cenair Maicá, ajudou a construir uma nova identidade para a música regional do Rio Grande do Sul. O grupo ficou conhecido por valorizar a história missioneira, a cultura guarani, os ritmos de fronteira e também por trazer reflexões sociais em suas composições.

Com a morte de Pedro Ortaça, encerra-se simbolicamente a geração dos Troncos Missioneiros, que marcou profundamente a música gaúcha a partir das décadas de 1970 e 1980.

As Canções que Viraram Patrimônio Cultural

Entre suas obras mais conhecidas estão clássicos como:

"Timbre de Galo"

"Bailanta do Tibúrcio"

"Companheira"

"Guasca"

"Ronco da Oito Baixos"

"Queixo Duro"

"Lobisome Esperto"

"Correndo Pelado"

Suas músicas não eram apenas entretenimento. Eram relatos do povo missioneiro, da vida campeira, da cultura fronteiriça e da história de uma região que ajudou a formar a identidade do Rio Grande do Sul.

Reconhecimento em Vida

Pedro Ortaça teve a rara felicidade de receber importantes homenagens ainda em vida.

Foi agraciado como Mestre da Cultura Popular Brasileira e recebeu títulos de Doutor Honoris Causa concedidos por universidades gaúchas em reconhecimento à sua contribuição para a preservação da cultura regional. Em março de 2026, foi homenageado pela uergs.edu.br⁠� juntamente com os demais Troncos Missioneiros, em um ato considerado histórico para a cultura das Missões.

O Último Tronco

Nos últimos anos, Pedro tornou-se o último representante vivo dos Troncos Missioneiros. Mesmo enfrentando problemas de saúde, continuou levando sua arte adiante e mantendo viva a chama da música missioneira. Seu último trabalho foi a canção "Pena Guarany", gravada ao lado do filho Gabriel Ortaça, mostrando que sua paixão pela cultura jamais diminuiu.

Um Legado que Não Morre

Pedro Ortaça não foi apenas um cantor.

Foi guardião da memória missioneira.

Foi ponte entre gerações.

Foi um contador das histórias do nosso povo.

Sua voz carregava a força do Rio Uruguai, a saudade das reduções, o som das guitarras missioneiras e o orgulho de ser gaúcho.

O Rio Grande se despede do homem.

Mas a cultura gaúcha seguirá encontrando Pedro Ortaça em cada roda de mate, em cada violão missioneiro e em cada verso que lembrar quem somos e de onde viemos.

Porque existem artistas que fazem sucesso.

E existem artistas que viram patrimônio.

Pedro Ortaça foi um deles.

Obrigado por tudo, velho missioneiro.

"Enquanto houver um gaúcho cantando as Missões, tua voz seguirá viva pelos campos do Rio Grande." 🌾🎶

📍 Pedro Ortaça (1942–2026)

Último Tronco Missioneiro. Um dos maiores nomes da história da música gaúcha.



sábado, 23 de maio de 2026

Por que os jovens estão saindo dos Gestão Crioula. CTGs — e o que fazer pra mudar isso

 Esse é um assunto que dói. Mas precisa ser dito.

Entra num CTG numa sexta à noite. Olha em volta. Conta mentalmente as faixas etárias.

Na maioria das entidades que conheço, a conta é mais ou menos essa: muita gente entre 40 e 70 anos, alguns entre 30 e 40, e uma faixa de 15 a 25 que aparece pra ensaiar na invernada — mas que raramente vira sócio de verdade, raramente assume cargo, raramente se sente dono do espaço.

E quando a invernada termina a temporada de competição, parte dessa gurizada simplesmente some.

Não é por falta de amor à tradição. A maioria cresceu no galpão, foi criança no CTG, aprendeu a dançar ali. O problema é outro.

O que os jovens dizem quando saem

Quando alguém se dá ao trabalho de perguntar — e poucos CTGs perguntam — as respostas que aparecem são sempre parecidas:

"Não me sinto parte das decisões."

"As reuniões são longas e nada muda."

"Parece que o espaço é dos mais velhos."

"Quando eu sugeria algo, a resposta era sempre 'aqui sempre foi assim'."

"Não tem nada pensado pra minha faixa etária fora dos ensaios."

Repara: nenhuma dessas respostas fala que a tradição é chata, que o CTG não presta, que a cultura gaúcha não tem valor. O jovem não está rejeitando a identidade gaúcha. Ele está rejeitando uma estrutura que não abre espaço pra ele.

E aí está a distinção que muda tudo.

O problema é de gestão, não de geração

É muito fácil — e muito confortável — dizer que "a juventude de hoje não tem mais interesse pela tradição" ou que "o celular matou a cultura gaúcha".

Mas os CTGs que têm invernadas cheias, que renovam diretoria com sangue novo, que atraem famílias jovens — esses CTGs existem. Não são maioria, mas existem.

O que eles fazem de diferente?

Quase sempre a resposta é gestão. Não magia, não sorte, não localização privilegiada. Escolhas concretas de como o CTG é administrado.

Os 4 erros que afastam os jovens

1. Não ter nada pensado para eles fora da invernada

A invernada é a porta de entrada. O jovem entra aos 10, 12, 15 anos pra dançar. Aprende, se desenvolve, compete. Isso é lindo.

Mas quando ele para de competir — por idade, por trabalho, por faculdade — o que o CTG oferece pra esse jovem adulto de 22, 25 anos?

Na maioria dos CTGs: nada. Não há programação, não há espaço, não há função.

O galpão que foi tão importante na infância vira um lugar que "não é mais pra mim".

2. Não envolver os jovens nas decisões

Diretoria formada por pessoas acima dos 50 anos. Reuniões onde os mais novos ficam quietos porque "não têm experiência". Sugestões de modernização — comunicação digital, formas de pagamento, programação — vetadas sem discussão.

O jovem que se sente invisível nas decisões não vira sócio engajado. Vira frequentador eventual, quando muito.

3. Falar só pra quem já está dentro

A comunicação da maioria dos CTGs é voltada pra quem já frequenta. O Instagram posta foto do evento de sábado — mas quem não foi, não entende o contexto, não se sente convidado a ir na próxima.

Jovem que não cresceu no CTG não tem motivo pra entrar se nada comunica pra ele. E jovem que cresceu no CTG mas se afastou também não recebe nenhum sinal de que seria bem-vindo de volta.

4. Não ter programa de sócio jovem com valor percebido

"Por que eu vou pagar mensalidade se não uso o espaço o mês todo?"

Essa é a pergunta que o jovem faz — e que poucos CTGs sabem responder. A mensalidade precisa ter contrapartida clara: acesso a eventos, desconto no ingresso, espaço pra uso, atividades exclusivas.

Quando o sócio jovem não enxerga o que está pagando, ele cancela. Simples assim.

O que os CTGs que acertam fazem diferente

Não é necessário reinventar a tradição. É necessário reinventar a gestão de quem participa dela.

Criam um departamento jovem com autonomia real. Não é um grupo decorativo que pede autorização pra tudo. É um espaço onde os jovens de 18 a 35 anos organizam atividades, gerem orçamento próprio e respondem pelos resultados.

Reservam cadeiras na diretoria para pessoas jovens. Formalmente, no estatuto. Não como gesto simbólico — como obrigação institucional.

Criam programação além dos ensaios. Encontros de chimarrão, noites de cinema gaúcho, saraus nativistas, grupos de caminhada a cavalo, torneios esportivos. Atividades que têm a identidade gaúcha mas cabem na rotina de quem tem 25 anos.

Comunicam para fora, não só para dentro. Instagram com conteúdo que educa sobre a tradição, que convida, que mostra que o CTG é um espaço vivo e acolhedor pra qualquer gaúcho — não só pra quem já conhece.

Criam planos de sócio com benefícios tangíveis. Desconto progressivo em eventos, acesso ao espaço para confraternizações, participação em decisões — coisas concretas que justificam a mensalidade.

Uma conversa difícil que precisa acontecer

Existe um padrão que vejo se repetir nos CTGs que perdem jovens: a liderança mais antiga, inconscientemente, protege o espaço do jeito que sempre foi.

Não é maldade. É amor pela tradição. Mas amor pela tradição não pode ser confundido com resistência a qualquer mudança de forma.

O gaúcho do século XIX que fundou os primeiros CTGs não estava preservando uma forma — estava preservando uma identidade. E identidade se manifesta de formas diferentes em cada geração.

