sábado, 28 de março de 2026

A erva-mate gaúcha que conquistou a Argentina: do Vale do Taquari ao vestiário de Messi

Baldo, de Encantado, é a nova fornecedora oficial da Seleção Argentina — e a história por trás disso é mais gaúcha do que parece

A Associação de Futebol Argentino (AFA) anunciou nesta semana uma parceria que orgulha o Rio Grande do Sul: a ervateira Baldo, com sede em Encantado, no Vale do Taquari, passa a ser a fornecedora oficial de erva-mate para os jogadores e a comissão técnica da atual campeã mundial. A marca gaúcha acompanhará a seleção de Messi na preparação e durante a disputa da Copa do Mundo de 2026, realizada nos Estados Unidos, no México e no Canadá.

Mas quem conhece a história da Baldo sabe que isso não é uma surpresa — é a chegada de um reconhecimento que já deveria ter vindo faz tempo.

Uma família, um Vale e mais de um século de erva-mate

A história da Baldo começa em 1920, no interior de Vespasiano Corrêa — então distrito de Guaporé, no Vale do Taquari. Os irmãos João, Antônio e Luiz Baldo, filhos de imigrantes italianos, montaram uma pequena fábrica artesanal de erva-mate. Não havia tecnologia sofisticada, não havia mercado garantido — havia conhecimento de quem cresceu olhando para os ervais e entendendo o produto como quem entende a própria terra.

Décadas depois, na figura do empresário Arlindo Plácido Baldo — filho de João, caçula de 11 irmãos, presidente da empresa por décadas —, a Baldo deu o salto definitivo. Na década de 1970, a sede foi transferida para Encantado, onde está até hoje. A empresa se expandiu para Santa Catarina e Paraná, abriu filiais, e se tornou a maior exportadora de erva-mate do Brasil.

São mais de 500 colaboradores diretos, quatro fábricas no Brasil e um número que impressiona: 

Encantado exportou em 2024 cerca de US$ 51,8 milhões — a erva-mate representa 65% do total das exportações do município.

"Desde jovem entendi o processo da erva-mate — é um know-how nosso de décadas." — Arlindo Plácido Baldo, presidente da Baldo S.A.

O segredo que poucos sabem: Canarias é gaúcha

Aqui mora o detalhe mais curioso — e mais gaúcho — de toda essa história. A erva-mate Canarias, marca líder absoluta no Uruguai, é controlada pela Baldo desde 1998. A empresa do Vale do Taquari detém o controle acionário da marca uruguaia e processa a maior parte da erva em Encantado.

Os números são impressionantes: dos 30 milhões de quilos de erva-mate que o Uruguai consome por ano, a Baldo fornece 20 milhões — dois terços de tudo que o país toma. A Canarias representa mais de 60% do consumo de mate em todo o Uruguai.

E tem mais: na Copa do Mundo do Qatar, em 2022, a seleção argentina já levou erva Canarias na bagagem — o que gerou polêmica entre os próprios argentinos, indignados por seus jogadores tomarem mate de uma marca uruguaia. A AFA chegou a emitir nota explicativa. O que ninguém sabia — ou fingia não saber — era que aquela erva era processada em Encantado, Rio Grande do Sul.

Agora, em 2026, a AFA oficializou o que já era realidade nos bastidores — mas desta vez com a marca gaúcha estampada no contrato.

No Qatar, os argentinos já tomavam erva gaúcha — só não sabiam. Agora sabem, e assinaram contrato.

O que a AFA disse ao anunciar a parceria

Em comunicado oficial, a AFA destacou que a presença da Baldo no mercado argentino — iniciada formalmente em 2024 — influenciou os hábitos de consumo no país. Segundo a entidade, o produto ganhou espaço de forma orgânica entre os atletas do futebol local e também entre jogadores que atuam nas principais ligas da Europa.

A adoção foi espontânea — esse foi o termo usado pela AFA. Em outras palavras: antes de qualquer contrato, os jogadores já escolhiam a Baldo. A parceria oficial veio confirmar o que o paladar já tinha decidido.

Copa 2026: a erva-mate gaúcha vai aos três países

A Copa do Mundo de 2026 será realizada em três países — Estados Unidos, México e Canadá — com início marcado para junho. A Argentina, bicampeã mundial (1978, 1986) e atual tricampeã (2022), vai em busca do quarto título com Messi à frente do grupo.

Com a parceria anunciada, a erva Baldo será o mate oficial dos treinos, das concentrações e das viagens da delegação argentina. Em cada roda de chimarrão que os jogadores fizerem nos vestiários dos estádios americanos, mexicanos e canadenses, haverá erva processada no Vale do Taquari, Rio Grande do Sul, Brasil.

O que isso significa para o RS — e para a cultura gaúcha

Para além do negócio em si, essa parceria tem um significado cultural que o Entrevero Xucro não poderia deixar de sublinhar. O mate — esse ritual que os guaranis ensinaram ao mundo, que os jesuítas espalharam, que os gaúchos adotaram como identidade — vai ao maior evento esportivo do planeta estampando um nome do Rio Grande do Sul.

O Vale do Taquari, que desde 1850 já era o primeiro polo produtor de erva-mate do RS, que atravessou crises e concorrências e reinventou a indústria ervateira com tecnologia e qualidade, chega agora ao topo da vitrine global.

E para quem ainda precisa de um argumento: a erva-mate é a única planta com cafeína nativa das Américas. Nasceu aqui. Foi cultivada aqui. Virou produto aqui. Faz sentido que o mundo a tome com uma etiqueta gaúcha.

A erva-mate nasceu nas Américas, foi cultivada no pampa e agora vai à Copa do Mundo com um nome do Vale do Taquari. Isso se chama: orgulho gaúcho.

Tu conhecias a história da Baldo?

Deixa nos comentários. E se quiseres saber mais sobre a história do chimarrão no Rio Grande do Sul — origem guarani, tradições regionais e o jeito de cada rincão do estado de tomar o seu mate — lê os nossos posts sobre o tema aqui no Entrevero Xucro.



quinta-feira, 26 de março de 2026

Biografia Gaúcha - Gildo de Freitas

Considerado o Rei dos Trovadores, Gildo de Freitas é o homem que fez o Rio Grande todo cantar de improviso

O guri do Passo d'Areia que aprendeu gaita escondido

Leovegildo José de Freitas nasceu em 19 de junho de 1919, no bairro Passo d'Areia, em Porto Alegre. Muita gente ainda confunde e diz que Gildo era de Alegrete — mas não. Ele nasceu na capital gaúcha e mais tarde recebeu o título de Cidadão Alegretense, cidade onde passou longos períodos e pela qual nutria profundo carinho.

Filho de Vergílio José de Freitas e Georgina de Freitas, Gildo teve quatro irmãos — Juvenal, Alfredo, João e Manuel — e quatro irmãs. Frequentou a escola por apenas seis meses, tendo a professora Dona Paulina como única mestra formal. O restante da educação veio da rua, da vida e das rodas de trova.

A gaita entrou na vida de Gildo pelos fundos — literalmente. Era o instrumento do irmão Alfredo, tocado às escondidas em casa enquanto o dono não estava. Vendo amigos do pai tocarem nas canchas de carreiramento onde ia cuidar de cavalos, aprendeu de ouvido e de olho, sem professor, sem método. Quando comprou a sua própria gaita de oito baixos, já tinha vinte anos — e já era quase imbatível nos versos.

"De longe, Gildo era o mais esperto." — relato de quem conheceu a família Freitas

A vida brava: fugas, prisões e a trova como salvação

A vida de Gildo de Freitas não foi fácil — e ele nunca fingiu que foi. Aos 12 anos fugiu de casa pela primeira vez. Aos 18 já animava bailes pela região metropolitana de Porto Alegre, quando não estava em confusão com a polícia. Em 1937, considerado desertor por não se apresentar à convocação militar, se envolveu numa briga séria onde um amigo perdeu a vida — e passou a nutrir um ódio profundo pelas autoridades que o perseguiam.

Em 1941, o casamento com Dona Carminha trouxe alguma estabilidade. Passaram a morar no bairro de Niterói, em Canoas, na Grande Porto Alegre. Mas os contratempos com a polícia continuaram, e Gildo seguia viajando, trovando, desaparecendo e reaparecendo.

Em 1949, já famoso em todo o Rio Grande do Sul, desapareceu de casa e chegou a ser dado como morto na capital. Reapareceu meses depois na fronteira gaúcha — em Alegrete, com problema de paralisia nas pernas, mal conseguindo caminhar, mas com a garganta e a mente em plena forma. Numa comemoração de eleição em Alegrete, foi carregado numa cadeira para se apresentar porque as pernas não sustentavam — mas os versos saíram perfeitos.

1950: Getúlio Vargas e o fim das perseguições

Em 1950, em São Borja, Gildo conheceu Getúlio Vargas e entrou em sua campanha política. O encontro com o presidente mudou o rumo da vida do trovador: as perseguições policiais cessaram. Gildo fez sua primeira viagem ao Rio de Janeiro e começou a sentir o gosto de um Brasil maior do que o Rio Grande.

Entre 1953 e 1954, conquistou fama definitiva como trovador nos programas de rádio ao vivo em Porto Alegre, voltando a morar com a família no Passo d'Areia. Era o começo da lenda.

