Mostrando postagens com marcador cultura do Rio Grande do Sul. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cultura do Rio Grande do Sul. Mostrar todas as postagens

sábado, 23 de maio de 2026

55ª Ciranda Cultural de Prendas - Uma tradição acesa em Erechim: o que é e o que acontece

O Rio Grande volta os olhos neste fim de semana para a capital da amizade. A querida cidade de Erechim recebe, entre os dias 21 e 23 de maio, a 55ª edição da Ciranda Cultural de Prendas, um dos eventos mais importantes do calendário do tradicionalismo gaúcho. Mais do que um concurso, a Ciranda é um encontro de cultura, conhecimento, arte, emoção e identidade do nosso povo campeiro.

Pra quem é de fora do meio tradicionalista, talvez fique a dúvida: afinal, o que é a Ciranda Cultural de Prendas?

A Ciranda é o evento promovido pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho que escolhe as prendas estaduais do Rio Grande do Sul. Participam representantes das 30 Regiões Tradicionalistas do Estado, divididas em categorias mirim, juvenil e adulta. Durante dias intensos, essas gurias passam por provas culturais, artísticas e tradicionalistas que avaliam muito mais do que beleza ou postura. O que está em jogo é o conhecimento da história gaúcha, da cultura regional, da arte, do folclore, da oralidade, da dança, da música, da indumentária e do sentimento de pertencimento ao Rio Grande.

É uma verdadeira celebração da identidade gaúcha.

Muito além da faixa e da flor no cabelo

Quem vê uma prenda pilchada muitas vezes não imagina a caminhada que existe por trás daquela faixa. Cada concorrente chega à etapa estadual depois de vencer concursos internos em entidades e regiões tradicionalistas. É uma preparação de meses — às vezes anos — estudando cultura gaúcha, história do Estado, folclore, MTG, costumes do campo, culinária, música e literatura regional.

Na Ciranda, acontecem: provas escritas, apresentações artísticas, declamação, interpretação de temas culturais, avaliações de comunicação, integração entre regiões, atividades culturais e protocolares e momentos de confraternização tradicionalista.

E tudo isso mantendo viva a essência do tradicionalismo: transmitir cultura de geração em geração.

Erechim vivendo a “Ciranda dos Sonhos”

A edição deste ano vem sendo chamada de “Ciranda dos Sonhos 2026”. A cidade de Erechim se preparou durante meses para receber milhares de tradicionalistas vindos de todas as querências do Estado. A expectativa é de mais de 2 mil pessoas circulando pelo município durante os três dias de programação.

A realização envolve o Movimento Tradicionalista Gaúcho, a Fundação Cultural Gaúcha, a 19ª Região Tradicionalista e o CTG Sentinela da Querência, além do apoio da Prefeitura Municipal de Erechim e da Secretaria Estadual da Cultura.

Um dos grandes símbolos desta edição é a atual 1ª Prenda do Rio Grande do Sul, Laura Laís Durli, justamente ligada à 19ª Região Tradicionalista, anfitriã do evento.

O coração cultural do tradicionalismo

Enquanto muita gente conhece o tradicionalismo pelos rodeios, gineteadas e fandangos, a Ciranda representa outro lado igualmente importante da cultura gaúcha: o lado intelectual e artístico do movimento.

É ali que se preservam: a pesquisa histórica, a valorização do linguajar gaúcho, o incentivo à leitura e à declamação, o ensino das tradições às novas gerações e o fortalecimento do papel da mulher dentro do tradicionalismo.

A Ciranda mostra que ser prenda vai muito além da pilcha bonita. É carregar conhecimento, postura, responsabilidade cultural e amor pelo Rio Grande.

Um evento que emociona quem vive a tradição

Quem já participou sabe: a Ciranda mistura nervosismo, amizade, orgulho e emoção. Tem abraço de família, lágrima escondida no lenço, nervosismo antes das provas e aplauso sincero entre concorrentes. Porque acima da disputa existe algo maior: a preservação da cultura gaúcha.

Cada prenda que sobe ao palco leva junto sua entidade, sua região e sua história.

E quando a chama crioula da cultura passa de uma geração pra outra, o Rio Grande segue vivo.

O Rio Grande se encontra em Erechim

Neste fim de semana, Erechim não recebe apenas um evento. Recebe o encontro de sotaques, costumes e querências de todo o Estado. Da campanha à serra, das missões ao litoral, o Rio Grande se reúne em torno daquilo que tem de mais valioso: sua identidade cultural.

A 55ª Ciranda Cultural de Prendas reafirma que tradição não é viver no passado. É manter viva a memória do povo enquanto se prepara o futuro.

E enquanto houver uma prenda estudando nossas raízes, declamando nossa poesia e defendendo a cultura do pago, o Rio Grande seguirá firme — de pé, de bota e de alma crioula.