O chimarrão continua. A bombacha continua. A música, a dança, o respeito pela terra e pelo pago — tudo isso continua. Mas a reunião de diretoria pode ser mais ágil. A comunicação pode ser digital. O jovem pode ter voz.

Isso não é trair a tradição. É garantir que ela chegue às próximas gerações.

Por onde começar

Não precisa reformular tudo de uma vez. Começa com uma pergunta simples na próxima reunião de diretoria:

"O que nós faríamos diferente se quiséssemos que um jovem de 22 anos virasse sócio ativo do nosso CTG?"

Deixa a pergunta no ar. Ouve as respostas. Anota.

Depois pega as três respostas mais práticas e transforma em ação com prazo e responsável.

Não precisa de consultoria, de dinheiro, de reforma no galpão. Precisa de vontade de olhar pra frente com o mesmo amor que se olha pro passado.

Uma pergunta pra ti

Quando foi a última vez que o teu CTG perguntou pra um jovem por que ele parou de aparecer?

Se nunca aconteceu — talvez essa seja a primeira mudança a fazer.

Compartilha esse post com quem cuida da invernada ou do departamento jovem do teu CTG. Essa conversa precisa acontecer no galpão, não só na internet.

Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.

55ª Ciranda Cultural de Prendas - Uma tradição acesa em Erechim: o que é e o que acontece

O Rio Grande volta os olhos neste fim de semana para a capital da amizade. A querida cidade de Erechim recebe, entre os dias 21 e 23 de maio, a 55ª edição da Ciranda Cultural de Prendas, um dos eventos mais importantes do calendário do tradicionalismo gaúcho. Mais do que um concurso, a Ciranda é um encontro de cultura, conhecimento, arte, emoção e identidade do nosso povo campeiro.

Pra quem é de fora do meio tradicionalista, talvez fique a dúvida: afinal, o que é a Ciranda Cultural de Prendas?

A Ciranda é o evento promovido pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho que escolhe as prendas estaduais do Rio Grande do Sul. Participam representantes das 30 Regiões Tradicionalistas do Estado, divididas em categorias mirim, juvenil e adulta. Durante dias intensos, essas gurias passam por provas culturais, artísticas e tradicionalistas que avaliam muito mais do que beleza ou postura. O que está em jogo é o conhecimento da história gaúcha, da cultura regional, da arte, do folclore, da oralidade, da dança, da música, da indumentária e do sentimento de pertencimento ao Rio Grande.

É uma verdadeira celebração da identidade gaúcha.

Muito além da faixa e da flor no cabelo

Quem vê uma prenda pilchada muitas vezes não imagina a caminhada que existe por trás daquela faixa. Cada concorrente chega à etapa estadual depois de vencer concursos internos em entidades e regiões tradicionalistas. É uma preparação de meses — às vezes anos — estudando cultura gaúcha, história do Estado, folclore, MTG, costumes do campo, culinária, música e literatura regional.

Na Ciranda, acontecem: provas escritas, apresentações artísticas, declamação, interpretação de temas culturais, avaliações de comunicação, integração entre regiões, atividades culturais e protocolares e momentos de confraternização tradicionalista.

E tudo isso mantendo viva a essência do tradicionalismo: transmitir cultura de geração em geração.

Erechim vivendo a “Ciranda dos Sonhos”

A edição deste ano vem sendo chamada de “Ciranda dos Sonhos 2026”. A cidade de Erechim se preparou durante meses para receber milhares de tradicionalistas vindos de todas as querências do Estado. A expectativa é de mais de 2 mil pessoas circulando pelo município durante os três dias de programação.

A realização envolve o Movimento Tradicionalista Gaúcho, a Fundação Cultural Gaúcha, a 19ª Região Tradicionalista e o CTG Sentinela da Querência, além do apoio da Prefeitura Municipal de Erechim e da Secretaria Estadual da Cultura.

Um dos grandes símbolos desta edição é a atual 1ª Prenda do Rio Grande do Sul, Laura Laís Durli, justamente ligada à 19ª Região Tradicionalista, anfitriã do evento.

O coração cultural do tradicionalismo

Enquanto muita gente conhece o tradicionalismo pelos rodeios, gineteadas e fandangos, a Ciranda representa outro lado igualmente importante da cultura gaúcha: o lado intelectual e artístico do movimento.

É ali que se preservam: a pesquisa histórica, a valorização do linguajar gaúcho, o incentivo à leitura e à declamação, o ensino das tradições às novas gerações e o fortalecimento do papel da mulher dentro do tradicionalismo.

A Ciranda mostra que ser prenda vai muito além da pilcha bonita. É carregar conhecimento, postura, responsabilidade cultural e amor pelo Rio Grande.

Um evento que emociona quem vive a tradição

Quem já participou sabe: a Ciranda mistura nervosismo, amizade, orgulho e emoção. Tem abraço de família, lágrima escondida no lenço, nervosismo antes das provas e aplauso sincero entre concorrentes. Porque acima da disputa existe algo maior: a preservação da cultura gaúcha.

Cada prenda que sobe ao palco leva junto sua entidade, sua região e sua história.

E quando a chama crioula da cultura passa de uma geração pra outra, o Rio Grande segue vivo.

O Rio Grande se encontra em Erechim

Neste fim de semana, Erechim não recebe apenas um evento. Recebe o encontro de sotaques, costumes e querências de todo o Estado. Da campanha à serra, das missões ao litoral, o Rio Grande se reúne em torno daquilo que tem de mais valioso: sua identidade cultural.

A 55ª Ciranda Cultural de Prendas reafirma que tradição não é viver no passado. É manter viva a memória do povo enquanto se prepara o futuro.

E enquanto houver uma prenda estudando nossas raízes, declamando nossa poesia e defendendo a cultura do pago, o Rio Grande seguirá firme — de pé, de bota e de alma crioula.

Fonte: MTG e Prefeitura de Erechim 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Destinos do RS - Caxias do Sul, a gigante da Serra Gaúcha que ainda guarda alma de interior

Tem cidade que cresce e esquece de onde veio.

Mas Caxias do Sul parece carregar duas almas ao mesmo tempo.

Uma é moderna, industrial, acelerada. Terra de trabalho pesado, empresas gigantes, trânsito, bairros novos e desenvolvimento constante.

A outra ainda vive no cheiro do vinho colonial, nas estradas de chão do interior, no fogão à lenha aceso cedo da manhã e no sotaque carregado dos descendentes de imigrantes que ajudaram a construir a Serra Gaúcha.

E talvez seja justamente isso que faz tanta gente criar raízes aqui.

Porque mesmo enorme, Caxias ainda consegue parecer interior.

Quando tudo ainda era Campo dos Bugres

Antes de virar uma das maiores cidades do Sul do Brasil, a região era conhecida como Campo dos Bugres.

Muito antes da imigração italiana, os campos e matas já eram ocupados pelos povos indígenas que viviam na Serra. Depois vieram tropeiros, caminhos de comércio e, mais tarde, a chegada dos imigrantes italianos no final do século XIX.

Foi ali que começou a nascer uma cidade moldada pelo trabalho.

Os imigrantes enfrentaram frio, isolamento, mata fechada e dificuldades que hoje parecem impossíveis de imaginar. Mas construíram comunidades fortes, capelas, vinhedos e uma cultura própria que ainda marca profundamente a identidade da cidade.

A imigração italiana que mudou a Serra Gaúcha

Falar de Caxias do Sul é falar da imigração italiana no Rio Grande do Sul.

Os descendentes dos colonos ajudaram a transformar a cidade em uma potência econômica, mas sem abandonar completamente os costumes antigos.

Ainda hoje, quem anda pelos distritos do interior encontra:

pequenas propriedades rurais

produção artesanal

vinho colonial

capelas antigas

festas comunitárias

mesas fartas

sotaque carregado

tradição familiar

Em muitos lugares, o tempo parece passar mais devagar.

Uma cidade gigante que ainda parece pequena

Caxias cresceu.

Virou polo metalúrgico. Virou potência industrial. Virou referência econômica.

Mas existe algo curioso nela.

Mesmo com centenas de milhares de habitantes, ainda existem bairros e comunidades onde as pessoas se conhecem pelo nome, conversam na calçada e mantêm hábitos típicos de cidade pequena.

