quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Por quê o gaúcho chama o dinheiro de pila?

Quem vem para o Rio Grande do Sul estranha ao ouvir a frase: “me empresta uns pila”, “isso aí custa dez pila”, “tô sem pila hoje”. A palavra atravessou gerações, resistiu à troca de moedas e saiu das fronteiras do Estado junto com os gaúchos que migraram Brasil afora. Mas afinal, de onde veio esse termo tão nosso?

A origem é política — e histórica. O “pila” tem sobrenome: Raul Pilla. Médico e liderança marcante do antigo Partido Libertador, Pilla foi um dos principais defensores do parlamentarismo no país e adversário declarado de Getúlio Vargas nos turbulentos anos 1930. Com a derrota política e os desdobramentos da Revolução Constitucionalista de 1932, acabou exilado no Uruguai, praticamente sem recursos.

Foi então que seus correligionários organizaram uma forma de ajudá-lo financeiramente. Criaram bônus, uma espécie de título ou letra partidária, em que o portador contribuía com determinado valor em cruzeiros “em prol da Democracia”. O documento vinha assinado por Raul Pilla e funcionava como uma arrecadação solidária para sustentar o líder no exterior. O dinheiro recolhido era enviado a ele.

Esses papéis passaram a circular entre simpatizantes e, pouco a pouco, o sobrenome estampado na assinatura virou sinônimo da própria contribuição em dinheiro. “Me dá um Pilla” teria se transformado naturalmente em “me dá um pila”. O termo pegou. E ficou.

Há também uma versão popular, mais folclórica, segundo a qual cabos eleitorais teriam cortado cédulas ao meio, entregando uma parte ao eleitor com a promessa de receber a outra após o voto confirmado em Raul Pilla. Embora pitoresca, essa história é vista mais como lenda política do que como fato comprovado.

O que é fato é que a palavra atravessou o tempo. Réis, cruzeiros, cruzados, cruzeiros novos, reais — pouco importou a mudança na economia nacional. No linguajar gaúcho, um pila sempre correspondeu a uma unidade da moeda corrente. Hoje, equivale a um real. Ontem, foi um cruzeiro. Antes disso, outro valor. O nome sobreviveu a todos.

O mais curioso é que o regionalismo ultrapassou as divisas do Estado. Em cidades de Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso e até mais longe, onde há presença gaúcha, o “pila” também circula na fala cotidiana. É um traço cultural que viajou junto com a bombacha, o chimarrão e o sotaque.

No fim das contas, o “pila” é mais do que dinheiro. É memória política, é identidade linguística e é prova de como a história pode se entranhar no vocabulário popular sem que muita gente saiba exatamente por quê. E assim segue, firme no bolso e na boca do povo: pila pra cá, pila pra lá.

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