Mostrando postagens com marcador Guerra dos Farrapos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guerra dos Farrapos. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

190 Anos da Proclamação da República Rio-Grandense: a epopeia do Campo dos Menezes

Como um punhado de farrapos, um cavalo espantado e um general aclamado no meio do campo mudaram para sempre a história do Rio Grande do Sul

11 de setembro de 2026, o Rio Grande do Sul completa 190 anos de um dos episódios mais marcantes de sua história: a Proclamação da República Rio-Grandense, também conhecida como República de Piratini. Foi o momento em que a Província de São Pedro, cansada do descaso do Império, se declarou independente — um feito que nasceu literalmente no calor de uma batalha, em pleno pampa, nas margens de um arroio hoje quase esquecido pelos mapas oficiais, mas eterno na memória gaúcha.

As raízes da revolta: por que o Rio Grande pegou em armas

Para entender o que aconteceu em setembro de 1836, é preciso voltar um pouco mais no tempo. Na década de 1830, a economia rio-grandense girava em torno do charque — a carne salgada que alimentava os escravizados das grandes lavouras do Centro-Sul do país. O problema era a concorrência desleal: o charque produzido no Uruguai e na Argentina entrava no Brasil com tarifas muito menores do que as cobradas sobre o produto gaúcho, o que sufocava os charqueadores locais.

A isso somava-se a irritação com o centralismo do Império. As províncias não podiam legislar sobre seus próprios impostos, os presidentes de província eram indicados pelo Rio de Janeiro sem qualquer consulta às elites locais, e os pedidos de socorro — inclusive após uma praga de carrapatos que dizimou rebanhos em 1834 — foram ignorados. Entre a insatisfação econômica e o desejo de maior autonomia política, a panela de pressão gaúcha só precisava de uma faísca.

Essa faísca veio em 20 de setembro de 1835, quando tropas farroupilhas lideradas por Bento Gonçalves tomaram Porto Alegre e depuseram o presidente da província, Fernandes Braga. Começava ali a Revolução Farroupilha — quase dez anos de guerra que só terminariam em 1845.

A véspera decisiva: a Batalha do Seival

Um ano depois do início da revolução, em setembro de 1836, o cenário ainda era de guerra aberta. Enquanto Bento Gonçalves concentrava esforços perto de Porto Alegre, o coronel Antônio de Sousa Neto, à frente da 1ª Brigada de Cavalaria Ligeira do Exército Liberal, movia-se pela região de Bagé, na fronteira sul. Do outro lado, o coronel imperial João da Silva Tavares, que vinha se refugiando no Uruguai, retornara com suas tropas e avançava provocando os farrapos.

No dia 10 de setembro de 1836, as duas forças se encontraram nas margens do Arroio Seival, no chamado Campo dos Menezes. Foi ali que se travou a Batalha do Seival — um combate que a historiografia considera o mais decisivo da Revolução Farroupilha.

No início, a vantagem numérica pendia para o lado imperial. Mas um detalhe mudou tudo: em meio à refrega, a cabeçada do cavalo de Silva Tavares se rompeu com o golpe de uma lança, e o animal disparou em disparada. Aos olhos de seus próprios comandados, pareceu que o coronel estava fugindo do combate. O efeito foi imediato — pânico e confusão tomaram conta das fileiras imperiais, e os farrapos de Neto, aproveitando o desespero do inimigo, avançaram com tudo. O que começara mal para os republicanos terminou em vitória esmagadora, com o exército imperial praticamente desbaratado.

O Campo dos Menezes: onde fica exatamente

O Campo dos Menezes fica no atual município de Candiota, no interior de Bagé, nas margens do Arroio Seival — um afluente que corre em direção ao Rio Jaguarão, na Campanha gaúcha. O acesso ao local histórico fica a cerca de 500 metros da rodovia BR-293, onde hoje existe um arco alusivo à batalha. Em 1935, durante as comemorações do Centenário Farroupilha, um marco foi erguido no local com os dizeres: "Neste local em 11 de setembro de 1836, travou-se a batalha do Seival e foi proclamada a República". Pesquisadores locais, como o Núcleo de Pesquisas Históricas de Candiota, já identificaram trincheiras nas barrancas do arroio e vestígios de armamento que reforçam a localização.

O general que proclamou uma nação

Antônio de Sousa Neto nasceu em 1803 (alguns registros indicam 1801) em Capão Seco, distrito de Povo Novo, hoje parte do município de Rio Grande. Filho de estancieiros com tradição militar, ainda jovem serviu na Guerra da Cisplatina e, aos 22 anos, já era capitão de cavalaria da Guarda Nacional na fronteira sul. Aderiu à Revolução Farroupilha desde os primeiros dias como coronel e, por sua liderança em combate, foi aclamado general pelos próprios homens.