Talvez por isso tanta gente de fora venha trabalhar aqui… e nunca mais vá embora.

Porque Caxias tem algo raro: ela mistura oportunidade com pertencimento.

Os caminhos escondidos da Serra

Muita gente conhece apenas o centro urbano da cidade.

Mas existe outro lado de Caxias do Sul.

Um lado formado por:

estradas cercadas de parreirais

pequenas cantinas

igrejas antigas

comunidades do interior

paisagens típicas da Serra Gaúcha

Distritos como:

Criúva

Vila Oliva

Santa Lúcia do Piaí

guardam um pedaço do Rio Grande antigo que ainda resiste ao tempo.

E talvez seja ali que a verdadeira alma da cidade continue mais viva.

Entre o progresso e a tradição

Poucas cidades do Rio Grande do Sul vivem tão fortemente esse contraste.

De um lado: indústria, crescimento, tecnologia e expansão urbana.

Do outro: chimarrão, missa de comunidade, festa colonial, churrasco de família e memória dos antigos.

E talvez o grande segredo de Caxias esteja justamente nisso: crescer sem apagar completamente suas raízes.

Muito além da Festa da Uva

Quando se fala em Festa da Uva, muita gente pensa apenas em turismo.

Mas a festa representa algo maior.

Ela carrega a memória dos imigrantes, do trabalho nas colônias, da produção agrícola e da construção cultural da Serra Gaúcha.

É uma celebração da identidade de um povo.

O que faz tanta gente criar raízes em Caxias?

Talvez seja o frio.

Talvez seja a comida farta.

Talvez seja o trabalho.

Ou talvez seja aquela sensação difícil de explicar que aparece quando alguém encontra um lugar que mistura futuro e memória ao mesmo tempo.

Porque no fundo, Caxias do Sul continua sendo aquilo que muita gente define de um jeito simples:

“Uma cidade de interior… só que gigante.”

E tu?

Qual é a primeira lembrança que vem na cabeça quando pensa em Caxias do Sul?



"Criúva, cantada pelos Bertussi, carrega a herança tropeira."



"Fonte de Água Azul, um pedaço Jesuíta no interior de Caxias do Sul "


“Estrada do interior de Caxias do Sul cercada por paisagens típicas da Serra Gaúcha e comunidades de descendentes italianos”

“Paisagem típica do inverno de Caxias do Sul durante o amanhecer”

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domingo, 10 de maio de 2026

Feliz dia das Mães

Tem coisa que o tempo não leva embora. O gosto da comida sendo feita, o cheiro do pão caseiro saindo do forno, o barulho da chaleira no fogão à lenha. E principalmente… o abraço de mãe.

No coração do pampa gaúcho, mãe é mais que família. É fortaleza. É quem segura a estância da vida quando o minuano castiga. É quem ensina respeito, tradição e coragem desde cedo.

Foi no colo das mães gaúchas que muita gente aprendeu o valor do mate compartilhado, do aperto de mão sincero e da palavra honrada. Cada galpão do Rio Grande carrega histórias de mulheres fortes, campeiras, trabalhadoras e cheias de amor pela família e pela querência.

Neste Dia das Mães, fica a homenagem do Entrevero Xucro para todas as mães do Rio Grande do Sul — das cidades, das campanhas, das estâncias e dos rincões esquecidos do mapa, mas nunca esquecidos pela memória do povo gaúcho.

Que nunca falte mate quente, abraço apertado no domingo e gratidão por quem sempre esteve ali, mesmo nas horas mais brutas da vida.

Porque mãe gaúcha não cria só filhos. Cria valores. Cria raízes. Cria gente forte.

Feliz Dia das Mães. E abracem as suas enquanto o tempo permite. E comprem os presentes



quarta-feira, 6 de maio de 2026

Dicionário Gaudério: PILCHA

PILCHA - a elegância do gaúcho — quando a roupa é mais do que roupa, é identidade.

O que significa PILCHA?

Substantivo feminino. No universo gaúcho, pilcha é a indumentária tradicional — o conjunto de roupas e acessórios que compõem o traje do gaúcho e da prenda. Mas chamar a pilcha apenas de "roupa típica" é diminuir demais o que ela representa. A pilcha é identidade vestida. É a declaração de que quem a usa pertence a uma cultura, carrega uma história e respeita uma tradição.

Pilchar-se — o ato de vestir a pilcha — não é uma obrigação. É uma escolha. E quem faz essa escolha está dizendo, sem precisar de palavras: sou gaúcho, e tenho orgulho disso.

A origem da palavra

A palavra vem do espanhol platino pilcha — termo usado no Uruguai e na Argentina para designar objetos pessoais de pouco valor, trapos, bugigangas. No pampa gaúcho, a palavra chegou pela fronteira viva com o Prata e, como aconteceu com tantos outros termos, ganhou um significado completamente diferente — e muito mais nobre. O que era trapo virou traje. O que era descarte virou patrimônio.

A inversão de sentido é, ela mesma, uma metáfora da cultura gaúcha: pegar o que o mundo jogou fora e transformar em orgulho.

A pilcha do gaúcho — peça por peça

A indumentária gaúcha masculina tradicional é composta por:

Bombacha: a calça larga de tecido resistente, franzida nos tornozelos — símbolo máximo do traje gaúcho. Surgiu no século XIX como adaptação da calça árabe trazida pelos imigrantes do Oriente Médio que chegaram à América do Sul, e foi adotada pelos gaúchos pela praticidade no campo.

Camisa: geralmente de tecido leve, em cores sóbrias ou com bordados discretos.

Lenço: usado no pescoço, dobrado em triângulo. As cores têm significados que variam por região e CTG — vermelho, azul, branco, preto, cada um com sua simbologia.

Guaiaca ou cinto: a cinta de couro que guarda a faca e os pertences do gaúcho. A guaiaca é o cinto largo, trabalhado, frequentemente com enfeites de prata.

Faca e bainha: a faca gaúcha é ferramenta, não arma. A bainha trabalhada é parte da pilcha — objeto de arte e identidade.

Botas: de couro, com ou sem salto, com ou sem esporas. As esporas são usadas pelos campeiros e pelos que participam das atividades equestres.

Chapéu: de feltro, aba larga, cor preta ou marrom. O ângulo da aba varia conforme a região do estado.

Poncho ou pelego: para o frio. O poncho gaúcho é a peça mais versátil da pilcha — cobertor, capa de chuva, assento e travesseiro quando necessário.

A indumentária feminina — a prenda — tem sua própria riqueza: vestido rodado de chita ou renda, avental bordado, lenço de seda no cabelo, sapatilhas ou botinhas. Cada detalhe obedece ao regulamento do MTG e tem significado cultural próprio.

A pilcha e o MTG — quando a tradição vira norma

O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) regulamenta a indumentária gaúcha com precisão — cores, tecidos, comprimentos, acessórios permitidos. Há quem critique o excesso de normatização. Mas há um argumento forte do outro lado: sem padronização mínima, a pilcha se dilui, se comercializa, perde o que a torna especial.

O debate é saudável. E o que importa é que, regulamentada ou não, a pilcha continua sendo escolhida — por jovens, por adultos, por crianças. Porque a identidade gaúcha, quando bem apresentada, não precisa de obrigação para continuar viva.

Como se usa no dia a dia

Elogio: Que pilcha mais bonita! Esse lenço combinou perfeito com a bombacha.

Identidade: Nos festejos, a gente se pilcha do melhor — é respeito pela tradição.

Versatilidade: Pode ser pilcha completa ou só a bombacha e o lenço. Já é suficiente pra mostrar de onde és.

Orgulho: Meu pai me ensinou a me pilchar antes de me ensinar a montar a cavalo.

Pilcha na música nativista

A pilcha atravessa o cancioneiro gaúcho como símbolo de pertencimento. Das vaneras aos festivais nativistas, a indumentária aparece em letras que celebram o gaúcho que não tem vergonha de mostrar de onde vem — nem nas cidades grandes, nem no exterior.

O gaúcho pilchado em São Paulo, em Buenos Aires, em Lisboa — é sempre uma declaração. Uma âncora cultural que diz: de onde eu vim não é lugar que se abandona.

Palavras da mesma família

Pilchar-se: o verbo — o ato de vestir a pilcha. Já te pilchaste para o desfile?

