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terça-feira, 28 de julho de 2026

Gestão Crioula - Mensalidade de sócio: como cobrar, controlar e reduzir a inadimplência no teu CTG

Chimarrão na mão. Hoje o assunto é aquele que ninguém gosta de tocar — mas todo tesoureiro conhece bem.

Tem um número que a maioria dos CTGs nunca calcula com clareza. Um número que, se fosse calculado, mudaria bastante a forma como a diretoria toma decisões.

É a receita real de mensalidades.

Não o que deveria entrar se todos os sócios pagassem. O que efetivamente entra todo mês.

Em muitos CTGs que conheço, a diferença entre esses dois números chega a 40%, 50%, às vezes mais. Metade dos sócios em dia, metade inadimplente — e a diretoria planejando eventos e despesas como se a receita fosse a lista completa.

Aí o mês fecha no vermelho e ninguém entende por quê.

Por que a inadimplência cresce e ninguém percebe

A inadimplência em CTG raramente começa com má vontade. Começa com descuido — do sócio e da entidade.

O sócio esquece de pagar num mês. Ninguém cobra. Passa o segundo mês. Ainda ninguém cobra. No terceiro mês, o sócio já deve três mensalidades e começa a evitar o CTG por vergonha — ou porque sabe que deve e não quer ser confrontado.

E aí acontece algo sutil: esse sócio para de aparecer. Para de participar. Para de pertencer.

Do lado da diretoria, o processo é parecido. No começo, ninguém quer cobrar porque "fulano é amigo de longa data". Depois, a dívida já cresceu tanto que cobrar parece agressivo. E no final, o nome do sócio continua na lista — mas ele não existe mais na prática.

O CTG perde o sócio e perde a receita. Os dois ao mesmo tempo.

O primeiro passo: saber exatamente quem deve o quê

Parece óbvio. Mas é surpreendente a quantidade de CTGs que não tem esse controle.

Não basta ter uma lista de sócios. É preciso ter uma lista de sócios com situação financeira atualizada — mês a mês, por categoria, com valor devido e data do último pagamento.

Sem esse mapa, a diretoria está gerindo no escuro. Cobra quem está na frente, ignora quem está quieto, e no fim do ano descobre que tem um passivo de inadimplência que ninguém sabia que existia.

A boa notícia: não precisa de sistema caro. Uma planilha bem feita resolve. O que precisa mesmo é de alguém responsável por mantê-la atualizada — e de disciplina para não deixar acumular.

Os erros mais comuns na cobrança

Cobrar só quando lembra

Cobrança feita na base do "quando lembro" não é cobrança — é loteria. Num mês funciona, no outro não. O sócio nunca sabe o que esperar, e a diretoria nunca sabe o que vai entrar.

Cobrança precisa de calendário fixo. Mesmo dia todo mês. Mesmo processo. Sem depender da memória de ninguém.

Cobrar de forma diferente para cada sócio

Num CTG onde as regras não são claras e iguais para todos, a cobrança vira negociação individual. Um sócio paga em dia, outro pede prazo, outro simplesmente ignora — e a diretoria trata cada caso de um jeito diferente.

Isso gera injustiça percebida. Quem paga em dia começa a achar que está pagando pelos outros — e tem razão.

Não ter política clara de suspensão

O que acontece com o sócio que não paga por três meses? E por seis? E por um ano?

Se a resposta for "depende" ou "a gente vai vendo", o problema vai crescer. Precisa ter regra — escrita, aprovada, comunicada a todos os sócios. E precisa ser aplicada de forma consistente, sem exceção baseada em quem é amigo de quem.

Ter vergonha de cobrar

Esse é o mais humano de todos os erros — e o mais prejudicial.

O ambiente do CTG é de amizade, de compadrio, de relação pessoal. Cobrar dinheiro de amigo parece deselegante. Parece que vai estragar a relação.

Mas pensa do outro lado: quando o CTG não tem receita suficiente pra pagar a conta de luz, pra manter o espaço, pra oferecer uma programação decente — quem perde é a peonada toda. Inclusive o sócio inadimplente.

Cobrar mensalidade não é cobrar favor. É garantir que o CTG continue existindo.

O que funciona na prática

Automatizar o lembrete, não a vergonha

O melhor lembrete de mensalidade não é o tesoureiro ligando constrangido. É uma mensagem automática, no começo do mês, com o valor e a forma de pagamento — antes que a dívida comece.

WhatsApp funciona bem pra isso. Uma mensagem padrão, enviada no dia 1º pra todos os sócios ativos, com QR Code do Pix. Simples, sem drama, sem exceção.

Quem paga na hora, ótimo. Quem não paga em 10 dias recebe um lembrete. Quem não paga em 20 dias entra no fluxo de cobrança formal.

Criar categorias de sócio com valores justos

Mensalidade única pra todo mundo raramente é justa. O sócio ativo que usa o espaço toda semana e o sócio que foi uma vez no ano passado têm relações muito diferentes com o CTG.

Categorias possíveis: sócio pleno, sócio jovem, sócio familiar, sócio remoto. Cada um com valor proporcional ao que recebe.

Quem paga menos porque tem menos benefício também tem mais razão pra manter o pagamento em dia. E quem paga mais tem mais razão pra exigir mais do CTG — o que é saudável.

Oferecer desconto pra pagamento anual

Doze mensalidades de R$ 60 dão R$ 720 por ano. Oferece a anuidade por R$ 650 — ou R$ 600 pra quem paga até março.

O CTG recebe o dinheiro de uma vez, melhora o fluxo de caixa e reduz o trabalho de cobrança mensal. O sócio sente que fez um bom negócio. Todo mundo ganha.