1955: o encontro com Teixeirinha — parceria, rivalidade e amizade

Em 1955, Gildo de Freitas conheceu Vitor Mateus Teixeira — o Teixeirinha. O encontro entre os dois maiores nomes da música gauchesca foi imediato em identificação. Juntos, passaram a viajar pelo estado, enchendo galpões e praças com uma combinação irresistível: Teixeirinha no violão e Gildo na gaita, dois trovadores capazes de ficar horas no palco sem repetir um verso.

Entre 1956 e 1960, Gildo se tornou a maior atração do programa de rádio Grande Rodeio Coringa, que ia ao ar aos domingos à noite — o programa de entretenimento mais popular do estado. As viagens com Teixeirinha se multiplicavam, e a dupla era tratada como realeza onde quer que chegasse.

A parceria formal terminou em 1959 — mas os dois continuaram se encontrando, cantando juntos e, a partir de 1965, travando a famosa disputa pelos discos: músicas que provocavam, respostas que arrancavam gargalhadas, um duelo de versos que o público adorava e que ambos usavam como ferramenta de marketing . Nos bastidores, a relação era de admiração e amizade genuínas. Como o apresentador Nico Fagundes costumava dizer: nesses desafios, os dois poderiam ficar horas trovando e mesmo assim não se teria um vencedor.

"A rivalidade foi feita em brincadeira — a amizade era de verdade." — memória dos que conviveram com os dois

1963: os discos, o sucesso nacional e a saúde que insistia em falhar

Com o declínio dos programas de rádio ao vivo e a chegada da televisão, Gildo tomou uma decisão surpreendente em 1961: largou a cantoria e foi criar porcos. Mas o destino tinha outros planos. Em 1963, o Teixeirinha gravou uma música de autoria de Gildo — e o nome do trovador voltou à mídia. Em 1963, Gildo viajou a São Paulo para gravar o primeiro disco.

A partir de 1965, o sucesso explodiu no Rio Grande do Sul. Na década de 1970, Gildo já fazia apresentações em todos os estados brasileiros — levando a cultura gaúcha para plateias que nunca tinham visto um trovador de verdade. Em meados de 1964, foi convocado a prestar depoimento sobre suas ligações com o trabalhismo — episódio delicado, num Brasil que vivia sob a ditadura militar.

Em 1977 e 1978, inaugurou em Viamão a Churrascaria Gildo de Freitas, onde também promovia bailões e o famoso Rodeio Gildo de Freitas — onde os peões tinham que provar que eram bons para ficar em cima dos cavalos mais velhacos, como o próprio Gildo exigia.

A saúde, porém, sempre foi um capítulo à parte. Problemas nas pernas e nos pulmões o hospitalizavam com frequência ao longo de toda a carreira. Nos anos 70, as internações se multiplicaram. No disco de 1979, já andava muito doente — por isso trocou a gaita pesada pelo violão mais leve. Mas a voz seguia firme.

Novembro de 1982: a última apresentação — e 4 de dezembro

Em novembro de 1982, Antonio Augusto Fagundes e Ivan Trilha levaram Gildo aos estúdios da RBS TV para uma última aparição pública no Galpão Crioulo. Além do apresentador Nico Fagundes, estavam no palco as gauchinhas missioneiras e Os Serranos. Gildo cantou com a saúde já muito debilitada — mas cantou com o coração na voz, dando o máximo de si em respeito à arte e ao público.

Em 4 de dezembro de 1982, Leovegildo José de Freitas morreu em Porto Alegre, aos 63 anos. O Rei dos Trovadores se foi — mas deixou uma coincidência que parece tirada de uma de suas próprias canções: exatamente três anos depois, em 4 de dezembro de 1985, morreu Teixeirinha. O mesmo dia. A mesma data. Como se o destino quisesse que os dois chegassem juntos à eternidade, assim como tinham chegado juntos aos palcos.

Em homenagem aos dois, a Lei Estadual 8.814/89 instituiu o dia 4 de dezembro como Dia Estadual do Artista Regionalista e Poeta Repentista Gaúcho no Rio Grande do Sul.

"Em novembro cantou pela última vez. Em dezembro, o Rio Grande ficou mais silencioso."

Discografia

Gildo de Freitas gravou 17 LPs entre 1964 e 1982, todos pela Continental e pela Chantecler/Sertanejo — uma das discografias mais extensas da música gauchesca.

1964 - Gildo de Freitas — O Trovador dos Pampas. 1º LP. Clássicos: Acordeona, Baile do Chico Torto, História dos Passarinhos.

1965 - O Trovador dos Pampas — Vida de Camponês. 2º LP. Primeira provocação a Teixeirinha: Baile de Respeito.

1966 - Desafio do Padre e o Trovador. 3º LP. Com o Padre Rubens Pillar. Inclui Definição do Grito.

1968 Gildo de Freitas e Sua Caravana 4º LP. Continua as provocações a Teixeirinha.

1969 De Estância em Estância 5º LP. Inclui Resposta da Milonga, provocação a Milonga da Fronteira.

1970 Gildo de Freitas e Zezinho e Julieta 6º LP. Parceria com dupla caipira.

1970 Rei do Improviso 7º LP. Um dos mais conhecidos. Consolida o título.

1972 Desafio do Paulista e o Gaúcho 8º LP. Desafio interestadual com trovador paulista.

1975 Gildo de Freitas e Seus Convidados 9º LP. Participações especiais.

1975 O Ídolo 10º LP. Coletânea de grandes sucessos.

1976 Gauchada de Sul a Norte 11º LP. Registra a abrangência nacional do artista.

1979 Eu Não Sou Convencido 12º LP. Já no violão — saúde debilitada impede a gaita pesada.

1980 Mais Sucessos 13º LP. Lançado pela Chantecler/Sertanejo.

1981 O Rei dos Trovadores 14º LP. Penúltimo disco em vida. Última provocação ainda acesa.

1982 Figueira Amiga 15º LP. Último disco em vida. Gravado pela Continental. Última aparição nos estúdios.

1984 Lembrando Gildo de Freitas Coletânea póstuma. Lançada dois anos após a morte.

s/d 20 Anos de Glória Compilação comemorativa lançada postumamente.

Principais canções

Prazer de Gaúcho

Velho Casarão

Eu Reconheço que Sou Grosso

Acordeona

História dos Passarinhos

Baile do Chico Torto

Figueira Amiga

Baile de Respeito

Definição do Grito

Resposta da Milonga

Brasil de Bombachas

Gaúchos do Litoral

O legado do Rei — uma trova que o tempo não apaga

Gildo de Freitas construiu sua fama a partir da trova — uma das manifestações folclóricas mais antigas do Rio Grande do Sul. E ao fazê-lo, criou um estilo próprio, consagrado na tradicional afinação Mi Maior de Gavetão, em versos de sextilhas, que até hoje é referência para trovadores de todo o estado.

Sem exagero, pode-se dizer que grande parte da atual música gauchesca tem um pouco — ou muito — de Gildo de Freitas. Sua influência se estende por gerações de compositores, intérpretes e grupos que aprenderam com ele que a trova não é apenas entretenimento: é memória viva de um povo.

O CTG Gildo de Freitas, em Porto Alegre, leva seu nome. O Parque Arroz com Leite, em Viamão, onde a família realizou as comemorações do centenário em 2019, é um dos pontos de encontro dos fãs. E toda vez que um trovador gaúcho improvisa um verso em cima de um palco, Leovegildo está lá — invisível, mas presente, sorrindo daquele jeito irreverente que era só dele.

"Ele fazia verso sobre tudo que vinha em sua mente — e o que vinha era sempre ouro." — memória de quem o viu trovar

Qual é a tua música favorita do Rei dos Trovadores?

Deixa nos comentários — e se tens uma história, uma memória ou uma anedota do Gildo de Freitas, conta para nós. A trova é feita para ser compartilhada. Assim como ele fazia, de palco em palco, de bolicho em bolicho, de fronteira em fronteira.

Também publicamos aqui no Entrevero Xucro o post Teixeirinha e Gildo de Freitas: Uma Amizade que Atravessou a Lenda da Rivalidade — que conta a história dos dois juntos, incluindo a coincidência do 4 de dezembro.

Confira abaixo as vendas Amazon de material do Gildo de Freitas:





terça-feira, 24 de março de 2026

O Chimarrão de Cada Região do RS Não existe um único jeito de tomar mate

Aqui no Entrevero Xucro já falamos sobre a história e a tradição do chimarrão — a origem guarani, os jesuítas, os 10 mandamentos do mate e a legislação que reconhece sua importância cultural (se não leu, confere o post Chimarrão: Tradição,História e Cultura Gaúcha). Mas tem um detalhe que pouca gente para pra pensar: o chimarrão não é igual em todo o Rio Grande do Sul.

A erva muda. A cuia muda. A temperatura muda. O ritual muda. E é exatamente essa diversidade — esse entrevero de jeitos de tomar mate — que faz do chimarrão um espelho perfeito da identidade gaúcha: uma só tradição, mil formas de vivê-la.

"Ofertar o mate é abrir a porta de casa sem precisar abri-la."

Por que o chimarrão varia tanto pelo estado?

O Rio Grande do Sul é um estado de contrastes imensos. A fronteira com o Uruguai e a Argentina ao sul e ao oeste trouxe influências platinas. A colonização alemã e italiana ao norte e na serra criou outros hábitos. As Missões, com a herança guarani, têm sua própria relação com a erva-mate. E o litoral, com o chimarrão tomado de frente para o mar, tem um jeito todo seu de encarar a cuia.

Além da cultura, influenciam também: o clima (no frio serrano a água vai mais quente), o acesso a determinadas marcas e tipos de erva, e as tradições familiares passadas de geração em geração. Nenhum jeito é mais certo que o outro — cada um é legítimo dentro da sua cultura.