Pilchado(a): quem está com a indumentária gaúcha. Chegou todo pilchado ao acampamento.

Despilchar: tirar a pilcha. Depois do desfile, despilchou e foi trabalhar.

Pilcharia: conjunto de pilchas, ou loja que as vende.

A tua pilcha tem história?

Conta nos comentários. Muitos gaúchos têm uma pilcha herdada — do pai, do avô, da avó. Uma bombacha guardada num baú, um lenço que viajou pelo mundo. Essas histórias merecem ser contadas.

E se conheces outra palavra gaúcha que merece entrar no Dicionário Gaudério, deixa a sugestão — este dicionário é construído junto.

📌 Palavras-chave: pilcha gaúcha, indumentária gaúcha, bombacha, lenço gaúcho, traje gaúcho, MTG, cultura gaúcha, tradição gaúcha, Semana Farroupilha, identidade gaúcha, Rio Grande do Sul

📂 Série: Dicionário Gaudério | Entrevero Xucro | entreveroxucro.blogspot.com

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sexta-feira, 1 de maio de 2026

1° de maio - Dia do Trabalhador

No pampa, o trabalho sempre foi mais do que obrigação — foi identidade.

O gaúcho que acorda antes do sol raiar, que tira o leite com as mãos ainda dormentes pelo frio da madrugada, que planta, que colhe, que pega no cabo da ferramenta sem reclamar do peso — esse é o verdadeiro sustentáculo desta terra.

Não importa se o trabalho é no campo ou na cidade, na lavoura ou na fábrica, na cozinha ou no escritório: todo suor honesto merece respeito.

O Rio Grande do Sul foi construído na fibra de quem não desistiu. Nas costas do peão, nas mãos calejadas do colono, na garra do operário, na dedicação silenciosa de tantos que nunca tiveram seu nome nos livros — mas que fizeram a história acontecer.

Hoje, o Entrevero Xucro tira o chapéu.

Ao trabalhador gaúcho: parabéns. Vocês são o coração deste Estado.

Que o chimarrão de hoje seja bem-mateado. Vocês merecem.

🤠 Entrevero Xucro — Cultura e tradição gaúcha desde as raízes

📌 entreveroxucro.blogspot.com



sábado, 25 de abril de 2026

Gestão Crioula - O erro que faz CTG trabalhar o ano todo e terminar no prejuízo

Com o chimarrão na mão. Vamos falar de um assunto que muita gente prefere evitar.

A boia foi de fundamento. O salão lotou. A invernada se apresentou, o pessoal dançou até tarde, todo mundo saiu falando bem. O Patrão dormiu feliz.

Aí chegou a segunda-feira. O tesoureiro sentou com as notas fiscais, o caderno de controle e a planilha — ou o bloco de anotações, dependendo do CTG. E ali, na frieza dos números, apareceu a realidade: o evento deu prejuízo. Ou, na melhor das hipóteses, sobrou tão pouco que não valeu o trabalho de um mês inteiro de organização.

Isso acontece em CTGs de todos os tamanhos. E quase sempre pelo mesmo motivo. O erro mais comum: precificar por sentimento, por achismo, pelo sempre foi assim.

Quando chega a hora de definir o valor do ingresso ou da mesa de jantar, a conversa na diretoria costuma ser mais ou menos assim:

"Quanto a gente cobra?"

"O CTG tal cobrou 80 reais no ano passado..."

"Então vamos cobrar 90, pra parecer que melhorou."

"Mas se cobrar muito caro, o pessoal não vem."

"Então 80 mesmo."

Decisão tomada. Sem saber o custo real do evento. Sem saber quantas pessoas precisam comparecer pra cobrir as despesas. Sem saber qual é o ponto de equilíbrio. É precificação por sentimento — e ela é a principal razão pela qual CTGs trabalham meses e terminam no vermelho.

O que a maioria dos CTGs não calcula

Quando a diretoria pensa nos custos de um evento, normalmente lembra dos itens mais visíveis: o churrasco, a bebida, a música. Mas existe uma lista de custos que frequentemente fica de fora da conta. Custos diretos que todo mundo lembra: Alimentos e bebidas, Banda ou DJ, Decoração

Custos diretos que frequentemente esquecem: Gás e carvão, Descartáveis e guardanapos, Segurança (porteiro, vigilante), Impressão de ingressos e banners, Transporte de materiais, Taxa do sistema de cobrança (Pix tem custo? Depende da conta).

Custos indiretos que quase nunca entram na conta: Energia elétrica do evento, Desgaste de equipamentos (fogão, freezer, caixas de som), Horas de trabalho dos voluntários que saíram do bolso próprio pra comprar algo, Limpeza pós-evento, Eventual manutenção de algo que quebrou durante o evento e o maior esquecido de todos: A parcela do aluguel ou IPTU do mês — o espaço tem custo fixo que precisa ser coberto.

Quando tu somas tudo isso, o custo real do evento é quase sempre 30% a 40% maior do que o número que aparecia na cabeça da diretoria na hora de definir o preço.

Ponto de equilíbrio: é o número que todo Patrão precisa saber e é simples: é a quantidade mínima de ingressos que precisa ser vendida para que o evento não dê prejuízo.

A fórmula é direta: Ponto de equilíbrio = Custo total do evento ÷ Valor do ingresso

Exemplo prático: Custo total real do jantar: R$ 8.000. Valor do ingresso: R$ 80. Ponto de equilíbrio: 100 pessoas

Isso significa que as primeiras 100 entradas vendidas só pagam as contas. A partir da 101ª pessoa é que começa a sobrar dinheiro pro CTG. Se o salão comporta 150 pessoas e tu vendeste 110 — parabéns, o evento foi bem. Mas se vendeste 85, o CTG saiu no prejuízo mesmo com o salão "cheio".

Saber esse número antes do evento muda completamente a tomada de decisão. Tu podes ajustar o preço, reduzir custos, criar um ingresso antecipado com desconto pra garantir o mínimo — ou até decidir não fazer o evento se a conta não fechar.

O problema do ingresso antecipado mal gerido

Ingresso antecipado é uma ferramenta poderosa — quando bem usado. Mas em muitos CTGs ele vira um problema. O que acontece na prática: os sócios mais próximos compram antecipado com desconto. O CTG usa esse dinheiro pra pagar as despesas iniciais. Aí o evento acontece, as vendas na porta não compensam, e no final sobrou menos do que o esperado.

O ingresso antecipado precisa estar dentro da conta, não fora dela. Se tu vendes 50 ingressos a R$ 60 e 60 na porta a R$ 80, a receita total não é "60 vezes 80" — é a soma real das duas faixas.

Uma planilha simples resolve boa parte do problema

Não precisa de sistema caro, software sofisticado nem contador dedicado. Uma planilha no celular já resolve — desde que tu uses ela de verdade.

A planilha mínima de um evento de CTG tem três abas:

Aba 1 — Custos previstos: lista cada item de custo com o valor estimado, antes do evento.

Aba 2 — Receita prevista: quantos ingressos pretende vender, a que preço, em quais categorias.

Aba 3 — Resultado real: o que efetivamente foi gasto e o que entrou de receita, preenchida depois do evento.

Comparar as abas 1 e 2 antes do evento te diz se a conta fecha. Comparar com a aba 3 depois te ensina a fazer melhor no próximo.

Em três ou quatro eventos usando esse método, a diretoria começa a ter referências reais — e a precificação deixa de ser sentimento pra virar decisão.

"Mas no nosso CTG é tudo voluntário, não tem como cobrar tudo isso..."

Entendo. E respeito muito, o voluntarismo é o que mantém os CTGs de pé.

Mas existe uma diferença importante entre trabalho voluntário e prejuízo financeiro. O voluntário doa o seu tempo — e isso é lindo. Mas quando o CTG sai de um evento devendo pro fornecedor, sem dinheiro pra pagar a conta de luz do mês seguinte ou sem reserva pra manutenção do galpão, o problema não é só financeiro. É de sustentabilidade da própria entidade.

CTG que não tem saúde financeira não consegue manter a invernada, não consegue reformar o galpão, não consegue pagar a anuidade da MTG, não consegue crescer. Cuidar das contas não é desvirtuar a tradição. É garantir que ela continue existindo.

