Mostrando postagens com marcador MTG. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MTG. Mostrar todas as postagens

sábado, 23 de maio de 2026

Por que os jovens estão saindo dos Gestão Crioula. CTGs — e o que fazer pra mudar isso

 Esse é um assunto que dói. Mas precisa ser dito.

Entra num CTG numa sexta à noite. Olha em volta. Conta mentalmente as faixas etárias.

Na maioria das entidades que conheço, a conta é mais ou menos essa: muita gente entre 40 e 70 anos, alguns entre 30 e 40, e uma faixa de 15 a 25 que aparece pra ensaiar na invernada — mas que raramente vira sócio de verdade, raramente assume cargo, raramente se sente dono do espaço.

E quando a invernada termina a temporada de competição, parte dessa gurizada simplesmente some.

Não é por falta de amor à tradição. A maioria cresceu no galpão, foi criança no CTG, aprendeu a dançar ali. O problema é outro.

O que os jovens dizem quando saem

Quando alguém se dá ao trabalho de perguntar — e poucos CTGs perguntam — as respostas que aparecem são sempre parecidas:

"Não me sinto parte das decisões."

"As reuniões são longas e nada muda."

"Parece que o espaço é dos mais velhos."

"Quando eu sugeria algo, a resposta era sempre 'aqui sempre foi assim'."

"Não tem nada pensado pra minha faixa etária fora dos ensaios."

Repara: nenhuma dessas respostas fala que a tradição é chata, que o CTG não presta, que a cultura gaúcha não tem valor. O jovem não está rejeitando a identidade gaúcha. Ele está rejeitando uma estrutura que não abre espaço pra ele.

E aí está a distinção que muda tudo.

O problema é de gestão, não de geração

É muito fácil — e muito confortável — dizer que "a juventude de hoje não tem mais interesse pela tradição" ou que "o celular matou a cultura gaúcha".

Mas os CTGs que têm invernadas cheias, que renovam diretoria com sangue novo, que atraem famílias jovens — esses CTGs existem. Não são maioria, mas existem.

O que eles fazem de diferente?

Quase sempre a resposta é gestão. Não magia, não sorte, não localização privilegiada. Escolhas concretas de como o CTG é administrado.

Os 4 erros que afastam os jovens

1. Não ter nada pensado para eles fora da invernada

A invernada é a porta de entrada. O jovem entra aos 10, 12, 15 anos pra dançar. Aprende, se desenvolve, compete. Isso é lindo.

Mas quando ele para de competir — por idade, por trabalho, por faculdade — o que o CTG oferece pra esse jovem adulto de 22, 25 anos?

Na maioria dos CTGs: nada. Não há programação, não há espaço, não há função.

O galpão que foi tão importante na infância vira um lugar que "não é mais pra mim".

2. Não envolver os jovens nas decisões

Diretoria formada por pessoas acima dos 50 anos. Reuniões onde os mais novos ficam quietos porque "não têm experiência". Sugestões de modernização — comunicação digital, formas de pagamento, programação — vetadas sem discussão.

O jovem que se sente invisível nas decisões não vira sócio engajado. Vira frequentador eventual, quando muito.

3. Falar só pra quem já está dentro

A comunicação da maioria dos CTGs é voltada pra quem já frequenta. O Instagram posta foto do evento de sábado — mas quem não foi, não entende o contexto, não se sente convidado a ir na próxima.

Jovem que não cresceu no CTG não tem motivo pra entrar se nada comunica pra ele. E jovem que cresceu no CTG mas se afastou também não recebe nenhum sinal de que seria bem-vindo de volta.

4. Não ter programa de sócio jovem com valor percebido

"Por que eu vou pagar mensalidade se não uso o espaço o mês todo?"

Essa é a pergunta que o jovem faz — e que poucos CTGs sabem responder. A mensalidade precisa ter contrapartida clara: acesso a eventos, desconto no ingresso, espaço pra uso, atividades exclusivas.

Quando o sócio jovem não enxerga o que está pagando, ele cancela. Simples assim.

O que os CTGs que acertam fazem diferente

Não é necessário reinventar a tradição. É necessário reinventar a gestão de quem participa dela.

Criam um departamento jovem com autonomia real. Não é um grupo decorativo que pede autorização pra tudo. É um espaço onde os jovens de 18 a 35 anos organizam atividades, gerem orçamento próprio e respondem pelos resultados.