O mate de cada rincão do RS

Campanha — o mate da fronteira

Erva preferida: Erva grossa, peneirada, com pouco pó

 Cuia: Cuia grande, de porongo, bem curada

O ritual: Na Campanha, terra de estância e horizonte largo, o chimarrão é parceiro de trabalho. Toma-se no campo, no lombo do cavalo ou à sombra do galpão. A roda é silenciosa — cada um sabe a hora de passar a cuia, sem pressa, sem conversa desnecessária. É o mate contemplativo, companheiro do homem que trabalha sozinho com o pensamento.

 
O sabor: A influência uruguaia aparece aqui: erva mais grossa, menos pó, água um pouco menos quente que no restante do estado. O sabor é mais suave, levemente adocicado pelo tipo de processamento da erva da fronteira.

Missões — o mate da herança guarani

Erva preferida: Erva nativa, às vezes misturada com ervas da mata

 Cuia: Cuia de porongo pequena, ou cuia de madeira

O ritual: No noroeste do estado, onde as ruínas jesuítico-guaranis marcam a paisagem, o chimarrão carrega a memória de um povo. Os guaranis já consumiam a erva-mate antes dos europeus chegarem — e essa história viva se sente em cada roda de mate nas Missões. Toma-se devagar, com respeito ao silêncio e à história.

 O sabor: A erva da região de Santo Ângelo, Ijuí e arredores tende a ser mais verde e fresca, com notas herbáceas pronunciadas. O sabor é mais intenso, com um amargor limpo que os mateiros do noroeste apreciam sem adições.

Serra Gaúcha — o mate do frio

Erva preferida: Erva com bastante pó, bem moída

Cuia: Cuia menor, de porongo ou sintética, muito bem vedada

O ritual: Na Serra, onde o inverno morde de verdade e a neblina cobre as vinhas de manhã cedo, o chimarrão é quase medicinal — é o que aquece o corpo antes do trabalho na lavoura. A influência italiana e alemã criou um jeito mais prático de tomar mate: sem muita cerimônia, mas sem abrir mão da qualidade.

 O sabor: Água bem quente — mas nunca fervendo — e erva bem moída, com bastante pó. O resultado é um mate mais encorpado, espesso, de sabor pronunciado e cor bem verde. É o chimarrão que sustenta até o almoço.

 Litoral — o mate da praia

Erva preferida: Erva mais leve, às vezes com ervas aromáticas

 Cuia: Cuia de porongo, garrafa térmica sempre do lado

O ritual: Quem nunca viu alguém tomando chimarrão na beira da praia das Dunas, do Cassino ou da Praia do Rosa nunca entendeu a extensão do hábito gaúcho. No litoral, o mate vai junto para tudo — para a pescaria de madrugada, para a caminhada na areia, para a tarde de sol. A garrafa térmica é companheira inseparável.

 O sabor: A erva do litoral tende a ser mais suave, às vezes com misturas de hortelã ou erva-cidreira — uma influência da proximidade com Santa Catarina e do jeito mais despretensioso de consumir. O mate é bebido sem cerimônia, mas com muito afeto.

Planalto e Alto Uruguai — o mate da colônia

Erva preferida: Erva média, com equilíbrio de pó e folha

 Cuia: Cuia de porongo média, bem curada com banha ou óleo

O ritual: Na região de Passo Fundo, Erechim e ao longo do Alto Uruguai — terra de colonização italiana, alemã e cabocla —, o mate é o centro da vida social. É na roda de chimarrão que se fecha negócio, que se resolve questão de família, que se conta a novidade da vizinhança. A cuia não para de circular.

 O sabor: O planalto gaúcho tem uma das maiores concentrações de produtores de erva-mate do estado, e isso aparece no copo: a erva é fresca, bem processada, com um equilíbrio entre amargor e dulçor que agrada desde o mateiro de primeira viagem até o mais exigente.

A temperatura da água — o segredo que pouca gente fala

Muito se fala da erva, da cuia e da bomba. Mas o grande segredo de um bom chimarrão está na água — e a temperatura ideal varia não só por gosto pessoal, mas pela região e pelo tipo de erva.

Muito quente: Acima de 85°C - Queima a erva, amarga demais, perde aromas finos — o chamado chimarrão "lavado"

Ideal — clássico: 70°C a 80°C - Extrai os melhores compostos da erva, sabor equilibrado, boa durabilidade da cuia

Morno: 55°C a 70°C - Sabor mais suave, menos amargo — preferido por quem está começando ou tem o estômago sensível

Tererê (frio): Temperatura ambiente - Mate frio com água ou suco — tradição no Mato Grosso do Sul, mas ganhando espaço no RS no verão

A cuia — mais do que um recipiente, um objeto de cultura

A cuia de porongo é um patrimônio em si. Feita do fruto da cuieira (Lagenaria siceraria), ela precisa ser curada antes de usar — um ritual que os mais velhos levam muito a sério e que os jovens estão redescobrindo.

Como curar uma cuia nova:

         Enche a cuia com erva-mate usada e úmida até a borda

         Deixa descansar por 24 horas

         Esvazia, raspa levemente o interior com a bomba e repete o processo por mais 2 a 3 dias

         Só então a cuia está pronta — impermeabilizada pela própria erva e com o sabor equilibrado

Hoje existem cuias de silicone, de vidro, de inox, de bambu e de madeira — cada uma com seus defensores. Mas para o mateiro de raiz, nada substitui o porongo bem curado, aquecido pelas mãos e pelo tempo.

A erva — o coração do mate e as diferenças entre marcas

O Rio Grande do Sul tem uma relação apaixonada com a erva-mate. O estado é o segundo maior produtor brasileiro, com destaque para as regiões do Alto Uruguai e do Planalto. Mas a erva que vai na cuia gaúcha vem de vários lugares — e as diferenças são reais.

Erva jovem vs. erva envelhecida:

         Erva jovem: mais verde, mais amarga, com sabor pronunciado e bastante espuma. Preferida pelos que gostam de mate forte.

         Erva envelhecida (em balaio por 12 a 24 meses): mais suave, com sabor mais amadeirado e menos amargor. Preferida por quem toma mate durante o dia todo.

Um detalhe que poucos sabem: a erva-mate é parente próxima do azevinho europeu, e a espécie Ilex paraguariensis só cresce naturalmente na Bacia do Prata — o que faz do chimarrão gaúcho um produto genuinamente regional, impossível de ser replicado com a mesma identidade em outro lugar do mundo.

A erva-mate é a única planta com cafeína nativa do continente americano — um presente dos guaranis para o mundo.

O que a ciência diz sobre o chimarrão

Nos últimos anos, pesquisas sobre a erva-mate se multiplicaram e os resultados animam os mateiros. Entre os benefícios estudados e já bem documentados:

         Ação antioxidante: a erva-mate tem concentração de polifenóis comparável ao chá verde

         Estímulo suave: a combinação de cafeína e teobromina da erva dá energia sem o pico e a queda do café

         Efeito termogênico: auxilia no metabolismo — estudado para uso em suplementos esportivos

         Saúde cardiovascular: estudos indicam redução do colesterol LDL com consumo regular moderado

         Atenção: o consumo em temperatura muito alta (acima de 65°C de forma contínua) é associado a risco aumentado de câncer de esôfago — deixa a água esfriar um pouco antes de tomar

Qual é o teu mate?

De que região és? Como é o teu chimarrão — erva grossa ou fina, cuia grande ou pequena, água bem quente ou morna? Conta nos comentários. Porque o chimarrão não é uma bebida — é uma conversa que nunca termina.

E se quiseres saber mais sobre a história completa do chimarrão — origem guarani, os jesuítas, os 10 mandamentos do mate e a legislação — lê o nosso post Chimarrão: Tradição, História e Cultura Gaúcha, publicado em abril de 2025 aqui no Entrevero Xucro.

Abaixo, temos uma variedade de sugestões de artigos gaúchos para o mate na Amazon, confira algumas, inclusive as contestadas cuias stanley, o que tu acha disso? só clicar no produto que tu és direcionado para a Amazon.


Kit mate

A tal cuia stanley

                    


Uruguaia

sábado, 21 de março de 2026

Por que o estatuto do teu CTG pode estar te prejudicando sem tu saber

Puxa o mate e vem comigo nessa charla.

Tu chegas no galpão, a invernada está ensaiando, o cheiro de churrasco já tomou conta do ar, o salão está cheio de gente boa. O CTG está vivo. Está de pé. Está cumprindo seu papel.

Mas lá na gaveta — ou numa pasta empoeirada no armário da secretaria — tem um documento que ninguém abre há anos. Um documento que pode estar, silenciosamente, colocando tudo isso em risco.

O estatuto social do teu CTG.

O que é o estatuto e por que ele importa tanto?

O estatuto é a lei interna do CTG. É ele que define quem manda, como se decide, quem pode ser sócio, como se faz uma eleição, o que acontece com o patrimônio se a entidade fechar.

Sem um estatuto atualizado e bem feito, o CTG fica vulnerável. Não de um jeito visível, como uma goteira no telhado. De um jeito silencioso — que só aparece quando a crise já chegou.

E aí já é tarde.

Os sinais de que o estatuto do teu CTG está desatualizado

Responde com honestidade: Quando foi a última vez que o estatuto foi atualizado e registrado em cartório?

Se a resposta for "mais de 5 anos atrás" — ou pior, "não sei" — é quase certo que tem coisa errada ali.