Por onde começar na semana que vem

Se tens um evento nos próximos meses, faz isso antes de definir qualquer preço:

1. Senta com o tesoureiro e lista todos os custos do último evento similar — os que lembrarem e os que acharem nos recibos

2. Adiciona 30% a essa lista pra cobrir o que esquecerem

3. Divide pelo número realista de participantes esperados

4. O número que aparecer é o custo por pessoa — e o ingresso precisa ser maior do que isso

Simples assim pra começar. Depois vai refinando.

Uma pergunta pra ti:

No último evento do teu CTG — tu sabias, antes de começar, qual era o ponto de equilíbrio?

Se a resposta foi não, compartilha esse post com o tesoureiro. Pode ser a conversa mais importante que vocês vão ter essa semana.

Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Destinos do Pampa - Pinheiro Machado

 DESTINOS DO PAMPA • Cidades Rio-Grandenses

Pinheiro Machado — a Eterna Cacimbinhas tem história, tradição, vinho e natureza no coração das Serras do Sudeste gaúcho.

Tem lugares no Rio Grande do Sul que carregam a história do estado inteira dentro dos seus limites. Pinheiro Machado é um desses lugares. Cidade do extremo sul gaúcho, encravada entre as Serras das Asperezas, do Passarinho e do Velleda, a apenas 354 km de Porto Alegre — ela é conhecida pelo apelido carinhoso que o tempo não apagou: a eterna Cacimbinhas.

Quem nasce lá, leva o pago no coração para onde for. E quem visita, entende por que.

Cacimbinhas — a origem do nome e da cidade

Antes de ser Pinheiro Machado, antes de ser Nossa Senhora da Luz das Cacimbinhas, antes mesmo de qualquer estrutura urbana, esse pedaço de coxilha era parada obrigatória dos carreteiros que cruzavam o sul do estado em carretas puxadas a bois.

Os tropeiros abriam picadas pelos divisores de água naturais, encurtando caminhos, desviando de terrenos difíceis. E num desses pontos de parada — onde havia água fresca nas cacimbas naturais do chão —, surgiu o pequeno agrupamento que virou cidade. Dizem que o local onde hoje fica a praça central era exatamente o ponto de descanso das tropas. Das trilhas dos viajantes nasceu a avenida que chega ao cemitério — a mesma que o tempo transformou em rua e a memória transformou em história.

A lenda de Dutra de Andrade — a promessa que fundou a primeira igreja

Toda cidade tem uma lenda. A de Cacimbinhas é das mais bonitas do RS. Conta-se que José Dutra de Andrade — um dos primeiros a receber sesmarias nessa coxilha, em 1790 — perdeu a visão e fez uma promessa: se recuperasse a vista ao lavar os olhos nas águas das cacimbinhas, mandaria construir uma capela em honra de Nossa Senhora da Luz.

O milagre aconteceu. E a primeira Igreja de Pinheiro Machado foi construída no terreno doado por Dutra de Andrade, em 10 de abril de 1851. A devoção que nasceu daquela promessa virou nome de cidade — e virou alma de um povo.

De Rafael Pinto Bandeira a Sepé Tiaraju — história viva no chão dessa cidade

Pinheiro Machado é um dos municípios mais antigos do Rio Grande do Sul. Sua colonização remonta a cerca de 1775, quando Rafael Pinto Bandeira — militar gaúcho que participou da retomada de territórios missioneiros para a Coroa Portuguesa, e o primeiro gaúcho a assumir o governo do RS — chegou a essas terras.

Mas a história desse chão é ainda mais antiga. Durante as demarcações do Tratado de Madri (1750), a região estava no centro das disputas entre Portugal e Espanha. E foi aqui, nas proximidades do que hoje é Pinheiro Machado, que as forças missioneiras lideradas pelo Cacique Sepé Tiaraju embargaram as demarcações no histórico Forte de Santa Tecla — em resistência que só terminou com a morte do herói guarani e a destruição do forte.

O Marco dos Porongos, ponto turístico do município na estrada entre Pinheiro Machado e Torrinhas, lembra outro capítulo dramático: a Batalha dos Porongos, de 14 de novembro de 1844, quando 110 Lanceiros Negros que combatiam pela República Riograndense foram mortos. Uma ferida aberta da história gaúcha, guardada em pedra e memória.

"Desde 1750, o chão de Pinheiro Machado já escrevia páginas do Rio Grande do Sul."

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A cidade ganhou o nome por um assassinato — e a população se rebelou

Em 1879, o município se desmembrou de Piratini sob o nome de Nossa Senhora da Luz das Cacimbinhas. Mas o nome que carrega hoje veio de uma história dramática: quando o Senador José Gomes Pinheiro Machado foi assassinado no Rio de Janeiro — pelo revólver de Francisco Manso de Paiva Coimbra, morador justamente da região de Cacimbinhas —, o Intendente Provisório Dr. Ney Lima Costa mudou o nome da cidade em homenagem ao senador.

A população não aceitou. Rebelou-se contra o intendente, que teve que deixar a cidade. Mas o nome ficou. É Pinheiro Machado até hoje — embora no coração dos que lá nasceram, o lugar sempre será Cacimbinhas.

Economia e cultura — a Terra da Ovelha e os vinhos da Serra do Sudeste

Durante décadas, Pinheiro Machado foi conhecida como a Terra da Ovelha. A criação de ovinos era o carro-chefe da economia local, e a FEOVELHA — Feira e Festa Nacional da Ovelha projetou o município no cenário regional. As crises do setor reduziram o rebanho, mas a feira segue como tradição e símbolo de identidade.

A grande nova vocação de Pinheiro Machado é a vitivinicultura. A cidade integra a Serra do Sudeste — uma das regiões vinícolas mais promissoras do Brasil, que se estende entre Pinheiro Machado e Encruzilhada do Sul. Com solos graníticos, altitudes medianas, clima temperado e menor pluviosidade que a Serra Gaúcha, a região produz uvas viníferas de alta qualidade — Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir, Chardonnay, entre outras — que já rendem rótulos premiados.

A olivicultura também desponta como nova fronteira: o clima serrano favorece o cultivo de oliveiras de excelente qualidade, e Pinheiro Machado começa a se posicionar nesse mercado.

A economia do município ainda conta com a extração de pedras de revestimento — recurso que colocou o município no mapa da construção civil gaúcha e nacional — e com a produção de calcário de alta qualidade.

O que fazer em Pinheiro Machado — roteiro para o visitante

Marco dos Porongos

Monumento histórico na estrada para Torrinhas, em memória à Batalha de 14 de novembro de 1844 e aos Lanceiros Negros. Um dos pontos mais significativos da história farroupilha no RS, raramente visitado — e por isso ainda mais especial para quem valoriza o que não está na rota turística convencional.

Parque Natural Municipal

Área de preservação com trilhas, fauna e flora nativas. Ideal para quem quer caminhar, observar aves e respirar o campo sem sair da cidade.

Rio Camaquã

Um dos rios mais bonitos do sul gaúcho corta a região e oferece descidas de canoagem e caiaques, trilhas e paisagens que a câmera não consegue fazer justiça. Precisa ser visto de perto.

Gaya Park

A apenas 7 km da sede, na estrada conhecida como China Inocência, na localidade de Curral de Pedras — um refúgio de natureza, tranquilidade e contato com o campo gaúcho autêntico.

Teatro Municipal

Construído em 1938, representa a arquitetura proto-racionalista do século XX no interior gaúcho. Valor histórico e cultural que merece mais atenção.

Roteiro de vinhos da Serra do Sudeste

Os vinhedos da região de Pinheiro Machado integram um dos roteiros vitivinícolas mais interessantes e menos turísticos do Brasil. Diferente da Serra Gaúcha, aqui a experiência é mais íntima, mais do campo, mais gaúcha.

Feira do Produtor Rural

Produtos locais, contato com moradores, queijos, artesanato e a hospitalidade genuína do interior gaúcho.

A Comparsa da Canção — o festival que fez o nome de Pinheiro Machado no nativismo

Para o gaúcho apaixonado pela música nativista, Pinheiro Machado tem um capítulo especial: a Comparsa da Canção, festival nativista que colocou a cidade no calendário cultural do RS e revelou talentos que foram muito além das fronteiras municipais.

Criada para celebrar e incentivar a música regional, a Comparsa atravessou décadas com qualidade e tradição. Infelizmente, por opções do poder público, o festival deixou de acontecer nos últimos anos — uma perda real para o nativismo gaúcho que a cidade merece ver retornar.