Neto se tornaria um dos maiores cavalarianos da história do Rio Grande do Sul — fundador dos temidos Lanceiros Negros, figura de destaque também na Guerra do Paraguai ao lado do general Osório, onde foi ferido na Batalha de Tuiuti. Morreu em 1866, em Corrientes, na Argentina, e seus restos mortais só retornariam ao Brasil um século depois, em 1966, quando foram transladados para um mausoléu em Bagé.

A proclamação: "Viva a independência!"

No dia seguinte à vitória, 11 de setembro de 1836, Neto reuniu seus homens no próprio Campo dos Menezes. Recém-aclamado general por seus soldados, tomou a palavra diante da tropa e, em nome da 1ª Brigada de Cavalaria, declarou rompido o vínculo com o Império, proclamando a nova nação. Um trecho de seu discurso, registrado pela tradição histórica, ecoa até hoje:

"Viva a República Rio-grandense! Viva a independência!"

O mais notável é que tudo isso aconteceu sem o conhecimento prévio de Bento Gonçalves, o líder maior do movimento, que naquele momento estava envolvido no cerco a Porto Alegre. Bento seria informado depois — e mais tarde aclamado o primeiro presidente da República recém-nascida. Poucas semanas depois, em 4 de outubro de 1836, o próprio Bento Gonçalves seria capturado na Ilha de Fanfa, um golpe duro que tornaria a vitória do Seival ainda mais simbólica: era a prova de que a causa republicana seguia viva mesmo diante da adversidade.

Linha do tempo

20 de setembro de 1835 — Farroupilhas tomam Porto Alegre e depõem o presidente da província; início da Revolução Farroupilha.

10 de setembro de 1836 — Batalha do Seival, no Campo dos Menezes: vitória farroupilha sobre as tropas de João da Silva Tavares.

11 de setembro de 1836 — Antônio de Sousa Neto proclama a República Rio-Grandense.

4 de outubro de 1836 — Bento Gonçalves é preso na Ilha de Fanfa.

1º de março de 1845 — Tratado de Ponche Verde encerra a guerra e reintegra o Rio Grande do Sul ao Império.

O triunfo farroupilha

A Batalha do Seival não foi apenas mais um confronto entre milhares travados durante a Guerra dos Farrapos — foi o estopim que transformou uma rebelião provincial em um projeto de nação. Em poucas horas de combate, um punhado de farrapos, em franca desvantagem numérica no início da peleia, virou o jogo e abriu caminho para que, no dia seguinte, nascesse — ainda que por apenas nove anos — a República Rio-Grandense. Hoje, 190 anos depois, o brasão e a bandeira que tremulam sobre o Rio Grande do Sul carregam essa memória: a de um povo que, no meio do campo, decidiu escrever sua própria história.

Viva a Revolução Farroupilha! Viva o Rio Grande do Sul!

Palavras-chave SEO: Proclamação da República Rio-Grandense, Batalha do Seival, General Netto, Campo dos Menezes, Candiota, Revolução Farroupilha, 11 de setembro 1836, República de Piratini, Antônio de Sousa Neto, tradições gaúchas

E você, já visitou o marco histórico em Candiota? Conte nos comentários como sua CTG celebra essa data e compartilhe este artigo para manter viva a chama farroupilha!

sábado, 1 de março de 2025

A paz do Ponche Verde - O Fim da Revolução Farroupilha

O Tratado de Ponche Verde, também chamado de Convenção de Ponche Verde ou Paz de Ponche Verde, marcou o encerramento da Revolução Farroupilha, selando infelizmente a reincorporação do território da República Rio-Grandense (considerada rebelde) ao Império do Brasil sob o governo de Dom Pedro II. No final de fevereiro de 1845, os termos da pacificação foram levados à análise dos líderes farroupilhas, já assinados pelo Barão de Caxias. O general David Canabarro, comandante-em-chefe do Exército Republicano, aceitou os termos em nome da República Rio-Grandense. A data oficial da assinatura é aceita como 1º de março de 1845, quando  foi oficialmente anunciada a paz no Acampamento Imperial de Carolina, em Poncho Verde.

A região de Ponche Verde, nomeada assim pelos vastos campos verdejantes ideais para a criação de gado, corresponde hoje ao município de Dom Pedrito, no Rio Grande do Sul. Foi ali que os líderes republicanos e as forças imperiais selaram um acordo que, ao menos no papel, garantiria anistia e direitos aos combatentes farroupilhas.

