Aqui no Entrevero Xucro já
falamos sobre a história e a tradição do chimarrão — a origem guarani, os
jesuítas, os 10 mandamentos do mate e a legislação que reconhece sua
importância cultural (se não leu, confere o post Chimarrão: Tradição,História e Cultura Gaúcha). Mas tem um detalhe que pouca gente para pra pensar: o chimarrão não é igual em todo o Rio Grande do Sul.
A erva muda. A cuia muda. A
temperatura muda. O ritual muda. E é exatamente essa diversidade — esse
entrevero de jeitos de tomar mate — que faz do chimarrão um espelho perfeito da
identidade gaúcha: uma só tradição, mil formas de vivê-la.
"Ofertar o mate é abrir a porta de casa sem precisar abri-la."
Por que o chimarrão varia tanto pelo estado?
O Rio Grande do Sul é um estado
de contrastes imensos. A fronteira com o Uruguai e a Argentina ao sul e ao
oeste trouxe influências platinas. A colonização alemã e italiana ao norte e na
serra criou outros hábitos. As Missões, com a herança guarani, têm sua própria
relação com a erva-mate. E o litoral, com o chimarrão tomado de frente para o
mar, tem um jeito todo seu de encarar a cuia.
Além da cultura, influenciam
também: o clima (no frio serrano a água vai mais quente), o acesso a
determinadas marcas e tipos de erva, e as tradições familiares passadas de
geração em geração. Nenhum jeito é mais certo que o outro — cada um é legítimo
dentro da sua cultura.
O mate de cada rincão do RS
Campanha — o mate da fronteira
Erva preferida: Erva grossa, peneirada, com pouco pó
Cuia: Cuia grande, de porongo, bem curada
O ritual: Na Campanha, terra de estância e horizonte largo, o chimarrão é parceiro de trabalho. Toma-se no campo, no lombo do cavalo ou à sombra do galpão. A roda é silenciosa — cada um sabe a hora de passar a cuia, sem pressa, sem conversa desnecessária. É o mate contemplativo, companheiro do homem que trabalha sozinho com o pensamento.
O sabor: A influência uruguaia aparece aqui: erva mais grossa, menos pó, água um pouco menos quente que no restante do estado. O sabor é mais suave, levemente adocicado pelo tipo de processamento da erva da fronteira.
Missões — o mate da herança guarani
Erva preferida: Erva nativa, às vezes misturada com ervas da mata
Cuia: Cuia de porongo pequena, ou cuia de madeira
O ritual: No noroeste do estado, onde as ruínas jesuítico-guaranis marcam a paisagem, o chimarrão carrega a memória de um povo. Os guaranis já consumiam a erva-mate antes dos europeus chegarem — e essa história viva se sente em cada roda de mate nas Missões. Toma-se devagar, com respeito ao silêncio e à história.
O sabor: A erva da região de Santo Ângelo, Ijuí e arredores tende a ser mais verde e fresca, com notas herbáceas pronunciadas. O sabor é mais intenso, com um amargor limpo que os mateiros do noroeste apreciam sem adições.
Serra Gaúcha — o mate do frio
Erva preferida: Erva com bastante pó, bem moída
Cuia: Cuia menor, de porongo ou sintética, muito bem vedada
O ritual: Na Serra, onde o inverno morde de verdade e a neblina cobre as vinhas de manhã cedo, o chimarrão é quase medicinal — é o que aquece o corpo antes do trabalho na lavoura. A influência italiana e alemã criou um jeito mais prático de tomar mate: sem muita cerimônia, mas sem abrir mão da qualidade.
O sabor: Água bem quente — mas nunca fervendo — e erva bem moída, com bastante pó. O resultado é um mate mais encorpado, espesso, de sabor pronunciado e cor bem verde. É o chimarrão que sustenta até o almoço.
Litoral — o mate da praia
Erva preferida: Erva mais leve, às vezes com ervas aromáticas
Cuia: Cuia de porongo, garrafa térmica sempre do lado
O ritual: Quem nunca viu alguém tomando chimarrão na beira da praia das Dunas, do Cassino ou da Praia do Rosa nunca entendeu a extensão do hábito gaúcho. No litoral, o mate vai junto para tudo — para a pescaria de madrugada, para a caminhada na areia, para a tarde de sol. A garrafa térmica é companheira inseparável.
O sabor: A erva do litoral tende a ser mais suave, às vezes com misturas de hortelã ou erva-cidreira — uma influência da proximidade com Santa Catarina e do jeito mais despretensioso de consumir. O mate é bebido sem cerimônia, mas com muito afeto.
