Considerado o Rei dos Trovadores, Gildo de Freitas é o homem que fez o Rio Grande todo cantar de improviso
O guri do Passo d'Areia que aprendeu gaita escondido
Leovegildo José de Freitas nasceu em 19 de junho de 1919, no bairro Passo d'Areia, em Porto Alegre. Muita gente ainda confunde e diz que Gildo era de Alegrete — mas não. Ele nasceu na capital gaúcha e mais tarde recebeu o título de Cidadão Alegretense, cidade onde passou longos períodos e pela qual nutria profundo carinho.
Filho de Vergílio José de Freitas e Georgina de Freitas, Gildo teve quatro irmãos — Juvenal, Alfredo, João e Manuel — e quatro irmãs. Frequentou a escola por apenas seis meses, tendo a professora Dona Paulina como única mestra formal. O restante da educação veio da rua, da vida e das rodas de trova.
A gaita entrou na vida de Gildo pelos fundos — literalmente. Era o instrumento do irmão Alfredo, tocado às escondidas em casa enquanto o dono não estava. Vendo amigos do pai tocarem nas canchas de carreiramento onde ia cuidar de cavalos, aprendeu de ouvido e de olho, sem professor, sem método. Quando comprou a sua própria gaita de oito baixos, já tinha vinte anos — e já era quase imbatível nos versos.
"De longe, Gildo era o mais esperto." — relato de quem conheceu a família Freitas
A vida brava: fugas, prisões e a trova como salvação
A vida de Gildo de Freitas não foi fácil — e ele nunca fingiu que foi. Aos 12 anos fugiu de casa pela primeira vez. Aos 18 já animava bailes pela região metropolitana de Porto Alegre, quando não estava em confusão com a polícia. Em 1937, considerado desertor por não se apresentar à convocação militar, se envolveu numa briga séria onde um amigo perdeu a vida — e passou a nutrir um ódio profundo pelas autoridades que o perseguiam.
Em 1941, o casamento com Dona Carminha trouxe alguma estabilidade. Passaram a morar no bairro de Niterói, em Canoas, na Grande Porto Alegre. Mas os contratempos com a polícia continuaram, e Gildo seguia viajando, trovando, desaparecendo e reaparecendo.
Em 1949, já famoso em todo o Rio Grande do Sul, desapareceu de casa e chegou a ser dado como morto na capital. Reapareceu meses depois na fronteira gaúcha — em Alegrete, com problema de paralisia nas pernas, mal conseguindo caminhar, mas com a garganta e a mente em plena forma. Numa comemoração de eleição em Alegrete, foi carregado numa cadeira para se apresentar porque as pernas não sustentavam — mas os versos saíram perfeitos.
1950: Getúlio Vargas e o fim das perseguições
Em 1950, em São Borja, Gildo conheceu Getúlio Vargas e entrou em sua campanha política. O encontro com o presidente mudou o rumo da vida do trovador: as perseguições policiais cessaram. Gildo fez sua primeira viagem ao Rio de Janeiro e começou a sentir o gosto de um Brasil maior do que o Rio Grande.
Entre 1953 e 1954, conquistou fama definitiva como trovador nos programas de rádio ao vivo em Porto Alegre, voltando a morar com a família no Passo d'Areia. Era o começo da lenda.
1955: o encontro com Teixeirinha — parceria, rivalidade e amizade
Em 1955, Gildo de Freitas conheceu Vitor Mateus Teixeira — o Teixeirinha. O encontro entre os dois maiores nomes da música gauchesca foi imediato em identificação. Juntos, passaram a viajar pelo estado, enchendo galpões e praças com uma combinação irresistível: Teixeirinha no violão e Gildo na gaita, dois trovadores capazes de ficar horas no palco sem repetir um verso.