Veja os problemas mais comuns que encontro nos CTGs da nossa região:

1. O Patrão não tem prazo de mandato definido

É mais comum do que parece. O estatuto diz algo vago como "o Patrão exercerá o cargo enquanto contar com a confiança da assembleia" — sem prazo fixo, sem regra clara de renovação.

O resultado? O CTG vira refém de uma pessoa. Quando ela vai embora — por doença, desentendimento ou cansaço — ninguém sabe como assumir. A entidade trava.

2. O Conselho Fiscal não existe ou não tem função definida

O Conselho Fiscal é o órgão que fiscaliza as finanças do CTG de forma independente da diretoria. É obrigatório por lei para associações.

Mas em muitos estatutos, ele aparece apenas no papel — sem composição definida, sem prazo de reunião, sem obrigação de emitir parecer. Na prática, não existe.

Isso significa que ninguém fiscaliza as contas de forma independente. Qualquer desvio, intencional ou não, pode passar despercebido por anos.

3. As regras de assembleia não cabem mais na realidade

Estatutos antigos exigem convocação por edital no jornal local, reunião presencial com quórum de dois terços dos sócios, votação apenas por voto físico. Tenta reunir dois terços dos sócios de um CTG grande numa quinta-feira à noite. Boa sorte.

O resultado prático: assembleias que não atingem quórum, decisões tomadas informalmente, aprovações que não têm validade jurídica.

4. Nenhuma menção à LGPD

A Lei Geral de Proteção de Dados existe desde 2020. Todo CTG que coleta nome, CPF, endereço e dados de sócios está obrigado a cumpri-la.

Um estatuto de 2012 obviamente não menciona isso. E aí o CTG opera em irregularidade sem saber — com risco de multa e de processos por parte de sócios.

5. A cláusula de dissolução está errada ou ausente

A lei exige que o estatuto defina o que acontece com o patrimônio do CTG em caso de dissolução. Muitos estatutos antigos não têm isso — ou têm de forma incorreta.

Isso pode inviabilizar o registro de alterações no cartório, bloquear financiamentos e até impedir que o CTG participe de editais públicos.

"Mas o nosso CTG funciona bem assim há anos..."

Eu sei. E é exatamente por isso que o problema é traiçoeiro.

O estatuto ruim não atrapalha o dia a dia. O churrasco acontece, os ensaios seguem, os eventos lotam. A vida do CTG continua.

Ele atrapalha nos momentos de crise:

Quando dois grupos disputam a direção e não há regra clara de desempate

Quando um Patrão morre ou adoece e ninguém sabe legalmente quem assume

Quando alguém questiona uma decisão financeira e não há registro formal de aprovação

Quando o CTG tenta abrir conta bancária nova e o banco exige documentos atualizados

Quando chega uma oportunidade de financiamento e a entidade está irregular

Nessas horas, o estatuto empoeirado vira um problema enorme — e às vezes irreversível.

Por onde começar

A boa notícia é que atualizar o estatuto não precisa ser um bicho de sete cabeças. Com o apoio certo, dá pra fazer em dois a três meses, de forma participativa, sem traumatizar a diretoria.

O caminho básico é:

1. Localizar o estatuto atual e verificar a data do último registro em cartório

2. Comparar com a legislação vigente — especialmente o Código Civil (artigos 53 a 61) e as resoluções da MTG

3. Identificar os pontos que precisam de atualização

4. Elaborar a minuta do novo estatuto com apoio jurídico

5. Convocar Assembleia Geral Extraordinária para aprovação

6. Registrar em cartório

Simples na teoria — mas é onde a maioria dos CTGs trava, porque ninguém na diretoria tem tempo, conhecimento ou energia pra conduzir esse processo sozinho.

Uma pergunta pra ti

Quando foi a última vez que alguém da tua diretoria abriu o estatuto do CTG pra ler?

Se a resposta te deixou desconfortável, é um bom sinal. Significa que tu já sabes por onde começar.

Nos próximos meses vou trazer mais conteúdo sobre gestão prática para CTGs — finanças, eventos, captação de sócios — sempre com respeito pela tradição e pela realidade de quem vive o galpão de dentro.

Se esse assunto mexeu contigo, compartilha com o Patrão ou o Capataz do teu CTG. Pode ser que eles precisem ler isso hoje.


Até o próximo chimarrão.

Escrito por Rodrigo Silva — gestor público, especialista em gestão de manutenção industrial e apaixonado pela cultura gaúcha. Ajudo CTGs a ficarem mais fortes por dentro para durarem muito mais por fora.

terça-feira, 17 de março de 2026

Agenda cultural - Festivais nativistas de março e abril

2026 é um ano histórico para a música gaúcha. São mais de 100 festivais nativistas programados no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina — o maior calendário dos últimos anos. E ainda tem um motivo especial para quem é das Missões: as celebrações dos 400 Anos das Missões Jesuítico-Guaranis colorem de história e emoção cada palco, cada música, cada premiação. Aqui no Entrevero Xucro, reunimos todos os festivais de março (a partir desta sexta) e abril para tu não perderes nenhum.

MARÇO DE 2026

O festival mais importante do mês — e um dos mais importantes do estado, o 17º Canto Missioneiro da Música Nativa nos dias 26, 27 e 28 de março na Praça Pinheiro Machado (em frente à Catedral Angelopolitana) de Santo Ângelo/RS.

Um dos festivais mais tradicionais e importantes da música missioneira gaúcha, o Canto Missioneiro chega à sua 17ª edição com uma carga simbólica enorme: o troféu principal homenageia Cenair Maicá, e toda a programação integra as celebrações dos 400 Anos das Missões Jesuítico-Guaranis. O festival acontece integrado ao Conecta Missões — semana de painéis, feiras, gastronomia e cultura que movimenta Santo Ângelo de 26 a 29 de março.

Programação artística:

Quinta (26/03) — Coral Guarani, Os Bilias e Elerson Louz Gottardo.

Sexta (27/03) — Família Maicá e Os Fagundes.

Sábado (28/03) — Hermanos Guedes.

Categorias premiadas no 17º Canto Missioneiro:

- 1º lugar: R$ 7.000 + Troféu Cenair Maicá

- 2º lugar: R$ 5.000 + Troféu Tio Bilia

- 3º lugar: R$ 4.000 + Troféu Cindinho Medeiros

- Melhor Intérprete, Melhor Letra, Melhor Tema Missioneiro, Melhor Indumentária, Música Mais Popular

Canto Piá Missioneiro (juvenil) — também no dia 21 de março:

- 1º lugar: R$ 700 | 2º lugar: R$ 500 | 3º lugar: R$ 300 — todos com troféu

13ª Vertente da Canção Nativa

De 20 e 21 de março em Piratini/RS

Festival tradicional do sul do estado, na histórica Piratini — a Cidade dos Presidentes. A Vertente reúne composições inéditas com forte apelo lírico e regional, num cenário de muita história gaúcha.

No mesmo fim de semana ocorre a 3ª Vertentinha (21/03), categoria infantojuvenil — uma excelente opção para levar a gurizada.

19º Canto da Lagoa

27, 28 e 29 de março em Encantado/RS

Realizado em Encantado, no Vale do Taquari, o Canto da Lagoa é um festival consolidado no calendário nativista gaúcho, conhecido pela qualidade das composições e pelo ambiente acolhedor que reúne músicos e apreciadores da música regional.

No dia 28 ocorre o Canto da Lagoa Juvenil — incentivo a novos talentos da música nativa.

Dica do Entrevero Xucro: Se fosses escolher apenas um festival em março, vai ao Canto Missioneiro em Santo Ângelo. Em 2026, com a homenagem aos 400 Anos das Missões e o troféu Cenair Maicá, será uma noite histórica para a música gaúcha.


ABRIL DE 2026

Quatro festivais espalhados pelo estado, do extremo sul à fronteira com o Uruguai e de volta ao noroeste missioneiro.

5ª Tropeada da Canção Nativa

3 e 4 de abril em Santana do Livramento/RS

Na fronteira com o Uruguai, em Santana do Livramento — cidade de fronteira seca com Rivera —, a Tropeada da Canção Nativa reúne a música que vem dessa mistura única de culturas: gaúcha, uruguaia, e a herança platina que define o pampa do extremo oeste gaúcho. Um festival jovem, mas com muito futuro.

Fronteira viva: a influência uruguaia e argentina na música da Tropeada é algo único no calendário nativista.

6º Cordeiraço da Canção Nativa

11 de abril em Santa Margarida do Sul/RS

Pequeno município da região das Missões, Santa Margarida do Sul recebe o Cordeiraço — festival que valoriza a música de raiz e a tradição missioneira. No dia seguinte, 12 de abril, ocorre o 3º Cordeiraço Mirim, mostrando o compromisso do evento com as novas gerações.

Em dois dias seguidos: o Cordeiraço (adultos) no sábado 11 e o Cordeiraço Mirim (crianças e jovens) no domingo 12.

19ª Jerra da Canção Nativa

17, 18 e 19 de abril em Santa Vitória do Palmar/RS

No extremo sul do Rio Grande do Sul, quase na fronteira com o Uruguai, Santa Vitória do Palmar recebe a Jerra — um dos festivais mais longevos do calendário nativista do estado. O nome do festival já diz tudo: jerra é o ato de marcar o gado, de imprimir identidade. É exatamente isso que a música gaúcha faz com quem a ouve.

Santa Vitória do Palmar fica próxima à Lagoa Mirim e ao Chuí — um roteiro cultural e de ecoturismo para quem for ao festival.