Criar benefícios visíveis pra quem está em dia

O sócio inadimplente muitas vezes não percebe que está perdendo nada — porque o CTG não diferencia quem paga de quem não paga.

Muda isso. Desconto progressivo nos eventos pra sócio em dia. Acesso a atividades exclusivas. Prioridade na reserva do espaço. Voto nas assembleias.

Quando estar em dia tem vantagem real e visível, o pagamento vira interesse do sócio — não só obrigação.

Como tratar os casos de dívida antiga

Tem CTGs com sócios que devem dois, três anos de mensalidade. A dívida já é grande demais pra cobrar normalmente — e pequena demais pra levar a sério.

Uma forma que funciona bem: campanha de regularização anual, geralmente no início do ano ou na época da Semana Farroupilha. O sócio que quiser regularizar a situação paga um valor reduzido, sem juros ou multa — e volta pra lista de ativos.

Não é perdoar a dívida. É reconhecer que dívida velha raramente é recuperada integralmente — e que trazer o sócio de volta vale mais do que insistir num valor que nunca vai entrar.

Depois da campanha, os que não regularizaram são formalmente excluídos da lista de sócios — conforme previsto no estatuto. Sem drama, sem perseguição. A regra foi clara, o prazo foi dado, a oportunidade foi oferecida.

O número que precisa estar na cabeça da diretoria todo mês

Antes de qualquer reunião financeira, o tesoureiro deveria informar três números:

Receita potencial: o que entraria se todos os sócios ativos pagassem.

Receita real: o que efetivamente entrou no mês.

Taxa de inadimplência: a diferença entre os dois, em percentual.

Se a taxa de inadimplência está acima de 20%, é sinal de alerta. Se está acima de 30%, é emergência financeira — mesmo que o CTG pareça estar funcionando normalmente.

Esse número simples muda a conversa dentro da diretoria. Deixa de ser "tá sobrando ou faltando?" e passa a ser "qual é a saúde real da nossa receita?"

Uma pergunta pra ti

Quantos sócios o teu CTG tem no papel — e quantos efetivamente pagaram a mensalidade nos últimos três meses?

Se tu não sabes a resposta de cabeça, o tesoureiro precisa montar esse mapa essa semana.

Compartilha com a diretoria financeira do teu CTG. Esse número precisa ser discutido abertamente — sem constrangimento, sem apontar nomes, mas com clareza sobre o que ele significa pra sustentabilidade da entidade.

Confira AQUI nossos artigos sobre Gestão Crioula, como gerir seu CTG 

Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.

domingo, 28 de junho de 2026

Troca de Patrão: o momento mais perigoso para um CTG

Puxa o chimarrão. Esse assunto é sério — e pouco falado. Imagina a seguinte cena.

O Patron de um CTG passou oito anos à frente da entidade. Construiu coisas importantes, fez eventos memoráveis, manteve o galpão de pé em momentos difíceis. É uma figura respeitada, querida pela peonada.

Chega a hora da troca. A eleição acontece, o novo Patrão toma posse, tem festa, tem discurso, tem emoção.

Aí começa a semana seguinte. O novo Patrão não sabe a senha do banco. Não sabe onde estão guardados os contratos com os fornecedores. Não sabe quais contas vencem no mês seguinte. Não sabe o que ficou pendente da gestão anterior. O antigo Patrão viajou, ficou magoado com algo no processo eleitoral, ou simplesmente foi embora achando que seu trabalho estava feito.

E o CTG, que parecia tão sólido, começa a revelar suas fragilidades — uma por uma.

Isso não é exceção. É regra.

Por que a troca de Patrão é o momento mais perigoso

Um CTG pode atravessar anos de gestão mediana sem grandes consequências. As atividades seguem, os eventos acontecem, a invernada ensaia. O barco vai andando.

Mas a troca de liderança é o momento em que todas as fragilidades aparecem ao mesmo tempo.

O conhecimento que estava na cabeça do Patrão anterior vai embora com ele. Os relacionamentos que ele mantinha com fornecedores, autoridades e parceiros precisam ser reconstruídos do zero. A diretoria nova chega cheia de energia mas sem contexto. E as pendências da gestão anterior — financeiras, jurídicas, operacionais — caem no colo de quem ainda está aprendendo onde fica a chave do depósito.

É nesse momento que CTGs perdem sócios, cancelam eventos, entram em conflito interno e, nos casos mais graves, fecham as portas.

Não por falta de amor à tradição. Por falta de processo.

O que costuma se perder na troca?

Quando não existe um protocolo formal de transição, o que vai embora com o Patrão sainte é mais do que qualquer pessoa imagina:

Informações financeiras: saldo real das contas, dívidas em aberto, inadimplências de sócios, contratos com vencimento próximo, acordos informais com fornecedores.

Acesso digital: senha do banco, e-mail institucional, perfis de redes sociais, sistemas de controle de sócios, grupos de WhatsApp de lideranças.

Documentos físicos: contratos originais, escritura do imóvel, CNPJ, alvarás, livro de atas, apólices de seguro.

Relacionamentos: o nome do contador que presta serviço há dez anos mas nunca assinou contrato, o fornecedor de bebidas que dá prazo especial porque conhece o Patrão pessoalmente, o vereador que sempre ajudou com demandas da entidade.

Contexto: os projetos que estavam em andamento, as negociações que estavam acontecendo, os conflitos internos que estavam sendo gerenciados, os compromissos assumidos em nome do CTG.

Tudo isso some — ou fica fragmentado na memória de pessoas diferentes — quando a transição não é formalizada.

O problema do "Patrão eterno"

Existe outro cenário, menos falado mas igualmente perigoso: o CTG que nunca troca de Patrão.