Entre 1956 e 1960, Gildo se tornou a maior atração do programa de rádio Grande Rodeio Coringa, que ia ao ar aos domingos à noite — o programa de entretenimento mais popular do estado. As viagens com Teixeirinha se multiplicavam, e a dupla era tratada como realeza onde quer que chegasse.
A parceria formal terminou em 1959 — mas os dois continuaram se encontrando, cantando juntos e, a partir de 1965, travando a famosa disputa pelos discos: músicas que provocavam, respostas que arrancavam gargalhadas, um duelo de versos que o público adorava e que ambos usavam como ferramenta de marketing . Nos bastidores, a relação era de admiração e amizade genuínas. Como o apresentador Nico Fagundes costumava dizer: nesses desafios, os dois poderiam ficar horas trovando e mesmo assim não se teria um vencedor.
"A rivalidade foi feita em brincadeira — a amizade era de verdade." — memória dos que conviveram com os dois
1963: os discos, o sucesso nacional e a saúde que insistia em falhar
Com o declínio dos programas de rádio ao vivo e a chegada da televisão, Gildo tomou uma decisão surpreendente em 1961: largou a cantoria e foi criar porcos. Mas o destino tinha outros planos. Em 1963, o Teixeirinha gravou uma música de autoria de Gildo — e o nome do trovador voltou à mídia. Em 1963, Gildo viajou a São Paulo para gravar o primeiro disco.
A partir de 1965, o sucesso explodiu no Rio Grande do Sul. Na década de 1970, Gildo já fazia apresentações em todos os estados brasileiros — levando a cultura gaúcha para plateias que nunca tinham visto um trovador de verdade. Em meados de 1964, foi convocado a prestar depoimento sobre suas ligações com o trabalhismo — episódio delicado, num Brasil que vivia sob a ditadura militar.
Em 1977 e 1978, inaugurou em Viamão a Churrascaria Gildo de Freitas, onde também promovia bailões e o famoso Rodeio Gildo de Freitas — onde os peões tinham que provar que eram bons para ficar em cima dos cavalos mais velhacos, como o próprio Gildo exigia.
A saúde, porém, sempre foi um capítulo à parte. Problemas nas pernas e nos pulmões o hospitalizavam com frequência ao longo de toda a carreira. Nos anos 70, as internações se multiplicaram. No disco de 1979, já andava muito doente — por isso trocou a gaita pesada pelo violão mais leve. Mas a voz seguia firme.
Novembro de 1982: a última apresentação — e 4 de dezembro
Em novembro de 1982, Antonio Augusto Fagundes e Ivan Trilha levaram Gildo aos estúdios da RBS TV para uma última aparição pública no Galpão Crioulo. Além do apresentador Nico Fagundes, estavam no palco as gauchinhas missioneiras e Os Serranos. Gildo cantou com a saúde já muito debilitada — mas cantou com o coração na voz, dando o máximo de si em respeito à arte e ao público.
Em 4 de dezembro de 1982, Leovegildo José de Freitas morreu em Porto Alegre, aos 63 anos. O Rei dos Trovadores se foi — mas deixou uma coincidência que parece tirada de uma de suas próprias canções: exatamente três anos depois, em 4 de dezembro de 1985, morreu Teixeirinha. O mesmo dia. A mesma data. Como se o destino quisesse que os dois chegassem juntos à eternidade, assim como tinham chegado juntos aos palcos.
Em homenagem aos dois, a Lei Estadual 8.814/89 instituiu o dia 4 de dezembro como Dia Estadual do Artista Regionalista e Poeta Repentista Gaúcho no Rio Grande do Sul.
"Em novembro cantou pela última vez. Em dezembro, o Rio Grande ficou mais silencioso."
Discografia
Gildo de Freitas gravou 17 LPs entre 1964 e 1982, todos pela Continental e pela Chantecler/Sertanejo — uma das discografias mais extensas da música gauchesca.
1964 - Gildo de Freitas — O Trovador dos Pampas. 1º LP. Clássicos: Acordeona, Baile do Chico Torto, História dos Passarinhos.