Querência do Bugio — 16º Aparte

30 de abril a 2 de maio em São Francisco de Assis/RS

Atravessando a virada de abril para maio, o Aparte de São Francisco de Assis é um dos festivais mais queridos do calendário gaúcho. A Querência do Bugio tem nome e personalidade: o bugio, o macaco ruivo dos capões e beiras de arroio gaúcho, é símbolo de uma natureza que resiste — assim como a música nativista.

Festival de virada: começa em abril e encerra em maio — um dos poucos com essa característica no calendário.

Dica do Entrevero Xucro: A Jerra em Santa Vitória do Palmar é uma das experiências mais completas — festival de qualidade no extremo sul do estado, com a paisagem única da Lagoa Mirim como pano de fundo.

Resumo Geral — Todos os Festivais de Março e Abril

 Data | Festival | Cidade/RS | Região |

| 20-21/03 | 13ª Vertente da Canção Nativa | Piratini | Sul |

| 21/03 | 3ª Vertentinha (juvenil) | Piratini | Sul |

| 21/03 | 16º Canto Piá Missioneiro | Santo Ângelo | Missões |

| 26-28/03 | 17º Canto Missioneiro ⭐ | Santo Ângelo | Missões |

| 27-29/03 | 19º Canto da Lagoa | Encantado | Vale do Taquari |

| 28/03 | Canto da Lagoa Juvenil | Encantado | Vale do Taquari |

| 03-04/04 | 5ª Tropeada da Canção Nativa | Santana do Livramento | Fronteira Oeste |

| 11/04 | 6º Cordeiraço da Canção Nativa | Sta. Margarida do Sul | Missões |

| 12/04 | 3º Cordeiraço Mirim | Sta. Margarida do Sul | Missões |

| 17-19/04 | 19ª Jerra da Canção Nativa ⭐ | Santa Vitória do Palmar | Sul |

| 30/04-02/05 | 16º Aparte — Querência do Bugio | São Francisco de Assis | Fronteira Oeste |

Destaque da edição

Vai a algum festival? Conta pra nós!**

Se vais a algum desses festivais, deixa nos comentários — adoramos saber qual é a tua praça nativista preferida. E se tens fotos dos festivais anteriores, compartilha! A memória da música gaúcha se constrói junto.

As informações deste guia foram compiladas a partir da Agenda Nativista 2026 do blog Ronda dos Festivais (Jairo Reis), aqui tu tens além da agenda completa todas as notícias sobre os festivais, do Portal da Tradição e da Secretaria da Cultura do RS. Datas podem sofrer alterações — confirma sempre nos canais oficiais dos festivais antes de viajar.

Sabe de mais informações? Deixa nos comentários:

segunda-feira, 16 de março de 2026

Dicionário Gaudério - Xucro

XUCRO o que e bravio, indomável e autêntico, a essência do pampa gaucho.

Tu sabes o que significa XUCRO?

Adjetivo. No universo gaúcho, xucro é o animal que ainda não foi domado, o potro que nunca sentiu o peso de uma sela, a terneira que foge do laço, o touro que ninguém ainda ousou laçar ou encerrar na mangueira. Mas a palavra vai muito além do campo: virou sinônimo de tudo que é bruto, selvagem, autêntico, sem máscara.

Chamar alguém de xucro no Rio Grande do Sul pode ser um elogio disfarçado. É reconhecer que aquela pessoa tem fibra, que não foi amansada pelo mundo, que guarda em si algo genuíno e difícil de domar. É a marca de quem veio do chão, do vento e da lida.

"Aquele guri é xucro feito potro novo — não obedece ninguém, mas tem coragem de sobra."

A origem da palavra xucro é debatida entre os estudiosos do gaúchês. Uma linha aponta para o tupi-guarani çukuru, que designava animal feroz ou indomável. Outra corrente liga a palavra ao espanhol platino chúcaro, de mesma raiz semântica, muito usado no Uruguai e na Argentina para o animal não domado.

O certo é que a palavra chegou ao pampa gaúcho pela mistura de culturas que define essa região, indígena, ibérica, africana e se fixou no vocabulário com uma força que o tempo não apagou. Hoje, mais de dois séculos depois, ela ainda soa verdadeira na boca de qualquer gaúcho.

Como se usa no dia a dia?

O xucro aparece em múltiplos contextos, sempre carregando essa ideia de algo não domesticado:

No campo: Esse cavalo está xucro ainda, não chegou a vez da doma.

Para pessoas: É xucro o homem, mal chegou na cidade e já quer voltar pro interior.

Com carinho: Meu filho é um xucro igual ao pai, teimoso, mas de palavra.

Como identidade: Sou xucro e tenho orgulho, não fui criado em tapete, fui criado no campo.

Não é à toa que o nome deste blog carrega a palavra. Entrevero Xucro é uma declaração: aqui o conteúdo não é domesticado para agradar a todos. É bruto, autêntico e do pampa — do jeito que a cultura gaúcha merece ser contada.

Xucro e a doma: o maior rito do pampa

Entender o xucro é entender a doma, o ritual mais simbólico da cultura gaúcha. Domar um animal xucro não é quebrá-lo. O domador habilidoso não busca destruir o espírito bravio do animal: busca estabelecer uma parceria, um respeito mútuo entre duas criaturas livres que decidem trabalhar juntas.

Por isso o xucro é valorizado, não temido. Um animal que nunca foi xucro, que nasceu já mansinho demais, não tem a mesma força, o mesmo fôlego, a mesma garra de quem precisou ser conquistado. A bravura inicial é o que garante a qualidade final.

"Cavalo que nunca foi xucro nunca vai ser bom de campo, precisa ter o fogo antes de ter o freio."

O xucro na música e na poesia gaúcha

A palavra xucro atravessa décadas de música nativista e poesia gauchesca como um fio dourado. Compositores usam o xucro para falar de liberdade, de resistência, de identidade. É o gaúcho que não se curva, o pampa que não se deixa cercar, a tradição que não se deixa apagar pelo tempo.

Nos festivais de música nativista — da Califórnia da Canção Nativa ao Canto de Primavera — o universo do xucro aparece em metáforas, em imagens, em versos que celebram justamente o que não foi domado: o vento, o gaudério, a saudade, o pampa infinito.

Palavras da mesma família

Xucrada: conjunto de animais xucros, ou grupo de pessoas bravas e indômitas. Chegou a xucrada, prepara o laço.

Xucrez / Xucreza: o estado de ser xucro, a bravura natural. A xucreza daquele potro e impressionante.

Xucrar: verbo usado regionalmente para tornar-se bravio, fugir do domínio, agitar-se. O rebanho xucrou com a trovoada.

Tem algo de xucro em ti?

O pampa ensina que o mais valioso não é o que foi polido e domesticado — é o que manteve sua essência mesmo depois de tudo. Se tens algo de xucro em ti, cuida bem disso. É teu bem mais precioso.

Conta nos comentários: o que é xucro na tua vida? E se conheces outra palavra gaúcha que merece entrar no Dicionário Gaudério, deixa aqui a sugestão.

Série: Dicionário Gaudério - EP: Xucro
Acesse: entreveroxucro.blogspot.com




sábado, 14 de março de 2026

Capitais Gaúchas: os Títulos que o Rio Grande do Sul Carrega com Orgulho

O Rio Grande do Sul é campeão em títulos. Não só nos campos de futebol — mas nas leis e decretos que consagram suas cidades como capitais de produtos, tradições, atividades e identidades culturais. São dezenas de municípios gaúchos que carregam com orgulho reconhecimentos nacionais, estaduais e até informais, que contam um pouco da alma de cada canto do estado. A lista é longa, curiosa e, muitas vezes, surpreendente. Confira:

Alegrete — Capital Nacional da Linguiça Campeira | Lei Federal 15.021/2025

Ametista do Sul — Capital Nacional da Pedra Preciosa de Ametista | Projeto de Lei Federal 5617/2019 (em tramitação); reconhecida popularmente como Capital Mundial da Pedra Ametista

Antônio Prado — Capital Nacional da Massa e Cidade Mais Italiana do Brasil | Projeto de Lei Federal 2613/2019 (em tramitação)

Arvorezinha — Capital Nacional da Erva-Mate e do Melhor Chimarrão | Reconhecimento popular

Bagé — Capital Nacional da Criação de Cavalos da Raça Puro-Sangue Inglês | Lei Federal 14.571/2023; Capital Estadual do Cavalo Crioulo | Lei Estadual 13.771/2011

Bento Gonçalves — Capital Estadual do Vinho | Lei Estadual 10.852/1996; Capital Brasileira da Uva e do Vinho | Projeto de Lei Federal 3869/2025 (em tramitação); Capital Nacional da Indústria Moveleira | Projeto de Lei Federal 6515/2019 (em tramitação); reconhecida popularmente como Capital Brasileira das Parreiras

Bom Jesus — Capital Nacional do Tropeirismo | Projeto de Lei Federal 98/2015 (em tramitação)

Bom Princípio — Capital Estadual do Moranguinho | Lei Estadual 15.636/2021

Caçapava do Sul — Capital Gaúcha da Geodiversidade | Lei Estadual 14.708/2015

Cachoeira do Sul — Capital Estadual do Arroz | Lei Estadual 15.334/2019; Capital Nacional do Laço Feminino | Projeto de Lei Federal 3862/2019 (em tramitação)

Candiota — Capital Nacional do Carvão Mineral | Reconhecimento popular

Canela — Capital Nacional dos Parques Temáticos | Projeto de Lei Federal 4852/2020 (em tramitação)