Reservam cadeiras na diretoria para pessoas jovens. Formalmente, no estatuto. Não como gesto simbólico — como obrigação institucional.

Criam programação além dos ensaios. Encontros de chimarrão, noites de cinema gaúcho, saraus nativistas, grupos de caminhada a cavalo, torneios esportivos. Atividades que têm a identidade gaúcha mas cabem na rotina de quem tem 25 anos.

Comunicam para fora, não só para dentro. Instagram com conteúdo que educa sobre a tradição, que convida, que mostra que o CTG é um espaço vivo e acolhedor pra qualquer gaúcho — não só pra quem já conhece.

Criam planos de sócio com benefícios tangíveis. Desconto progressivo em eventos, acesso ao espaço para confraternizações, participação em decisões — coisas concretas que justificam a mensalidade.

Uma conversa difícil que precisa acontecer

Existe um padrão que vejo se repetir nos CTGs que perdem jovens: a liderança mais antiga, inconscientemente, protege o espaço do jeito que sempre foi.

Não é maldade. É amor pela tradição. Mas amor pela tradição não pode ser confundido com resistência a qualquer mudança de forma.

O gaúcho do século XIX que fundou os primeiros CTGs não estava preservando uma forma — estava preservando uma identidade. E identidade se manifesta de formas diferentes em cada geração.

O chimarrão continua. A bombacha continua. A música, a dança, o respeito pela terra e pelo pago — tudo isso continua. Mas a reunião de diretoria pode ser mais ágil. A comunicação pode ser digital. O jovem pode ter voz.

Isso não é trair a tradição. É garantir que ela chegue às próximas gerações.

Por onde começar

Não precisa reformular tudo de uma vez. Começa com uma pergunta simples na próxima reunião de diretoria:

"O que nós faríamos diferente se quiséssemos que um jovem de 22 anos virasse sócio ativo do nosso CTG?"

Deixa a pergunta no ar. Ouve as respostas. Anota.

Depois pega as três respostas mais práticas e transforma em ação com prazo e responsável.

Não precisa de consultoria, de dinheiro, de reforma no galpão. Precisa de vontade de olhar pra frente com o mesmo amor que se olha pro passado.

Uma pergunta pra ti

Quando foi a última vez que o teu CTG perguntou pra um jovem por que ele parou de aparecer?

Se nunca aconteceu — talvez essa seja a primeira mudança a fazer.

Compartilha esse post com quem cuida da invernada ou do departamento jovem do teu CTG. Essa conversa precisa acontecer no galpão, não só na internet.

Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.

55ª Ciranda Cultural de Prendas - Uma tradição acesa em Erechim: o que é e o que acontece

O Rio Grande volta os olhos neste fim de semana para a capital da amizade. A querida cidade de Erechim recebe, entre os dias 21 e 23 de maio, a 55ª edição da Ciranda Cultural de Prendas, um dos eventos mais importantes do calendário do tradicionalismo gaúcho. Mais do que um concurso, a Ciranda é um encontro de cultura, conhecimento, arte, emoção e identidade do nosso povo campeiro.

Pra quem é de fora do meio tradicionalista, talvez fique a dúvida: afinal, o que é a Ciranda Cultural de Prendas?

A Ciranda é o evento promovido pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho que escolhe as prendas estaduais do Rio Grande do Sul. Participam representantes das 30 Regiões Tradicionalistas do Estado, divididas em categorias mirim, juvenil e adulta. Durante dias intensos, essas gurias passam por provas culturais, artísticas e tradicionalistas que avaliam muito mais do que beleza ou postura. O que está em jogo é o conhecimento da história gaúcha, da cultura regional, da arte, do folclore, da oralidade, da dança, da música, da indumentária e do sentimento de pertencimento ao Rio Grande.

É uma verdadeira celebração da identidade gaúcha.

Muito além da faixa e da flor no cabelo

Quem vê uma prenda pilchada muitas vezes não imagina a caminhada que existe por trás daquela faixa. Cada concorrente chega à etapa estadual depois de vencer concursos internos em entidades e regiões tradicionalistas. É uma preparação de meses — às vezes anos — estudando cultura gaúcha, história do Estado, folclore, MTG, costumes do campo, culinária, música e literatura regional.

