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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Chama Crioula 2026: história, significado e distribuição da chama no Rio Grande do Sul

A chama que está prestes a percorrer novamente o Rio Grande e há símbolos que representam uma bandeira outros símbolos representam uma história. E há símbolos que parecem carregar dentro de si a memória de um povo inteiro. A Chama Crioula é um deles.

Nos dias 14 e 15 de agosto de 2026, o Rio Grande do Sul dará início oficialmente aos Festejos Farroupilhas com a 77ª Geração e Distribuição da Chama Crioula, que neste ano acontece em Rio Pardo.

De lá, a centelha será entregue às 30 Regiões Tradicionalistas do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) e seguirá pelas estradas, levada por cavalarianos, até os municípios e entidades tradicionalistas de todo o Estado.

Mas o que parece ser apenas uma cerimônia é, na verdade, muito maior. Quando um cavaleiro parte carregando aquela chama, não leva somente fogo. Leva memória. Leva tradição. Leva o nome dos que vieram antes. Leva consigo um pedaço do Rio Grande.

O que é a Chama Crioula?

A Chama Crioula é um dos maiores símbolos dos Festejos Farroupilhas e do tradicionalismo gaúcho.

Todos os anos, uma chama é gerada em um município do Rio Grande do Sul e posteriormente distribuída para as regiões tradicionalistas.

A partir daí começa uma verdadeira viagem pelas estradas do Estado.

Cavalarianos percorrem quilômetros levando a centelha até CTGs, piquetes e comunidades.

É o fogo que chega ao galpão. O fogo que acende o candeeiro. O fogo que acompanha a roda de mate. O fogo que anuncia que setembro está chegando.

Mas essa tradição começou há quase oito décadas.

Onde nasceu a Chama Crioula?

Era setembro de 1947. O Brasil ainda vivia os primeiros anos do período pós-Estado Novo.

No Rio Grande do Sul, um grupo de jovens começava a organizar aquilo que posteriormente se transformaria em um dos movimentos culturais mais importantes do país: o tradicionalismo gaúcho.

Entre eles estavam João Carlos D'Ávila Paixão Côrtes, Fernando Machado Vieira e Cyro Dutra Ferreira.

Na noite de 7 de setembro de 1947, os três estavam a cavalo junto à Pira da Pátria, em Porto Alegre.

Quando chegou o momento de apagar o Fogo Simbólico da Pátria, retiraram uma centelha para levá-la até o Colégio Júlio de Castilhos.

Ali seria aceso um candeeiro crioulo. Nascia naquele momento a Chama Crioula. A cena parece simples quando contada hoje.

Mas é difícil imaginar o significado daquele gesto. Três jovens a cavalo. Uma centelha. Uma cidade.

E uma ideia que ainda não se sabia que atravessaria gerações.

O fogo que virou tradição

A Chama Crioula passou a simbolizar muito mais do que a abertura das comemorações farroupilhas.

O fogo carrega significados universais de calor, luz, proteção, coragem e vida.

Dentro do tradicionalismo gaúcho, ganhou ainda uma dimensão própria. É o fogo da querência. É o fogo do galpão. É o fogo que reúne. É o fogo que aquece o mate e a conversa. É o fogo que permanece aceso enquanto alguém ainda tiver vontade de contar uma história.

Por isso, a Chama Crioula não é apenas uma chama.

Ela é uma representação simbólica da continuidade da cultura gaúcha.

Por que a Chama Crioula é levada a cavalo?

Talvez aqui esteja uma das imagens mais bonitas de toda a tradição.

A centelha poderia ser transportada de carro. Poderia viajar em uma estrutura moderna. Poderia ser simplesmente entregue às autoridades.

Mas não seria a mesma coisa. Ela segue a cavalo. Porque o cavalo é parte inseparável da formação histórica do gaúcho.

As cavalgadas transformaram-se em importantes manifestações culturais, ligando tradição, memória, território e pertencimento. O próprio MTG destaca o papel das cavalgadas como instrumento de preservação cultural e transmissão das tradições às novas gerações.

E assim a Chama percorre o mesmo Rio Grande onde, durante séculos, homens e mulheres atravessaram campos, fronteiras e caminhos a cavalo.

Chama Crioula 2026: Rio Pardo será o ponto de partida

Em 2026, a história será escrita em Rio Pardo.

A geração da Chama está programada para 14 de agosto, às 18h, no Parque de Exposições do Sindicato Rural.

No dia seguinte, 15 de agosto, ocorre a distribuição da centelha, a partir das 8h, em frente à Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário. De lá partirão as delegações tradicionalistas responsáveis por conduzir o símbolo às diferentes regiões do Estado.

A escolha de Rio Pardo também possui peso histórico.

É uma cidade profundamente ligada à formação do Rio Grande do Sul e à história das disputas e ocupações que ajudaram a moldar o território gaúcho.

Em 2026, Rio Pardo não receberá apenas um evento tradicionalista. Receberá uma parte da memória do Estado.

A Chama Crioula e os 400 anos das Missões

Existe ainda um detalhe que torna a edição de 2026 especialmente importante.

Este é o ano dos 400 anos das Missões Jesuítico-Guaranis.

E o tema oficial dos Festejos Farroupilhas 2026 é:

“Herança Jesuítica e Guarani no Rio Grande do Sul: 400 anos de cultura e tradição.”

A proposta é destacar a contribuição dos povos Guarani e dos jesuítas para a formação histórica e cultural do Rio Grande do Sul.