Fonte: MTG e Prefeitura de Erechim 

terça-feira, 24 de março de 2026

O Chimarrão de Cada Região do RS Não existe um único jeito de tomar mate

Aqui no Entrevero Xucro já falamos sobre a história e a tradição do chimarrão — a origem guarani, os jesuítas, os 10 mandamentos do mate e a legislação que reconhece sua importância cultural (se não leu, confere o post Chimarrão: Tradição,História e Cultura Gaúcha). Mas tem um detalhe que pouca gente para pra pensar: o chimarrão não é igual em todo o Rio Grande do Sul.

A erva muda. A cuia muda. A temperatura muda. O ritual muda. E é exatamente essa diversidade — esse entrevero de jeitos de tomar mate — que faz do chimarrão um espelho perfeito da identidade gaúcha: uma só tradição, mil formas de vivê-la.

"Ofertar o mate é abrir a porta de casa sem precisar abri-la."

Por que o chimarrão varia tanto pelo estado?

O Rio Grande do Sul é um estado de contrastes imensos. A fronteira com o Uruguai e a Argentina ao sul e ao oeste trouxe influências platinas. A colonização alemã e italiana ao norte e na serra criou outros hábitos. As Missões, com a herança guarani, têm sua própria relação com a erva-mate. E o litoral, com o chimarrão tomado de frente para o mar, tem um jeito todo seu de encarar a cuia.

Além da cultura, influenciam também: o clima (no frio serrano a água vai mais quente), o acesso a determinadas marcas e tipos de erva, e as tradições familiares passadas de geração em geração. Nenhum jeito é mais certo que o outro — cada um é legítimo dentro da sua cultura.

O mate de cada rincão do RS

Campanha — o mate da fronteira

Erva preferida: Erva grossa, peneirada, com pouco pó

 Cuia: Cuia grande, de porongo, bem curada

O ritual: Na Campanha, terra de estância e horizonte largo, o chimarrão é parceiro de trabalho. Toma-se no campo, no lombo do cavalo ou à sombra do galpão. A roda é silenciosa — cada um sabe a hora de passar a cuia, sem pressa, sem conversa desnecessária. É o mate contemplativo, companheiro do homem que trabalha sozinho com o pensamento.

 
O sabor: A influência uruguaia aparece aqui: erva mais grossa, menos pó, água um pouco menos quente que no restante do estado. O sabor é mais suave, levemente adocicado pelo tipo de processamento da erva da fronteira.

Missões — o mate da herança guarani

Erva preferida: Erva nativa, às vezes misturada com ervas da mata

 Cuia: Cuia de porongo pequena, ou cuia de madeira

O ritual: No noroeste do estado, onde as ruínas jesuítico-guaranis marcam a paisagem, o chimarrão carrega a memória de um povo. Os guaranis já consumiam a erva-mate antes dos europeus chegarem — e essa história viva se sente em cada roda de mate nas Missões. Toma-se devagar, com respeito ao silêncio e à história.

 O sabor: A erva da região de Santo Ângelo, Ijuí e arredores tende a ser mais verde e fresca, com notas herbáceas pronunciadas. O sabor é mais intenso, com um amargor limpo que os mateiros do noroeste apreciam sem adições.

Serra Gaúcha — o mate do frio

Erva preferida: Erva com bastante pó, bem moída

Cuia: Cuia menor, de porongo ou sintética, muito bem vedada

O ritual: Na Serra, onde o inverno morde de verdade e a neblina cobre as vinhas de manhã cedo, o chimarrão é quase medicinal — é o que aquece o corpo antes do trabalho na lavoura. A influência italiana e alemã criou um jeito mais prático de tomar mate: sem muita cerimônia, mas sem abrir mão da qualidade.

 O sabor: Água bem quente — mas nunca fervendo — e erva bem moída, com bastante pó. O resultado é um mate mais encorpado, espesso, de sabor pronunciado e cor bem verde. É o chimarrão que sustenta até o almoço.

 Litoral — o mate da praia

Erva preferida: Erva mais leve, às vezes com ervas aromáticas

 Cuia: Cuia de porongo, garrafa térmica sempre do lado

O ritual: Quem nunca viu alguém tomando chimarrão na beira da praia das Dunas, do Cassino ou da Praia do Rosa nunca entendeu a extensão do hábito gaúcho. No litoral, o mate vai junto para tudo — para a pescaria de madrugada, para a caminhada na areia, para a tarde de sol. A garrafa térmica é companheira inseparável.

 O sabor: A erva do litoral tende a ser mais suave, às vezes com misturas de hortelã ou erva-cidreira — uma influência da proximidade com Santa Catarina e do jeito mais despretensioso de consumir. O mate é bebido sem cerimônia, mas com muito afeto.