Na Ciranda, acontecem: provas escritas, apresentações artísticas, declamação, interpretação de temas culturais, avaliações de comunicação, integração entre regiões, atividades culturais e protocolares e momentos de confraternização tradicionalista.

E tudo isso mantendo viva a essência do tradicionalismo: transmitir cultura de geração em geração.

Erechim vivendo a “Ciranda dos Sonhos”

A edição deste ano vem sendo chamada de “Ciranda dos Sonhos 2026”. A cidade de Erechim se preparou durante meses para receber milhares de tradicionalistas vindos de todas as querências do Estado. A expectativa é de mais de 2 mil pessoas circulando pelo município durante os três dias de programação.

A realização envolve o Movimento Tradicionalista Gaúcho, a Fundação Cultural Gaúcha, a 19ª Região Tradicionalista e o CTG Sentinela da Querência, além do apoio da Prefeitura Municipal de Erechim e da Secretaria Estadual da Cultura.

Um dos grandes símbolos desta edição é a atual 1ª Prenda do Rio Grande do Sul, Laura Laís Durli, justamente ligada à 19ª Região Tradicionalista, anfitriã do evento.

O coração cultural do tradicionalismo

Enquanto muita gente conhece o tradicionalismo pelos rodeios, gineteadas e fandangos, a Ciranda representa outro lado igualmente importante da cultura gaúcha: o lado intelectual e artístico do movimento.

É ali que se preservam: a pesquisa histórica, a valorização do linguajar gaúcho, o incentivo à leitura e à declamação, o ensino das tradições às novas gerações e o fortalecimento do papel da mulher dentro do tradicionalismo.

A Ciranda mostra que ser prenda vai muito além da pilcha bonita. É carregar conhecimento, postura, responsabilidade cultural e amor pelo Rio Grande.

Um evento que emociona quem vive a tradição

Quem já participou sabe: a Ciranda mistura nervosismo, amizade, orgulho e emoção. Tem abraço de família, lágrima escondida no lenço, nervosismo antes das provas e aplauso sincero entre concorrentes. Porque acima da disputa existe algo maior: a preservação da cultura gaúcha.

Cada prenda que sobe ao palco leva junto sua entidade, sua região e sua história.

E quando a chama crioula da cultura passa de uma geração pra outra, o Rio Grande segue vivo.

O Rio Grande se encontra em Erechim

Neste fim de semana, Erechim não recebe apenas um evento. Recebe o encontro de sotaques, costumes e querências de todo o Estado. Da campanha à serra, das missões ao litoral, o Rio Grande se reúne em torno daquilo que tem de mais valioso: sua identidade cultural.

A 55ª Ciranda Cultural de Prendas reafirma que tradição não é viver no passado. É manter viva a memória do povo enquanto se prepara o futuro.

E enquanto houver uma prenda estudando nossas raízes, declamando nossa poesia e defendendo a cultura do pago, o Rio Grande seguirá firme — de pé, de bota e de alma crioula.

Fonte: MTG e Prefeitura de Erechim 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Dicionário Gaudério: PILCHA

PILCHA - a elegância do gaúcho — quando a roupa é mais do que roupa, é identidade.

O que significa PILCHA?

Substantivo feminino. No universo gaúcho, pilcha é a indumentária tradicional — o conjunto de roupas e acessórios que compõem o traje do gaúcho e da prenda. Mas chamar a pilcha apenas de "roupa típica" é diminuir demais o que ela representa. A pilcha é identidade vestida. É a declaração de que quem a usa pertence a uma cultura, carrega uma história e respeita uma tradição.

Pilchar-se — o ato de vestir a pilcha — não é uma obrigação. É uma escolha. E quem faz essa escolha está dizendo, sem precisar de palavras: sou gaúcho, e tenho orgulho disso.

A origem da palavra

A palavra vem do espanhol platino pilcha — termo usado no Uruguai e na Argentina para designar objetos pessoais de pouco valor, trapos, bugigangas. No pampa gaúcho, a palavra chegou pela fronteira viva com o Prata e, como aconteceu com tantos outros termos, ganhou um significado completamente diferente — e muito mais nobre. O que era trapo virou traje. O que era descarte virou patrimônio.