Cândido Godói — Capital Mundial dos Gêmeos | Reconhecimento popular e internacional (cidade possui a maior taxa de nascimentos gemelares do mundo)

Canguçu — Capital Nacional da Agricultura Familiar | Projeto de Lei Federal 6408/2016 (em tramitação)

Canoas — Cidade do Avião | Lei Estadual 15.658/2021; Cidade Referência do Típico Xis Gaúcho | Lei Municipal 5.990/2016

Carlos Barbosa — Capital Nacional do Futsal | Lei Federal 13.503/2017

Carazinho — Capital do Galeto com Massa | Reconhecimento popular (com lei municipal que institui o prato como comida típica do município)

Casca — Capital Gaúcha do Leite | Reconhecimento popular (maior produção de leite do estado conforme dados do IBGE)

Caxias do Sul — Capital Nacional do Voluntariado | Lei Federal 13.560/2017; Capital Estadual dos CTGs | Lei Estadual 15.630/2021; Capital Brasileira das Parreiras | Reconhecimento popular

Dom Pedrito — Capital da Paz | Reconhecimento histórico (o Tratado de Paz da Revolução Farroupilha foi assinado no distrito de Ponche Verde, em Dom Pedrito)

Eldorado do Sul — Capital Estadual da Agricultura Familiar | Reconhecimento estadual/popular

Encruzilhada do Sul — Capital Nacional do Azeite de Oliva | Projeto de Lei Federal 2080/2021 (em tramitação)

Erechim — Capital Nacional do Rally | Projeto de Lei Federal 4273/2020 (em tramitação); Capital da Amizade | Reconhecimento popular

Esteio — Capital Nacional da Solidariedade | Lei Federal 14.425/2022; Capital Nacional da Expointer | Lei Federal 15.008/2024

Fagundes Varela — Capital Estadual do Torresmo | Lei Estadual 16.319/2025

Farroupilha — Capital Nacional do Moscatel | Lei Federal 13.784/2018

Feliz — Capital Estadual da Cerveja Artesanal | Lei Estadual 14.697/2015

Flores da Cunha — Capital Nacional da Vindima e maior produtora de vinhos do estado | Reconhecimento popular/setorial

Garibaldi — Capital Nacional do Espumante | Projeto de Lei Federal 9.692/2018 (aprovado na Comissão de Cultura da Câmara em 2025; aguarda CCJ e Senado)

Gramado — Capital Nacional do Chocolate Artesanal e Capital Nacional do Cinema | Lei Federal 14.120/2021

Guabiju — Capital Nacional do Guabiju | Lei Federal 14.862/2024; Capital Estadual do Guabiju | Lei Estadual 15.310/2019

Igrejinha — Capital Estadual do Voluntariado | Lei Estadual 15.340/2019; Capital Nacional do Voluntariado | Projeto de Lei Federal 5897/2019 (em tramitação)

Ijuí — Capital Nacional de Etnias | Lei Federal 14.280/2021

Ipê — Capital Nacional da Agricultura Ecológica | Lei Federal 12.238/2010

Lagoa Vermelha — Capital Nacional do Churrasco | Lei Federal 14.806/2024; Capital Nacional da Dança da Chula | Lei Federal 14.957/2024

Lindolfo Collor — Capital dos Tapetes de Couro | Lei Estadual 13.967/2012

Maquiné — Capital Nacional do Verde e Terra das Cascatas | Projeto de Lei Federal 404/2022 (em tramitação)

Montenegro — Capital Estadual e Berço da Bergamota Montenegrina | Lei Estadual 15.288/2019

Não-Me-Toque — Capital Nacional da Agricultura de Precisão | Lei Federal 12.087/2009; Capital Nacional da Agricultura | Lei Federal 12.081/2009

Nova Bréscia — Terra dos Churrasqueiros e Capital Nacional da Mentira | Lei Estadual 13.010/2008

Nova Petrópolis — Capital Nacional do Cooperativismo | Lei Federal 12.234/2010

Nova Santa Rita — Capital Estadual do Polo de Produção de Morangos | Reconhecimento estadual/popular

Novo Hamburgo — Capital Nacional do Calçado | Lei Federal 13.399/2016

Palmeira das Missões — Capital Berço da Erva-Mate | Projeto de Lei Federal 1499/2019 (em tramitação)

Passo Fundo — Capital Nacional da Literatura | Lei Federal 11.264/2006

Pelotas — Capital Nacional do Doce | Lei Federal 14.867/2024

Pinheiro Machado — Capital Nacional do Churrasco de Ovelha | Reconhecimento popular (sede da Feovelha, maior feira de ovinos do estado)

Pinto Bandeira — Capital Estadual do Pêssego de Mesa | Lei Estadual 15.341/2019

Piratini — Capital Simbólica do Rio Grande do Sul (Capital Farroupilha) | Lei Estadual 16.275/2025

Porto Alegre — Capital Mundial do Churrasco | Projeto lançado pela Prefeitura em 2022 (em andamento)

Rio Grande — Capital Nacional das Águas | Lei Federal 14.746/2023; Capital Mais Longeva do Futebol Brasileiro | Projeto de Lei Federal 4585/2021 (em tramitação)

Rolante — Capital Estadual das Cucas | Lei Estadual 15.820/2022; Capital Estadual do Bitcoin | Lei Estadual 16.312/2025; Capital Nacional da Cuca | Projeto de Lei Federal 9530/2018 (em tramitação)

Sant'Ana do Livramento — Capital Nacional da Ovelha | Lei Federal 15.110/2025

Santa Maria — Capital do Xis | Reconhecimento popular

Santa Rosa — Berço Nacional da Soja | Lei Federal 14.349/2022

Santo Antônio da Patrulha — Terra da Cachaça, do Sonho e da Rapadura | Lei Estadual 14.591/2014; Capital Nacional da Rapadura | Reconhecimento popular

Santo Ângelo — Capital das Missões | Reconhecimento popular

São Borja — Terra dos Presidentes | Lei Estadual 13.041/2008; Capital Gaúcha do Fandango | Lei Estadual 15.093/2018

São Gabriel — Capital Nacional do Arroz | Lei Federal 13.442/2017; Terra dos Marechais | Reconhecimento popular

São Leopoldo — Berço da Colonização Alemã no Brasil | Lei Federal 12.394/2011

São Luiz Gonzaga — Capital Estadual do Carreteiro | Lei Estadual 15.664/2021; Capital Estadual da Música Missioneira | Lei Estadual 14.123/2012

São Paulo das Missões — Capital Nacional do Jogo de Barril | Reconhecimento popular

Serafina Corrêa — Capital Nacional do Talian | Título conferido em 2015 (reconhecimento popular e institucional; o Talian é patrimônio imaterial do RS pela Lei Estadual 13.178/2009 e idioma cooficial do município pela Lei Municipal 2.615/2009)

Soledade — Capital Nacional das Pedras Preciosas | Lei Federal 15.217/2025

Teutônia — Capital Nacional do Canto Coral | Lei Federal 13.563/2017

Torres — Capital Nacional do Balonismo | Projeto de Lei Federal 9073/2017 (em tramitação)

Três Coroas — Capital Gaúcha do Rafting | Reconhecimento popular

Três Passos — Capital Nacional do Lambari | Lei Federal 14.512/2022

Turuçu — Capital Nacional da Pimenta Vermelha | Reconhecimento popular

Vacaria — Capital Nacional dos Rodeios Crioulos | Lei Federal 15.016/2024; Capital Gaúcha das Gincanas Culturais | Lei Estadual 15.159/2018

Venâncio Aires — Capital Estadual do Chimarrão | Lei Estadual 13.111/2009

Veranópolis — Terra da Longevidade | Reconhecimento popular e científico (certificada pela OMS como Cidade Amiga do Idoso em 2016); Berço Nacional da Maçã | Reconhecimento popular

Vicente Dutra — Capital Estadual da Cuia | Lei Estadual 15.777/2021

Victor Graeff — Capital Estadual da Cuca com Linguiça | Lei Estadual 15.693/2021

Vila Flores — Capital Nacional do Filó Italiano | Projeto de Lei Federal 4830/2016 (em tramitação)

Com mais de 90 municípios ostentando algum tipo de título — oficial por lei federal, estadual, municipal ou por reconhecimento popular — o Rio Grande do Sul é provavelmente o estado brasileiro com mais "capitais" por quilômetro quadrado. Cada título conta uma história: de colonização, de produção, de cultura, de bravura e, claro, de muito orgulho gaúcho.

Confira algumas curiosidades dessas capitais:

Nova Bréscia tem dois títulos curiosíssimos na mesma lei estadual: Terra dos Churrasqueiros e Capital Nacional da Mentira, por causa do tradicional Festival da Mentira realizado no município. Um caso único no estado — e talvez no Brasil.

Cândido Godói não tem lei, mas sua fama é mundial. A cada 100 nascimentos, cerca de 10 são de gêmeos — uma taxa dez vezes acima da média brasileira, estudada por pesquisadores da UFRGS há mais de 30 anos.

São Borja aparece com dois títulos por lei: Terra dos Presidentes (Getúlio Vargas e João Goulart nasceram lá) e Capital Gaúcha do Fandango.

Lagoa Vermelha é duplamente consagrada por lei federal: Capital Nacional do Churrasco (2024) e Capital Nacional da Dança da Chula (2024).