Planalto e Alto Uruguai — o mate da colônia

Erva preferida: Erva média, com equilíbrio de pó e folha

 Cuia: Cuia de porongo média, bem curada com banha ou óleo

O ritual: Na região de Passo Fundo, Erechim e ao longo do Alto Uruguai — terra de colonização italiana, alemã e cabocla —, o mate é o centro da vida social. É na roda de chimarrão que se fecha negócio, que se resolve questão de família, que se conta a novidade da vizinhança. A cuia não para de circular.

 O sabor: O planalto gaúcho tem uma das maiores concentrações de produtores de erva-mate do estado, e isso aparece no copo: a erva é fresca, bem processada, com um equilíbrio entre amargor e dulçor que agrada desde o mateiro de primeira viagem até o mais exigente.

A temperatura da água — o segredo que pouca gente fala

Muito se fala da erva, da cuia e da bomba. Mas o grande segredo de um bom chimarrão está na água — e a temperatura ideal varia não só por gosto pessoal, mas pela região e pelo tipo de erva.

Muito quente: Acima de 85°C - Queima a erva, amarga demais, perde aromas finos — o chamado chimarrão "lavado"

Ideal — clássico: 70°C a 80°C - Extrai os melhores compostos da erva, sabor equilibrado, boa durabilidade da cuia

Morno: 55°C a 70°C - Sabor mais suave, menos amargo — preferido por quem está começando ou tem o estômago sensível

Tererê (frio): Temperatura ambiente - Mate frio com água ou suco — tradição no Mato Grosso do Sul, mas ganhando espaço no RS no verão

A cuia — mais do que um recipiente, um objeto de cultura

A cuia de porongo é um patrimônio em si. Feita do fruto da cuieira (Lagenaria siceraria), ela precisa ser curada antes de usar — um ritual que os mais velhos levam muito a sério e que os jovens estão redescobrindo.

Como curar uma cuia nova:

         Enche a cuia com erva-mate usada e úmida até a borda

         Deixa descansar por 24 horas

         Esvazia, raspa levemente o interior com a bomba e repete o processo por mais 2 a 3 dias

         Só então a cuia está pronta — impermeabilizada pela própria erva e com o sabor equilibrado

Hoje existem cuias de silicone, de vidro, de inox, de bambu e de madeira — cada uma com seus defensores. Mas para o mateiro de raiz, nada substitui o porongo bem curado, aquecido pelas mãos e pelo tempo.

A erva — o coração do mate e as diferenças entre marcas

O Rio Grande do Sul tem uma relação apaixonada com a erva-mate. O estado é o segundo maior produtor brasileiro, com destaque para as regiões do Alto Uruguai e do Planalto. Mas a erva que vai na cuia gaúcha vem de vários lugares — e as diferenças são reais.

Erva jovem vs. erva envelhecida:

         Erva jovem: mais verde, mais amarga, com sabor pronunciado e bastante espuma. Preferida pelos que gostam de mate forte.

         Erva envelhecida (em balaio por 12 a 24 meses): mais suave, com sabor mais amadeirado e menos amargor. Preferida por quem toma mate durante o dia todo.

Um detalhe que poucos sabem: a erva-mate é parente próxima do azevinho europeu, e a espécie Ilex paraguariensis só cresce naturalmente na Bacia do Prata — o que faz do chimarrão gaúcho um produto genuinamente regional, impossível de ser replicado com a mesma identidade em outro lugar do mundo.

A erva-mate é a única planta com cafeína nativa do continente americano — um presente dos guaranis para o mundo.

O que a ciência diz sobre o chimarrão

Nos últimos anos, pesquisas sobre a erva-mate se multiplicaram e os resultados animam os mateiros. Entre os benefícios estudados e já bem documentados:

         Ação antioxidante: a erva-mate tem concentração de polifenóis comparável ao chá verde

         Estímulo suave: a combinação de cafeína e teobromina da erva dá energia sem o pico e a queda do café

         Efeito termogênico: auxilia no metabolismo — estudado para uso em suplementos esportivos

         Saúde cardiovascular: estudos indicam redução do colesterol LDL com consumo regular moderado

         Atenção: o consumo em temperatura muito alta (acima de 65°C de forma contínua) é associado a risco aumentado de câncer de esôfago — deixa a água esfriar um pouco antes de tomar

Qual é o teu mate?

De que região és? Como é o teu chimarrão — erva grossa ou fina, cuia grande ou pequena, água bem quente ou morna? Conta nos comentários. Porque o chimarrão não é uma bebida — é uma conversa que nunca termina.

E se quiseres saber mais sobre a história completa do chimarrão — origem guarani, os jesuítas, os 10 mandamentos do mate e a legislação — lê o nosso post Chimarrão: Tradição, História e Cultura Gaúcha, publicado em abril de 2025 aqui no Entrevero Xucro.

Abaixo, temos uma variedade de sugestões de artigos gaúchos para o mate na Amazon, confira algumas, inclusive as contestadas cuias stanley, o que tu acha disso? só clicar no produto que tu és direcionado para a Amazon.


Kit mate

A tal cuia stanley

                    


Uruguaia