A inversão de sentido é, ela mesma, uma metáfora da cultura gaúcha: pegar o que o mundo jogou fora e transformar em orgulho.

A pilcha do gaúcho — peça por peça

A indumentária gaúcha masculina tradicional é composta por:

Bombacha: a calça larga de tecido resistente, franzida nos tornozelos — símbolo máximo do traje gaúcho. Surgiu no século XIX como adaptação da calça árabe trazida pelos imigrantes do Oriente Médio que chegaram à América do Sul, e foi adotada pelos gaúchos pela praticidade no campo.

Camisa: geralmente de tecido leve, em cores sóbrias ou com bordados discretos.

Lenço: usado no pescoço, dobrado em triângulo. As cores têm significados que variam por região e CTG — vermelho, azul, branco, preto, cada um com sua simbologia.

Guaiaca ou cinto: a cinta de couro que guarda a faca e os pertences do gaúcho. A guaiaca é o cinto largo, trabalhado, frequentemente com enfeites de prata.

Faca e bainha: a faca gaúcha é ferramenta, não arma. A bainha trabalhada é parte da pilcha — objeto de arte e identidade.

Botas: de couro, com ou sem salto, com ou sem esporas. As esporas são usadas pelos campeiros e pelos que participam das atividades equestres.

Chapéu: de feltro, aba larga, cor preta ou marrom. O ângulo da aba varia conforme a região do estado.

Poncho ou pelego: para o frio. O poncho gaúcho é a peça mais versátil da pilcha — cobertor, capa de chuva, assento e travesseiro quando necessário.

A indumentária feminina — a prenda — tem sua própria riqueza: vestido rodado de chita ou renda, avental bordado, lenço de seda no cabelo, sapatilhas ou botinhas. Cada detalhe obedece ao regulamento do MTG e tem significado cultural próprio.

A pilcha e o MTG — quando a tradição vira norma

O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) regulamenta a indumentária gaúcha com precisão — cores, tecidos, comprimentos, acessórios permitidos. Há quem critique o excesso de normatização. Mas há um argumento forte do outro lado: sem padronização mínima, a pilcha se dilui, se comercializa, perde o que a torna especial.

O debate é saudável. E o que importa é que, regulamentada ou não, a pilcha continua sendo escolhida — por jovens, por adultos, por crianças. Porque a identidade gaúcha, quando bem apresentada, não precisa de obrigação para continuar viva.

Como se usa no dia a dia

Elogio: Que pilcha mais bonita! Esse lenço combinou perfeito com a bombacha.

Identidade: Nos festejos, a gente se pilcha do melhor — é respeito pela tradição.

Versatilidade: Pode ser pilcha completa ou só a bombacha e o lenço. Já é suficiente pra mostrar de onde és.

Orgulho: Meu pai me ensinou a me pilchar antes de me ensinar a montar a cavalo.

Pilcha na música nativista

A pilcha atravessa o cancioneiro gaúcho como símbolo de pertencimento. Das vaneras aos festivais nativistas, a indumentária aparece em letras que celebram o gaúcho que não tem vergonha de mostrar de onde vem — nem nas cidades grandes, nem no exterior.

O gaúcho pilchado em São Paulo, em Buenos Aires, em Lisboa — é sempre uma declaração. Uma âncora cultural que diz: de onde eu vim não é lugar que se abandona.

Palavras da mesma família

Pilchar-se: o verbo — o ato de vestir a pilcha. Já te pilchaste para o desfile?

Pilchado(a): quem está com a indumentária gaúcha. Chegou todo pilchado ao acampamento.

Despilchar: tirar a pilcha. Depois do desfile, despilchou e foi trabalhar.

Pilcharia: conjunto de pilchas, ou loja que as vende.

A tua pilcha tem história?

Conta nos comentários. Muitos gaúchos têm uma pilcha herdada — do pai, do avô, da avó. Uma bombacha guardada num baú, um lenço que viajou pelo mundo. Essas histórias merecem ser contadas.

E se conheces outra palavra gaúcha que merece entrar no Dicionário Gaudério, deixa a sugestão — este dicionário é construído junto.