Planalto e Alto Uruguai — o mate da colônia
Erva preferida: Erva média, com equilíbrio de pó e folha
Cuia: Cuia de porongo média, bem curada com banha ou óleo
O ritual: Na região de Passo Fundo, Erechim e ao longo do Alto Uruguai — terra de colonização italiana, alemã e cabocla —, o mate é o centro da vida social. É na roda de chimarrão que se fecha negócio, que se resolve questão de família, que se conta a novidade da vizinhança. A cuia não para de circular.
O sabor: O planalto gaúcho tem uma das maiores concentrações de produtores de erva-mate do estado, e isso aparece no copo: a erva é fresca, bem processada, com um equilíbrio entre amargor e dulçor que agrada desde o mateiro de primeira viagem até o mais exigente.
A temperatura da água — o segredo que pouca
gente fala
Muito se fala da erva, da cuia
e da bomba. Mas o grande segredo de um bom chimarrão está na água — e a
temperatura ideal varia não só por gosto pessoal, mas pela região e pelo tipo
de erva.
Muito quente: Acima de 85°C - Queima a erva, amarga demais, perde aromas finos — o chamado chimarrão "lavado"
Ideal — clássico: 70°C a 80°C - Extrai os melhores compostos da erva, sabor equilibrado, boa durabilidade da cuia
Morno: 55°C a 70°C - Sabor mais suave, menos amargo — preferido por quem está começando ou tem o estômago sensível
Tererê (frio): Temperatura ambiente - Mate frio com água ou suco — tradição no Mato Grosso do Sul, mas ganhando espaço no RS no verão
A cuia — mais do que um recipiente, um
objeto de cultura
A cuia de porongo é um
patrimônio em si. Feita do fruto da cuieira (Lagenaria siceraria), ela precisa ser curada antes de usar — um ritual que os mais velhos levam muito a
sério e que os jovens estão redescobrindo.
Como curar uma cuia nova:
•
Enche a cuia com erva-mate usada e úmida até a borda
•
Deixa descansar por 24 horas
•
Esvazia, raspa levemente o interior com a bomba e
repete o processo por mais 2 a 3 dias
•
Só então a cuia está pronta — impermeabilizada pela
própria erva e com o sabor equilibrado
Hoje existem cuias de silicone,
de vidro, de inox, de bambu e de madeira — cada uma com seus defensores. Mas
para o mateiro de raiz, nada substitui o porongo bem curado, aquecido pelas
mãos e pelo tempo.
A erva — o coração do mate e as diferenças
entre marcas
O Rio Grande do Sul tem uma
relação apaixonada com a erva-mate. O estado é o segundo maior produtor
brasileiro, com destaque para as regiões do Alto Uruguai e do Planalto. Mas a
erva que vai na cuia gaúcha vem de vários lugares — e as diferenças são reais.
Erva jovem vs. erva
envelhecida:
•
Erva jovem: mais verde, mais amarga, com sabor
pronunciado e bastante espuma. Preferida pelos que gostam de mate forte.
•
Erva envelhecida (em balaio por 12 a 24 meses): mais
suave, com sabor mais amadeirado e menos amargor. Preferida por quem toma mate
durante o dia todo.
Um detalhe que poucos sabem: a
erva-mate é parente próxima do azevinho europeu, e a espécie Ilex
paraguariensis só cresce naturalmente na Bacia do Prata — o que faz do
chimarrão gaúcho um produto genuinamente regional, impossível de ser replicado
com a mesma identidade em outro lugar do mundo.
A erva-mate é a única planta com cafeína nativa do continente americano — um presente dos guaranis para o mundo.
O que a ciência diz sobre o chimarrão
Nos últimos anos, pesquisas
sobre a erva-mate se multiplicaram e os resultados animam os mateiros. Entre os
benefícios estudados e já bem documentados:
•
Ação antioxidante: a erva-mate tem concentração de
polifenóis comparável ao chá verde
•
Estímulo suave: a combinação de cafeína e teobromina da
erva dá energia sem o pico e a queda do café
•
Efeito termogênico: auxilia no metabolismo — estudado
para uso em suplementos esportivos
•
Saúde cardiovascular: estudos indicam redução do
colesterol LDL com consumo regular moderado
•
Atenção: o consumo em temperatura muito alta (acima de
65°C de forma contínua) é associado a risco aumentado de câncer de esôfago —
deixa a água esfriar um pouco antes de tomar
Qual é o teu mate?
De
que região és? Como é o teu chimarrão — erva grossa ou fina, cuia grande ou
pequena, água bem quente ou morna? Conta nos comentários. Porque o chimarrão
não é uma bebida — é uma conversa que nunca termina.
E
se quiseres saber mais sobre a história completa do chimarrão — origem guarani,
os jesuítas, os 10 mandamentos do mate e a legislação — lê o nosso post Chimarrão:
Tradição, História e Cultura Gaúcha, publicado em abril de 2025 aqui no
Entrevero Xucro.
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