Isso inclui elementos que permanecem presentes na cultura gaúcha até hoje: vocabulário, nomes de lugares, costumes, artesanato, religiosidade e diferentes aspectos da formação regional. A pesquisa que fundamentou o tema também ressalta o papel das mulheres Guarani na agricultura, no artesanato e na organização cotidiana das comunidades.

E aqui existe uma ligação bonita.

A chama que atravessa o Rio Grande em 2026 carrega uma tradição criada em 1947.

Mas, neste ano, ela também pode servir como convite para olhar muito mais para trás. Para as raízes profundas da nossa história. Para os povos que já estavam aqui. Para as Missões. Para os Guarani. Para aquilo que existia muito antes de existir o tradicionalismo organizado.

Da Chama Crioula ao galpão

Quando a centelha chega a uma cidade, começa outra etapa.

Ela passa pelas mãos dos cavalarianos.

Chega às entidades.

É recebida pelos tradicionalistas.

E finalmente encontra seu lugar no fogo de chão, no candeeiro ou no espaço escolhido pela comunidade.

Então acontece algo que não aparece nos protocolos oficiais.

As pessoas se reúnem. O mate começa a circular. Alguém conta uma história. Uma gaita toca. Um violão acompanha. As crianças observam. Os mais velhos lembram de outros tempos. É aí que a tradição realmente acontece. Não no papel. Não apenas no calendário. Mas entre pessoas.

A Crioula e a Semana Farroupilha

A Chama Crioula funciona como uma espécie de anúncio. Quando ela começa a percorrer o Estado, o Rio Grande sabe: Setembro está chegando. Logo vêm os acampamentos. As cavalgadas. As rondas. Os fandangos. As danças. As declamações. Os desfiles. O churrasco. O chimarrão. A pilcha. A música.

E aquela mudança no jeito de falar sobre o Rio Grande.

Durante alguns dias, o Estado parece lembrar com ainda mais força de quem é.

A Secretaria da Cultura destaca que os Festejos Farroupilhas envolvem CTGs, MTG, instituições e diversos segmentos da sociedade gaúcha.

O fogo que atravessa gerações

Talvez a maior força da Chama Crioula esteja justamente na sua simplicidade.

Uma chama pode ser apagada em segundos.

Mas uma tradição não.

Em 1947, três jovens tiveram a ideia de retirar uma centelha do Fogo Simbólico. Hoje, quase 80 anos depois, milhares de pessoas participam de um ritual que nasceu daquele gesto.

É assim que uma cultura sobrevive. Uma geração entrega para a outra. Um avô conta. Um pai ensina. Um filho aprende.

E, um dia, aquele filho também leva a chama adiante.

E quando a chama chegar à tua cidade?

Talvez tu não seja cavalariano. Talvez nunca tenha participado de uma cavalgada. Talvez nem frequente um CTG.

Mas, quando a Chama Crioula chegar, pare um instante para olhar.

Porque naquele fogo existe uma história que começou em 1947. Existe a memória daqueles jovens que decidiram recuperar símbolos da cultura gaúcha. Existe a caminhada de milhares de tradicionalistas. Existe o cavalo. Existe a estrada. Existe o galpão. Existe o mate. E existe um pouco daquilo que nós chamamos de querência.

Em 2026, a chama traz uma mensagem ainda maior

Neste ano, o fogo que percorrerá o Rio Grande encontra uma história de quatro séculos.

Os 400 anos das Missões nos lembram que a cultura gaúcha é resultado de muitas raízes.

A tradição não nasceu pronta. Foi construída ao longo do tempo. Pelos povos originários. Pelos Guarani. Pelos missioneiros. Pelos homens e mulheres do campo. Pelos imigrantes. Pelos fronteiriços. Pelos poetas. Pelos músicos.

E por todos aqueles que, de alguma maneira, ajudaram a construir a identidade do Rio Grande.

A Chama Crioula é uma dessas pontes entre passado e presente.

Que o fogo siga aceso

Em agosto de 2026, uma nova chama vai deixar Rio Pardo.

Vai subir na garupa dos cavalos. Vai cruzar estradas. Vai passar por cidades. Vai chegar aos CTGs. Vai entrar nos galpões.

E, quando setembro chegar, estará espalhada por todo o Rio Grande.

Mas a chama verdadeira não está apenas no fogo. Está na vontade de preservar. Está na memória. Está no respeito pelos que vieram antes. Está na criança que aprende uma dança. No jovem que monta a cavalo. No velho que conta uma história. No músico que toca uma milonga. No peão que atravessa quilômetros para conduzir uma centelha.

E em cada gaúcho que, ao olhar aquele fogo, sente alguma coisa difícil de explicar.

Porque talvez seja isso que a Chama Crioula realmente representa: um povo que se recusa a deixar sua memória apagar.

Que venha a Chama Crioula 2026. Que venha setembro. E que o fogo continue aceso.

Porque enquanto houver chama, haverá memória.

E enquanto houver memória, o Rio Grande continuará sendo Rio Grande.

Chama Crioula 2026 — informações rápidas

Local: Rio Pardo – RS

Geração da Chama: 14 de agosto de 2026

Distribuição: 15 de agosto de 2026

Edição: 77ª Geração e Distribuição da Chama Crioula

Destino: 30 Regiões Tradicionalistas e posteriormente os municípios e entidades tradicionalistas do Estado

Tema dos Festejos Farroupilhas 2026: “Herança Jesuítica e Guarani no Rio Grande do Sul: 400 anos de cultura e tradição.”

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