📌 Palavras-chave: pilcha gaúcha, indumentária gaúcha, bombacha, lenço gaúcho, traje gaúcho, MTG, cultura gaúcha, tradição gaúcha, Semana Farroupilha, identidade gaúcha, Rio Grande do Sul

📂 Série: Dicionário Gaudério | Entrevero Xucro | entreveroxucro.blogspot.com

Quer comprar uma bombacha, clica AQUI e veja o que tem de botas na Amazon

sábado, 25 de abril de 2026

Gestão Crioula - O erro que faz CTG trabalhar o ano todo e terminar no prejuízo

Com o chimarrão na mão. Vamos falar de um assunto que muita gente prefere evitar.

A boia foi de fundamento. O salão lotou. A invernada se apresentou, o pessoal dançou até tarde, todo mundo saiu falando bem. O Patrão dormiu feliz.

Aí chegou a segunda-feira. O tesoureiro sentou com as notas fiscais, o caderno de controle e a planilha — ou o bloco de anotações, dependendo do CTG. E ali, na frieza dos números, apareceu a realidade: o evento deu prejuízo. Ou, na melhor das hipóteses, sobrou tão pouco que não valeu o trabalho de um mês inteiro de organização.

Isso acontece em CTGs de todos os tamanhos. E quase sempre pelo mesmo motivo. O erro mais comum: precificar por sentimento, por achismo, pelo sempre foi assim.

Quando chega a hora de definir o valor do ingresso ou da mesa de jantar, a conversa na diretoria costuma ser mais ou menos assim:

"Quanto a gente cobra?"

"O CTG tal cobrou 80 reais no ano passado..."

"Então vamos cobrar 90, pra parecer que melhorou."

"Mas se cobrar muito caro, o pessoal não vem."

"Então 80 mesmo."

Decisão tomada. Sem saber o custo real do evento. Sem saber quantas pessoas precisam comparecer pra cobrir as despesas. Sem saber qual é o ponto de equilíbrio. É precificação por sentimento — e ela é a principal razão pela qual CTGs trabalham meses e terminam no vermelho.

O que a maioria dos CTGs não calcula

Quando a diretoria pensa nos custos de um evento, normalmente lembra dos itens mais visíveis: o churrasco, a bebida, a música. Mas existe uma lista de custos que frequentemente fica de fora da conta. Custos diretos que todo mundo lembra: Alimentos e bebidas, Banda ou DJ, Decoração

Custos diretos que frequentemente esquecem: Gás e carvão, Descartáveis e guardanapos, Segurança (porteiro, vigilante), Impressão de ingressos e banners, Transporte de materiais, Taxa do sistema de cobrança (Pix tem custo? Depende da conta).

Custos indiretos que quase nunca entram na conta: Energia elétrica do evento, Desgaste de equipamentos (fogão, freezer, caixas de som), Horas de trabalho dos voluntários que saíram do bolso próprio pra comprar algo, Limpeza pós-evento, Eventual manutenção de algo que quebrou durante o evento e o maior esquecido de todos: A parcela do aluguel ou IPTU do mês — o espaço tem custo fixo que precisa ser coberto.

Quando tu somas tudo isso, o custo real do evento é quase sempre 30% a 40% maior do que o número que aparecia na cabeça da diretoria na hora de definir o preço.

Ponto de equilíbrio: é o número que todo Patrão precisa saber e é simples: é a quantidade mínima de ingressos que precisa ser vendida para que o evento não dê prejuízo.

A fórmula é direta: Ponto de equilíbrio = Custo total do evento ÷ Valor do ingresso

Exemplo prático: Custo total real do jantar: R$ 8.000. Valor do ingresso: R$ 80. Ponto de equilíbrio: 100 pessoas

Isso significa que as primeiras 100 entradas vendidas só pagam as contas. A partir da 101ª pessoa é que começa a sobrar dinheiro pro CTG. Se o salão comporta 150 pessoas e tu vendeste 110 — parabéns, o evento foi bem. Mas se vendeste 85, o CTG saiu no prejuízo mesmo com o salão "cheio".

Saber esse número antes do evento muda completamente a tomada de decisão. Tu podes ajustar o preço, reduzir custos, criar um ingresso antecipado com desconto pra garantir o mínimo — ou até decidir não fazer o evento se a conta não fechar.