Tu conheces Pinheiro Machado?

Se és da região ou já passaste por lá, conta nos comentários o que mais te marcou. E se tens uma história, uma memória ou uma dica de Cacimbinhas que a gente não mencionou — esse post é teu tanto quanto nosso.

Acompanha o Entrevero Xucro — toda semana, história, cultura e identidade gaúcha do jeito que o pampa merece.



quarta-feira, 15 de abril de 2026

Biografia Gaúcha - Vítor Ramil

Vitor Ramil, o pelotense que fez do frio, do pampa e da milonga uma declaração de identidade gaúcha para o mundo

Ficha Biográfica

Nascimento: 7 de abril de 1962 — Pelotas, RS

Gênero musical: Milonga, MPB, música de câmara, tango, samba

Instrumentos: Violão, voz

Obras literárias: Pequod (1995), Satolep (2008), A Primavera da Pontuação (2014)

Prêmios: Prêmio da Música Brasileira — Melhor Cantor Regional (2010); 2 indicações ao Grammy Latino (2018)

Discografia: 13 álbuns (1981–2024)

Pelotas, o frio e um menino que já nasceu com identidade

Vitor Ramil nasceu em 7 de abril de 1962 em Pelotas — cidade do extremo sul do RS, de forte tradição cultural, conhecida pela arquitetura neoclássica, pelos doces coloniais e por uma vida artística que sempre foi maior do que o tamanho da cidade sugeria.

Cresceu numa família extraordinariamente musical. Os irmãos Kleiton e Kledir já faziam carreira na música nacional. A irmã Branca se tornaria sua produtora. O filho Ian e os sobrinhos Thiago e Gutcha seguiriam o mesmo caminho. Era um ambiente onde a música era língua nativa — e Vitor a falou desde criança.

Mas há algo mais específico na formação de Vitor que explica tudo o que viria depois: ele cresceu no extremo sul do Brasil, numa cidade que olha para o Uruguai e a Argentina com a mesma naturalidade com que olha para São Paulo. Cresceu ouvindo espanhol nas ruas, sentindo o minuano nos ossos e vendo o pampa no horizonte. E um dia decidiu que isso não era limitação — era matéria-prima.

"Não estamos à margem de um centro. Estamos no centro de uma outra história." — Vitor Ramil

Vitor Ramil não é nativista — mas é profundamente gaúcho

Esta é a questão que qualquer leitor do Entrevero Xucro pode estar se perguntando: por que falar de Vitor Ramil numa série dedicada ao nativismo e à cultura gaúcha, se ele nunca gravou um disco de vanera ou chamamé, nunca competiu em festival nativista, nunca se apresentou de bombacha?

A resposta é simples: porque nenhum artista gaúcho da sua geração pensou mais fundo sobre o que significa ser gaúcho. E porque a reflexão que ele construiu ao longo de décadas mudou a forma como o RS se apresenta ao mundo.

O nativismo gaúcho tradicional — que o Entrevero Xucro celebra e respeita — parte de uma estética musical clara: a gaita, a milonga campeira, a bombacha, o chimarrão, a Semana Farroupilha. É uma tradição viva e essencial. Vitor Ramil partiu de outro lugar — da cidade, da literatura, do violão de câmara, da fronteira com o Prata — mas chegou à mesma pergunta: o que é ser gaúcho? E a resposta que encontrou é uma das mais sofisticadas e universais que a cultura do RS já produziu.

A Estética do Frio — o manifesto mais importante da cultura gaúcha contemporânea

Em 1997, Vitor lançou Ramilonga — A Estética do Frio, o disco que dividiu sua carreira em antes e depois. Mas antes de ser um disco, a Estética do Frio foi uma ideia — uma reflexão sobre identidade que Vitor foi construindo ao longo dos anos 90 e que apresentou pela primeira vez em conferência em Genebra, em 2003, depois publicada em livro bilíngue português-francês.

O argumento central é poderoso e simples: o Brasil é culturalmente dividido entre um Brasil quente e tropical — representado pela bossa nova, pelo samba, pelo carnaval, pelas praias — e um Brasil frio, do sul, que nunca foi bem representado nessa identidade nacional. O gaúcho, o pampa, a milonga, o chimarrão, o minuano, a melancolia do fim de tarde na coxilha — tudo isso ficava de fora da "brasilidade" oficial.

A Estética do Frio foi a recusa a aceitar essa marginalidade. Vitor declarou que o sul não estava à margem do centro cultural do Brasil — estava no centro de outra história. Uma história que compartilha mais com o Uruguai e a Argentina do que com o Rio de Janeiro ou São Paulo. Uma identidade que tem o frio como símbolo — não de tristeza, mas de rigor, de profundidade, de clareza, de melancolia que é beleza.

As sete cidades da milonga que Vitor inaugurou no disco dizem tudo: Rigor. Profundidade. Clareza. Concisão. Pureza. Leveza. Melancolia. São qualidades estéticas — mas também são qualidades do gaúcho que não precisa gritar para ser ouvido.

"Por meio da Estética do Frio me dei o direito de transitar pelo imaginário regional com muita liberdade." — Vitor Ramil

A milonga — o fio que conecta Ramil à tradição do pampa

A milonga é o centro de tudo na obra de Vitor Ramil. E a milonga é, antes de ser escolha estética, herança cultural gaúcha.

Assim como o gaúcho e o pampa, a milonga é comum ao Rio Grande do Sul, ao Uruguai e à Argentina — e não existe em nenhuma outra região do Brasil. É o ritmo da fronteira, da planície, do entardecer lento no campo. É o blues do sul, como dizia o compositor uruguaio Alfredo Zitarrosa.

Ao escolher a milonga como linguagem central, Vitor não estava fazendo uma opção exótica — estava voltando para casa. Estava reconhecendo que a identidade gaúcha mais profunda não começa com a bombacha nem com o galpão, mas com o ritmo que atravessa séculos e fronteiras, que aparece nos versos de Borges em Buenos Aires e nos cantos dos payadores do pampa gaúcho.

No disco Délibáb (2010), Vitor musicou poemas do argentino Jorge Luis Borges e do gaúcho João da Cunha Vargas — dois poetas do pampa, separados por uma fronteira que a milonga nunca reconheceu. O resultado ganhou o Prêmio da Música Brasileira como Melhor Cantor Regional e projetou a cultura sulina em circuitos internacionais que raramente recebiam música gaúcha.

As referências culturais gaúchas na obra de Vitor Ramil

Para quem conhece a cultura do RS, a obra de Vitor é um mapa afetivo do estado. As referências aparecem nas letras, nos títulos, nas escolhas poéticas:

O pampa como paisagem interior — Vitor cita Adolfo Bioy Casares: o pampa pode não existir geograficamente, mas é um vasto fundo em nossa paisagem interior. É exatamente assim que o pampa aparece nas suas canções — não como cenário folclórico, mas como estado de alma.

Pelotas e o sul profundo — O romance Satolep (2008) é Pelotas ao contrário — uma cidade imaginária que é um espelho da sua cidade natal. A fronteira, o Rio Grande do Sul de cidades menores e de inverno real, aparece em toda a sua obra literária.

João da Cunha Vargas — Ao musicar o poeta gaúcho de São Borja (1900–1980), Vitor fez um gesto de resgate cultural profundo. Cunha Vargas era um poeta do pampa praticamente desconhecido fora do RS — e Vitor o levou para o mundo.

A milonga de sete cidades — A música mais conhecida do disco Ramilonga mistura o linguajar gauchesco do campo com a fala coloquial urbana — um retrato de um gaúcho que não é estereótipo, mas gente real do século XX.

Campos Neutrais — O título do disco de 2017 remete ao Tratado de Santo Ildefonso (1777), que definia uma zona neutra entre Portugal e Espanha no extremo sul do Brasil — região que se tornou símbolo de fronteira, liberdade e miscigenação cultural. É o RS mais antigo e mais profundo como inspiração.

A trajetória — os discos e os livros

Sequência lógica: Ano, Álbum e Destaque

1981 - Estrela, Estrela - Estreia aos 18 anos. Gal Costa gravou a faixa-título.

1984 - A Paixão de V Segundo Ele Próprio - Experimental. 22 canções da música medieval ao carnaval.

1987 - Tango - Primeiro olhar ao universo platino.