Não porque o estatuto proíbe a renovação — mas porque ninguém tem coragem de disputar com quem está há quinze, vinte anos. Ou porque o estatuto não define prazo de mandato, e a situação se naturaliza.

O Patrão que ficou tempo demais, por melhor que seja, cria um problema estrutural: o CTG passa a depender de uma única pessoa para funcionar. Ele conhece tudo, decide tudo, resolve tudo. E enquanto ele está bem e motivado, o CTG vai bem.

Mas ninguém fica bem e motivado para sempre.

Quando essa pessoa adoece, se cansa, ou decide que chegou a hora — o vazio que ela deixa é proporcional ao tempo que ficou. E aí o CTG não tem só um problema de transição. Tem um problema de sobrevivência.

Mandato com prazo definido não é desrespeito ao Patrão. É proteção ao CTG.

O que uma boa transição parece na prática?

Não é burocracia. É respeito pelo trabalho construído e pela entidade que vai continuar.

Uma transição bem feita tem três fases:

Fase 1 — Preparação (60 a 90 dias antes do fim do mandato)

O Patrão sainte começa a organizar o que vai entregar. Levanta os documentos, anota as senhas, lista os contratos vigentes, registra as pendências. Não precisa de ninguém mandando — precisa de cultura de transição instalada na entidade.

Fase 2 — Sobreposição (30 dias)

Idealmente, o Patrão eleito e o Patrão sainte trabalham juntos por um período. Reuniões com fornecedores, visitas a parceiros, explicação dos sistemas. O novo aprende vendo o antigo operar — não lendo um papel frio.

Fase 3 — Entrega formal (dia da posse)

Existe um documento assinado — o Kit de Passagem de Gestão — que registra formalmente o que foi entregue. Saldos, senhas, contratos, pendências. Assinado pelos dois. Arquivado na secretaria.

Simples assim. Mas muda tudo.

O Kit de Passagem de Gestão

Esse documento não precisa ter mais de duas páginas. O que importa é que exista e seja assinado.

O conteúdo mínimo:

Saldo em conta corrente e poupança na data da posse

Lista de dívidas e compromissos financeiros em aberto

Lista de contratos vigentes com fornecedores e prestadores

Inventário resumido de patrimônio (bens, equipamentos, imóvel)

Acesso digital: senhas e logins transferidos formalmente

Documentos entregues: estatuto, escritura, CNPJ, alvarás, livro de atas

Projetos em andamento e seu estado atual

Pendências que precisam de atenção imediata

Assinatura do Patrão sainte e do Patrão entrante com data

Guarda uma cópia na secretaria. Guarda outra no arquivo físico. Se tiver nuvem, guarda lá também.

Como colocar isso no estatuto?

A melhor forma de garantir que a transição aconteça é torná-la obrigatória. Não depender da boa vontade de cada gestão — mas exigir formalmente no estatuto e no regimento interno.

Algumas cláusulas simples resolvem:

Prazo de mandato definido: dois ou três anos, com possibilidade de reeleição por mais um mandato. Depois, obrigatório ceder espaço.

Prazo de transição: o estatuto pode exigir que o Patrão anterior colabore com a transição por 30 dias após a posse do novo.

Entrega formal documentada: previsão de que a posse só é concluída após a entrega do Kit de Passagem assinado.

Nada disso é revolucionário. É gestão básica — do tipo que qualquer empresa, prefeitura ou associação séria já pratica.

Uma última coisa sobre o Patrão sainte. Existe um aspecto humano aqui que não pode ser ignorado.

Quem passou anos dedicando energia, tempo e muitas vezes dinheiro do próprio bolso ao CTG merece um encerramento digno. Uma posse bem conduzida, um reconhecimento público do trabalho feito, um espaço de honra na memória da entidade.

O Conselho de Patronagem existe exatamente pra isso — pra que o ex-Patrão não sinta que foi descartado, mas que foi elevado a uma nova função: a de guardar a memória e orientar quem vem depois.

Quando a saída é honrada, a transição é mais fácil. Quando o Patrão sainte sente que vai ser esquecido, ele inconscientemente retém informações, dificulta o processo, ou simplesmente desaparece levando consigo o que só ele sabia.

Cuidar da saída é tão importante quanto cuidar da chegada.

Uma pergunta pra ti

Se o Patrão do teu CTG fosse embora amanhã — por qualquer motivo — alguém saberia onde estão as senhas do banco, os contratos e os documentos?

Se a resposta hesitou, já sabes o que precisa ser feito.

Compartilha esse post com a diretoria. Não espera a troca chegar pra organizar o que deveria estar pronto hoje.

Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.


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sábado, 23 de maio de 2026

Por que os jovens estão saindo dos Gestão Crioula. CTGs — e o que fazer pra mudar isso

 Esse é um assunto que dói. Mas precisa ser dito.

Entra num CTG numa sexta à noite. Olha em volta. Conta mentalmente as faixas etárias.

Na maioria das entidades que conheço, a conta é mais ou menos essa: muita gente entre 40 e 70 anos, alguns entre 30 e 40, e uma faixa de 15 a 25 que aparece pra ensaiar na invernada — mas que raramente vira sócio de verdade, raramente assume cargo, raramente se sente dono do espaço.

E quando a invernada termina a temporada de competição, parte dessa gurizada simplesmente some.

Não é por falta de amor à tradição. A maioria cresceu no galpão, foi criança no CTG, aprendeu a dançar ali. O problema é outro.

O que os jovens dizem quando saem

Quando alguém se dá ao trabalho de perguntar — e poucos CTGs perguntam — as respostas que aparecem são sempre parecidas:

"Não me sinto parte das decisões."

"As reuniões são longas e nada muda."