O problema do ingresso antecipado mal gerido

Ingresso antecipado é uma ferramenta poderosa — quando bem usado. Mas em muitos CTGs ele vira um problema. O que acontece na prática: os sócios mais próximos compram antecipado com desconto. O CTG usa esse dinheiro pra pagar as despesas iniciais. Aí o evento acontece, as vendas na porta não compensam, e no final sobrou menos do que o esperado.

O ingresso antecipado precisa estar dentro da conta, não fora dela. Se tu vendes 50 ingressos a R$ 60 e 60 na porta a R$ 80, a receita total não é "60 vezes 80" — é a soma real das duas faixas.

Uma planilha simples resolve boa parte do problema

Não precisa de sistema caro, software sofisticado nem contador dedicado. Uma planilha no celular já resolve — desde que tu uses ela de verdade.

A planilha mínima de um evento de CTG tem três abas:

Aba 1 — Custos previstos: lista cada item de custo com o valor estimado, antes do evento.

Aba 2 — Receita prevista: quantos ingressos pretende vender, a que preço, em quais categorias.

Aba 3 — Resultado real: o que efetivamente foi gasto e o que entrou de receita, preenchida depois do evento.

Comparar as abas 1 e 2 antes do evento te diz se a conta fecha. Comparar com a aba 3 depois te ensina a fazer melhor no próximo.

Em três ou quatro eventos usando esse método, a diretoria começa a ter referências reais — e a precificação deixa de ser sentimento pra virar decisão.

"Mas no nosso CTG é tudo voluntário, não tem como cobrar tudo isso..."

Entendo. E respeito muito, o voluntarismo é o que mantém os CTGs de pé.

Mas existe uma diferença importante entre trabalho voluntário e prejuízo financeiro. O voluntário doa o seu tempo — e isso é lindo. Mas quando o CTG sai de um evento devendo pro fornecedor, sem dinheiro pra pagar a conta de luz do mês seguinte ou sem reserva pra manutenção do galpão, o problema não é só financeiro. É de sustentabilidade da própria entidade.

CTG que não tem saúde financeira não consegue manter a invernada, não consegue reformar o galpão, não consegue pagar a anuidade da MTG, não consegue crescer. Cuidar das contas não é desvirtuar a tradição. É garantir que ela continue existindo.

Por onde começar na semana que vem

Se tens um evento nos próximos meses, faz isso antes de definir qualquer preço:

1. Senta com o tesoureiro e lista todos os custos do último evento similar — os que lembrarem e os que acharem nos recibos

2. Adiciona 30% a essa lista pra cobrir o que esquecerem

3. Divide pelo número realista de participantes esperados

4. O número que aparecer é o custo por pessoa — e o ingresso precisa ser maior do que isso

Simples assim pra começar. Depois vai refinando.

Uma pergunta pra ti:

No último evento do teu CTG — tu sabias, antes de começar, qual era o ponto de equilíbrio?

Se a resposta foi não, compartilha esse post com o tesoureiro. Pode ser a conversa mais importante que vocês vão ter essa semana.

Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.

sábado, 21 de março de 2026

Gestão Crioula - Por que o estatuto do teu CTG pode estar te prejudicando sem tu saber

Puxa o mate e vem comigo nessa charla.

Tu chegas no galpão, a invernada está ensaiando, o cheiro de churrasco já tomou conta do ar, o salão está cheio de gente boa. O CTG está vivo. Está de pé. Está cumprindo seu papel.

Mas lá na gaveta — ou numa pasta empoeirada no armário da secretaria — tem um documento que ninguém abre há anos. Um documento que pode estar, silenciosamente, colocando tudo isso em risco.

O estatuto social do teu CTG.

O que é o estatuto e por que ele importa tanto?

O estatuto é a lei interna do CTG. É ele que define quem manda, como se decide, quem pode ser sócio, como se faz uma eleição, o que acontece com o patrimônio se a entidade fechar.

Sem um estatuto atualizado e bem feito, o CTG fica vulnerável. Não de um jeito visível, como uma goteira no telhado. De um jeito silencioso — que só aparece quando a crise já chegou.

E aí já é tarde.

Os sinais de que o estatuto do teu CTG está desatualizado

Responde com honestidade: Quando foi a última vez que o estatuto foi atualizado e registrado em cartório?

Se a resposta for "mais de 5 anos atrás" — ou pior, "não sei" — é quase certo que tem coisa errada ali.