1965 - O Trovador dos Pampas — Vida de Camponês. 2º LP. Primeira provocação a Teixeirinha: Baile de Respeito.
1966 - Desafio do Padre e o Trovador. 3º LP. Com o Padre Rubens Pillar. Inclui Definição do Grito.
1968 Gildo de Freitas e Sua Caravana 4º LP. Continua as provocações a Teixeirinha.
1969 De Estância em Estância 5º LP. Inclui Resposta da Milonga, provocação a Milonga da Fronteira.
1970 Gildo de Freitas e Zezinho e Julieta 6º LP. Parceria com dupla caipira.
1970 Rei do Improviso 7º LP. Um dos mais conhecidos. Consolida o título.
1972 Desafio do Paulista e o Gaúcho 8º LP. Desafio interestadual com trovador paulista.
1975 Gildo de Freitas e Seus Convidados 9º LP. Participações especiais.
1975 O Ídolo 10º LP. Coletânea de grandes sucessos.
1976 Gauchada de Sul a Norte 11º LP. Registra a abrangência nacional do artista.
1979 Eu Não Sou Convencido 12º LP. Já no violão — saúde debilitada impede a gaita pesada.
1980 Mais Sucessos 13º LP. Lançado pela Chantecler/Sertanejo.
1981 O Rei dos Trovadores 14º LP. Penúltimo disco em vida. Última provocação ainda acesa.
1982 Figueira Amiga 15º LP. Último disco em vida. Gravado pela Continental. Última aparição nos estúdios.
1984 Lembrando Gildo de Freitas Coletânea póstuma. Lançada dois anos após a morte.
s/d 20 Anos de Glória Compilação comemorativa lançada postumamente.
Principais canções
• Prazer de Gaúcho
• Velho Casarão
• Eu Reconheço que Sou Grosso
• Acordeona
• História dos Passarinhos
• Baile do Chico Torto
• Figueira Amiga
• Baile de Respeito
• Definição do Grito
• Resposta da Milonga
• Brasil de Bombachas
• Gaúchos do Litoral
O legado do Rei — uma trova que o tempo não apaga
Gildo de Freitas construiu sua fama a partir da trova — uma das manifestações folclóricas mais antigas do Rio Grande do Sul. E ao fazê-lo, criou um estilo próprio, consagrado na tradicional afinação Mi Maior de Gavetão, em versos de sextilhas, que até hoje é referência para trovadores de todo o estado.
Sem exagero, pode-se dizer que grande parte da atual música gauchesca tem um pouco — ou muito — de Gildo de Freitas. Sua influência se estende por gerações de compositores, intérpretes e grupos que aprenderam com ele que a trova não é apenas entretenimento: é memória viva de um povo.
O CTG Gildo de Freitas, em Porto Alegre, leva seu nome. O Parque Arroz com Leite, em Viamão, onde a família realizou as comemorações do centenário em 2019, é um dos pontos de encontro dos fãs. E toda vez que um trovador gaúcho improvisa um verso em cima de um palco, Leovegildo está lá — invisível, mas presente, sorrindo daquele jeito irreverente que era só dele.
"Ele fazia verso sobre tudo que vinha em sua mente — e o que vinha era sempre ouro." — memória de quem o viu trovar
Qual é a tua música favorita do Rei dos Trovadores?
Deixa nos comentários — e se tens uma história, uma memória ou uma anedota do Gildo de Freitas, conta para nós. A trova é feita para ser compartilhada. Assim como ele fazia, de palco em palco, de bolicho em bolicho, de fronteira em fronteira.
Também publicamos aqui no Entrevero Xucro o post Teixeirinha e Gildo de Freitas: Uma Amizade que Atravessou a Lenda da Rivalidade — que conta a história dos dois juntos, incluindo a coincidência do 4 de dezembro.
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