"Parece que o espaço é dos mais velhos."

"Quando eu sugeria algo, a resposta era sempre 'aqui sempre foi assim'."

"Não tem nada pensado pra minha faixa etária fora dos ensaios."

Repara: nenhuma dessas respostas fala que a tradição é chata, que o CTG não presta, que a cultura gaúcha não tem valor. O jovem não está rejeitando a identidade gaúcha. Ele está rejeitando uma estrutura que não abre espaço pra ele.

E aí está a distinção que muda tudo.

O problema é de gestão, não de geração

É muito fácil — e muito confortável — dizer que "a juventude de hoje não tem mais interesse pela tradição" ou que "o celular matou a cultura gaúcha".

Mas os CTGs que têm invernadas cheias, que renovam diretoria com sangue novo, que atraem famílias jovens — esses CTGs existem. Não são maioria, mas existem.

O que eles fazem de diferente?

Quase sempre a resposta é gestão. Não magia, não sorte, não localização privilegiada. Escolhas concretas de como o CTG é administrado.

Os 4 erros que afastam os jovens

1. Não ter nada pensado para eles fora da invernada

A invernada é a porta de entrada. O jovem entra aos 10, 12, 15 anos pra dançar. Aprende, se desenvolve, compete. Isso é lindo.

Mas quando ele para de competir — por idade, por trabalho, por faculdade — o que o CTG oferece pra esse jovem adulto de 22, 25 anos?

Na maioria dos CTGs: nada. Não há programação, não há espaço, não há função.

O galpão que foi tão importante na infância vira um lugar que "não é mais pra mim".

2. Não envolver os jovens nas decisões

Diretoria formada por pessoas acima dos 50 anos. Reuniões onde os mais novos ficam quietos porque "não têm experiência". Sugestões de modernização — comunicação digital, formas de pagamento, programação — vetadas sem discussão.

O jovem que se sente invisível nas decisões não vira sócio engajado. Vira frequentador eventual, quando muito.

3. Falar só pra quem já está dentro

A comunicação da maioria dos CTGs é voltada pra quem já frequenta. O Instagram posta foto do evento de sábado — mas quem não foi, não entende o contexto, não se sente convidado a ir na próxima.

Jovem que não cresceu no CTG não tem motivo pra entrar se nada comunica pra ele. E jovem que cresceu no CTG mas se afastou também não recebe nenhum sinal de que seria bem-vindo de volta.

4. Não ter programa de sócio jovem com valor percebido

"Por que eu vou pagar mensalidade se não uso o espaço o mês todo?"

Essa é a pergunta que o jovem faz — e que poucos CTGs sabem responder. A mensalidade precisa ter contrapartida clara: acesso a eventos, desconto no ingresso, espaço pra uso, atividades exclusivas.

Quando o sócio jovem não enxerga o que está pagando, ele cancela. Simples assim.

O que os CTGs que acertam fazem diferente

Não é necessário reinventar a tradição. É necessário reinventar a gestão de quem participa dela.

Criam um departamento jovem com autonomia real. Não é um grupo decorativo que pede autorização pra tudo. É um espaço onde os jovens de 18 a 35 anos organizam atividades, gerem orçamento próprio e respondem pelos resultados.

Reservam cadeiras na diretoria para pessoas jovens. Formalmente, no estatuto. Não como gesto simbólico — como obrigação institucional.

Criam programação além dos ensaios. Encontros de chimarrão, noites de cinema gaúcho, saraus nativistas, grupos de caminhada a cavalo, torneios esportivos. Atividades que têm a identidade gaúcha mas cabem na rotina de quem tem 25 anos.

Comunicam para fora, não só para dentro. Instagram com conteúdo que educa sobre a tradição, que convida, que mostra que o CTG é um espaço vivo e acolhedor pra qualquer gaúcho — não só pra quem já conhece.

Criam planos de sócio com benefícios tangíveis. Desconto progressivo em eventos, acesso ao espaço para confraternizações, participação em decisões — coisas concretas que justificam a mensalidade.

Uma conversa difícil que precisa acontecer

Existe um padrão que vejo se repetir nos CTGs que perdem jovens: a liderança mais antiga, inconscientemente, protege o espaço do jeito que sempre foi.

Não é maldade. É amor pela tradição. Mas amor pela tradição não pode ser confundido com resistência a qualquer mudança de forma.

O gaúcho do século XIX que fundou os primeiros CTGs não estava preservando uma forma — estava preservando uma identidade. E identidade se manifesta de formas diferentes em cada geração.

O chimarrão continua. A bombacha continua. A música, a dança, o respeito pela terra e pelo pago — tudo isso continua. Mas a reunião de diretoria pode ser mais ágil. A comunicação pode ser digital. O jovem pode ter voz.

Isso não é trair a tradição. É garantir que ela chegue às próximas gerações.

Por onde começar

Não precisa reformular tudo de uma vez. Começa com uma pergunta simples na próxima reunião de diretoria:

"O que nós faríamos diferente se quiséssemos que um jovem de 22 anos virasse sócio ativo do nosso CTG?"

Deixa a pergunta no ar. Ouve as respostas. Anota.

Depois pega as três respostas mais práticas e transforma em ação com prazo e responsável.

Não precisa de consultoria, de dinheiro, de reforma no galpão. Precisa de vontade de olhar pra frente com o mesmo amor que se olha pro passado.

Uma pergunta pra ti

Quando foi a última vez que o teu CTG perguntou pra um jovem por que ele parou de aparecer?

Se nunca aconteceu — talvez essa seja a primeira mudança a fazer.

Compartilha esse post com quem cuida da invernada ou do departamento jovem do teu CTG. Essa conversa precisa acontecer no galpão, não só na internet.

Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.

55ª Ciranda Cultural de Prendas - Uma tradição acesa em Erechim: o que é e o que acontece

O Rio Grande volta os olhos neste fim de semana para a capital da amizade. A querida cidade de Erechim recebe, entre os dias 21 e 23 de maio, a 55ª edição da Ciranda Cultural de Prendas, um dos eventos mais importantes do calendário do tradicionalismo gaúcho. Mais do que um concurso, a Ciranda é um encontro de cultura, conhecimento, arte, emoção e identidade do nosso povo campeiro.

Pra quem é de fora do meio tradicionalista, talvez fique a dúvida: afinal, o que é a Ciranda Cultural de Prendas?

A Ciranda é o evento promovido pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho que escolhe as prendas estaduais do Rio Grande do Sul. Participam representantes das 30 Regiões Tradicionalistas do Estado, divididas em categorias mirim, juvenil e adulta. Durante dias intensos, essas gurias passam por provas culturais, artísticas e tradicionalistas que avaliam muito mais do que beleza ou postura. O que está em jogo é o conhecimento da história gaúcha, da cultura regional, da arte, do folclore, da oralidade, da dança, da música, da indumentária e do sentimento de pertencimento ao Rio Grande.

É uma verdadeira celebração da identidade gaúcha.

Muito além da faixa e da flor no cabelo

Quem vê uma prenda pilchada muitas vezes não imagina a caminhada que existe por trás daquela faixa. Cada concorrente chega à etapa estadual depois de vencer concursos internos em entidades e regiões tradicionalistas. É uma preparação de meses — às vezes anos — estudando cultura gaúcha, história do Estado, folclore, MTG, costumes do campo, culinária, música e literatura regional.

Na Ciranda, acontecem: provas escritas, apresentações artísticas, declamação, interpretação de temas culturais, avaliações de comunicação, integração entre regiões, atividades culturais e protocolares e momentos de confraternização tradicionalista.

E tudo isso mantendo viva a essência do tradicionalismo: transmitir cultura de geração em geração.

Erechim vivendo a “Ciranda dos Sonhos”

A edição deste ano vem sendo chamada de “Ciranda dos Sonhos 2026”. A cidade de Erechim se preparou durante meses para receber milhares de tradicionalistas vindos de todas as querências do Estado. A expectativa é de mais de 2 mil pessoas circulando pelo município durante os três dias de programação.

A realização envolve o Movimento Tradicionalista Gaúcho, a Fundação Cultural Gaúcha, a 19ª Região Tradicionalista e o CTG Sentinela da Querência, além do apoio da Prefeitura Municipal de Erechim e da Secretaria Estadual da Cultura.

Um dos grandes símbolos desta edição é a atual 1ª Prenda do Rio Grande do Sul, Laura Laís Durli, justamente ligada à 19ª Região Tradicionalista, anfitriã do evento.

O coração cultural do tradicionalismo

Enquanto muita gente conhece o tradicionalismo pelos rodeios, gineteadas e fandangos, a Ciranda representa outro lado igualmente importante da cultura gaúcha: o lado intelectual e artístico do movimento.

É ali que se preservam: a pesquisa histórica, a valorização do linguajar gaúcho, o incentivo à leitura e à declamação, o ensino das tradições às novas gerações e o fortalecimento do papel da mulher dentro do tradicionalismo.

A Ciranda mostra que ser prenda vai muito além da pilcha bonita. É carregar conhecimento, postura, responsabilidade cultural e amor pelo Rio Grande.

Um evento que emociona quem vive a tradição

Quem já participou sabe: a Ciranda mistura nervosismo, amizade, orgulho e emoção. Tem abraço de família, lágrima escondida no lenço, nervosismo antes das provas e aplauso sincero entre concorrentes. Porque acima da disputa existe algo maior: a preservação da cultura gaúcha.

Cada prenda que sobe ao palco leva junto sua entidade, sua região e sua história.

E quando a chama crioula da cultura passa de uma geração pra outra, o Rio Grande segue vivo.

O Rio Grande se encontra em Erechim

Neste fim de semana, Erechim não recebe apenas um evento. Recebe o encontro de sotaques, costumes e querências de todo o Estado. Da campanha à serra, das missões ao litoral, o Rio Grande se reúne em torno daquilo que tem de mais valioso: sua identidade cultural.

A 55ª Ciranda Cultural de Prendas reafirma que tradição não é viver no passado. É manter viva a memória do povo enquanto se prepara o futuro.

E enquanto houver uma prenda estudando nossas raízes, declamando nossa poesia e defendendo a cultura do pago, o Rio Grande seguirá firme — de pé, de bota e de alma crioula.

Fonte: MTG e Prefeitura de Erechim 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Dicionário Gaudério: PILCHA

PILCHA - a elegância do gaúcho — quando a roupa é mais do que roupa, é identidade.

O que significa PILCHA?

Substantivo feminino. No universo gaúcho, pilcha é a indumentária tradicional — o conjunto de roupas e acessórios que compõem o traje do gaúcho e da prenda. Mas chamar a pilcha apenas de "roupa típica" é diminuir demais o que ela representa. A pilcha é identidade vestida. É a declaração de que quem a usa pertence a uma cultura, carrega uma história e respeita uma tradição.

Pilchar-se — o ato de vestir a pilcha — não é uma obrigação. É uma escolha. E quem faz essa escolha está dizendo, sem precisar de palavras: sou gaúcho, e tenho orgulho disso.

A origem da palavra

A palavra vem do espanhol platino pilcha — termo usado no Uruguai e na Argentina para designar objetos pessoais de pouco valor, trapos, bugigangas. No pampa gaúcho, a palavra chegou pela fronteira viva com o Prata e, como aconteceu com tantos outros termos, ganhou um significado completamente diferente — e muito mais nobre. O que era trapo virou traje. O que era descarte virou patrimônio.