Embora o tratado tenha determinado o fim formal da República Rio-Grandense, seu legado permanece vivo na identidade do Rio Grande do Sul. A bandeira e o brasão do estado preservam os símbolos da república revolucionária, assim como outros estados brasileiros mantêm referências a movimentos emancipatórios em seus símbolos cívicos.

Além disso, diversas cidades gaúchas carregam nomes de figuras históricas da Revolução Farroupilha, como Bento Gonçalves, Garibaldi e Farroupilha. Porto Alegre, por sua resistência ao cerco farroupilha, recebeu do próprio D. Pedro II o título de "Mui Leal e Valerosa".

Os Bastidores da Pacificação

No final de 1844, já estava claro que a resistência farroupilha se enfraquecia e havia o desgaste do conflito e dificuldade em sustentar a guerra. Com isso o próprio Imperador Dom Pedro II buscou uma solução conciliatória e expediu um decreto confidencial em 18 de dezembro daquele ano, concedendo ao Barão de Caxias poderes para negociar a paz. O documento deixava claro que os farrapos, antes vistos como traidores, seriam recebidos com clemência caso aceitassem depor as armas.

No documento, ficava clara a disposição imperial de perdoar os insurgentes. Em um dos trechos do decreto, o imperador afirmava que os revoltosos, embora tivessem desafiado as leis do Império, mereciam sua "paternal proteção", concedendo-lhes plena anistia e garantindo que não seriam perseguidos pelos atos cometidos durante a guerra.

O artigo 2º desse decreto imperial dizia:

“Recorrendo à minha imperial clemência aqueles de meus súditos que, iludidos e desvairados, têm sustentado na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul uma causa atentatória da Constituição (...), concedo-lhes plena e absoluta anistia, para que nem judicialmente, nem de outra forma, possam ser perseguidos.” Ou seja, o Império buscava encerrar o conflito sem retaliações formais contra os rebeldes – ao menos, era isso o que se prometia.

O acordo estabelecia 12 cláusulas, sendo elas:

Art. 1° - Fica nomeado Presidente da Província o indivíduo que for indicado pelos republicanos.

Art. 2° - Pleno e inteiro esquecimento de todos os atos praticados pelos republicanos durante a luta, sem ser, em nenhum caso, permitida a instauração de processos contra eles, nem mesmo para reivindicação de interesses privados.

Art. 3° - Dar-se-á pronta liberdade a todos os prisioneiros e serão estes, às custas do Governo Imperial, transportados ao seio de suas famílias, inclusive os que estejam como praça no Exército ou na Armada.

Art. 4° - Fica garantida a Dívida Pública, segundo o quadro que dela se apresente, em um prazo preventório.

Art. 5° - Serão revalidados os atos civis das autoridades republicanas, sempre que nestes se observem as leis vigentes.

Art. 6° - Serão revalidados os atos do Vigário Apostólico.

Art. 7° - Está garantida pelo Governo Imperial a liberdade dos escravos que tenham servido nas fileiras republicanas, ou nelas existam.

Art. 8° - Os oficiais republicanos não serão constrangidos a serviço militar algum; e quando, espontaneamente, queiram servir, serão admitidos em seus postos.

Art. 9° - Os soldados republicanos ficam dispensados do recrutamento.

Art. 10° - Só os Generais deixam de ser admitidos em seus postos, porém, em tudo mais, gozarão da imunidade concedida aos oficiais.

Art. 11° - O direito de propriedade é garantido em toda plenitude.

Art. 12° - Ficam perdoados os desertores do Exército Imperial.

Com o tratado firmado, David Canabarro emitiu uma proclamação aos farrapos no dia 28 de fevereiro de 1845, declarando o fim da guerra:

"Concidadãos! A guerra civil que há mais de nove anos devasta este belo país está acabada. Podeis volver tranquilos ao seio de vossas famílias. Vossa segurança individual e vossa propriedade estão garantidas pela palavra sagrada do monarca." Fica a questão, foi ou não foi traição nos Porongos?

O clima de conciliação, no entanto, escondia contradições que logo ficariam evidentes. Embora o acordo garantisse anistia e direitos aos farrapos, muitas cláusulas foram descumpridas:

Os republicanos não puderam indicar o presidente da província, e o próprio Barão de Caxias foi nomeado senador do Império.

Não há registros que comprovem o pagamento das compensações financeiras prometidas aos líderes farroupilhas. Antônio Vicente da Fontoura, responsável pela negociação, relatou que a distribuição dos valores foi caótica, marcada por disputas e suspeitas de corrupção.

Nem todos os escravizados que lutaram pelo Exército Farroupilha foram libertos. Muitos foram devolvidos aos antigos senhores, outros vendidos no Rio de Janeiro. Os Lanceiros Negros, um dos grupos mais emblemáticos da revolução, foram traídos e massacrados na Batalha de Porongos.