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quinta-feira, 12 de março de 2026

Biografia Gaúcha - Cenair Maicá

Das barrancas do Rio Uruguai para o mundo

Conhecido como o Poeta do Pampa, a voz que fez as Missões cantarem para o mundo. Cenair Maicá nasceu em 3 de maio de 1947, na localidade de Águas Frias, no que hoje é o município de Tucunduva — então distrito de Santa Rosa, no noroeste do Rio Grande do Sul. Cresceu numa região de fronteira viva, onde o Brasil, a Argentina e o Paraguai se encontram nas águas do Rio Uruguai e nas memórias dos povos guaranis.

Desde pequeno, Cenair viveu essa mistura. Estudou na cidade de Oberá, na província argentina de Misiones, e ali aprendeu os primeiros acordes no violão, conheceu aspectos da cultura guarani e absorveu a música platina que mais tarde daria cor especial ao seu trabalho. Era um menino de fronteira — e essa fronteiridade seria a marca mais profunda de toda a sua arte.

De volta ao Brasil, foi para Santo Ângelo, onde passaria a maior parte da vida. Ali, aos 10 anos, já se apresentava em público ao lado do irmão Adelque, formando a dupla Irmãos Maicá. Tocavam nas rádios e nos bailes da região — dois guris cheios de talento e uma música que ainda mal sabia o tamanho que ia tomar.

"Se meu destino é cantar, eu canto." — Cenair Maicá

1966: o manifesto que mudou a música gaúcha

Em 1966, Cenair Maicá, Noel Guarany e Pedro Ortaça lançaram um manifesto que poucos documentos na história da música gaúcha igualam em importância. O texto reivindicava a herança guarani como parte legítima — e esquecida — da identidade do Rio Grande do Sul, e anunciava a intenção de criar, a partir dela, uma nova arte missioneira.

Até então, a identidade gaúcha oficial era quase que exclusivamente baseada na figura do estancieiro da campanha, do peão dos pampas do sul. As Missões — aquela região de história tão rica quanto esquecida — não tinham voz nos palcos nem nas gravadoras. Cenair e seus companheiros decidiram mudar isso.

Juntos, os quatro artistas — Cenair, Noel Guarany, Pedro Ortaça e Jayme Caetano Braun — ficaram conhecidos como os Quatro Troncos Missioneiros. Cada um com sua voz própria, mas todos enraizados na mesma terra e movidos pela mesma causa: dar ao povo missioneiro o lugar que lhe pertencia na cultura do estado.

1970: a consagração na Argentina e o início do sucesso

O nome Cenair Maicá entrou definitivamente na história da música gaúcha em 1970. Naquele ano, ele venceu o 7º Festival do Folclore Correntino, realizado em Santo Tomé, na Argentina, interpretando a música Fandango na Fronteira — composição de Noel Guarany, com quem dividiu o palco na noite da vitória.

A consagração foi dupla: para Cenair como intérprete e para os dois artistas como símbolo do que aquele manifesto de 1966 havia prometido. A vitória num festival internacional revelou que a música missioneira não era apenas uma questão regional — era arte com potencial para atravessar fronteiras.

O prêmio rendeu a gravação do compacto duplo Filosofia de Gaúcho (1970), o primeiro registro fonográfico oficial de Cenair. A partir daí, a carreira solo seria inevitável.

A carreira: poesia, denúncia e identidade

Em 1978, Cenair lançou Rio de Minha Infância, seu primeiro LP solo — produzido e dirigido por Noel Guarany. O disco apresentou ao público o universo que definiria toda a obra de Cenair: o Rio Uruguai e suas águas como metáfora de vida e liberdade, os ribeirinhos e balseiros como protagonistas esquecidos, os indígenas como herança viva — não como curiosidade histórica.

Nas canções Homem Rural e Balaio, Lança e Taquara, Cenair deu voz aos trabalhadores do interior — camponeses, índios, gente simples que raramente aparecia nas letras da música regional. Sua poesia era denúncia social embrulhada em melodia, um ato político disfarçado de milonga.

Não é por acaso que a Ditadura Militar censurou sua canção Canto dos Livres, proibindo sua execução nas rádios e chegando a apreender discos. Cenair era inconveniente para o regime — e isso era, para ele, o maior dos elogios.

Paralelamente à música, Cenair trabalhou como representante comercial das máquinas de escrever Olivetti e apresentou programas nas rádios Repórter de Ijuí, Sepé Tiaraju de Santo Ângelo e Liberdade FM de Viamão. Homem de muitas frentes, mas sempre com a música como centro.

"O músico, além de cantar as coisas bonitas, a alegria, tem que ser um porta-voz do povo." — Cenair Maicá

Imagem da internet

A saúde, a luta e a despedida

A vida de Cenair carregou uma sombra desde cedo. Aos 17 anos, num acidente, perdeu um rim. A consequência não foi imediata — mas o futuro já estava marcado.

Em 1984, o rim remanescente começou a falhar. Cenair precisou se submeter a sessões de hemodiálise, o que debilitou profundamente sua saúde e o afastou temporariamente dos palcos. Em 1985, realizou um transplante de rim — o doador foi seu irmão Darci Maicá, num gesto de amor que a família nunca esqueceu.

Em dezembro de 1988, foi internado para a colocação de uma prótese femural. Não resistiu a uma infecção hospitalar. Em 2 de janeiro de 1989, Cenair Maicá morreu em Porto Alegre, aos 41 anos. Uma vida curta, mas vivida com a intensidade de quem sabe que o tempo é precioso.

Como era seu desejo, foi enterrado pilchado, de botas e lenço vermelho. Seus restos mortais estão em Santo Ângelo, no mausoléu construído na entrada do Cemitério Municipal. Dois pilares marcam o local: um representando a MÚSICA, outro a POESIA. No centro, a frase que resume tudo: Se meu destino é cantar, eu canto. Ao lado da data de nascimento: Nasce o poeta. Ao lado da data de morte: O mundo fica mais triste.

Discografia

Cenair gravou um compacto duplo e quatro LPs ao longo da carreira, dois deles posteriormente relançados em CD. Uma obra pequena em volume, gigante em qualidade.

1970 - Filosofia de Gaúcho (compacto duplo). Com Noel Guarany. Primeiro registro de Cenair após vitória no Festival Correntino.

1978 - Rio de Minha Infância. 1º LP solo. Produção de Noel Guarany. Relançado em CD em 2003 na série Tradição Gaúcha.

1980 - Canto dos Livres. 2º LP. Contém a música censurada pela Ditadura Militar. Um dos mais importantes do nativismo gaúcho.

Imagem da internet

1983 - Meu Canto. 3º LP. Gravado com saúde já debilitada. Reúne composições de forte teor social e poético.

1985 - Companheira Liberdade. Relançamento/compilação das melhores faixas gravadas para o selo Rodeio (WEA). Reeditado em CD.

2003 - Tradição Gaúcha (coletânea). Relançamento em CD do LP Rio de Minha Infância. Lançado postumamente pela série Tradição Gaúcha.

Principais canções

Canto dos Livres; Balseiros do Rio Uruguai; Baile do Sapucaí; Bolicho; Homem Rural; Rio de Minha Infância; Balaio, Lança e Taquara; Fandango na Fronteira; Rio Ibicuí; João Sem Terra

O legado que as águas não apagam

Mais de três décadas após sua morte, Cenair Maicá segue vivo em cada roda de chimarrão onde alguém tatareia Canto dos Livres, em cada jovem compositor missioneiro que sente que precisa falar do povo simples, em cada artista que se recusa a deixar o comercial sobrepor o verdadeiro.

O legado é concreto também: uma rodovia recebe seu nome — a RS-536, no noroeste gaúcho. Travessas em Tucunduva e em Santo Ângelo. Um mausoléu. Um busto. E uma entrevista gravada em fita magnética no Museu Antropológico de Ijuí, onde sua voz ainda ecoa para quem quiser ouvir.

Cenair Maicá não fez muito disco. Mas fez música que dura. E isso, no fundo, é o único legado que importa.

"Nasce o poeta." — inscrição no mausoléu de Cenair Maicá, ao lado da data de nascimento

Conheces a obra de Cenair Maicá?

Qual é a tua música favorita do Cantor Missioneiro? Deixa nos comentários — e se tens uma história ligada à obra de Cenair, conta para nós. A memória de quem fez história merece ser mantida viva por quem a viveu.

terça-feira, 10 de março de 2026

Dicionário Gaudério - Entrevero

ENTREVERO - esta é a palavra que nos acompanha, y tu sabes vivente, quando tudo se mistura no pampa — a vida fica mais interessante.

Mas, afinal o que significa ENTREVERO?

Substantivo masculino. No linguajar gaúcho, entrevero é a mistura confusa, o embaralhamento de coisas, pessoas ou situações. É a briga generalizada onde todos brigam com todos, o rebanho que se mistura com o do vizinho, a conversa que começa num assunto e termina em outro completamente diferente.

Mas — e aqui está a riqueza da palavra — o entrevero não é necessariamente algo ruim. Pode ser o animado encontro de amigos no galpão onde as histórias se embaralham e ninguém sabe mais quem começou qual conversa. Pode ser a festa onde o salão da dança vira um só corpo pulsante. O entrevero é a vida em seu estado mais vivo.

"Deu um entrevero danado — gado, gente e cachorro, tudo junto, entreverados."

A origem da palavra vem do verbo espanhol entreverar, que significa misturar, intercalar, embaralhar. Chegou ao Rio Grande do Sul pela fronteira com o Uruguai e a Argentina, como tantas outras palavras que compõem o falar gaúcho — esse rico entrevero linguístico por si só.