A inversão de sentido é, ela mesma, uma metáfora da cultura gaúcha: pegar o que o mundo jogou fora e transformar em orgulho.

A pilcha do gaúcho — peça por peça

A indumentária gaúcha masculina tradicional é composta por:

Bombacha: a calça larga de tecido resistente, franzida nos tornozelos — símbolo máximo do traje gaúcho. Surgiu no século XIX como adaptação da calça árabe trazida pelos imigrantes do Oriente Médio que chegaram à América do Sul, e foi adotada pelos gaúchos pela praticidade no campo.

Camisa: geralmente de tecido leve, em cores sóbrias ou com bordados discretos.

Lenço: usado no pescoço, dobrado em triângulo. As cores têm significados que variam por região e CTG — vermelho, azul, branco, preto, cada um com sua simbologia.

Guaiaca ou cinto: a cinta de couro que guarda a faca e os pertences do gaúcho. A guaiaca é o cinto largo, trabalhado, frequentemente com enfeites de prata.

Faca e bainha: a faca gaúcha é ferramenta, não arma. A bainha trabalhada é parte da pilcha — objeto de arte e identidade.

Botas: de couro, com ou sem salto, com ou sem esporas. As esporas são usadas pelos campeiros e pelos que participam das atividades equestres.

Chapéu: de feltro, aba larga, cor preta ou marrom. O ângulo da aba varia conforme a região do estado.

Poncho ou pelego: para o frio. O poncho gaúcho é a peça mais versátil da pilcha — cobertor, capa de chuva, assento e travesseiro quando necessário.

A indumentária feminina — a prenda — tem sua própria riqueza: vestido rodado de chita ou renda, avental bordado, lenço de seda no cabelo, sapatilhas ou botinhas. Cada detalhe obedece ao regulamento do MTG e tem significado cultural próprio.

A pilcha e o MTG — quando a tradição vira norma

O Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) regulamenta a indumentária gaúcha com precisão — cores, tecidos, comprimentos, acessórios permitidos. Há quem critique o excesso de normatização. Mas há um argumento forte do outro lado: sem padronização mínima, a pilcha se dilui, se comercializa, perde o que a torna especial.

O debate é saudável. E o que importa é que, regulamentada ou não, a pilcha continua sendo escolhida — por jovens, por adultos, por crianças. Porque a identidade gaúcha, quando bem apresentada, não precisa de obrigação para continuar viva.

Como se usa no dia a dia

Elogio: Que pilcha mais bonita! Esse lenço combinou perfeito com a bombacha.

Identidade: Nos festejos, a gente se pilcha do melhor — é respeito pela tradição.

Versatilidade: Pode ser pilcha completa ou só a bombacha e o lenço. Já é suficiente pra mostrar de onde és.

Orgulho: Meu pai me ensinou a me pilchar antes de me ensinar a montar a cavalo.

Pilcha na música nativista

A pilcha atravessa o cancioneiro gaúcho como símbolo de pertencimento. Das vaneras aos festivais nativistas, a indumentária aparece em letras que celebram o gaúcho que não tem vergonha de mostrar de onde vem — nem nas cidades grandes, nem no exterior.

O gaúcho pilchado em São Paulo, em Buenos Aires, em Lisboa — é sempre uma declaração. Uma âncora cultural que diz: de onde eu vim não é lugar que se abandona.

Palavras da mesma família

Pilchar-se: o verbo — o ato de vestir a pilcha. Já te pilchaste para o desfile?

Pilchado(a): quem está com a indumentária gaúcha. Chegou todo pilchado ao acampamento.

Despilchar: tirar a pilcha. Depois do desfile, despilchou e foi trabalhar.

Pilcharia: conjunto de pilchas, ou loja que as vende.

A tua pilcha tem história?

Conta nos comentários. Muitos gaúchos têm uma pilcha herdada — do pai, do avô, da avó. Uma bombacha guardada num baú, um lenço que viajou pelo mundo. Essas histórias merecem ser contadas.

E se conheces outra palavra gaúcha que merece entrar no Dicionário Gaudério, deixa a sugestão — este dicionário é construído junto.

📌 Palavras-chave: pilcha gaúcha, indumentária gaúcha, bombacha, lenço gaúcho, traje gaúcho, MTG, cultura gaúcha, tradição gaúcha, Semana Farroupilha, identidade gaúcha, Rio Grande do Sul

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sábado, 25 de abril de 2026

Gestão Crioula - O erro que faz CTG trabalhar o ano todo e terminar no prejuízo

Com o chimarrão na mão. Vamos falar de um assunto que muita gente prefere evitar.

A boia foi de fundamento. O salão lotou. A invernada se apresentou, o pessoal dançou até tarde, todo mundo saiu falando bem. O Patrão dormiu feliz.

Aí chegou a segunda-feira. O tesoureiro sentou com as notas fiscais, o caderno de controle e a planilha — ou o bloco de anotações, dependendo do CTG. E ali, na frieza dos números, apareceu a realidade: o evento deu prejuízo. Ou, na melhor das hipóteses, sobrou tão pouco que não valeu o trabalho de um mês inteiro de organização.

Isso acontece em CTGs de todos os tamanhos. E quase sempre pelo mesmo motivo. O erro mais comum: precificar por sentimento, por achismo, pelo sempre foi assim.

Quando chega a hora de definir o valor do ingresso ou da mesa de jantar, a conversa na diretoria costuma ser mais ou menos assim:

"Quanto a gente cobra?"