Veja os problemas mais comuns que encontro nos CTGs da nossa região:

1. O Patrão não tem prazo de mandato definido

É mais comum do que parece. O estatuto diz algo vago como "o Patrão exercerá o cargo enquanto contar com a confiança da assembleia" — sem prazo fixo, sem regra clara de renovação.

O resultado? O CTG vira refém de uma pessoa. Quando ela vai embora — por doença, desentendimento ou cansaço — ninguém sabe como assumir. A entidade trava.

2. O Conselho Fiscal não existe ou não tem função definida

O Conselho Fiscal é o órgão que fiscaliza as finanças do CTG de forma independente da diretoria. É obrigatório por lei para associações.

Mas em muitos estatutos, ele aparece apenas no papel — sem composição definida, sem prazo de reunião, sem obrigação de emitir parecer. Na prática, não existe.

Isso significa que ninguém fiscaliza as contas de forma independente. Qualquer desvio, intencional ou não, pode passar despercebido por anos.

3. As regras de assembleia não cabem mais na realidade

Estatutos antigos exigem convocação por edital no jornal local, reunião presencial com quórum de dois terços dos sócios, votação apenas por voto físico. Tenta reunir dois terços dos sócios de um CTG grande numa quinta-feira à noite. Boa sorte.

O resultado prático: assembleias que não atingem quórum, decisões tomadas informalmente, aprovações que não têm validade jurídica.

4. Nenhuma menção à LGPD

A Lei Geral de Proteção de Dados existe desde 2020. Todo CTG que coleta nome, CPF, endereço e dados de sócios está obrigado a cumpri-la.

Um estatuto de 2012 obviamente não menciona isso. E aí o CTG opera em irregularidade sem saber — com risco de multa e de processos por parte de sócios.

5. A cláusula de dissolução está errada ou ausente

A lei exige que o estatuto defina o que acontece com o patrimônio do CTG em caso de dissolução. Muitos estatutos antigos não têm isso — ou têm de forma incorreta.

Isso pode inviabilizar o registro de alterações no cartório, bloquear financiamentos e até impedir que o CTG participe de editais públicos.

"Mas o nosso CTG funciona bem assim há anos..."

Eu sei. E é exatamente por isso que o problema é traiçoeiro.

O estatuto ruim não atrapalha o dia a dia. O churrasco acontece, os ensaios seguem, os eventos lotam. A vida do CTG continua.

Ele atrapalha nos momentos de crise:

Quando dois grupos disputam a direção e não há regra clara de desempate

Quando um Patrão morre ou adoece e ninguém sabe legalmente quem assume

Quando alguém questiona uma decisão financeira e não há registro formal de aprovação

Quando o CTG tenta abrir conta bancária nova e o banco exige documentos atualizados

Quando chega uma oportunidade de financiamento e a entidade está irregular

Nessas horas, o estatuto empoeirado vira um problema enorme — e às vezes irreversível.

Por onde começar

A boa notícia é que atualizar o estatuto não precisa ser um bicho de sete cabeças. Com o apoio certo, dá pra fazer em dois a três meses, de forma participativa, sem traumatizar a diretoria.

O caminho básico é:

1. Localizar o estatuto atual e verificar a data do último registro em cartório

2. Comparar com a legislação vigente — especialmente o Código Civil (artigos 53 a 61) e as resoluções da MTG

3. Identificar os pontos que precisam de atualização

4. Elaborar a minuta do novo estatuto com apoio jurídico

5. Convocar Assembleia Geral Extraordinária para aprovação

6. Registrar em cartório

Simples na teoria — mas é onde a maioria dos CTGs trava, porque ninguém na diretoria tem tempo, conhecimento ou energia pra conduzir esse processo sozinho.

Uma pergunta pra ti

Quando foi a última vez que alguém da tua diretoria abriu o estatuto do CTG pra ler?

Se a resposta te deixou desconfortável, é um bom sinal. Significa que tu já sabes por onde começar.

Nos próximos meses vou trazer mais conteúdo sobre gestão prática para CTGs — finanças, eventos, captação de sócios — sempre com respeito pela tradição e pela realidade de quem vive o galpão de dentro.

Se esse assunto mexeu contigo, compartilha com o Patrão ou o Capataz do teu CTG. Pode ser que eles precisem ler isso hoje.


Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.