1997 - Ramilonga — A Estética do Frio - O marco zero. As 7 cidades da milonga. A virada.

2000 - Tambong - Gravado em Buenos Aires com Pedro Aznar.

2004 - Longes  - Síntese entre Ramilonga e Tambong.

2007 - Satolep Sambatown - Com Marcos Suzano. Samba e milonga em diálogo.

2010 - Délibáb - Borges e Cunha Vargas musicados. Com Caetano Veloso.

2013 - Foi No Mês Que Vem - 32 músicas revisitadas. Milton, Ney Matogrosso, Drexler.

2017 - Campos Neutrais - 2 indicações ao Grammy Latino.

2022 - Avenida Angélica - Poemas de Angélica Freitas. Theatro Sete de Abril, Pelotas.

2024 - Mantra Concreto - Poesias de Paulo Leminski.

Obras literárias:

Pequod (1995) — novela, traduzida para o francês

A Estética do Frio — Conferência de Genebra (2004) — ensaio bilíngue

Satolep (2008) — novela

A Primavera da Pontuação (2014) — novela

O legado — um gaúcho que ensinou o mundo a ouvir o sul

Suas canções já foram gravadas por Mercedes Sosa, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Fito Páez, Jorge Drexler e Pedro Aznar. O produtor londrino John Armstrong perguntou publicamente: por que esse gênio ainda não dominou o mundo da música?

A resposta, paradoxalmente, está na própria Estética do Frio: a cultura do sul é mais funda do que larga. Não precisa de barulho para existir. O pampa não grita — ele persiste.

Vitor Ramil não é nativista no sentido formal. Mas é um dos gaúchos que mais profundamente entendeu e defendeu a identidade do seu pago — e a levou para Genebra, Buenos Aires, Montevidéu e para as plataformas digitais do mundo. Para o Entrevero Xucro, isso é tão gaúcho quanto uma roda de chimarrão num galpão de campo aberto.

"O frio não é tristeza. É rigor. É profundidade. É o gaúcho sendo ele mesmo, sem precisar de aplausos para continuar." — síntese da Estética do Frio

Conhecias a obra do Vitor Ramil?

Se não conhecias, começa pelo Ramilonga. Não é um disco para ouvir distraído — é um disco para sentar, fechar os olhos e deixar o frio do sul entrar.

E se já és fã, qual é a tua música favorita? Conta nos comentários.

Imagem: site Vitor Ramil


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domingo, 12 de abril de 2026

Erva-mate Barão também entra no futebol

Barão, de Barão de Cotegipe, fecha parceria com o Grêmio — e o chimarrão entra em campo no futebol gaúcho

Recentemente o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense anunciou uma parceria com a Barão Erva-Mate e Chás — ervateira gaúcha fundada em 1951 na cidade de Barão de Cotegipe, no Alto Uruguai. Com o acordo, a marca passa a integrar o time de parceiros oficiais do clube tricolor, unindo dois símbolos do Rio Grande do Sul: o maior clube de futebol do estado e uma das marcas de erva-mate mais tradicionais do Brasil.

A parceria chega num momento especial para a indústria ervateira gaúcha — semanas depois de outra ervateira do RS, a Baldo de Encantado, anunciar que será a fornecedora oficial de erva-mate da Seleção Argentina para a Copa do Mundo de 2026. Dois anúncios, uma mesma mensagem: a erva-mate gaúcha está conquistando o mundo do esporte.

A história da Barão — 75 anos de chimarrão no RS

A Barão Comércio e Indústria de Erva-Mate nasceu em 1951, fundada por Etelvino Picolo na cidade que leva o nome do próprio produto — Barão de Cotegipe, no noroeste do Rio Grande do Sul, região do Alto Uruguai. O fundador veio de uma família ligada à terra e ao mate, e desde o início o compromisso foi claro: honrar a tradição gaúcha do chimarrão com qualidade e respeito à erva.

A primeira erva-mate produzida por Etelvino Picolo é referência até hoje dentro da empresa — um blend que se tornou o ponto de partida para toda uma linha de produtos que, ao longo de 75 anos, cresceu para incluir ervas-mate de diferentes perfis, tererés, chás e até cápsulas compatíveis com máquinas de café expresso.

Hoje, com sede na Rua Ilma Picolo, 368, no centro de Barão de Cotegipe, a empresa se define como a marca líder em erva-mate e chás no Brasil — e os números dão razão à afirmação. São décadas de presença nas gôndolas gaúchas, brasileiras e internacionais, com exportações que levam o mate do Alto Uruguai para outros continentes.

"Desde 1951, compartilhando histórias com você." — lema da Barão Erva-Mate

Barão de Cotegipe — a cidade que nasceu para o mate

Para entender a Barão, é preciso entender Barão de Cotegipe — um município de pouco mais de 9 mil habitantes encravado na região do Alto Uruguai, onde a erva-mate nativa sempre foi parte da paisagem, da economia e da identidade das famílias.

A região é um dos polos históricos de produção de erva-mate do Rio Grande do Sul — terra onde imigrantes italianos e seus descendentes aprenderam a trabalhar a erva com um cuidado que vem de gerações. É desse território que nasce a Cambona 4 — variedade de erva-mate nativa reconhecida pelo sabor suave e pela origem controlada, uma singularidade que a Barão incorporou à sua linha premium.

Quando Etelvino Picolo fundou a empresa em 1951, estava fazendo exatamente o que aquela terra sempre soube fazer: transformar a planta do pampa em cultura, em produto, em orgulho.

Tradição encontra tradição — erva-mate e futebol gaúcho

O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense foi fundado em 15 de setembro de 1903 — um clube que atravessou mais de um século sendo símbolo de Porto Alegre, do RS e do futebol brasileiro. Tricampeão da Libertadores, campeão mundial de clubes, Tríplice Coroa em 1996 — a história tricolor é longa e repleta de conquistas.

A parceria com a Barão não é apenas um patrocínio comercial. É o encontro de duas tradições gaúchas que carregam, cada uma à sua maneira, a identidade do estado. O futebol e o chimarrão são talvez os dois rituais mais universais entre os gaúchos — presentes tanto no galpão da estância quanto nas arquibancadas da Arena.

Em 2026, ano em que o Grêmio celebra os 30 anos da Tríplice Coroa de 1996, a chegada da Barão como parceira reforça o vínculo do clube com marcas genuinamente gaúchas, num momento em que o tricolor busca reconstruir sua base de patrocinadores após o encerramento de contratos anteriores.

"O chimarrão no vestiário não é novidade. A novidade é que agora tem nome — e esse nome é gaúcho."

O mate e o futebol — uma relação mais antiga do que parece

Para qualquer torcedor gaúcho, a cena é familiar: a cuia passando de mão em mão na fila antes do jogo, a garrafa térmica no meio da torcida na arquibancada, o chimarrão no aquecimento dos jogadores nos dias frios de inverno. O mate sempre esteve no futebol gaúcho — só que informal, sem logotipo, sem contrato.

A parceria Barão + Grêmio formaliza algo que já existia na cultura. E não é a primeira vez que o futebol gaúcho e a erva-mate se encontram oficialmente: lembras da polêmica na Copa do Qatar 2022, quando os argentinos foram fotografados com a erva Canarias nas malas — produto fabricado pela Baldo, de Encantado? E do anúncio, em março de 2026, de que a Baldo seria a fornecedora oficial da Seleção Argentina para a Copa do Mundo 2026?

O chimarrão está conquistando o futebol. E o futebol está reconhecendo o chimarrão. Para o Rio Grande do Sul, isso é apenas o que deveria ter acontecido faz tempo.

Leia também: A Erva-Mate Gaúcha vai à Copa do Mundo — a história da Baldo de Encantado e a parceria com a Seleção Argentina aqui no Entrevero Xucro.

Tu és gremista e/ou toma Barão?

Conta nos comentários. E se tens uma memória do chimarrão no futebol — na arquibancada, no aquecimento, no galpão do CTG antes de assistir o jogo — divide com a gente. Porque o mate e o futebol, no RS, sempre andaram juntos. Agora é oficial.

Acompanha o Entrevero Xucro para mais cultura, tradição e identidade gaúcha — toda semana no blog e nas redes sociais.