"O CTG tal cobrou 80 reais no ano passado..."

"Então vamos cobrar 90, pra parecer que melhorou."

"Mas se cobrar muito caro, o pessoal não vem."

"Então 80 mesmo."

Decisão tomada. Sem saber o custo real do evento. Sem saber quantas pessoas precisam comparecer pra cobrir as despesas. Sem saber qual é o ponto de equilíbrio. É precificação por sentimento — e ela é a principal razão pela qual CTGs trabalham meses e terminam no vermelho.

O que a maioria dos CTGs não calcula

Quando a diretoria pensa nos custos de um evento, normalmente lembra dos itens mais visíveis: o churrasco, a bebida, a música. Mas existe uma lista de custos que frequentemente fica de fora da conta. Custos diretos que todo mundo lembra: Alimentos e bebidas, Banda ou DJ, Decoração

Custos diretos que frequentemente esquecem: Gás e carvão, Descartáveis e guardanapos, Segurança (porteiro, vigilante), Impressão de ingressos e banners, Transporte de materiais, Taxa do sistema de cobrança (Pix tem custo? Depende da conta).

Custos indiretos que quase nunca entram na conta: Energia elétrica do evento, Desgaste de equipamentos (fogão, freezer, caixas de som), Horas de trabalho dos voluntários que saíram do bolso próprio pra comprar algo, Limpeza pós-evento, Eventual manutenção de algo que quebrou durante o evento e o maior esquecido de todos: A parcela do aluguel ou IPTU do mês — o espaço tem custo fixo que precisa ser coberto.

Quando tu somas tudo isso, o custo real do evento é quase sempre 30% a 40% maior do que o número que aparecia na cabeça da diretoria na hora de definir o preço.

Ponto de equilíbrio: é o número que todo Patrão precisa saber e é simples: é a quantidade mínima de ingressos que precisa ser vendida para que o evento não dê prejuízo.

A fórmula é direta: Ponto de equilíbrio = Custo total do evento ÷ Valor do ingresso

Exemplo prático: Custo total real do jantar: R$ 8.000. Valor do ingresso: R$ 80. Ponto de equilíbrio: 100 pessoas

Isso significa que as primeiras 100 entradas vendidas só pagam as contas. A partir da 101ª pessoa é que começa a sobrar dinheiro pro CTG. Se o salão comporta 150 pessoas e tu vendeste 110 — parabéns, o evento foi bem. Mas se vendeste 85, o CTG saiu no prejuízo mesmo com o salão "cheio".

Saber esse número antes do evento muda completamente a tomada de decisão. Tu podes ajustar o preço, reduzir custos, criar um ingresso antecipado com desconto pra garantir o mínimo — ou até decidir não fazer o evento se a conta não fechar.

O problema do ingresso antecipado mal gerido

Ingresso antecipado é uma ferramenta poderosa — quando bem usado. Mas em muitos CTGs ele vira um problema. O que acontece na prática: os sócios mais próximos compram antecipado com desconto. O CTG usa esse dinheiro pra pagar as despesas iniciais. Aí o evento acontece, as vendas na porta não compensam, e no final sobrou menos do que o esperado.

O ingresso antecipado precisa estar dentro da conta, não fora dela. Se tu vendes 50 ingressos a R$ 60 e 60 na porta a R$ 80, a receita total não é "60 vezes 80" — é a soma real das duas faixas.

Uma planilha simples resolve boa parte do problema

Não precisa de sistema caro, software sofisticado nem contador dedicado. Uma planilha no celular já resolve — desde que tu uses ela de verdade.

A planilha mínima de um evento de CTG tem três abas:

Aba 1 — Custos previstos: lista cada item de custo com o valor estimado, antes do evento.

Aba 2 — Receita prevista: quantos ingressos pretende vender, a que preço, em quais categorias.

Aba 3 — Resultado real: o que efetivamente foi gasto e o que entrou de receita, preenchida depois do evento.

Comparar as abas 1 e 2 antes do evento te diz se a conta fecha. Comparar com a aba 3 depois te ensina a fazer melhor no próximo.

Em três ou quatro eventos usando esse método, a diretoria começa a ter referências reais — e a precificação deixa de ser sentimento pra virar decisão.

"Mas no nosso CTG é tudo voluntário, não tem como cobrar tudo isso..."

Entendo. E respeito muito, o voluntarismo é o que mantém os CTGs de pé.

Mas existe uma diferença importante entre trabalho voluntário e prejuízo financeiro. O voluntário doa o seu tempo — e isso é lindo. Mas quando o CTG sai de um evento devendo pro fornecedor, sem dinheiro pra pagar a conta de luz do mês seguinte ou sem reserva pra manutenção do galpão, o problema não é só financeiro. É de sustentabilidade da própria entidade.

CTG que não tem saúde financeira não consegue manter a invernada, não consegue reformar o galpão, não consegue pagar a anuidade da MTG, não consegue crescer. Cuidar das contas não é desvirtuar a tradição. É garantir que ela continue existindo.

Por onde começar na semana que vem

Se tens um evento nos próximos meses, faz isso antes de definir qualquer preço:

1. Senta com o tesoureiro e lista todos os custos do último evento similar — os que lembrarem e os que acharem nos recibos

2. Adiciona 30% a essa lista pra cobrir o que esquecerem

3. Divide pelo número realista de participantes esperados

4. O número que aparecer é o custo por pessoa — e o ingresso precisa ser maior do que isso

Simples assim pra começar. Depois vai refinando.

Uma pergunta pra ti:

No último evento do teu CTG — tu sabias, antes de começar, qual era o ponto de equilíbrio?

Se a resposta foi não, compartilha esse post com o tesoureiro. Pode ser a conversa mais importante que vocês vão ter essa semana.

Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.

sábado, 21 de março de 2026

Gestão Crioula - Por que o estatuto do teu CTG pode estar te prejudicando sem tu saber

Puxa o mate e vem comigo nessa charla.

Tu chegas no galpão, a invernada está ensaiando, o cheiro de churrasco já tomou conta do ar, o salão está cheio de gente boa. O CTG está vivo. Está de pé. Está cumprindo seu papel.

Mas lá na gaveta — ou numa pasta empoeirada no armário da secretaria — tem um documento que ninguém abre há anos. Um documento que pode estar, silenciosamente, colocando tudo isso em risco.

O estatuto social do teu CTG.

O que é o estatuto e por que ele importa tanto?

O estatuto é a lei interna do CTG. É ele que define quem manda, como se decide, quem pode ser sócio, como se faz uma eleição, o que acontece com o patrimônio se a entidade fechar.

Sem um estatuto atualizado e bem feito, o CTG fica vulnerável. Não de um jeito visível, como uma goteira no telhado. De um jeito silencioso — que só aparece quando a crise já chegou.

E aí já é tarde.

Os sinais de que o estatuto do teu CTG está desatualizado

Responde com honestidade: Quando foi a última vez que o estatuto foi atualizado e registrado em cartório?

Se a resposta for "mais de 5 anos atrás" — ou pior, "não sei" — é quase certo que tem coisa errada ali.

Veja os problemas mais comuns que encontro nos CTGs da nossa região:

1. O Patrão não tem prazo de mandato definido

É mais comum do que parece. O estatuto diz algo vago como "o Patrão exercerá o cargo enquanto contar com a confiança da assembleia" — sem prazo fixo, sem regra clara de renovação.

O resultado? O CTG vira refém de uma pessoa. Quando ela vai embora — por doença, desentendimento ou cansaço — ninguém sabe como assumir. A entidade trava.

2. O Conselho Fiscal não existe ou não tem função definida

O Conselho Fiscal é o órgão que fiscaliza as finanças do CTG de forma independente da diretoria. É obrigatório por lei para associações.

Mas em muitos estatutos, ele aparece apenas no papel — sem composição definida, sem prazo de reunião, sem obrigação de emitir parecer. Na prática, não existe.

Isso significa que ninguém fiscaliza as contas de forma independente. Qualquer desvio, intencional ou não, pode passar despercebido por anos.

3. As regras de assembleia não cabem mais na realidade

Estatutos antigos exigem convocação por edital no jornal local, reunião presencial com quórum de dois terços dos sócios, votação apenas por voto físico. Tenta reunir dois terços dos sócios de um CTG grande numa quinta-feira à noite. Boa sorte.

O resultado prático: assembleias que não atingem quórum, decisões tomadas informalmente, aprovações que não têm validade jurídica.

4. Nenhuma menção à LGPD

A Lei Geral de Proteção de Dados existe desde 2020. Todo CTG que coleta nome, CPF, endereço e dados de sócios está obrigado a cumpri-la.

Um estatuto de 2012 obviamente não menciona isso. E aí o CTG opera em irregularidade sem saber — com risco de multa e de processos por parte de sócios.

5. A cláusula de dissolução está errada ou ausente

A lei exige que o estatuto defina o que acontece com o patrimônio do CTG em caso de dissolução. Muitos estatutos antigos não têm isso — ou têm de forma incorreta.

Isso pode inviabilizar o registro de alterações no cartório, bloquear financiamentos e até impedir que o CTG participe de editais públicos.

"Mas o nosso CTG funciona bem assim há anos..."

Eu sei. E é exatamente por isso que o problema é traiçoeiro.

O estatuto ruim não atrapalha o dia a dia. O churrasco acontece, os ensaios seguem, os eventos lotam. A vida do CTG continua.

Ele atrapalha nos momentos de crise:

Quando dois grupos disputam a direção e não há regra clara de desempate

Quando um Patrão morre ou adoece e ninguém sabe legalmente quem assume

Quando alguém questiona uma decisão financeira e não há registro formal de aprovação

Quando o CTG tenta abrir conta bancária nova e o banco exige documentos atualizados

Quando chega uma oportunidade de financiamento e a entidade está irregular

Nessas horas, o estatuto empoeirado vira um problema enorme — e às vezes irreversível.

Por onde começar

A boa notícia é que atualizar o estatuto não precisa ser um bicho de sete cabeças. Com o apoio certo, dá pra fazer em dois a três meses, de forma participativa, sem traumatizar a diretoria.

O caminho básico é:

1. Localizar o estatuto atual e verificar a data do último registro em cartório

2. Comparar com a legislação vigente — especialmente o Código Civil (artigos 53 a 61) e as resoluções da MTG

3. Identificar os pontos que precisam de atualização

4. Elaborar a minuta do novo estatuto com apoio jurídico

5. Convocar Assembleia Geral Extraordinária para aprovação

6. Registrar em cartório

Simples na teoria — mas é onde a maioria dos CTGs trava, porque ninguém na diretoria tem tempo, conhecimento ou energia pra conduzir esse processo sozinho.

Uma pergunta pra ti

Quando foi a última vez que alguém da tua diretoria abriu o estatuto do CTG pra ler?

Se a resposta te deixou desconfortável, é um bom sinal. Significa que tu já sabes por onde começar.

Nos próximos meses vou trazer mais conteúdo sobre gestão prática para CTGs — finanças, eventos, captação de sócios — sempre com respeito pela tradição e pela realidade de quem vive o galpão de dentro.

Se esse assunto mexeu contigo, compartilha com o Patrão ou o Capataz do teu CTG. Pode ser que eles precisem ler isso hoje.


Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.