A pacificação não apagou completamente as feridas do conflito. Rivalidades entre os antigos aliados farroupilhas permaneceram, resultando, anos depois, em novos embates políticos e até mesmo em assassinatos, como o de Vicente da Fontoura, morto em 1860 por opositores. Essas divisões ainda ecoaram na Revolução Federalista de 1893 e na Revolução de 1923, sendo finalmente apaziguadas com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, em 1930.

Reconhecimento Internacional da República Rio-Grandense

A República Rio-Grandense chegou a obter algum reconhecimento internacional. Em 1841, Bento Gonçalves firmou um acordo de auxílio militar com o Uruguai, estabelecendo cooperação entre os dois países. Além disso, em 1842, no chamado Pacto de Paysandú, províncias independentes do norte argentino reconheceram a legitimidade da República Rio-Grandense ao lado de líderes como José María Paz e Juan Pablo López, em oposição ao ditador argentino Juan Manuel de Rosas.

Conclusão

O Tratado de Poncho Verde selou o fim de um dos mais marcantes movimentos separatistas do Brasil. A Revolução Farroupilha não alcançou a independência, mas moldou a identidade gaúcha, deixando um legado de coragem, resistência e orgulho que perdura até os dias de hoje. O povo do Rio Grande do Sul nunca esqueceu seus heróis e seus feitos, mantendo viva a memória da luta farroupilha como um dos capítulos mais intensos de sua história

A Revolução Farroupilha terminou, mas seus ideais – e suas contradições – continuam a ecoar na identidade do povo gaúcho até os dias de hoje.

domingo, 11 de setembro de 2016

11 de Setembro - Proclamação da República

Pois é, indiada, 11 de setembro, enquanto o Brasil e o mundo lembra uma tragédia, que é lógico que não devemos ficar indiferentes, nós gaúchos de alma e coração lembramos a data mais importante de nossa nação, em 11 de setembro de 1836, foi proclamada a República Riograndense, pelo nosso saudoso e heróico Gen. Netto. Infelizmente nossa República perdurou por poucos anos, mas, serviu para manter aceso o sentimento de liberdade do povo Gaúcho, e hoje, nesta data tão importante, devemos parar e pensar se está correta viver nessa tirania imposta pelo brasil, um país que se diz tão democrático e trata seus "filhos" de uma maneira exclusivamente explorativa, sugando nossas riquezas e retornando migalhas.

Que sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra, e que essas façanhas começam hoje, nesta data, vamos lá gauchada, vamos unir forças e nos libertar.

Abaixo transcrevo o discurso do Gen. Neto para sua tropa, no 11 de setembro de 1836, um dia após uma importante vitória no Campo dos Menezes, no Seival, localidade do município de Candiota, onde é proclamada a  república Riograndense.

"Bravos companheiros da 1ª Brigada de Cavalaria!
Ontem obtivestes o mais completo triunfo sobre os escravos da Corte do Rio de Janeiro, a qual, invejosa das vantagens locais de nossa província, faz derramar sem piedade o sangue de nossos compatriotas, para deste modo fazê-la presa de suas vistas ambiciosas.
Miseráveis! Todas as vezes que seus vis satélites se têm apresentado diante das forças livres, têm sucumbido, sem que este fatal desengano os faça desistir de seus planos infernais.
São sem número as injustiças feitas pelo Governo. Seu despotismo é o mais atroz. E sofreremos calados tanta infâmia?
Não, nossos companheiros, os rio-grandenses, estão dispostos, como nós, a não sofrer por mais tempo a prepotência de um governo tirânico, arbitrário e cruel, como o atual. Em todos os ângulos da província não soa outro eco que o de independência, república, liberdade ou morte.
Este eco, majestoso, que tão constantemente repetis, como uma parte deste solo de homens livres, me faz declarar que proclamemos a nossa independência provincial, para o que nos dão bastante direito nossos trabalhos pela liberdade, e o triunfo que ontem obtivemos, sobre esses miseráveis escravos do poder absoluto.
Camaradas! Nós que compomos a 1ª Brigada do Exército Liberal, devemos ser os primeiros a proclamar, como proclamamos, a independência desta província, a qual fica desligada das demais do Império, e forma um estado livre e independente, com o título de República Rio-grandense, e cujo manifesto às nações civilizadas se fará competentemente.
Camaradas! Gritemos pela primeira vez: viva a República Rio-grandense! Viva a independência! Viva o exército republicano rio-grandense!
Campo dos Menezes, 11 de setembro de 1836 – Antônio de Sousa Neto, coronel-comandante da 1ª brigada."

Fonte: Imagens da internet