Imagem: Instagram Grêmio 

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sábado, 11 de abril de 2026

Semana Farroupilha 2026: história, significado e como participar — o guia completo para o gaúcho de coração

O que é a Semana Farroupilha?

Todo ano, entre os dias 14 e 20 de setembro, o Rio Grande do Sul para. Não por crise, não por tragédia — para por orgulho. A Semana Farroupilha é a maior celebração da cultura gaúcha, realizada em homenagem à Revolução Farroupilha, iniciada em 20 de setembro de 1835. É quando os CTGs acendem a Chama Crioula, os piquetes se enchem de gente pilchada, o churrasco perfuma os acampamentos e a música nativista soa do Chuí ao Arroio Grande.

Mas para entender por que essa semana importa tanto, é preciso entender o que aconteceu em 1835 — e o que continuou acontecendo nos dez anos seguintes.

A Revolução Farroupilha — a guerra que virou símbolo

Em 20 de setembro de 1835, estourou no Rio Grande do Sul a maior e mais longa revolução da história do Brasil. Os farrapos — como ficaram conhecidos os revoltosos, em referência às roupas surradas dos combatentes — se levantaram contra o governo imperial, insatisfeitos com a taxação excessiva do charque gaúcho, com a falta de autonomia política e com o que consideravam descaso do Rio de Janeiro com o sul do país.

A guerra durou dez anos — de 1835 a 1845 — e atravessou todo o RS, chegando a Santa Catarina e ao Uruguai. Nesse período, os farrapos chegaram a proclamar a República Rio-Grandense (com capital em Piratini) e a República Juliana (em Laguna, SC). Foram tempos de cavalaria, de batalhas campais, de heróis que viraram lenda: Bento Gonçalves, David Canabarro, Giuseppe Garibaldi — que aqui aprendeu a lutar antes de ir unificar a Itália.

A guerra terminou com a Paz de Poncho Verde, em 1845, numa negociação que integrou o RS de volta ao Império sem punições. Mas a memória não se rendeu junto. O 20 de setembro virou data sagrada — e o espírito farroupilha virou identidade.

"Ser farroupilha não é vestir bombacha uma vez por ano. É carregar na alma o que aqueles homens carregaram nas costas."

A Semana Farroupilha — como surgiu a celebração

O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), fundado em 1947, foi o grande responsável por transformar a memória farroupilha em celebração organizada. Ao longo das décadas, os CTGs — Centros de Tradições Gaúchas, espalhados pelo Brasil e pelo mundo — passaram a realizar anualmente os Festejos Farroupilhas, culminando no 20 de setembro com desfiles, apresentações de danças, música nativista, culinária típica e o ritual da Chama Crioula.

Hoje são mais de 1.700 CTGs no RS e cerca de 2.500 piquetes ativos durante os festejos. O Acampamento Farroupilha de Porto Alegre, realizado no Parque Harmonia, é o maior evento do calendário — com semanas de programação, shows, rodeios e uma cidade paralela que cresce na beira do Guaíba.

2026: o tema e a patrona

A Semana Farroupilha de 2026 tem um tema que une dois marcos históricos em um só ano:

"Herança Jesuítica e Guarani no Rio Grande do Sul: 400 anos de cultura e tradição"

O tema celebra os 400 Anos das Missões Jesuítico-Guaranis — o mesmo que moveu o Canto Missioneiro em Santo Ângelo em março, que iluminou a homenagem a Cenair Maicá, que dá cor a tantos eventos do ano. Em 2026, o RS olha para suas raízes mais profundas — antes do gaúcho da campanha, antes da imigração europeia — e reconhece o guarani como parte fundamental da identidade do estado.

A patrona escolhida é Marianita Ortaça — psicóloga, professora universitária, cantora e embaixadora dos 400 Anos das Missões. Filha do compositor Pedro Ortaça, um dos Quatro Troncos Missioneiros, ela representa exatamente essa ponte entre o tradicionalismo gaúcho e as raízes indígenas que o antecederam.

"Marianita representa a história viva guarani, a história dos povos originários e a história tradicionalista." — Denise Gress, presidente da Comissão Organizadora dos Festejos Farroupilhas 2026

O que acontece durante a Semana Farroupilha

Os Festejos Farroupilhas são muito mais do que uma semana — são um universo de rituais e atividades que começam antes e terminam depois do 20 de setembro. Veja os principais momentos:

A Centelha Crioula

Tudo começa com a Centelha — a chama simbólica acesa em Caxias do Sul e distribuída para os CTGs de todo o RS por grupos de cavaleiros. É um ritual de origem e pertencimento: a mesma chama que aquece o fogão de cada entidade vem da mesma fonte.

Os Piquetes e Acampamentos

Cada CTG monta seu piquete — um espaço coberto, decorado com bandeiras, pelegos e artesanato gaúcho — onde os associados se reúnem durante os dias dos festejos. No Acampamento Farroupilha de Porto Alegre, centenas de piquetes ocupam o Parque Harmonia do início de setembro até o dia 20.

As Cavalgadas

Grupos de cavaleiros percorrem quilômetros a cavalo carregando a Chama Crioula pelos municípios do estado — um dos rituais mais visuais e emocionantes dos festejos.

Os Desfiles

No dia 20 de setembro, cidades por todo o RS realizam desfiles com invernadas artísticas, cavaleiros e cavaleiras pilchados, bandas de música e carros alegóricos. O desfile de Porto Alegre é o maior do estado.

A Música Nativista

Shows de artistas gaúchos animam os acampamentos durante toda a semana — de grupos tradicionalistas a nomes consagrados do nativismo.

A Culinária

Churrasco, arroz de carreteiro, entrevero, pinhão assado, chimarrão. A gastronomia gaúcha é personagem central dos festejos — e cada piquete tem seu orgulho na hora de apresentar a mesa.

Como participar

Não precisa ser sócio de CTG para viver a Semana Farroupilha. Há espaço para todo mundo — e quanto mais gente, mais rica fica a celebração. Veja como entrar na festa:

Visite o Acampamento Farroupilha de Porto Alegre

O Parque Harmonia é aberto ao público durante os festejos. A entrada é gratuita em boa parte dos dias. É só chegar, caminhar entre os piquetes, tomar um chimarrão oferecido e deixar a cultura te envolver.

Procure o CTG ou piquete da tua cidade

Todo município do RS tem pelo menos um CTG ou entidade tradicionalista que realiza seus próprios festejos. Entra em contato, visita, participa. A porta está sempre aberta.

Pilche-se

Nada obrigatório — mas vestir a pilcha (a indumentária gaúcha tradicional) durante os festejos é uma forma bonita de participar. Homens: bombacha, camisa, lenço, chapéu e botas. Mulheres: vestido de prenda ou saia campeira. Crianças: versão mirim de tudo isso.

Participa das atividades culturais

Apresentações de danças, concursos de poesia, palestras sobre história gaúcha, exposições — os festejos são também um grande festival cultural. Consulta a programação do teu município.

Levar as crianças

A Semana Farroupilha é uma das melhores oportunidades para apresentar a cultura gaúcha às novas gerações. A experiência de ver cavalos, ouvir música ao vivo e participar dos rituais fica gravada na memória para sempre.

"A Semana Farroupilha não é um museu da tradição. É a tradição viva — se transformando, crescendo, incluindo gente nova todo ano."

Principais eventos em 2026

Os Festejos Farroupilhas 2026 acontecem de 14 a 20 de setembro. Os principais eventos a acompanhar:

Acampamento Farroupilha de Porto Alegre — Parque Harmonia, Porto Alegre (a partir de 1º de setembro)

Desfile do 20 de setembro — em Porto Alegre e em centenas de municípios gaúchos

Semanas Farroupilhas municipais — cada cidade tem sua própria programação, que pode começar antes e terminar depois do 20

Festivais nativistas de setembro — vários festivais de música se integram à programação dos festejos

As programações detalhadas são divulgadas pelos CTGs e prefeituras municipais a partir de agosto. Acompanha o @entreveroxucro para não perder nenhuma novidade.

Vai participar da Semana Farroupilha este ano?

Conta nos comentários de qual cidade és e como costumas celebrar o 20 de setembro. E se é a primeira vez que vai participar dos festejos, conta isso também — adoramos saber quando alguém descobre essa tradição pela primeira vez.

Acompanha o Entrevero Xucro — toda semana, história, cultura e identidade gaúcha do jeito que o pampa merece.

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