No contexto militar do século XIX, o termo designava a batalha de cavalaria em que os soldados se misturavam ao inimigo em combate corpo a corpo — diferente do ataque organizado em formação. Daí a ideia de confusão intensa, de forças que se embaralham sem distinção.

Como se usa no dia a dia? O entrevero aparece em diferentes contextos do cotidiano gaúcho:

No campo: "Aquele vento forte causou um entrevero no rebanho — levou a manhã toda pra separar os bichos."

Na política e nos negócios: "A reunião virou um entrevero — cada um puxando pro seu lado, ninguém se entendia."

No bom sentido: "Que entrevero bom aquele baile! Música, chimarrão, prosa — não dava nem pra saber que horas eram."

Na culinária: "entrevero é a mistura de carnes, gado, frango, porco, linguiça, etc."

E claro — no nome deste blog. Entrevero Xucro é exatamente isso: uma mistura brava e autêntica de cultura, história e identidade gaúcha. Sem filtro, sem adorno. Do jeito que o pampa é.

O entrevero na música gaúcha e a palavra marcou presença em letras de músicas nativistas e na poesia gauchesca. O entrevero virou metáfora da própria alma do pampa — aquele lugar onde o vento, o gado, o povo e a saudade se misturam sem pedir licença.

Nos grandes festivais, compositores sempre voltam a esse universo do entrelaçamento: de raças, de culturas, de idiomas, de fronteiras que existem no mapa mas não no coração das pessoas.

"O pampa é um entrevero de horizontes — onde o céu não sabe onde termina e a terra não sabe onde começa."

Palavras da mesma família:

Entreverado(a): misturado, embaralhado. Exemplo: Aquele rebanho está todo entreverado com o do vizinho.

Entreverar: o verbo. Misturar, embaralhar, intercalar. Exemplo: Não vai entreverar as coisas, senão perde tudo.

Entrevero de ideias: expressão comum para uma conversa onde os assuntos se misturam de forma produtiva - ou não.

Y tu tchê, já se pegou num entrevero hoje?

Conta nos comentários a melhor situação de entrevero que já viveste. E se conheces outra palavra gaúcha que merece um post, deixa a sugestão — este dicionário é construído em conjunto, como todo bom entrevero deve ser.

Série: Dicionário Gaudério - EP: Entrevero

Acesse: entreveroxucro.blogspot.com



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Bioma Pampa: Origem do Gaúcho, Cultura do Rio Grande do Sul e Diferenças entre Brasil, Argentina e Uruguai

Quando se pesquisa no Google sobre o Bioma Pampa, sobre a formação do gaúcho ou sobre as diferenças entre os gaúchos do Brasil, da Argentina e do Uruguai, quase sempre os assuntos aparecem separados. Mas, aqui no Sul, a gente sabe que não dá para falar de um sem falar do outro. O campo moldou o homem, o homem moldou a cultura, e tudo isso nasceu numa mesma paisagem: o Pampa.

O Bioma Pampa, também conhecido como Campos do Sul ou Campos Sulinos, ocupa cerca de 176,5 mil km² no Brasil, o que representa aproximadamente 2% do território nacional. Ele está presente exclusivamente no estado do Rio Grande do Sul, onde cobre cerca de 63% do território gaúcho, e se estende pela Argentina e pelo Uruguai, formando uma grande faixa contínua de campos naturais no sul da América do Sul. A palavra “pampa” vem de origem indígena e significa “região plana”, embora, na prática, a paisagem seja marcada por coxilhas suaves, várzeas úmidas e horizontes que parecem não ter fim.

Diferente de outros biomas brasileiros, o Pampa é essencialmente campestre. A vegetação é formada principalmente por gramíneas e plantas herbáceas, com poucas árvores espalhadas. À primeira vista, pode parecer tudo igual, um grande tapete verde baixo, variando entre 60 centímetros e 1 metro de altura. Mas basta olhar com mais atenção para perceber a riqueza que existe ali. Nos topos mais planos, a vegetação é mais rala; nas encostas, torna-se mais densa e diversa, com predominância de gramíneas, compostas e leguminosas. Gêneros como Stipa, Piptochaetium, Aristida, Melica e Briza fazem parte desse cenário natural, além de espécies endêmicas de cactos e bromeliáceas que só existem nessa região.

Os campos do Sul são considerados formações edáficas, ou seja, estão diretamente ligados às características do solo. O solo do Pampa, em geral, apresenta baixa fertilidade natural e é bastante suscetível à erosão. Em áreas de contato com o arenito Botucatu, especialmente na região de Quaraí e Alegrete, surgem solos podzólicos vermelho-escuros e fenômenos de arenização que, muitas vezes, são confundidos com desertificação. Essa fragilidade ambiental exige cuidado, principalmente quando se fala na substituição dos campos naturais por monoculturas. Toda monocultura provoca desequilíbrio ambiental, reduzindo algumas espécies, favorecendo outras e alterando funções ecológicas básicas. Num bioma naturalmente campestre, essas mudanças têm impacto ainda mais profundo.

Um exemplo de preservação dentro desse contexto é a Área de Proteção Ambiental do Rio Ibirapuitã, onde se encontram formações campestres e florestais de clima temperado distintas de outras regiões do país. Ali vivem mamíferos raros ou ameaçados de extinção, diversas espécies de aves e até peixe endêmico da bacia local. Isso mostra que o Pampa não é um “campo vazio”, mas um ecossistema complexo e um dos mais importantes do mundo em termos de biodiversidade campestre.

Foi nesse ambiente de clima temperado, com temperatura média em torno de 18°C, entre coxilhas e várzeas, que começou a se formar o modo de vida gaúcho. Muito antes da chegada dos europeus, povos indígenas como guaranis e charruas já viviam nessas terras, em equilíbrio com o Bioma Pampa. Caçavam, pescavam, cultivavam e conheciam o ritmo da natureza. Com a chegada de espanhóis e portugueses no século XVII, a região passou a viver disputas territoriais, missões religiosas e mudanças profundas na organização social.

A formação do gaúcho é resultado direto dessa mistura. Indígenas, europeus e africanos escravizados contribuíram para a construção de uma identidade própria, ligada ao campo e à pecuária. A introdução do cavalo pelos europeus e o desenvolvimento da criação extensiva de gado mudaram a economia da região e consolidaram a figura do homem campeiro. O gaúcho passou a ser reconhecido como hábil cavaleiro, conhecedor da lida com o gado, resistente ao frio e ao calor, acostumado às longas distâncias das estâncias.

No século XIX, conflitos como a Revolução Farroupilha reforçaram o sentimento regionalista no Rio Grande do Sul. A guerra, motivada por questões econômicas e políticas, marcou a memória coletiva e fortaleceu a ideia de autonomia e orgulho local. Até hoje, a Semana Farroupilha mantém viva essa lembrança em todo o estado. Ao mesmo tempo, a chegada de imigrantes alemães e italianos trouxe novos elementos culturais, principalmente na Serra Gaúcha, influenciando a agricultura, a produção de vinhos, o artesanato e a gastronomia.

O churrasco, preparado no espeto e no fogo de chão, nasceu nas estâncias como forma simples e prática de assar carne. O arroz carreteiro, o feijão mexido e tantos outros pratos surgiram da rotina campeira. O chimarrão, compartilhado em roda, tornou-se símbolo de hospitalidade e convivência. Bombacha, lenço no pescoço, poncho e bota deixaram de ser apenas vestimentas funcionais para se transformarem em símbolos de identidade. Tudo isso tem origem direta na vida moldada pelo Pampa.

Quando ampliamos o olhar para além das fronteiras brasileiras, percebemos que o gaúcho não é exclusividade do Rio Grande do Sul. Nos pampas da Argentina e do Uruguai, encontramos figuras muito semelhantes. A base é a mesma: campos abertos, pecuária extensiva, cavalo, laço e vida nas estâncias. Na Argentina, o gaucho foi eternizado na literatura e elevado à condição de herói rural. No Uruguai, faz parte do imaginário nacional e das tradições do interior. No Brasil, consolidou-se como símbolo regional, especialmente ao longo do século XIX.

Existem diferenças, claro. No Rio Grande do Sul, a tradição é organizada e preservada por meio de entidades e normas que regulamentam a pilcha e as manifestações culturais. Em Buenos Aires ou Montevidéu, o gaúcho é mais símbolo histórico e cultural do que presença cotidiana nas grandes cidades. Na culinária, o churrasco gaúcho convive com o assado argentino e uruguaio, preparado na parrilla e com cortes variados. O mate atravessa fronteiras, mudando apenas detalhes no modo de preparo.

Apesar das particularidades, o que une os três países do Pampa é maior do que o que os separa. Honra, coragem, companheirismo e respeito pela terra são valores compartilhados. A paisagem de campos abertos criou um tipo humano adaptado à liberdade e à vastidão do horizonte. O Pampa formou o gaúcho, e o gaúcho ajudou a construir a história do sul do continente.

Por isso, quando alguém pesquisa sobre o Bioma Pampa, sobre a cultura do Rio Grande do Sul ou sobre as diferenças entre gaúchos do Brasil, da Argentina e do Uruguai, está, na verdade, buscando entender uma mesma raiz. Não se trata apenas de geografia ou de folclore, mas de uma relação profunda entre natureza e identidade. O Pampa é chão, é história e é cultura viva. E enquanto houver campo aberto, mate passando de mão em mão e cavalo cruzando coxilha, essa identidade seguirá firme, atravessando gerações e fronteiras.